O trauma é, por definição, um evento que nos deixa sem chão , sem teto. Ele rompe as paredes do nosso psiquismo e nos atira em um vazio onde as palavras perdem o sentido.
A cura, portanto, passa por um gesto de reconstrução que é puramente artístico, E, como, nos ensina nosso ilustre convidado de hoje, Fréderic Viinot, a arte não é apenas um adorno para a vida, mas um legítimo tratamento para esse desabrigo da alma, pois habitar um lugar exige antes a capacidade de habitar a si mesmo: um processo que o trauma interrompe bruscamente ao transformar o mundo em um cenário estranho e hostil.
Nesse sentido, ao pintarmos uma tela, moldarmos o barro ou escrevermos uma linha, estamos, na verdade, reerguendo as fundações da nossa casa interna. A arte funciona como uma “segunda pele” ou uma prótese simbólica: ela oferece contorno ao que antes era apenas dor informe. Quando o sujeito traumatizado consegue projetar seu sofrimento em um objeto externo, ele deixa de ser a própria ferida para se tornar o autor de uma obra. É nesse instante que o “morar” deixa de ser uma questão de metros quadrados e passa a ser uma conquista da dignidade humana. Morar é uma função do nosso psiquismo.
Diferentemente de outros animais, que possuem instintos rígidos de construção, o ser humano nasce desabrigado e precisa aprender a habitar o mundo através da linguagem e da cultura.
Desse modo, situações onde o “habitar” fracassa, como nos casos de acu mulação compulsiva, fobias de lugares abertos ou o sentimento de estranheza radical após trauma, o sujeito é desabrigado de si mesmo e retirado da sensação de segurança e pertencimento. Nesse contexto, a arte e a criação surgem como ferramentas terapêuticas fundamentais, uma nova morada que permite ao sujeito restabelecer limites entre o eu e o mundo, transformando o vazio insuportável em um espaço habitável e com significado.
A poeta Rosenana Murray, um dos maiores nomes da literatura brasileira, é a prova viva disso, de que a arte pode curar o trauma. O Brasil inteiro acompanhou, consternado e estarrecido, a tragédia que se abateu sobre ela no dia 05 de abril de 2024. Mas, graças à sua arte, a literatura, Roseana não sucumbiu. Fez da sua dor combustível para a criação e de sua arte uma segunda pele capaz de protegê-la do caos.
Ela nos transmitiu lindamente como o fazer artístico pode nos permitir, enfim, voltar para casa depois de uma tempestade emocional.
É, portanto, para você, Roseana Murray, que dedico essa edição especial do Café Freudiano. Obrigado!
William Amorim