E.M. Joaquina

As crianças da E.M.Joaquina vieram de longe para o nosso encontro Café, Pão e Texto. As professoras com Elcimar, a Diretora, são amorosíssimas!!! A Lilliam, filha da nossa caseira Vanda fez muito sucesso com suas coxinhas de galinha e foi seu primeiro contato com o meu projeto, pude então medir com uma fita métrica de nuvens, o tamanho do seu impacto. Ela ficou encantada. Tivemos o momento pipi, o momento jardim, o momento poesia. Apresentei meus novos livros e brincamos muito. Adoro brincar. Eu não tenho idade. Eles não conheciam o mar!!! A Secretária de Educação , Miriam Inês, veio com sua equipe e até fotógrafo profissional. O que acontece aqui é o evento mais luxuoso possível. Crianças e adultos entrelaçados com os fios leves e densos da poesia. Agradeço a Vanessa Coelho o seu carinho comigo. E a E.M.Joaquina nos ajuda a pensar que uma educação diferente é possível.

E.M. Magid Repani

Gosto da palavra azáfama.As palavras que os árabes nos deixaram são lindíssimas. O dicionário me diz: grande pressa e ardor para executar uma tarefa. Pois bem, hoje de manhã corri bastante para deixar tudo ponto para o café da manhã com a E.M. Magid Rapeni, de Magé, R.J. Kátia Costa me disse que sairiam da escola às 7:00 e de Magé até aqui não é tão longe assim. Umas duas horas. Acontece que se perderam e chegaram com um pouco de atraso, mas já estava tudo pronto. Fiz dois pães imensos recheados com muzarela, bolos, pães doces, sucos, café com leite. As crianças eram pequenas, da terceira série, lindas, maravilhosas. Um menino passou mal no ônibus, vomitou e tomou um banho no meu banheiro, coitadinho. Mas logo ficou todo animado. Assim que chegaram correram todos para o jardim. Como eram pequenos, resolvi fazer muitas brincadeiras com os poemas. E comecei perguntando do que é que eles brincam na hora do recreio. Para minha surpresa, brincam de tudo de antigamente. Cabra-cega, amarelinha, queimado, escolinha, casinha, etc. Li então alguns poemas do livro Brinquedos e Brincadeiras, ed. FTD. Fizemos a Orquestra Noturna, e Unidunitê, do Caixinha de Música. Fizemos o Caldeirão da Bruxa, com o Poemas e Comidinhas, ed. Paulus. Eles já haviam visto o vídeo no meu site e amaram fazer o poema e a bruxaria sugerida. Fizemos o poema Cada Macaco no Seu Galho, do livro Quem Vê Cara Não Vê Coração, ed. Callis e foi divertidíssimo, pois todos imitavam macaco e tinham que trocar de lugar com o amigo. Depois lancharam , voltaram pro jardim e finalmente o momento mais esperado: O MAR!!! Muitos não conheciam o mar. Foi muito emocionante. Na volta limpar os pés no jardim com a mangueira também foi um momento maravilhoso. A escola tem um IDEB de 6.1,o melhor do Município e assim se pode avaliar a dedicação das professoras e da Diretora Kátia Costa. Até os motoristas participaram arrumando e desarrumando a varanda para o encontro. Na hora da despedida todos queriam morar aqui para sempre.

