Vera Teixeira de Aguiar

O FARDO POÉTICO DE ROSEANA MURRAY   Vera Teixeira de Aguiar   RESUMO No panorama da poesia infantil e juvenil brasileira, destaca-se Roseana Murray (1950), responsável por uma obra contínua iniciada em 1980, com mais de 100 livros de poesia para crianças e jovens. Ao longo de sua carreira, dedicada inteiramente ao fazer poético, é condecorada com inúmeros prêmios literários, também fazendo parte da Lista de Honra do International Board on Books for Young People/IBBY, que abriga os melhores autores de literatura infantojuvenil do mundo. Todas essas láureas nos permitem avaliar a dimensão de seu trabalho que, de há muito, vem atravessando fronteiras.   ABSTRACT In the panorama of Brazilian literature for young people, Roseana Murray (1950) is a reference; she has been writing nonstop since 1980 and has over 100 poetry books for children. She has dedicated her life to poetry and has gained recognition with several awards; also, she is part of the Honor list in the International Board on Books for Young people / IBBY, which takes on world’s best authors in the segment. Such accomplishments allow us to asses the dimension of the author’s work, which has reached broad horizons for some time.    Quando Roseana Murray (1950) estreia na literatura, a poesia destinada a crianças e jovens já conta com uma experiência de quase um século no Brasil. Embora o primeiro livro de grande sucesso seja Poesias infantis, de Olavo Bilac (1865-1918), publicado em 1904, antes dele, nas últimas décadas do século XIX, já aparecem exercícios poéticos, como elogios, conselhos e cumprimentos por datas festivas, conforme lembra Luís Camargo (2009). Ainda vale citarmos Flores do campo, de José Fialho Dutra (1855 – ?), editado em 1882, que, em sua introdução “Ao benigno leitor”, acentua a intenção de oferecer temas cívicos, escolares, religiosos e sentimentais, em tom acentuadamente educativo. À normatividade desses textos, certamente, os versos lúdicos de Bilac se opõem, agradando deveras à infância, embora entre eles se misturem ainda aqueles que visam incentivar boas atitudes por meio da poesia.  No entanto, o ritmo cadenciado da redondilha maior e as imagens familiares típicas de Bilac caem no gosto dos pequenos, que repetem os versos de “O trabalho”:   Tal como a chuva caída Fecunda a terra, no estio, Para fecundar a vida O trabalho se inventou. (p.115)   A partir de então, o gênero oscila entre as duas vertentes – pedagogismo e preocupação estética – com vantagens para a primeira, obstinada em ensinar e transmitir valores às novas gerações. A situação começa a mudar em 1943, com O menino poeta, de Henriqueta Lisboa (1901-1985), que privilegia o olhar da criança e o caráter lúdico do fazer poético.  Em versos curtos e animados, a autora aproxima-se da infância:   O menino poeta quero ver de perto quero ver de perto para me ensinar as bonitas coisas do céu e do mar. (p.39)   Cecília Meireles (1901-1964) consolida tal visão em 1964, quando Ou isto ou aquilo resguarda todas as conquistas de inventividade e liberdade da arte instauradas pelo Modernismo em décadas anteriores. Nesse sentido, o livro infantil mantém a temática intimista da poeta, que cultua a fugacidade da vida e a espiritualidade, acentuada, conforme aponta Miguel Sanches Neto (2001), mesmo através dos motivos infantis, como vemos em “O vestido de Laura”:   Que as estrelas passam, borboletas, flores perdem suas cores.   Se não formos depressa, acabou-se o vestido todo bordado e florido! (p. 44)    Seguem-se outros autores consagrados, como Mário Quintana (1906-1994), que faz sucesso em 1968, com Pé de pilão, cujos versos lúdicos e bem cadenciados estão até hoje no gosto do público, e Vinícius de Moraes (1913-1980), que, em 1970, reúne seus poemas dispersos na conhecida obra A arca de Noé, que recebe, inclusive, versão musical. Desde então, uma gama considerável de poetas tem se dedicado a tal produção, no esforço de criar sons, ritmos e imagens que expressem os modos de ver e sentir o mundo dos novos leitores. Desse panorama, avulta Roseana Murray, nascida em 1950, no Rio de Janeiro, filha dos imigrantes poloneses Lejbus Kligerman e Bertha Gutman Kligerman, que vêm para o Brasil antes da Segunda Guerra fugindo do antissemitismo. Responsável por uma obra contínua iniciada em 1980, ela é autora de mais de 100 livros de poesia para crianças e jovens. Graduada em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy, por meio da Aliança Francesa, dedica-se inteiramente ao fazer poético. É condecorada, ao longo de sua carreira, com os Prêmios: Associação Paulista de Crítica de Arte/APCA, na categoria “Poesia Infantil”; “O Melhor de Poesia” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/FNLIJ (por quatro vezes); Prêmio Academia Brasileira de Letras/ABL para “Livro Infantil”. Recebe, ainda, por diversas vezes, o selo “Altamente Recomendável” da FNLIJ. Também faz parte da Lista de Honra do International Board on Books for Young People/IBBY, que abriga os melhores autores de literatura infantojuvenil do mundo. Todas essas láureas nos permitem avaliar a dimensão do trabalho de Roseana que, de há muito, vem atravessando fronteiras. A escritora afirma que, ao começar, não teve em vista escrever diretamente para os pequenos, mas, de certa forma, são eles que se identificam com seus poemas. Na verdade, sua ampla obra pode ser lida por todas as idades. Contudo, os projetos editoriais de seus livros, ricamente ilustrados por artistas reconhecidos, têm apresentação impecável para o público infantil e juvenil. Alguns títulos contam com reedições que ganham novos formatos, incluindo um trabalho gráfico e imagético mais atualizado esteticamente. O primeiro livro de Roseana é Fardo de carinho, publicado em 1980 pela Editora Murinho e reeditado em 1985 e 2009, com ilustrações de Elvira Vigna. Eis a estrofe de abertura: Vaga-lume lume lume ilumina meu caminho que eu carrego um fardo de carinho (s.p.)   O volume já traz, em seu título, a concepção de poesia da autora, que faz um jogo antitético de sentidos: “fardo” é um volume pesado, algo difícil de suportar que, por extensão, implica responsabilidade e cuidado; “carinho”, por sua vez, significa afeto, delicadeza,

