Luciana Hidalgo

Tenho acompanhado com entusiasmo a multiplicidade de clubes de leitura no Brasil. É uma eficaz forma de tirar o leitor da sua solidão e levá-lo a ampliar a íntima experiência da leitura, ao compartilhar a sua percepção pessoal de um livro com percepções alheias. Meu romance “O passeador” foi o livro desse mês do Clube de Leitura da Casa Amarela, e essa imagem dos leitores em pleno debate sobre as andanças de Afonso (o jovem Lima Barreto) pelo Rio de Janeiro da Belle Époque é para mim preciosa. Quem coordena o Clube é ninguém menos que Roseana Murray, poeta e autora de mais de cem livros, que ainda escreveu esse belo, emocionante texto sobre “O passeador”. Fico comovida com esse interesse cada vez maior pela leitura no Brasil; esse sim o país do futuro. Luciana Hidalgo

Maria Suely Moreira

Prezada Roseana, Que privilégio ter acesso à sua obra URDIDURAS. Sou-lhe muito grata por esse desprendimento. Você disse algo como ter sido uma ousadia se parear com Guimarães Rosa. E foi mesmo. Sou absolutamente fascinada com ele e confesso que a princípio estava duvidando do seu trabalho. Qual não foi a surpresa quando tive a grata oportunidade de apreciar o seu livro. Ainda bem que você teve essa ousadia. Deu muito certo. Fiquei simplesmente encantada, embasbacada com tamanha sensibilidade artística, inclusive em relação ao trabalho de sua irmã. Parabéns a vocês duas e a todos que participaram dessa obra prima. Por favor, me avise se houver alguma chance de obter o livro físico. Seria uma preciosidade para mim. Obrigada mil vezes e parabéns pela façanha bem sucedida. Maria Suely Moreira Belo Horizonte

Encantamentos

Rose, Cris e Evelyn, Só agora pude me debruçar sobre esses encantamentos produzidos por vocês. Eu queria estar inteira e sem distrações para mergulhar na leitura. Este ebook é como um rio com toda a potência das águas; é como uma floresta inteira plena de pássaros e raízes; é como uma montanha majestosa diante da qual nos calamos em reverência; é fogo ancestral que alumeia e aquece. É céu e chão, profundeza e leveza. Beleza em prosa e poesia em estado puro como o barro cru. O entrelaçamento da arte de vocês três não poderia ter outro nome: Encantamentos. Merece ser impresso em papel, um livro de arte para inundar os leitores de delicadeza. Um livro para ficar na cabeceira, ao alcance da mão e do coração. Só posso agradecer por tanto. E dizer, com orgulho, que são meus amigos que produzem tamanha preciosidade. Edith Lacerda

Bruna Camargo

Oi, Roseana, tudo bem? Quero deixar aqui um depoimento para você. Tive contato com seus poemas no início da minha adolescência (hoje tenho 29 anos!). Se eu não estou enganada, foi por meio de uns livrinhos que o governo do estado de São Paulo distribuiu para as escolas públicas. Comecei a frequentar bibliotecas com uns 6 anos, mas foi ali, com 11/12 anos que me apaixonei por suas palavras e aprendi a amar poesia. Eu lia e relia seus poemas, sabia vários de cor hahah Foram eles que me inspiraram a escrever, inclusive eu dava aquela imitadinha básica no seu estilo, né! Cheguei a ganhar um concurso com 15 anos, com um poema original, e quando leio hoje não consigo não ver uma pitada de inspiração na Roseana. Escrever poesia foi uma forma de desabafar e refletir sobre mim mesma nessa fase de adolescência que é meio conturbada. Até hoje mantenho o hábito de escrita e guardo com carinho no meu coração seus poemas tão singelos. Fiquei muito feliz de ter encontrado você por aqui e ter a oportunidade de dizer: obrigada! Seu trabalho é lindo e foi a semente que gerou muitas coisas boas em mim em relação ao universo literário. Espero que minha história tenha aquecido um pouquinho seu coração hoje. Abraços!