E.M. Clotilde

Hoje de manhã recebi a E.M.Clotilde, escola rural de Sampaio Correia, Saquarema, dentro do Projeto Café, Pão e Texto, pelas mãos da Professora Delma. Não havia mais vaga, pois recebo uma escola por mês e dia 5 já receberei uma escola de Magé. Mas como a Secretaria de Educação de Saquarema me pediu, eu não podia negar. Eram apenas quinze crianças da quinta série e os professores e o marido da Professora Delma que veio ajudar. Hoje não era dia do nosso caseiro , então esperamos a escola chegar para que todos ajudassem a arrumar a varanda. Clodoaldo, da Secretaria de Educação, o marido da Delma e as professoras e alunos ajudaram a mover mesas e bancos e logo a varanda estava arrumada para o nosso café literário. Pão, queijo, bolo, sucos, café com leite, sonhos… muita coisa gostosa. Comecei lendo o conto “Um Presente de Natal” de O’Henry. O conto era grande, por isso eu parava em cada parágrafo para que a gente fosse conversando. As crianças amaram. O conto é belíssimo. Depois apresentei meu novo livro “Coração à Deriva” com as maravilhosas ilustrações da Cláudia Simões, ed. Rovelle. Contei a história que construí com os poemas, mostrei as aquarelas , li algumas poesias e eles amaram. Depois fizemos alguns ditados populares do meu livro”Quem vê cara não vê coração”, ed. Callis, e então fizemos uma orquestra com o livro “Caixinha de Música” , parceria com meu filho Guga Murray, ed. Manati. Fizemos também o jogo Unidunitê, com meu poema com o mesmo nome. Fechei com o poema da paz, do meu livro Poço dos Desejos, ed. Moderna. Café, pão, texto, jardim. A criançada foi toda para o jardim descobrir as orquídeas floridas. Uma menina com olhos de gato me disse que o maior sonho da vida dela era vir na minha casa me conhecer! e que era louca por orquídeas. Eles fizeram muitas fotos no jardim, passeavam no jardim como se estivessem no Éden. E na saída me encheram de beijos e abraços, uma cachoeira de amor.

E.M. Brasil

Hoje, na minha casa, tive a honra de receber uma escola absolutamente extraordinária. a E.M.Brasil, uma escola da periferia do Rio, de Olaria. A escola tem um dos IDEBS mais altos de todo o Estado do Rio: 6.8 Este desempenho se deve ao ofício do sonho. A escola prioriza a literatura e a arte. E o que vivi hoje foi tão emocionante que não podia acreditar! Um grupo de 20 adolescentes, absolutamente apaixonados por literatura! A escola vai participar da FLUPP, uma Festa Literária que irá ocupar três dias inteiros e alguns autores e seus livros estarão presentes . Meus livros Colo de Avó, Diário da Montanha, O Mar e os Sonhos e Brinquedos e Brincadeiras foram os escolhidos. A turma é muito afiada. São pensadores e sonhadores. Comecei lendo um conto do meu livro Exercícios de Amor. Falamos sobre amor amizade, sobre processos de criação. Eles fazem aulas de teatro e artes visuais na escola. Agora estão trabalhando com mandalas. Falamos sobre o efeito curativo das mandalas e das cirandas, falamos sobre Bispo do Rosário e o Museu do Inconsciente da Dra. Nise da Silveira. Falamos sobre identidade. Os alunos leram em voz alta alguns poemas do meu livro Carteira de Identidade. Falamos dos nomes de cada um e seus significados. Gritamos nossos nomes para o Universo ouvir. Tocamos em temas duros como gravidez precoce, suicídio, adolescentes que se cortam. Falamos da importância das palavras. Há palavras que ferem e destroem pessoas. Outros alunos leram alguns poemas do meu livro Poço dos Desejos. Falamos sobre os desejos. Amanda disse que o seu desejo é ler todos os livros possíveis, ler infinitamente. Brendo disse que seu desejo era dar para a sua mãe em dobro tudo o que recebeu Marcela disse que seu desejo era não errar, acertar sempre. Juan Arias, meu marido, falou que isso era impossível. Erramos e acertamos. E disse que a ciência faz novas descobertas errando. Lygia quer se formar em medicina. Chandler quer realizar todos os seus desejos. Eles estavam acompanhados de Carla, a coordenadora do Projeto Flupp, Rosângela, Regente da Sala de Leitura e uma mãe que parecia uma aluna. Vieram todos com a camiseta que idealizaram para a Flupp: “Caminhos de Murray” com um desenho lindo. Tomamos um café da manhã tardio: cachorro quente, coxinha de galinha, (a filha da Vanda fez) bolo, chocolate quente (que ninguém quis) e suco de caju. Os jovens foram ver o mar de ressaca. Foram ao jardim. Fotografaram MUITO e no final de tudo demos um grande abraço coletivo bem apertado e gritamos de felicidade. Urramos. Daqui foram visitar a Igreja de Saquarema.