Joel Cardoso

POEMAS PARA METRÔNOMO E VENTO Roseana Murray – Guaratinguetá: Penalux, 2018, 110 páginas. Roseana Murray, minha poeta maior… Estou em falta com você. Recebi, há já alguns dias (alguns dias?… que ironia!… já se passaram mais de 30 dias), pelo correio, o livro que me enviou. Cada livro seu é um presente… presente dos deuses… “… o que não pode / ser dito, / onde carregar?” (“Entre as páginas”. p. 50.). Vou tentar me redimir, me justificar… Como estava às voltas com a elaboração do meu MEMORIAL, para ascender ao nível de PROFESSOR TITULAR (que submeto à apreciação da banca avaliativa no próximo dia 2 de outubro), estive o tempo todo preocupado com esta (ingrata) tarefa. Tarefa, repito, ingrata e incômoda, tentando organizar meu caos interior, mesmo sabendo ser “Impossível arrumar / o caos por onde trafegam / as horas (“As horas”, p. 43). Seu livro, seus poemas – que bom! -, foram um bálsamo que minimizaram minha ansiedade, meu atabalhoamento nesse percurso. Claro que cito você nesse memorial. Claro que transcrevo alguns de seus poemas. O poema “Ausência” (p. 62), por exemplo, abre a sessão em que relembro o ‘nosso’ Latuf. No embalo subjetivo que demarcam os passos dessa dança rememorativa, pareceu-me que o poema foi escrito para ele… Poemas não têm endereço… Nós os direcionamos… cada leitor se apodera deles amoldando-os às suas carências, às suas subjetividades, aos seus devaneios… O poema se constrói de palavras indizíveis, estações que, ao aflorarem, redefinem, e alinhavam saberes necessários e insubstituíveis, dos quais nós, às vezes, nem mesmo suspeitávamos. Retirando da vida o que de essencial a nossa sensibilidade permite. Por que “… o poema se faz / com a vida que se vai / vivendo” (“Farinha e Aurora”, p. 82). De repente, ‘não mais que de repente’, perguntamo-nos: “De onde vem / essa linha fina / de costurar poema?” (p. 12). Vem dos anseios da alma, querida… Criação primordial, a poesia se faz necessária. Se é alimento para a alma de quem a produz, se torna, de forma similar, essencial para quem lê. Somos atravessados e modificados pelos versos, aves canoras que, ao sair do corpo do poema, pousam mansamente em nosso ser. E sentimos que é como se sempre estivessem ali… Através dos poemas tomamos consciência de instâncias que desconhecíamos, instâncias que não supúnhamos existirem em nós… instâncias que, sufocadas, reprimidas, abafadas pelos ritos do cotidiano, buscam espaço para, ao domesticar a nossa solidão, quebrar muros cerceadores do nosso interior… Não é que “a vida / não é tarefa / pequena, / às vezes é dor / e pedra! (“Pipa”, p. 17)?… No poema, os versos, ao se manifestarem plenos, alados, lírica e sonoramente, pousam de mansinho em nós… Com a poesia desvendamos o que há de divino, o que há do sagrado-profano que paradoxalmente nos habita. Somos nós mesmos e as nossas sombras, as nossas regiões abissais dominadas, incorporadas… e somos, também, especularmente, o outro, em sua dimensão paralela… A poesia é o nosso registro de permanência no efêmero que se eterniza. Através dela, despimos as nossas