Roseléa Olimpo

Bom dia, amada! Acabei de receber pelo correio uma lindeza de livro: “COM A LUA NOS OLHOS”. Estou apaixonada! O livro começa a nos encantar pela capa, numa textura diferente nos faz senti-la a partir daí. Fiquei acarinhando o livro como se estivesse deitada sobre a areia sentindo com as mãos os seus grãos e admirando a lua. O título é outra lindeza, os diferentes tons de azul parecem piscar como se ela piscasse pra mim ( talvez pisque pra outros leitores também) dizendo : “viaje em mim”! Ao abrir o livro, os comentários (vou chamar assim) de Penélope Martins dizem maravilhas e encantos sobre essa obra de Arte. Tudo verdade e quem te conhece amada (ao vivo e aos abraços, ou através de suas mais de cem obras) sabe que Penélope foi perfeita! Em cada página um suspiro de surpresa, de encantamento , de beleza. As ilustrações de Regina Rennó são “maravilindas”. Duas obras de ARTE perfeitamente fundidas num só olhar de leitora, assim eu as vejo e nelas quero entrar, viajar, contemplar. Obrigadíssima por essa LINDEZA de POESIA! Sei que foi escrita pra todos, mas quando leio e releio sua dedicatória aos netos queridos, leio também: e a Roseléa que ama a poesia, em especial, a minha. ( Quem for seu leitor e quiser, pode ler em seu livro desse jeito também.) Roseléa Olimpo

Prof. Dr. Rafael Santana

Habitar os olhos de um gato Rafael Santana – UFRJ […] Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux; Retiens le griffe de ta patte, Et laisse-moi plonger dan tes beaux yeux, Mêlés de métal et d’agate. […] (Charles Baudelaire) Gato que brincas na rua Como se fosse na cama […] És feliz porque és assim, Todo nada que és é teu. Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu. (Fernando Pessoa) Habitar os olhos de um gato não é, nunca foi, e jamais será uma experiência da ordem do simplório. Porque para que um ser humano logre viver nos globos oculares de um felino faz-se inicialmente necessário que ele, enquanto sujeito, anele tornar-se agente de perscrutação da sua própria sombra, no intento de vislumbrar, quiçá, a sua claridade interior. Gatos são animais independentes, misteriosos, místicos: luz e trevas que emanam de corpos que se movimentam em ziguezague, lascivos e inebriantes, em estésicas dobras de linguagem. Não é por acaso que eles tanto fascinaram – e não cessam de fascinar – os poetas! Enfrentar os nossos gatos internos é, com efeito, uma tentativa de autoconhecimento que o poema de Fernando Pessoa, inscrito na epígrafe, bem sinaliza. Ou, nas palavras mais contemporâneas de Nise da Silveira, “O gato é um ser essencialmente livre e essa liberdade desafia o homem”. Eis a reflexão de abertura do livro Gatos, publicado a quatro mãos por Roseana Murray e William Amorim pela Editora Viegas, de São Luís do Maranhão, em 2019. Anunciado, pois, o desafio de liberdade expresso na epígrafe de Nise da Silveira, os poemas de Gatos são precedidos ainda de uma belíssima apresentação de Arlete Nogueira da Cruz, que nos dá a ler um texto enxuto e de preciosa seleção vocabular. Dessa apresentação, recorto estrategicamente um sintagma bastante interessante, que a autora utiliza para se referir ao assomo dos felinos aquando do seu desejo de aconchego junto aos homens: aproximação orbital. Elásticos, os gatos achegam-se devagarinho, enroscam-se por entre as nossas pernas, deixam pouco a pouco que toquemos os seus corpos mornos e macios. Magnéticos, os seus olhos de metal e ágata se cruzam com os nossos e nos impõem o desafio: decifra-me / decifra-te. Gatos é precedido ainda de mais dois paratextos: o primeiro, de Roseana Murray; o segundo, de William