William Amorim
O trauma é, por definição, um evento que nos deixa sem chão , sem teto. Ele rompe as paredes do nosso psiquismo e nos atira em um vazio onde as palavras perdem o sentido. A cura, portanto, passa por um gesto de reconstrução que é puramente artístico, E, como, nos ensina nosso ilustre convidado de hoje, Fréderic Viinot, a arte não é apenas um adorno para a vida, mas um legítimo tratamento para esse desabrigo da alma, pois habitar um lugar exige antes a capacidade de habitar a si mesmo: um processo que o trauma interrompe bruscamente ao transformar o mundo em um cenário estranho e hostil. Nesse sentido, ao pintarmos uma tela, moldarmos o barro ou escrevermos uma linha, estamos, na verdade, reerguendo as fundações da nossa casa interna. A arte funciona como uma “segunda pele” ou uma prótese simbólica: ela oferece contorno ao que antes era apenas dor informe. Quando o sujeito traumatizado consegue projetar seu sofrimento em um objeto externo, ele deixa de ser a própria ferida para se tornar o autor de uma obra. É nesse instante que o “morar” deixa de ser uma questão de metros quadrados e passa a ser uma conquista da dignidade humana. Morar é uma função do nosso psiquismo. Diferentemente de outros animais, que possuem instintos rígidos de construção, o ser humano nasce desabrigado e precisa aprender a habitar o mundo através da linguagem e da cultura. Desse modo, situações onde o “habitar” fracassa, como nos casos de acu mulação compulsiva, fobias de lugares abertos ou o sentimento de estranheza radical após trauma, o sujeito é desabrigado de si mesmo e retirado da sensação de segurança e pertencimento. Nesse contexto, a arte e a criação surgem como ferramentas terapêuticas fundamentais, uma nova morada que permite ao sujeito restabelecer limites entre o eu e o mundo, transformando o vazio insuportável em um espaço habitável e com significado. A poeta Rosenana Murray, um dos maiores nomes da literatura brasileira, é a prova viva disso, de que a arte pode curar o trauma. O Brasil inteiro acompanhou, consternado e estarrecido, a tragédia que se abateu sobre ela no dia 05 de abril de 2024. Mas, graças à sua arte, a literatura, Roseana não sucumbiu. Fez da sua dor combustível para a criação e de sua arte uma segunda pele capaz de protegê-la do caos. Ela nos transmitiu lindamente como o fazer artístico pode nos permitir, enfim, voltar para casa depois de uma tempestade emocional. É, portanto, para você, Roseana Murray, que dedico essa edição especial do Café Freudiano. Obrigado! William Amorim
Suzana Vargas
Acabo de ler “No chão da memória“.. como tudo o que vc escreve é belíssimo de tão verdadeiro. Ou o contrário. E a poesia pulsa em cada palavra, cada descrição. Lindíssimo, minha amiga! Suzana Vargas
Os Anjos da Roseana – Cineas Santos

Quando soube do ataque dos cães ferozes à poeta Roseana Murray (2024), antes de ter noção da gravidade do tragédia, afirmei para dona Áurea: não fique aflita: a poesia salvará a Roseana. O que não disse a ninguém é que Roseana vive cercada de anjos que lhe sopram a poesia que ela transforma em versos e compartilha conosco. A poeta, finalmente, resolveu revelar o segredo que guardava a sete chaves. Está tudo no livro Anjos, recém-lançado pela FTD. Num punhado de poemas, Roseana fala dos anjos que lhe varrem a casa, que tocam realejo ou a transportam nos braços… E tudo acaba em poesia. Os poemas, por si sós, já encantam, mas a editora resolveu adorná-los com fragmentos da obra de Fayga Ostrower, uma polonesa que inventava formas e cores para revelar o invisível, um casamento perfeito. Uma pequena amostra: A árvore dança seus galhos com o vento, derrama sombra e verde. Um anjo sentado no chão, com as asas recolhidas, lê o mundo. Só as crianças, os poetas e os loucos podem vê-lo.