mascaras, abdicamos dos nossos nomes, dos prenomes, dos pronomes… Reinventamo-nos… Conferimo-nos novos rostos, novas fisionomias e nos (a)firmamos, nos reconhecemos em todos eles… Buscamos novos sentidos, mais que isso, necessitamos deles. “Como desembaraçar / os fios, / os rios, / oceanos, / montanhas / as linhas do passado / e as teias do futuro?” (“Bagagem”, p. 57). A precariedade da palavra nos abre portas, nos conduz às metáforas… metáforas que alteram a rotação do nosso universo… Somos todos linguagem e escritura, signos e símbolos, realidades e devaneios, interligamos o efêmero à eternidade, soletramos alfabetos desconhecidos. Os poemas, ao se auto traduzirem, nos traduzem também. Textos que, numa teia interminável, remetem a outros textos. “Um verso simples, / sozinho, / não tece a manhã: / é preciso um galo / e um sol, / nas mãos um sonho / ainda sujo de estrelas / ainda sujo de infinito.” (“Um verso e outro”, p. 58). Assim como o dia, festa que nos surpreende a cada amanhecer, ao se revelar em suas nuances, movendo as nuvens do nosso céu interior, a poesia nos encanta, nos comove, nos absorve, nos alimenta. Somos a mistura do que fomos, com aquilo que, no presente, nos tornamos… somos também as nossas expectativas futuras, os nossos desejos de agora entrelaçados às marcas, aos vestígios de um passado que insiste, persiste, resiste. “O passado / era essa água / estranha, / feita de tempo, / ilusão, / bruma fugidia” (p. 37), e, quase sempre, tão exigente, tão ali bem pertinho, de plantão… Apaziguamos a noite dos nossos desejos… acendemos estrelas novas na nossa constelação eivada de desejos, povoada de ansiedades, modeladas pela amplitude da nossa solidão… E assim vamos nós “pelas ruas do tempo, / com as sobras, / o corpo abarrotado / de tudo o que pode / entornar no poema (“Sobras”, p. 38). Presente, exigência do agora, a vida singra e sangra na estrada dos versos… as palavras redefinem os contornos da nossa existência, realidade e sonho, testemunho e negação da realidade. Você personifica, para mim, a nossa poeta maior. Uma poeta que, despindo as palavras do sentido que as vestes do cotidiano lhe atribuem, confere novos sentidos a elas. Seguimos sempre, por vezes, à nossa revelia, sabendo que “em algum lugar / o destino / prepara as suas / encruzilhadas” (!Encruzilhadas”, p. 61). E isso é muito… Com você, me permito voar… Sabendo que “Para alçar voo / um pensamento / basta…” (“Lição de Voo, p. 52). Por isso eu a amo. Obrigado por tudo… Beijos n’alma Joel Cardoso – Universidade Federal do Pará – UFPA

Neurivan Sousa

O ótimo livro “Poemas para metrônomo e vento”, da consagrada Roseana Murray, (Penalux, 2018), traz uma poesia sob medida que nos enlaça pela sutileza e deslumbramento das imagens. A densidade de seus poemas é de água e de pedra e de ventos e de árvores e de luas e de luz… Sua voz é de uma sonoridade rítmica tão delicada que se confunde com a polifonia produzida pelo beijo da aragem nas cortinas dos nossos olhos. É ler e se deixar levar pela fluidez de um rio manso e maiúsculo. Neurivan Sousa Professor – Santa Rita/MA