A Bailarina

Hoje nos meus pães entraram os últimos fios da noite, era escuro quando comecei a amassá-los . Esperava a Escola Municipalizada Elcira de Oliveira Coutinho e queria os pães ainda quentes para o nosso Café, Pão e Texto. Fiz também um belíssimo bolo de fubá. Às nove em ponto o ônibus encostou aqui na porta e as crianças se espalharam pela varanda, nos bancos, no chão. E vieram cheios de novidades , estavam loucos para me contar. Há um grupo de leitores na Escola que se chama GALE. São alunos contadores de histórias, sempre no contra-turno. Eles contam histórias, mostram o livro, as ilustrações, em outras turmas, até nas turmas dos maiores. E o melhor: vão de casa em casa. Tocam a campainha e perguntam para quem abre a porta: _ Você quer ouvir uma história? A professora vai junto. Achei a ideia genial, maravilhosa!!! Perguntei para a professora e para eles, de que maneira esse envolvimento com a leitura modificou a vida deles. Todos me disseram que melhoraram o rendimento nas outras matérias e que melhoraram também como seres humanos. São mais solidários e mais generosos. A Professora Elisângela disse que eles foram modificados pela leitura contínua. A escola tem um blog que funciona como a redação de um jornal:Blog da Escola Elcira. Tem equipe de relações públicas, redatores, equipe de fotografia. http://emelcira.blogspot.com e estão no facebook . Também fizeram um aplicativo para baixar no celular. Detalhe: É uma escola rural. Totalmente antenada sob a coordenação do Professor Edgard. Fizemos , como sempre, brincadeiras com meus poemas. Juan falou bastante sobre a importância de se adquirir vocabulário. Como a escola tem uma rádio, dei a ideia de colocarem no ar um poema todos os dias. Invenção da E.M.Gustavo Campos quando trabalhei lá em 2002. E já que a escola tem um trabalho incrível com informática, dei a ideia de aprenderem espanhol com algum curso on line que é tão barato. A aluna Sabryne Taina fez a contação do meu livro Maria Fumaça Cheia de Graça , vestida com a camiseta do Gale, o grupo de leitura e a bolsa de pano bordada onde carregam os livros. E depois a bailarina Gabriela dançou enquanto Manuela dizia lindamente o poema A Bailarina. Trouxeram a música! Foi lindo, emocionante. Depois chocolate quente, pães, bolo, biscoito de chocolate. E um passeio no jardim com o Samuel para a gincana das árvores. Dois meninos ganharam o livro Uma Carta para Deus, do Juan . Depois sessão de fotos. E hoje não deu para ir saudar o mar, pois o mar está furioso demais, há uma verdadeira ressaca. E fomos todos felizes para sempre!!!

Dia de colo de avó

As pessoas que vivem na Casa Amarela e a E.M. Almeida Garret, receberam o presente mais magnífico do mundo! Julia Cardenas, atriz e contadora de histórias chegou junto com a Dora, sua filha e Priscila, dos mil instrumentos. Um pouquinho antes do ônibus da escola encostar em nosso nosso portão. o dia magnífico fazia o cenário mais esplêndido possível para a festa. O almoço já estava em andamento, fogão de lenha cantando, o feijão perfumando a varanda. A mesa grande já cheia de pratos , copos, talheres e no chão colchas coloridas. As crianças chegaram pelas mãos das professoras Christiane Pereira Lamas e Carla, super amorosas. Primeiro o momento pipi, depois de uma longa viagem. Julia já tinha suas magias arrumadinhas no chão. Priscila com seu caixote de instrumentos aos pés. As professoras elogiaram as cores da casa, amarelo ocre e azul turquesa . Falei, falamos, das cores frias e quentes, das cores que acalmam, das que excitam, de como as cores interagem com a gente e pudem mudar o nosso ânimo, de como as cores possuem uma frequência, uma vibração. Perguntei a cor do amor. Alguns disseram azul, outros vermelho. E de repente a magia começou. Julia nos apresentou seu passarinho, a Isadora que possui vários nomes porque é de origem espanhola. Juan também disse seu nome , imenso. E Julia fez brotar de dentro dos poemas do livro Colo de Avó, a magia mais absoluta. As imagens do livro se tornaram os objetos mais lindos. Nós todos, a sua plateia, não sabíamos se chorávamos ou se ríamos. As canções , entremeadas com os poemas, deixava nossa respiração por um fio. Priscila tem os instrumentos mais inusitados e loucos, que ela fabrica. Num determinado momento houve um cortejo no jardim, todos acompanhando a Julia, que carregava nas mãos um arco-íris… Julia nos contou a história dos seus avós e bisavós, fez um álbum de fotografias muito muito antigas, seus bisavós que saíram da Espanha e foram até o Uruguai de veleiro no ano de 1932… com as crianças a bordo! As crianças também contaram histórias de suas avós. E o passarinho Isadora participando ativamente de cada momento. Acho que nunca me emocionei tanto. Com cada poema do livro Julia fazia um feitiço mais impressionante. Meu livro cresceu, ficou imenso, se esparramou pelo Universo… Então, antes do almoço brincamos de Unidunitê, com um poema do livro Caixinha de Música e fizemos um jogral com o poema Caldeirão da bruxa, do livro Poemas e Comidinhas. O almoço estava maravilhoso, preparado pela Vanda. Cada um com seu prato no colo, todo mundo sentado no chão, ou nos bancos. As Professoras trouxeram doces de leite, de coco, de chocolate. E depois do almoço tivemos uma gincana no jardim. Eu tinha três livros para sortear. Os três primeiros que acertassem o nome de três árvores ganhava um livro. Foram conduzidos pelo Samuel. Acertaram a árvore de acerola, de canela, a goiabeira. Depois, todos já de volta, falaram seus poemas. E finalmente foram cumprimentar o mar. E foram embora com sorrisos de sol. Foi um dia maravilhoso. Agradeço.

