Salgado Maranhão – A poética de Roseana Murray

A poética de Roseana Murray flui tão genuinamente em sua harmonia verbal, que se instaura em nós como uma conversa iluminada. Há nela uma densidade que não é de pedra nem de fúria, mas de brisa, porque porosa em nos aconchegar. Neste seu Diário da Montanha, fala de pedras com palavras-nuvens; fala de vento com palavras-lume. Desata os sentidos e as camadas por onde o mistério das coisas se oculta. Trata-se de uma poesia inaugural em que as costuras conceituais não se exibem para denunciar citações. Sua voz sopra de uma paisagem sintática unicamente sua, como uma fonte que só para ela brotasse. Daí a sua enorme aceitação junto ao leitor, semelhante aos ancestrais da sua família poética, como Manoel Bandeira, Cecília Meirelles, Mário Quintana e Manoel de Barros. Salgado Maranhão

Cinéas Santos

Minha irmã querida: Hoje, recebi “Diário da Montanha”, um livro que merece o nome de joia. Tudo nele é beleza, simplicidade e bom gosto. Poderia listar os poemas que me fascinaram, mas seria exaustivo. Ainda asssim, ‘Juan”, “Vento” , “A chuva”, “Agradecimento” são poemas antológicos.Muito obrigado pelo carinho da lembrança. Uma consulta: semanalmente, abro o meu programa na TV homenageando um poeta, com a leitura de um poema. Cito a fonte, mostro o livro, etc. Ainda assim, gostaria de saber se posso ler um poema seu, se a editora não criaria algum problema. Não quero brigas com ninguém. Se não for possível, tudo bem. Grande abraço. Cinéas Santos

Ana Maria Machado

Roseana querida, Que lindo está seu livro! Além de um belo objeto gráfico, me traz de novo essa sua voz poética de que gosto tanto e vou saboreando aos pouquinhos. Densa, contida, intensa, verdadeira. E expressa numa linguagem cada vez mais dominada, em sua integração, a emoção com que a vida é celebrada. Gosto muito. Obrigada. Um abraço carinhoso Ana Maria Machado

Clube de Leitura da Casa Amarela

Cheguei de Visconde de Mauá ontem para o almoço . Passei sete dias na minha casinha dentro da mata, como todos sabem, sem nenhuma tecnologia. Havia convidados na casa aqui em Saquarema, nem pude abrir a internet. E hoje já seria o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Salvador, meu amigo ermitão, que mora bem acima do nosso sítio, veio comigo pois ontem foi o aniversário do Juan. Eles são muito amigos. E o nosso encontro de hoje foi na casa rural de um dos membros do clube. Lugar magnífico com anfitriões magníficos. Nosso encontro foi debaixo de uma mangueira imensa, na beira da lagoa, entre pavões e galinhas d’angola. Estavam todos, menos a Cris que não conseguiu vir do Rio.Mas outros vieram , Dr. Messias, Kátia, Angela, Leila, Felipe e a namorada, Andrea. Vieram do Rio para o nosso encontro e isso me comove muito.E o pessoal daqui de Saquarema, Flora, Hector, Francisco, Maria Clara, Gil. O Amante da Marguerite Duras, foi tema de muitos temas paralelos. Falamos da estrutura do livro, do texto como fotografias, falamos do interdito, do amor, da paixão, da simplicidade beleza e densidade da escrita. Falamos sobre a memória. Francisco disse que o verdadeiro amor, o que nunca se apaga é o amor dos amantes, o que não cai na rotina. E isso foi muito discutido. E no livro o amor de um chinês por uma jovem “branca” de quinze anos está cercado de proibições por todos os lados. Falamos dos segredos, de como a casa onde se encontravam era ao mesmo tempo escondida e exposta , num equilíbrio precário. Falamos de como a família da jovem nos lembrava o romance Dois Irmãos do Milton Hatoum. De toda a ambiguidade que reinava nas relações daquela família. Falamos de incesto. Da fragilidade do amante, do seu pai opressor em contraponto com a mãe louca da jovem. Falamos de amor.Das muitas formas de amor, no passado e hoje. Muitos acharam o livro difícil. Felipe e a namorada passaram dois dias lendo o livro em voz alta um para o outro e ele reclamou das lacunas do livro e das oscilações do texto. Mas depois da nossa discussão todos gostaram do livro. Hector nos chamou a atenção para a fluidez das relações hoje, do ser humano como objeto descartável. Messias disse que caminhamos para algo novo. Encontraremos um equiliíbrio entre razão e desejo.Juan falou da hipocrisia das relações antigamente e de como estamos indo em direção a algo muito melhor. O conto do James Joyce OS MORTOS foi lido por poucos e não pode ser muito discutido. Quem leu ficou comovido com a beleza do conto. Cada um levou um poema do Drummond e foi maravilhoso ouvir a sua poesia naquele cenário estonteante. Fernando esqueceu os óculos, mas o Hélio leu para ele. O almoço era tão espetacular, uma mesa tão farta de iguarias, que nem sabíamos por onde começar. Hélio fez um discurso lindíssimo pelo aniversário do Juan e o bolo e a sobremesa mereciam um tratado . Depois do almoço cada membro do clube plantou uma árvore. Eu escolhi um cajá manga, mas na verdade quem plantou para mim foi meu amigo Salvador, pois a árvore era pesada, a pá nem se fala e a minha coluna complicada como sempre. O próximo encontro será dia 15 de setembro. O livro: A DAMA DO CACHORRINHO de Anton Tchekov da ed.LPM, livro de bolso. E um poema do Quintana. Cada um escolha o seu.