Amorim. Roseana Murray alude à metáfora do jogo para elucidar o processo de construção dos poemas: fios, tecidos, sedas, tafetás ora lançados por ela, ora por William Amorim, cada um com a sua linha na agulha, prontos a contar, a recontar e a acrescentar um novo ponto. No fundo a pergunta e o repto lançados por Roseana Murray ao final do seu pequeno paratexto – “Os gatos são decifráveis? Leia o livro para saber!” – já abrem o filão de pensamento de William Amorim que, como psicanalista, incita-nos à surpresa da descoberta de um pouco mais de nós mesmos no enfrentamento dos nossos gatos de linguagem. Por outros termos, é como se o corpo do gato ativasse um fio capaz de alinhavar o texto em palavras: o gato é um devir; é uma linguagem desejante da sua escrita; linguagem obscura que, quando executada, se torna solar não porque decifrada, mas porque transformada em poesia, ou melhor, naquilo que se desvela para tornar a velar… Sobre esse tema específico, considero paradigmáticos estes dois poemas: De madrugada, quando os gatos que te habitam podem sair do seu coração e andar pela casa sem medo, dormes o sono dos justos como se tua última noite. Mas quando os gatos que te habitam retornam cansados ao teu coração de sal e sol, andas pelas ruas insone. (AMORIM, 2019, p.29) E William Amorim prossegue: Mais silencioso que espelho, Mais aventureiro que o tempo, Mais indecifrável que esfinge. Gato, dorso de solidão e carícia, A liberdade é teu segredo. (AMORIM, 2019, p.62) Na página 56, a pergunta inicial de Roseana Murray é reiterada em poema: “Será que dá para decifrar / um gato / […] em língua humana?”. Ora, um gato não pode ser decifrado em língua humana e ambos os autores acabam por responder essa questão. A linguagem não dá conta do real; é dele apenas uma ínfima versão… Todavia, o sujeito-gato que se dramatiza, isto é, que no solilóquio de um discurso amoroso (e não nos esqueçamos de que a experiência do amor requer sempre a luz e a sombra) o sujeito-gato, repito, absorto nas dores e nas delícias de falar de si mesmo ou, se quisermos, de amar a si mesmo, de converter-se ele próprio em ser de linguagem, vê-se de repente assaltado por múltiplas lufadas de pensamento capazes de desviar o seu olhar, mudando, dessa feita, a sua relação com o mundo; alterando, enfim, a sua percepção das ocorrências. O ser e a linguagem não são decifráveis e é por isso que existe uma história da literatura, da arte, da filosofia, da psicologia. Significativamente, deixar que os nossos gatos interiores saiam da sombra e venham à luz é, reitero, uma busca de autoconhecimento. De fato, ao longo daquilo que se conhece por História da Humanidade, nunca deixamos de repetir a todo momento o eco da inscrição à porta do templo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. E assim como as explicações do oráculo eram, no fundo, a devolução de um outro enigma, ao tocar o limite da linguagem o homem que se autoanalisa é também ele aquele que desvela para tornar a velar. Na repetição desse processo, joga-se infinitamente o jogo da Esfinge: “Decifra-me ou te devoro”! O complexo de Édipo, motor da psicanálise nascente nos finais do século XIX, aduz, de forma muitíssimo interessante, o que é esse movimento de desvelar para velar outra vez, lusco-fusco, contraste entre claridade e escuridão. Afinal, Freud não explica!!! Ao contrário, Freud e Lacan permitem ao sujeito cognoscente a experiência a um só tempo gozosa e dolorosa do discurso, palavra advinda do termo latino dis-cursus, que é etimologicamente a ação de percorrer diversos lados, de transitar por distintos caminhos. E para tanto