ONG Saúde Criança

Ontem recebemos 20 adolescentes da ONG Saúde Criança para um café da manhã dentro do Projeto Café, Pão e Texto. Chegaram atrasados, pois vieram de longe. Então começamos por onde termino: o café da manhã. Eram lindos e coloridos. Mas muito tímidos. Havia um constrangimento. Nem queriam chegar perto da mesa. Enfim comeram e começamos. Falei para eles do Projeto . Gostaram muito do nome. Dois vieram com camisetas pintadas com meus poemas. Contaram que já me conheciam através da Flávia Lins. Comecei com o livro Quem vê Cara não Vê Coração, pedindo a eles que me dessem ditados populares. Estavam silenciosos mas de repente um falou um ditado e outro e todos! Então lemos alguns poemas e foi aí que se soltaram. Fizemos brincadeiras com os poemas. Eles riram muito. Com o livro Poço dos Desejos cada um me disse um desejo. Poucos disseram não ter nenhum desejo. Mas alguns me falaram desejos belíssimos. Um menino desejava felicidade. Uma menina queria conhecer o mundo. Outra queria morar em Londres e Paris. E um outro queria voar para ser livre. Falei pra eles que para isso há que trabalhar e ajudar os desejos. Depois me fizeram perguntas interessantes e provocadoras. Queriam saber tudo. Duas meninas leram seus próprios poemas. No final todos gritaram bem alto seus nomes numa brincadeira que faço com o poema Receitas de se Olhar no Espelho. Sorteamos livros. E eles foram a praia fazer fotos. Voltaram com os pés sujos de areia e os rostos iluminados. Tinham pela frente uma longa viagem de volta para casa.

Visitas Especiais

Quase ao mesmo tempo, um ônibus escolar encostou hoje pela manhã na porta da minha casa e minha amiga Mônica também trazendo sua amiga francesa, a Monique. Era a E.M. Prefeito Magid Repani, do Município de Magé, pelas mãos da professora Kátia. Todas as professoras eram maravilhosas, tão amorosas, cuidadosas, fantásticas. Primeiro descemos todos ao jardim e contei para eles que o jardim magnífico que temos antes era um areal. Depois, na varanda, no chão forrado com colchas e almofadas, nos bancos, era um jardim de crianças lindas. Fiz com eles brincadeiras com poemas e finalizamos com o livro Carona no Jipe, depois da leitura eles me contavam para onde gostariam de ir. Muitos queriam ir para Londres, Paris, Barcelona, Rio e outros queriam voltar para Magé. Aí a surpresa: Monique, a francesa, trabalha três meses por ano em Burkina Faso na África. Num lugar muito remoto, sem água, sem luz, sem nada, na beira do deserto. Ela foi para lá ajudar a fazer uma escola. E contou tanta coisa, a gente ia traduzindo. Contou que na época da grande fome as crianças comem apenas três vezes por semana. Falou do trabalho na escola, como os pais lhe disseram que ela ajudou a tirar as crianças da escravidão. Falou da dignidade deles, de sua criatividade e beleza. Contou as coisas mas emocionantes e nos mostrou fotos. E pediu para entrelaçar as duas escolas, a de Magé e a de Burkina Faso. Quer que as crianças de um país conheçam a do outro. As crianças tomaram chocolate quente com bolo e sanduichinhos e biscoitos . Foram até o mar. A metade da turma não conhecia o mar. Foi um dos encontros mais emocionantes do mundo. Sorteei alguns livros, Juan autografou e ensinou algumas frases em espanhol para eles. Aprenderam a dizer bonjour! Cada encontro é tão diferente do outro. E me deixa em estado de graça.