William Amorim

Uma alegria indescritível: chegar em casa e me deparar com um exemplar autografado, trazido pelos correios , do novo e belíssimo livro da poeta Roseana Murray. Poemas para metrônomo e vento é para ser lido com o corpo todo porque cada poema faz do leitor uma partitura viva, como se a poeta orquestrasse o tempo, o compasso e a pulsação musical em que cada um de nossos poros devesse vibrar sob inusitadas epifanias engendradas na beleza e na variação de cada verso. William Amorim Psicanalista

Poemas para metrônomo e vento estabelece, através de um ritmo cadenciado, uma poética sutil do movimento

Por Fernando Andrade Sempre me interessei muito pelos modos de ser da brisa. É porque só a noto em regiões afastadas do civilizado, como matas, sítios, fazendas e florestas, seu principal meio de existência. Talvez pelo silêncio desses locais, possamos estar atentos ao seu loco de existir, que é o breve som de um rumorejar de algum objeto, como o de folhas que balançam em um ritmo compassado. A brisa pode ser disfarçada com um ritmo musical, só não sei que tipo de instrumento sonoro seria e que cordas perpassariam seu sopro, pois a brisa vem da onde? Do amanhecer? Do entardecer? Por que ela está associada à mudança da luz como o escurecer? Sou neto de fazendeiro e me recordo das brisas poentes em Minas, onde o poente vinha junto com o balanço musical das árvores. Por que perpasso a brisa nesta resenha poética? Para me auxiliar em doces verdes das imagens que são árvores-fruto da nossa imaginação e voam ao sabor do vento. Por quê? Toda canção tem um batimento interno, como o pulsar da vida o tem dentro do peito meu-seu. Dizem que para aprender música é necessário um pouco de matemática, pois são cifras e motes cheios de compassos e pausas. Mas, gente, nunca vi nada tão diferente desta arte dos números e linhas do que a poesia, em seu colocar no meio do pensamento, onde se inicia um poema. A brisa sim, não se sabe de onde vem. Assim como o poema, alguém sabe como se materializa? Quando li os poemas da Roseana Murray, no seu mais novo livro Poemas para metrônomo e vento da editora Penalux, pensei que cada espaço em branco tinha um devir de brisa ali balouçando em fuga ou raiz. Fiquei me perguntando como a poeta inicia esses seus poemas, que começam com uma simples palavra-ideia, e vão se formando com uma certa coesão semântica, muito própria da poeta, em misturas de palavras com leveza e peso dentro de suas possibilidades de sentido e som, encarrilhadas como um trilho de um trem que carregasse um tipo de música – um trem melódico – que fosse intenso de azul. O ritmo de algumas canções parece com o de certas fábulas, que funcionam muito mais pelo formato de se compor dentro de contextos, no caso a página de um livro, do que pelos temas que necessariamente perpassariam. Digo melhor, os enredos só acontecem pelo exímio poder de construir frases melódicas encadeadas de forma simples e extremamente alusiva. A poeta, na maioria dos poemas, repete uma determinada palavra poética mas mantendo a ação em curso nas linhas dos versos. É muito interessante notar que os poemas têm poucos temas e sejam coesos como o vento e a cor azul a nortear uma andança poética pela jornada adentro do livro. Pela forte criatividade de Roseana, em trançar imagens e palavras no intercurso do poema, os temas não se tornam nem monótonos nem repetitivos. Parecem gradações de um mesmo matiz, que se esmiúça, poeticamente, indo ao íntimo ou ao ínfimo das coisas.