Roseana Murray, poeta: “Con la lectura aprendes a empatizar”
Roseana Murray faz adversidade virar poesia em ‘O braço mágico’ – Renata Rossi

Renata Rossi Em seu novo livro, a avó poeta transforma o acidente em que perdeu um braço em ato poético, explorando a magia dos laços de afeto e a cumplicidade com os netos. Depois de ser atacada por três cães enquanto caminhava em Saquarema (RJ), em abril deste ano, Roseana Murray recorreu à poesia como forma de cura. Em entrevista ao Lunetas, a autora conta sobre a ideia do livro “O braço mágico” (Estrela Cultural), que surgiu ainda no hospital onde foi socorrida. “Busco beleza em tudo, mas claro que não há nada de belo em perder o braço. Então, para que pudesse suportar essa perda, criei um braço mágico e isso me salvou.” “Os poetas fazem qualquer coisa virar poesia, mesmo a mais terrível adversidade” Ao buscar dentro de si poesia para tentar ressignificar o acidente que quase tirou sua vida, Roseana cria então um ambiente onírico por onde transita entre duendes, fadas, piqueniques recheados de gulodices, e passeios de balão e tapete mágico. Tudo isso na companhia dos netos, que se tornaram personagens nesta aventura com a avó poeta que tem um braço com superpoderes. “Luis, menino músico, tocava guitarra para a avó. Gabi, garota arteira, fazia camisas coloridas para ela. Era a maneira de eles dizerem que a amavam.” “Quando oferecemos amor do fundo do coração, ele cresce, fica imenso, depois explode para espalhar suas sementes pelo Universo.” Trecho do livro “O braço mágico” “O braço mágico”, Roseana Murray e Fernando Zenshô (Estrela Cultural) Dedicada a familiares, amigos e aos profissionais do hospital, esta história entre avó e seus netos conta como um braço com superpoderes é capaz de espalhar amor. Além disso, pode alegrar quem está triste e promover aventuras no céu, na terra e no mar. Assim, Roseana Murray transforma o braço que perdeu em ato poético, para seguir se espantando com as belezas da vida. Por fim, espera também que o braço mágico leve os leitores até seus próprios corações. Já as aquarelas de Fernando Zenshô simulam um sonho e representam o renascimento da avó. Após o acidente, ela passa a ter duas datas de nascimento e, portanto, duas festas de aniversário. Para o ilustrador, a aquarela reflete a nossa falta de controle sobre os acontecimentos. “É da natureza dessa técnica que as formas se misturem e isso traduz a essência da história, envolta em magia. A vida coloca um acidente no caminho e a poeta o ressignifica”, diz. O peso da chave da poesia A capacidade de ver poesia em tudo resultou em outro livro pós-acidente. “A morte sobre o corpo”, com ilustrações de Jidduks, foi escrito para o público adulto. Como ela reafirma na abertura da obra, “colocar a minha dor em poesia me fez muito bem”. Dessa forma, os poemas narram as dores – físicas e emocionais – causadas pela ausência do braço. Mas também contam sobre os aprendizados que estão em curso, como reaprender a escrever, agora com a mão esquerda: “Viro criança outra vez. Rabisco palavras, risco o tempo, a casa da infância existe, equilibrada no balanço da memória.” “A Morte sobre meu corpo não conseguiu me levar. Talvez pesasse muito a minha chave da poesia, a que carrego sempre no pescoço. Talvez um anjo tenha soprado na sua cara. Fiquei ali, na rua, abraçada com as pedras até que viessem me buscar.” Poema de “A morte sobre o corpo” “A morte sobre o corpo”, Roseana Murray e Jidduks Após viver uma experiência de quase morte, a poeta compartilha neste livro sua jornada de transformação e cura através da poesia. Assim, a coletânea destinada a adultos reflete sobre o poder do amor e da arte para transcender a dor. Roseana dedica a obra aos profissionais do Hospital Estadual Alberto Torres, onde foi socorrida. ‘A infância é o tempo da poesia’ Com mais de 100 livros publicados, a literatura foi sempre companheira de Roseana Murray desde a infância e também refúgio. “Muito pequena, numa casa triste de imigrantes judeus poloneses que vieram antes da guerra, eu já me escondia dentro dos livros para fugir daquela atmosfera”, conta em seu e-book “Livros e leitores”, com ilustrações de Elvira Vigna. “Assim que aprendi a ler, me mudei para o Sítio do pica-pau amarelo. Fui com as minhas bagagens. Todos os dias caminhava até a casa de uma amiga que tinha a coleção inteira e, sentada numa poltrona, lia sem parar até o fim da tarde.” “Descobri que já havia uma fortaleza dentro de mim. Uma fortaleza feita de livros.” Roseana Murray, em “Livros e leitores” Para a avó poeta, os netos “acordam a minha alma de criança”. Essa cumplicidade rende memórias afetivas e, no caso da família Murray, se tornam livros. Em “O braço mágico”, “avós e netos se encontram no país do mais puro amor”, diz a poeta. Mas Luis e Gabi também vivem aventuras em dois e-books independentes, “O galinheiro arco-íris” e “Crianças e bichos”, e no livro ‘Lá vem o Luis’ (Leya). Portanto, é nessa busca pelo espanto da vida que Roseana se fez poeta das crianças, como disse uma de suas leitoras. Para ela, a infância é o tempo da poesia. “Ao virarmos adultos e perdemos o assombro, a poesia desvira e não entendemos mais nada. Porque a falta de lógica da vida é poesia e, se quisermos controlar tudo, morremos asfixiados.”