Baú de Afetos

Eu não me lembrava, mas logo antes da minha cirurgia uma E.M Rural de Saquarema, a João Machado da Cunha, veio me pedir para participar do Projeto Café, Pão e Texto. Eu expliquei para a professora que era impossível, eu não sabia como iria estar me sentindo. Ela sugeriu então trazer poucas crianças , apenas para uma entrevista, sem o café da manhã. Então concordei e anotei na agenda. Mas eu nunca olho a agenda! E havia mesmo me esquecido completamente. Então ontem, ao me aproximar do portão para ver o mar, um ônibus escolar passou pela minha porta, era pequeno, amarelinho, e dei adeus para as crianças com as mãos. Acontece que o ônibus parou logo adiante , as crianças desceram e vieram para o portão com duas professoras. Eu perguntei: _Gente, marquei alguma coisa com vocês? E elas_ Sim, marcou uma entrevista. Falei: Esqueci!!! Mas improvisaremos um café da manhã. Vou pedir ao Sr.Motorista para comprar pão na padaria. E elas: _ Não, você combinou sem café da manhã. Trouxemos um lanche para fazer um piquenique na praia. Eles entraram e eu pedi para irem todos ao jardim e quem encontrasse um jabuti primeiro ganhava um livro. Dois , um menino e uma menina acharam um jabuti ao mesmo tempo! Depois fizemos uma rodinha com bancos e cadeiras no canto do fogão de lenha e comecei perguntando se a escola tinha horta . Não tem, eles me explicaram que a escola é bem pequena mesmo e não há espaço para uma horta, nem Sala de Leitura. Então perguntei se eles sabiam que uma horta pode mudar pessoas. Eles me olharam com cara de espanto. Perguntei se eles conheciam Nelson Mandela, se já tinham ouvido falar do apartheid na África do Sul. Não, não conheciam Nelson Mandela, nunca ouviram falar da África do Sul. Então contei a história do Nelson Mandela, do Apartheid, de como o Mandela começou querendo fazer uma revolução violenta e como entendeu que seria muito melhor mudar as coisas de uma maneira pacífica. Acho que havia apenas uma aluna branca. Todos eram negros ou mestiços. Todos lindíssimos. Então contei como o Nelson Mandela conseguiu autorização para fazer uma horta na prisão, pois foi preso e ficou preso por muitos anos. E como a horta foi mudando o comportamento dos guardas terríveis com os presos. Como a horta, lindíssima, conseguiu abrandar seus corações. Depois falei da importância do perdão. Se negros e brancos não tivessem se perdoado mutuamente, haveria, depois do apartheid , um banho de sangue. Falamos do Dia da Consciência Negra e de como o Mandela é uma das figuras mais importantes que já existiram. Fui entremeando tudo com brincadeiras poéticas com a leitura dos poemas. Perguntei se alguém sabia um ditado popular, quem respondesse primeiro ganhava um livro. Um menino disse: Quem vê cara não vê coração e ganhou um livro e eu li este poema. Perguntei se alguém já sentiu dor no coração com alguma coisa, se já sentiu o coração disparar com alguma coisa e finalmente se alguém já havia conseguido abrir algum coração fechado. Muitos disseram que sim, mas não quiseram me contar. Era segredo. Fizemos uma Orquestra Noturna com vozes de sapos e corujas e percussão no corpo, com meu poema do livro Caixinha de Música. Fizemos uma cena teatral com meu poema Receita de se Olhar no Espelho, do livro Receitas de Olhar, e no final todos gritaram seus nomes bem alto. Então eu ia respondendo as perguntas deles e intercalando brincadeiras com poemas . Falamos de bullying e eles são tão amigos e tão amorosos que não há hostilidade entre eles. Mas um menino lindo me disse que o amigo o chamou de macaco. Então falamos sobre estes xingamentos racistas e eu disse que achava que eram uma bobagem pois a verdadeira ofensa seria chamar um macaco de homem, pois os macacos são muito melhores do que a gente. Também chamam a mulher de cachorra e não há nada mais magnifico do que uma cachorra, as fêmeas são amorosas ao extremo, mães maravilhosas, as melhores amigas. Sempre preferi ter cachorras do que cachorros. Também chamam algumas mulheres de galinha, mas não deveria ser uma ofensa, pois as galinhas são lindas, roubamos seus ovos para comer e elas nem fazem uma revolução! e falei um pouco das coisas que dizemos por hábito. Perguntei se eles estavam com muita fome e vontade de ir embora e eles disseram que não, nunca, de jeito nenhum, então ainda ficaram e fechamos com o jogral do Caldeirão da Bruxa, do meu livro Poemas e Comidinhas. Perguntei se eles queriam a sopa da bruxa ou biscoitos e distribuímos biscoitos, fizemos fotos e minhas amigas baianas Regina Celi Pires e Verbena participaram de tudo. Antes , quando ainda eram distribuídos os biscoitos, o Motorista, que participou de tudo, sentado na Roda, pediu para falar. Disse que se chamava Silvio Santos mas o seu baú não continha nada material, era um baú cheio de amor! Pedi abraços , nos abraçamos muito, todos e foi a manhã mais maravilhosa do mundo e lá foram eles com as Professoras Bruna Macedo e Rogéria Marins rumo ao piquenique na praia com toalha e tudo!!!