Hebe Coimbra – Diário da Montanha

Oi Roseana, O Diário da Montanha é simplesmente maravilhoso, por tudo, mas principalmente por seus esquilos e jacus, cada um com seu estilo; pelos poemas Horizonte e Moldura. Nossa, que deslumbramento! Hebe Coimbra Hebe Coimbra

Encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela

TEAR: Com fios de pensamento se tece o mundo se costuram pedaços rasgados de vida, nesse tear estranho que só o homem possui: tear de sonhos. in Residência no Ar, ed. Paulus, Roseana Murray, aquarelas Evelyn Kligerman Nós, crianças, rogamos-Lhe, nosso Deus, criador do mundo: conceda-nos uma vida delicada e pura e cultive em nós a bondade. Epígrafe do livro O Sobrevivente, Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz, Ed.Record Ontem o encontro do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela para discutir o livro A TRÉGUA do Primo Levi foi diferente de tudo o que eu havia imaginado. Praticamente não pudemos discutir o livro, mal conseguimos nos aproximar dele, pois Angela, uma das leitoras do Clube trouxe como testemunha o Sr.Aleksander Henryk Laks com seu livro O Sobrevivente. A realidade explodiu a ficção. Aleksander foi prisioneiro de Auschwitz, escapou, veio para o Brasil, se naturalizou brasileiro e vive para contar. Ao contrário do que se poderia imaginar, é um homem alegre, cheio de vida, emotivo, sorridente e nos conquistou a todos, além do seu humor judaico. Em várias ocasiões ele desmentiu o Primo Levi, pois A Trégua é um livro filtrado, literatura e realmente não nos importa o que ali é verdade ou não, nos importa como o livro está escrito. O Sr. Aleksander nos contou. Respondeu a muitas, muitas perguntas. Nos falou da fome, imensa, indescritível, algo com que ninguém que não tenha sido prisioneiro de Campo, vivido a guerra pode imaginar. O Sr. Aleksander nos contou. E foi muito impactante ouvir. estávamos todos na beira do abismo da emoção, quase todos com um nó na garganta. Hector, novo membro do Clube, trouxe um artigo sobre o antissemitismo hoje no mundo, previu uma nova Hecatombe, um futuro Holocausto e nos falou da sua descrença em tudo. Mas a epígrafe do livro (já comecei a ler, estou na metade e é muito forte e muito bem escrito) do livro O Sobrevivente nos fala da bondade e não da maldade. No livro A Trégua , encontramos dentro das relações humanas, que é a base do livro, a bondade espalhada como fina poeira luminosa dentro do horror. No livro A Escritura e a Vida, Jorge Semprún nos fala da bondade quando um homem, prisioneiro alemão comunista , troca a sua profissão de estudante de filosofia pela de estucador: provavelmente ali sua vida foi salva. Não acredito em nenhuma repetição do passado. Acredito que um dia o mundo descobrirá a paz e a bondade será a partitura do mundo. A presença luminosa do Sr. Aleksander que depois de ter passado cinco anos comendo 200 calorias por dia, ficou vivo para contar, para que o passado não se