Roseana, Básica e Transcendental – Rafael Santana
Rafael Santana Resumo Resumo: Este ensaio examina a livro Emaranhado de Roseana Murray, destacando a sua complexidade poética e metapoética. Adentra, ademais, a interseção entre vida e poesia, explorando as interlocuções da autora com a sua expressividade artística. Analisa ainda poemas específicos, ressaltando, por exemplo, a simbologia da lua e do pão, a relação entre feminilidade e poesia, além de estabelecer uma articulação psicanalítica com temas quer freudianos, quer lacanianos. Aborda também a importância de ouvir o silêncio em meio à tagarelice do século XXI e destaca a habilidade da autora em transitar por entre o sombrio e o luminoso, sempre a regressar com uma mensagem de esperança em meio às caóticas – e não poucas vezes mortíferas – cenas da vida contemporânea. Por meio de um exercício metapoético, Roseana Murray perscruta a sua visão tanto sobre o processo de escrita quanto sobre a existência, condicionados, claro está, ao gesto de pensar, enquanto poeta, o seu lugar de humanidade e na humanidade e, por conseguinte, a sua própria finitude. Abstract: This essay scrutinizes the complex poetic and metapoetic tapestry of Roseana Murray’s book Emaranhado. It also ventures into the intersection between life and poetry, examining the author’s profound dialogues with her artistic expression. Moreover, it undertakes a detailed analysis of specific poems, highlighting, for instance, the symbolism of the moon and bread, the intricate relationship between femininity and poetry, and establishing a psychoanalytic articulation that engages with both Freudian and Lacanian themes. Additionally, it explores the significance of silence in the midst of the chatter of the 21st century, emphasizing the author’s ability to navigate between the shadowy and the luminous, consistently returning with a message of hope amidst the chaotic – and often deadly – scenes of contemporary life. Through a metapoetic exercise, Roseana Murray scrutinizes her vision of both her writing process and her existence, conditioned, of course, by the inherent gesture of grappling with her place in humanity and within the human experience, leading inevitably to a profound exploration of her own finitude. Texto completo: BAIXAR PDF PARA LEITURA
Roseana Murray: O retorno – Viver é o milagre que nos guia – De Luciana Cavalcanti

O retorno de Roseana Murray, neste vídeo incrível, criado por Luciana Cavalcanti, apoio técnico de Virginie Besq.
MURRAY, Roseana & AMORIM, William. Balaio de felicidades. Itapira: Estrela Cultural, 2023, p.1-42

Rafael Santana – UFRJ
Monografia – Andressa de Almeida Barroso
O principal propósito da Monografia de Andressa de Almeida Barroso é descrever e analisar as dinâmicas envolvidas no Clube de Leitura como uma prática social para a compreensão do mundo e seu impacto no desenvolvimento da identidade como leitor, bem como seu papel na promoção da produção textual e no surgimento de novos escritores. Clique aqui para baixar o arquivo
Penélope Martins
Para Eunice, um texto corajoso que nos propulsiona a pensar na possibilidade restaurativa do afeto para curar as feridas sociais. A menina branca que aprendeu a amar a mulher preta que a obrigava a comer com o chinelo na mesa, tempos depois revisita a história para se conciliar com as dores da injustiça. Se Eunice deixasse a menina minguar de tão magra, seria ela a única culpada. Junto disso, o filho da empregada crescia longe dos olhos atentos e cuidados de sua mãe. Cuidando das filhas brancas, Eunice se apartava do seu mundo e inventava um tempo e lugar para si e para os inocentes. Eram duas meninas brancas, mas eram duas crianças apenas. Os olhos de Eunice podiam ver tudo como um rio de águas límpidas. O dinheiro pingava, o amor abrandava sua falta. O mais bonito é poder ler uma poeta mulher, mãe, avó, figura pública lida e relida por tantas pessoas, assumindo para si a responsabilidade de dizer: sim, eu aprendi a amar com uma mulher preta, mas foi dela que tiraram o maior amor que sentira, o de seu próprio filho. Triste e belíssimo. Corajoso, acima de tudo. Obrigada, Roseana. Penélope Martins