Texto da Feira Literária de Trajano

Para Roseana Murray Você escreveu, Roseana! Avesso Quem sou eu em meu avesso? Que urdiduras na sombra Que tramas secretas Num quarto escuro de mim? Quem sou eu Quando durmo Ou quando, de olhos abertos, Me remeço para o futuro, Saltando ilhas e desertos? Quem sou eu Quando me confundo e tropeço Alço voo e mergulho? (Roseana Murray) Poema com um eu lírico, você própria, Roseana?! Ou um eu lírico nós todos?! Importa, não! A gente vai brincar de tentar responder, Com carinho e respeito, para você, O que esse eu lírico quer saber A gente acha que sabe. Quem é você? Quem é esta mulher Que, ao futuro marido Disse ser “despencada”? Ah, destino querido! Roseana despencada?! Ah, que seja uma penca Dessas! Que é esta mulher? Esta que, em cada orelha, Usava um brinco diferente? Estranhamente! Ah, era o que dava na telha! E ela, por coincidência ou não, Escreveu , lindamente, “Quem vê cara não vê coração?” Que lição! Não é boba, não! Ah, não! Quem é esta mulher singular, Se, de todas, a mais plural, Até no nome? Roseana: Rosa e Ana! Ah, destino apraz! Há anos, ela lavra Palavra por palavra E é capaz De nomear, ciente, Docemente O que a gente sente. E no seu poema, o eu lírico questiona, Roseana: “Quem sou em meu avesso?” A gente reflete e responde: Um avesso? Que nada! De Roseana? Como assim?! Ela nada em águas Mais profundas! Nada, nada, nada E o nada vira tudo. Ela É ser inquieto. E, dessa inquietude, Busca atitude. É dela! E cria e recria, Enfeita a vida! Mas não em linha reta Vida não é assim. Ela é feita de “Tantos medos E outras coragens”. Nela e por ela é preciso Ousadia, guerrear, Abrir o coração E seguir a direção, A que está lá em “Receitas de olhar” E pra bem enxergar! Tá bem? “Quem sou em meu avesso?” Nenhum avesso! Para Roseana A vida desenhou Os caminhos! E deles, cuidou , velou, E com que amor! “Fardos de carinho”! Ah, o destino! Sempre à espreita! Para Roseana, Soube traçar empreitada: Se ela, com sua casa Não casava, Por que não morar Onde o avesso e o direito Podem se encontrar? Em outras “Casas”, em “Tribos”. Lá onde moram bichos, Pessoas, flores, frutos… Sentimentos todos! Uma “Fábrica de poesias”?! Produzindo e espalhando Vida: matéria-prima do poeta? Roseana mora lá Onde o teto Por um “Abecedário Poético” Completo, é recortado, É costurado, É construído: Na tessitura do afeto! É lá que Roseana mora Nos livros. No agora. E essa casa Por “Classificados Poéticos” Pode ser dela, Minha e sua. É “Fruta no Ponto”. Amor de ponto em ponto, Mas não o final. Afinal, Roseana é imortal! E o eu lírico, ainda quer saber: “Quem sou eu Quando durmo Ou quando, de olhos abertos, Me remeço para o futuro, Saltando ilhas e desertos?” A gente quer responder: Ah, quem é você, Roseana, nessas horas? Acordada ou não, Com os pés no presente E olhos no futuro… Quem é você, nessas horas? A Roseana dos temas. Escolhe um e faz festa! Com ele, entoa versos e infesta Nossa vida de cenas e lemas! E, para você, Roseana, há tema? Hum! A gente acha que há trama Do destino Que tramou seu encontro Com o “Ou isto ou aquilo?” De Cecília Meireles! Licença poética Que Cecilia Sabia a quem dava: A alguém que não acreditava Poder unir e se regalar Com a alquimia que é Escrever e cozinhar. Roseana, perdão, E dispensa, ops! Quase a da cozinha, viu? Mas não, é a poética! O que a gente acha ( só acha) Que tudo com você, Assim, se dava Assim, de forma ética: “Ou amasso o pão Ou escrevo no chão. Ou escolho o pote de mel Ou prefiro escrever “Poemas no céu”!” Escrevia, cozinhava… E a magia acontecia: Não só em forma de receita Veio por um bilhete Mensagem perfeita de uma sábia professora: – “ Seus poemas são maravilhosos! Publica!” E , com eles, passou a encantar Nossos olhos de leitores curiosos! Sonho! Ele existe! Acredite! Você acreditou. Você acredita! E faz a gente acreditar!´ E sonha com a gente, lá, de lá À beira-mar, na Casa Amarela. Distribui “Rios de alegria”, nela E tenham certeza, toda gente! Mesmo que lá aja “A Bruxa da Casa Amarela”, Café, Pão e Texto é o que se acha. Alimento para o corpo e para a alma. Tudo tão direito! Tão perfeito Que extasia Por tanta fantasia Por tanta melodia! Oh! Dá vontade de soltar Suspiros de luz Só de pensar! “Quem sou eu Quando me confundo e tropeço Alço voo e mergulho?” – Questiona o poema, ciente: Desta casa amarela, Recheada de Corpo e amor Roseana, você, é a que Lança semente, E docemente, Alegremente, Magicamente, Espalha amor! E, como se isso não bastasse, Ainda nos oferece E nos aquece com … “Desejo de abraço Nunca passa. Abraço é o nó Mais delicado que há. Um braço aqui Outro lá E o coração se derrete O corpo afunda Na mais gigantesca felicidade.” A gente, Roseana, deseja te abraçar hoje. E hoje, amanhã com um braço aqui e outro lá, estamos perto! Mas depois, para sempre, seus textos serão esses braços, através dos quais nosso coração se afundará na mais gigantesca felicidade! Para você, todo nosso afeto e gratidão!