repita, nos deixou a todos completamente emocionados. E esperançosos. Francisco leu um poema que escreveu a partir da Trégua. Felipe estava felicíssimo de namorada nova, apaixonado e nos leu, maravilhosamente Pasárgada, do Bandeira, para que cada um construa a sua Pasárgada possível. Maria Clara também leu um novo poema. Juan perguntou ao Sr. Aleksander sobre a história do Padre Kolbe, que morreu em Auschwitz no lugar de um homem e o Sr. Aleksander disse que isso seria totalmente impossível, que ele não acreditava. Durante o almoço Angela tocou violão e todos cantamos a música “Para não dizer que não falei de flores” , do Vandré, todos cantamos juntos. O Sr. Aleksander se apaixonou pelo meu pão e só queria comer o pão! Tomou proseco, riu, se divertiu, nos seduziu. Minhas duas pastas, a de beringela e de gorgonzola fizeram sucesso. Messias, nosso médico e amigo-irmão, foi nosso grande ausente, pois às nove horas da manhã me telefonou dizendo que não poderia vir, estava com febre . Eu havia feito um bolo de aniversário para ele, mas cantamos parabéns e ele ouviu pelo telefone. Fernando e Hélio , emocionadíssimos, nos disseram da oportunidade única de conhecer um sobrevivente de um Campo de Concentração. Dentro de muito pouco tempo , já não haverá mais nenhum sobrevivente vivo para contar com a sua própria voz. Póximo encontro dia 21 de julho. Livros: O Amante, Marguerite Duras e o conto Os Mortos, do James Joyce. Um poema do Drummond, cada um escolha o seu.

Clube de Leitura

Hoje começo a preparar o encontro do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela que acontecerá amanhã. Vou fazer um almoço de inspiração árabe, para acompanhar o livro O Cerco de Lisboa do Saramago que foi detestado por quase todo mundo. Farei um quibe de forno e um arroz empedrado que comi na Espanha e amei. É um arroz com açafrão e grão de bico. Espero que o almoço saia tão bom que não desistam do Clube por causa do livro. Mas acho que será uma discussão muito boa , muito fértil.Além disso, podemos aproveitar a seta que aponta para o mundo árabe para falar um pouco sobre o tema incandescente em nosso tempo. Felipe, professor de Duque de Caxias nos trará uma surpresa maravilhosa. E estamos recebendo Maristela, professora de Maringá, no Paraná, que vem de ônibus com o marido e a filha, atravessando mais de 16 horas para chegar a Saquarema. É inacreditável.Fico muito comovida. Messias, nosso médico e melhor amigo que vem do Rio para o encontro, diz que jamais perderia a oportunidade de discutir um livro tão chato! Mas eu adorei o livro, a sua arquitetura, a questão interessantíssima do narrador. Não é um romance convencional e gosto da idéia de duas histórias correndo paralelas em tempos tão diferentes. Juan nos dará seu depoimento sobre a semana que passamos juntos nas Islas Canárias com Saramago e Pilar para seu livro de entrevistas “O Amor Possível” , ed. Manati. Nos livros do Saramago o amor é sempre possível.