O voo além da superfície, em Poemas para metrônomo e vento

Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ) No novo livro de poemas de Roseana Murray, Poemas para metrônomo e vento (Penalux, 2018), temos um universo semântico que dá coerência à obra e à proposta do livro que é medir o tempo pelas cordas da poesia. O metrônomo, instrumento que mede o andamento musical, juntamente com o vento, este elemento sutil da natureza que por vezes nos arrasta com sua fúria sonora, levam a poeta a dialogar com a progressão, com o ritmo das coisas. Palavras como “luz”, “estrelas”, “azul”, “rio”, “asas”, “sol”, “sombra”, “água”, “fio”, “linha”, “voo” tecem uma rede constante em sua poética. É forte a presença da natureza que se mostra como mosaico temporal das mudanças entre o eu e o mundo. Em Murray, temos o tempo da construção, da arquitetura poética, o tempo de fiação e criação da poiesis. Tudo é ritmo nos seus versos musicais. A aproximação entre poesia e música a partir deste elemento que é o ritmo dá o tom maior no livro desta poeta excepcional. Da mesma forma se dá o paralelismo entre natureza e arte/cultura através da música. Os sons da natureza, deste vento que assovia por entre as linhas dos seus poemas revelam as aproximações entre os dons da natureza e o tempo da poesia. O vento é a força da natureza que espalha/expande tudo e espelha o tempo. A cor azul é central no seu livro. O azul indica imaterialidade, um ir além, um transcender a mera forma. Neste sentido, o ar é elemento importante ao se reportar ao mito de Dédalo e seu filho Ícaro. Dédalo era prisioneiro de Minos e para fugir com seu filho da prisão constrói asas, como exímio arquiteto. Só que ele voa numa altura moderada enquanto Ícaro, por sua soberba, vai além do normal, tendo a cera que prendia as suas asas derretidas pelo sol, levando-o à morte. No poema “O rio invisível”, Roseana Murray tem uma conversa intertextual com este mito. Vejamos: “A música do rio/invisível,/que canta/conduzindo/os navegantes,/os sem rumo,/os perdidos,/os maltrapilhos//Há que ouvir/essa voz distante,/para sair do labirinto.//Há que buscar/as setas/que apontam/o nome:/aquele escrito/com sol.//Só então/a alma pode voar e levar/o corpo/e mesmo que a luz/desfaça suas asas,/será possível enxergar/na escuridão”. Apesar do voo deste imaginário que vai além da forma, Murray tem uma postura de enxergar além do mero cotidiano, com uma poesia que revela o sublime através das asas das palavras, como “sementes aladas”, sua poética inaugura conceitos e chaves para se entender a vida e ultrapassar a mesmice cotidiana. No poema que abre o livro, temos o simbolismo das asas: “Se não temos asas,/temos palavras,/para arrumar o caos/em camadas de azul/e desejos”. Sendo a cor mais sutil da chama, o azul nos apresenta a cor do infinito, àquela observação que ultrapassa o meramente ótico para se fazer o sonho lírico. Algo que se expande de sua ambiência de ser simplesmente visão para se fincar nas entrelinhas do olhar, os pontos vazios que dialogam com o caráter fantasmático do poético que não se quer uma convenção. Em “Os mortos”, temos: “Os mortos/se alimentam/da nossa memória,/sua comida/é o fiar contínuo/dos nossos pensamentos”. Este caráter espectral do poético lança uma rede invisível tecida pela intangibilidade das coisas, paradoxalmente. Murray nos fala dos abismos que as palavras contêm, os seus versos são permeados pelo silêncio da escuta, aquele silenciar que é o tempo de maturação da poesia, o tempo também de degustação do leitor que vai também além do que é visível aos olhos. No livro exemplar sobre os gêneros literários, Conceitos fundamentais da poética, de Emil Staiger, encontramos a recordação lírica, que não é apenas o ingressar do mundo no sujeito. É muito mais do que isso. É o “um-no-outro”, “de modo que se poderia dizer indiferentemente: o poeta recorda a natureza, ou a natureza recorda o poeta”. Neste sentido há uma fusão entre os dois planos, fazendo do sujeito um objeto e deste um avizinhar-se do humano. Vejamos o belíssimo poema “Caminhar sobre as águas”: “Levo o mar/dentro dos olhos/como quem leva/uma fruta na bolsa/variações sobre/todos os tons/do azul.”. Dessa forma, encontramos nos poemas de Murray, uma música na natureza, uma certa culturalização do ambiente, em que noções abstratas como o tempo dançam nos mares da realidade natural. E também há uma certa naturalização da arte, percebendo-se entre ambas, cultura e natureza, os intercâmbios possíveis. Assim temos o voo do poético nesta obra fantástica de Roseana: “nessa cor, nessa música líquida”. Além da intertextualidade que se mostra em seus versos, temos a metalinguagem mesclada com ela num mesmo poema. Vejamos o diálogo com João Cabral de Melo Neto, dando novas asas à poesia dele: “Um verso simples,/ sozinho,/não tece a manhã:/é preciso um galo/e um sol,/nas mãos um sonho/ainda sujo de estrelas,/ainda sujo de infinito./Um verso precisa/de outro verso,/para que seu tecido/vire barco.” É preciso que a intertextualidade e a metalinguagem estejam de mãos dadas para que os efeitos e desdobramentos do poético se enalteçam. E isso Roseana Murray faz de forma maravilhosa, dando tons vibrantes e particulares para outros autores cotejados. O fascínio que Murray tem pelas palavras necessárias e essenciais para a construção de sua rica urdidura lírica faz de seu livro algo luminoso para a verdadeira poesia que deve se pautar pelo mais importante e não se perder em vias de mão única, mas pluralizar os códigos linguísticos por um assunto temático único que se desdobra de forma variada e crescente em sua obra admirável pela sua força poética. Portanto, a sua poesia revela as sutilezas do azul, que ultrapassa o ordinário para se fazer o sublime regado de silêncio e vazio. Sua obra transcende o convencional ao nos apresentar as quebras das diferenças e dicotomias como o intercâmbio entre o natural e o cultural, nos levando a uma altura que vai além das estrelas. Tendo uma poesia original, lírica, bela e essencial, suas vozes artísticas costuram um tecido multifacetado utilizando-se para isso de uma semântica própria que repete certas palavras que