Luiz Antonio Aguiar

SUSPIROS DE LUZ De Roseana Murray, Ilustrações Walter Lara. Categoria: Juvenil A ancestral arte da poesia em haicais ganha em Suspiros de Luz, de Roseana Murray, a delicadeza dos momentos mínimos, que é toda a sua essência, mas eternizados em poderosas imagens poéticas. E que extraem desses momentos  relances diversos, por vezes inusitados, da luz, e de reflexos que somente a sensibilidade poderia enxergar como poesia. São poemas impressionistas, nesse sentido, captando instantes e fixando-os sob a forma do haicai, que tem toda a sua magia na síntese – de fato, suspiros de luz. As ilustrações de Walter Lara ajudam a que esses momentos sejam fixados, sem perder nem força, nem delicadeza, seja no salto de uma baleia, projetando-se das profundezas. Seja no bater praticamente imperceptível das asas de uma borboleta – ou meramente em reflexos. A magia não se perde, nem nas ilustrações, nem na constatação de que as fadas correm o mundo sem deixar pegadas. Dia ou noite, na mata ou sob a a água, neste livro, a percepção da luz, seja num momento tênue ou ofuscante, gera poesia. Luiz Antonio Aguiar

Blog da Brinque

Suspiros de luz: haicais revelam a delicadeza e a poesia do essencial e do cotidiano “IMÓVEL NA TEIA UMA GOTA DE ORVALHO PRECÁRIO EQUILÍBRIO” Delicado e profundo. Um suspiro. Uma brisa fresca. Essencial, no sentido de ir na essência das coisas. Assim é Suspiros de luz, novo livro de poemas da escritora e poeta Roseana Murray, publicado pela Escarlate, do Grupo Brinque-Book. Tendo publicado dezenas de obras, a maioria poesia, a autora nutre especial relação com um tipo específico de poema, o haicai (ou haiku), matéria-prima luminosa da nova obra. Esse tipo de poesia tem origem no Japão – o poeta Bashô (1644-1694) é um de seus representantes e ficou conhecido como mestre nessa arte – e se caracteriza por estrutura e temas simples: três versos com cinco, sete e cinco sílabas métricas, respectivamente. Em geral, tratam da natureza e de temas do cotidiano. São simples, porém, muito longe de simplórios: é um desafio estético e estilístico escrever com tão poucas letras e palavras. Por isso, o haicai é um poema essencial, de essência. Trata-se de burilar e lapidar ideias, sons, temas até que deles reste o que importa. Um suspiro, que tudo contém. “Os haicais são um presente dos japoneses. Eles são uma estrela cadente, um suspiro de luz, um raio de beleza. Como dizer tanto em três versos? Esse é o desafio do poeta: mergulhar profundamente no instante e colher esses três versos como se fossem flores ainda cheias de orvalho e terra”, define Roseana. Pois esse Suspiros de luz vai na essência dos temas caros à autora e também ao ilustrador, o artista plástico Walter Lara, que imagina e concretiza, em seus traços e cores, o cenário perfeito para acolher as poucas e significativas palavras da poeta. Em uma entrevista ao Blog da Brinque, Walter contou um pouco de seu processo ao criar as maravilhosas ilustrações do livro. “Identifiquei-me com os poemas da Roseana Murray porque são muito visuais, repletos de animais, luminosidade e de uma imensa gama de cores. Estou sempre observando os animais – eles habitam as minhas ilustrações – e com eles aprendo a perfeita escala de cores que neles foi desenvolvida pela natureza há milhares de anos. A Roseana me deu este presente de ilustrar um texto tão musical e perfumado.” O resultado é uma dança, uma conversa entre duas linguagens poéticas distintas que se complementam e jogam luzes – como os vaga-lumes do poema que abriga o título do livro – uma na outra, ressaltando as melhores qualidades. Natureza, entardeceres, cheiros, climas, brisas, insetos e matas, árvores, pássaros: está tudo lá, simples e incrivelmente complexo, pois cada leitura e cada olhada revela novas camadas. A essência, afinal, nunca se mostra por inteiro na primeira espiadela. Em casa e em sala de aula Este é um livro que evidencia como poucos o diálogo entre os diferentes tipos de arte. As palavras de Roseana são belas imagens, que Walter capta e traduz em ilustrações que também contam histórias poéticas. O que os leitores mais jovens enxergam nessas duas formas narrativas? O que as palavras inspiram neles? E as imagens? Ajude-os a reparar nos detalhes e nas sutilezas. Dê a eles elementos para entender o perfume da dama da noite, as metáforas da música que diversas vezes surgem na obra, a caligrafia num voo de gaivota. Quantos já viram um pássaro voar? Que desenhos ele faz? E, numa poesia, o que é essencial e o que não é? O que é essência? São só as palavras, num haicai, que buscam a essência e abandonam o supérfluo? Ou também a temática? O que é essencial nos dias de hoje? O que era essencial nos dias de Bashô? Há beleza e poesia no cotidiano? Na poeira que brinca de brilhar num raio de sol? “O FOGO FAZ MÚSICA ACORDES CREPITAM ILUMINAM O SILÊNCIO” Crédito: Blog da Brinque