Com os adolescentes

Para fechar o mês de setembro recebi a última escola dentro do Projeto Café, Pão e Texto. A E.E.Oliveira Viana de Bacaxá, Saquarema. Eram alunos do último ano do Ensino Médio, tinham entre 17 e 19 anos. A Professora Adelaide, amorosa ao extremo, é amada e respeitada. Foi um encontro emocionante. Falamos sobre todos os temas possíveis. Eles contaram o que queriam, os sonhos, desejos, aptidões. Eu contei bastante da minha vida. Tudo entrelaçado com meus poemas. Perguntei se tinham abertura para conversar e pensar na sala de aula e me disseram que sim, com a Professora Adelaide, a quem chamam pelo nome. São carinhosos uns com os outros, uma delícia! O pior da escola , eles contaram, é que alguns professores simplesmente não vão, não aparecem. E quem quer passar no Enem, tem que dar um jeito por fora da escola. Todos disseram que querem trabalhar no que amam, mesmo que isso não dê muito dinheiro. Um depoimento lindo foi o de um jovem que quer ser bombeiro, ele quer dar esta felicidade aos pais , ele disse que quer que os pais, tão pobres, tenham orgulho dele.Muitos escrevem, adoram escrever e é uma turma leitora. Vitor, um menino que quer ser jornalista, disse que um leitor é aquele que é modificado pelo texto. Uma menina linda (não lembro do nome) que quer fazer psicologia, disse que quando lê mergulha tão intensamente no texto que os personagens passam a fazer parte da sua vida para sempre. Ela escreve crônicas do cotidiano. Eram jovens atentos e antenados com o mundo. Perguntei o que mais desejam os jovens e muitos disseram: liberdade. Um outro disse que um jovem quer experimentar coisas novas, um jovem quer viver e experimentar tudo. Quando a conversa terminou e enquanto tomávamos o café da manhã alguns quiseram manusear meus livros. A professora Adelaide me segredou que muitos já se diziam inspirados para escrever a partir do encontro. No portão fui abraçada e beijada por todos, cada um, meninas e meninos e me agradeceram a manhã tão boa. E eu agradeço mais ainda .