Krishnamurti Goés dos Anjos

Sabemos que o metrônomo é um instrumento que marca o ritmo das músicas. O seu funcionamento é construído para dar suporte a mensuração da passagem do tempo, permite que a música flua com maior organização e expressividade e assim, tempo e música se misturam metaforicamente a tecer a poética de Roseana que se pergunta sobre essa costura de tênues fios: “A linha” “De onde vem / essa linha fina / de costurar poesia? / De qual oriente? / De qual mil e uma / noites, / de qual dia? / De onde a seda / dessa linha / que borda, / que transborda / do papel / para o mar / e o céu? / De que estrela / desconhecida, / de que bicho / da seda?” Abordando temas densos como a solidão, a morte, a angústia, a memória e as perdas, os poemas se sustentam em refinado jogo de linguagem que transparece apenas para revelar o que é simples e delicado no cotidiano que está em todas as coisas, sobretudo no silêncio. Este, visto não somente como necessário à apreensão das verdades da vida, mas, por outro lado, quando precisa ser quebrado. Um ouvido no silêncio e outro no verbo portanto. “Noz” “E se o teu silêncio / se partisse feito uma noz, / um cálice / e se fizesse música, / e rumor de um rio, / de um riso, / de passos sobre folhas / secas, / de fio de luz / esgarçando a noite, / ou chuva. / E se o teu silêncio / se abrisse / e desvendasse / uma escrita tão antiga, / perdida?” A autora segue despertando verdadeiras epifanias, veja-se a profundidade existencial de um poema como: “O que te espera” “Ancorado no cais / da palavra / um barco te espera, / um rio te espera, / no azul da montanha, / um oásis te espera / na orla do deserto, / uma miragem / te espera / na superfície da vigília, / a vida te espera, / o assombro, / o espanto” E sempre um retorno ao fundamental da vida. “As mãos” nos faz relembrar o pensamento de Octavio Paz. “As palavras chegam e se juntam sem que ninguém as chame; e essas reuniões e separações […] são regidas por uma ordem de afinidades e repulsões. As palavras se juntam e se separam atendendo a certos princípios rítmicos”. “As mãos querem / música / quando abrem / a caixa da vida / para que a noite / escreva estrelas / cadentes / e o dia o seu trigo, / seus girassóis. / As mãos querem / a água do poço / das palavras / que voam”. Em outro poema, “Pasto”, a poeta cria por analogia. Seu modelo é o ritmo que move o poema, palavras em estado de abundância verbal, corrente rítmica que se manifesta em imagens e não em conceitos. “Em meu pasto / de palavras, / por debaixo / da terra, / onde correm / profundos / os veios de água, / os veios do que / pode e não pode / ser dito, / onde uma luz / às vezes sombra / acende a música / oculta dos sentidos, / cavalos se aquietam / diante do abismo, / onde caem as horas” E mais uma vez, e aprofundando o que já fora dito, o poema “O rio invisível” revela o talento da autora que se volta para perceber a poesia contida desde um simples rio, ao sol. “A musica do rio / invisível, / que canta / conduzindo / os navegantes, / os sem rumo, / os perdidos, / os maltrapilhos. / Há que ouvir / essa voz distante, / para sair / do labirinto. / Há que buscar / as setas / que apontam / o nome: / aquele escrito / com o sol. / Só então / a alma pode / voar e levar / o corpo / e mesmo que a luz / desfaça suas asas, / será possível enxergar / na escuridão Uma obra como “Poemas para metrônomo e vento” ajuda-nos a ascender a novas fases de consciência. Inebria-nos com o cântico das grandes leis da vida, nos faz voar, leve, rápido, distilando intelectualidade mas, num sentido de orientação. Desperta afinal, ressonâncias noutras almas e isso já é muito. O mundo hoje, mais do que nunca tem necessidade destas revelações íntimas. Precisa destas afirmações de espiritualidade, necessita de quem grite, em tempos de materialismo e egoísmo desenfreados, a grande palavra da alma; de quem dê, em tempos de apatia e indiferença, exemplo de fé; de quem repita, as grandes verdades esquecidas. Confiram detidamente isto, e outras coisas bem próximas, em poemas como: “Geografia”, “Para caber no corpo”, “Nas paredes”, “A chave”, “Voo”, “Viajante” e finalmente “Vazio”, que transcrevemos: “Antes quase no começo / do mundo, / quando as estrelas / diziam o caminho / e os pássaros eram / a fronteira entre / o céu e a terra, / as palavras ainda / buscavam a sua música / e os pés deixavam / a marca indelével / dos que passavam / em busca do que não / tinha nome. / Hoje, o vazio do que / está sempre abarrotado / de tudo / é o abismo onde caímos / todos os dias. / As palavras já não / se entrelaçam, / são ruídos roucos / e inúteis. / Há que reinventar / o tempo. / Largo e liso / feito um lago. / Espelho do que / um dia fomos”. Livro: Poemas para metrônomo e vento – Poesias de Roseana Murray Editora Penalux, Guaratinguetá SP, 2018, 110 p. ISBN: 978-85-5833-323-8

Sobra Silêncio e Cordas (E Book)

Querida Roseana, entrar en tu página es atravesar un mar de belleza infinita, de palabrs que flotan y trazan las escalas de los sueños y hacen posible todo aquello que hemos deseado con el corazón. Qué felicidad tan grande sentir tu voz tan cerca de la tierra. Y tus Variaciones sobre Silencio y Cuerdas dibujan un tiempo feliz de escuchas y esperas hasta que la musica, el tempo de la espera se transforma en epifanía del sentimiento. Querida Roseana, entrar na tua página é atravessar um mar de beleza infinita, de palavras que flutuam e traçam as escalas dos sonhos e tornam possível tudo aquilo que desejamos com o coração. Que felicidade tão grande sentir a tua voz tão perto da terra. E as tuas Variações sobre Silencio e Cordas desenham um tempo feliz de escutas e esperas, até que a música, o tempo da espera se transformem em epifânia do sentimento. Francisco Jarauta, filósofo espanhol

Delírios

Acabei de fazer a leitura do e-book “Delírios”, da poeta Roseana Murray. Ler livros nesse suporte é, para mim, algo novo, tão apegado que sou ao objeto de papel, cheio de folhas, nas quais posso fazer minhas anotações com o lápis que sempre me acompanha. Mas confesso que gostei muito da experiência. O primor das ilustrações de Evelyn Klingerman auxilia bastante, mas, é claro, que o que sobressai é o destro dessa escritora multifacetada que é a Roseana. “Delírios” é um título bem apropriado para o conjunto de 33 poemas, que apresenta leveza e profundidade ao retratar temas como morte e vida, distância e tempo, signo e linguagem. Tudo isso perpassado por um vento que nos leva pela tarde e deixa um gesto de saudade. Roseana Murray é da família poética de Cecília Meireles – há na sua poesia o sopro lírico indispensável às epifanias. No texto de apresentação, acerta em cheio o poeta Salgado Maranhão, quando afirma que “Ao término da leitura, nos apossa a sensação de não ter chegado ao fim, como se fora um convite ao recomeço”. Fica aqui o meu convite a todos os amigos que apreciam a boa poesia, para que dêem continuidade a esse ciclo de leitura, prenhe de recomeços e de novidades. Basta clicar no e-book e adentrar nos delírios da loba e aprender uma lição de dança desenhada pela linguagem poética. José Inácio Vieira de Melo OBS: O E-BOOK É GRATUITO! Visite a página da escritora: Roseana Murray E-books