Aline – Universidade Federal de Rondônia – Campus Vilhena

Beija-flor Beija-flor pequenininho que beija a flor com carinho, me dá um pouco de amor, que hoje estou tão sozinho… Beija-flor pequenininho, é certo que não sou flor, mas eu quero um beijinho, que hoje estou tão sozinho… (Roseana Murray, versão obtida no blog da autora: http://blogdaroseana.blogspot.com.br) Beija-flor, de Roseana Murray, é uma composição curta, constituída por duas quadrinhas heptassílabas cujo conteúdo ostensivo, de extrema simplicidade, não oferece qualquer dificuldade de compreensão para o leitor: o poema é escrito sob a forma de um apelo ou súplica – o pedido de um ‘beijinho’, de um eu-lírico que fala na primeira pessoa, dirigido a um ‘beija-flor pequenininho’. Não obstante essa aludida simplicidade, merecem nota alguns procedimentos utilizados pela autora na fatura do poema. O verso de sete sílabas, utilizado em Beija-flor, é o verso popular por excelência, de grande variação rítmica e com regras de acentuação, em princípio, mais fáceis de seguir, utilizado na literatura de cordel e nas cantigas populares. Esse esquema rítmico particular, aliado à repetição, na segunda estrofe, do primeiro e último versos da primeira estrofe faz lembrar o rondó, forma fixa de composição musical. O esquema rimático AABA //ABAA reforça também essa natureza musical do poema – note-se que a rima consiste quase exclusivamente na reprodução do / ɲƱ/ no final de seis dos oito versos que compõem as duas quadras, repetição que evoca a regularidade típica da canção popular. O léxico e a sintaxe de Beija-flor são também simples, organizados numa ordem expositiva clara e direta, numa quase ausência de linguagem figurada, sendo as palavras utilizadas, em geral, no seu sentido mais próprio. O verso de abertura do poema é marcado por um enjambement com o segundo verso, cuja vírgula final marca sintaticamente a presença de um vocativo, correspondendo, no plano semântico, a uma apóstrofe ou invocação da entidade do ‘beija-flor’. Esse enjambement é único no poema e contrasta com os demais versos, que constituem unidades sintáticas completas. Notemos que a presença da vírgula apenas no final do segundo verso (‘Beija-flor pequeninho/que beija a flor com carinho,’) atribui um carácter restritivo à ideia de ‘beijar a flor’, em contraste com a possibilidade de uma oração explicativa, o que aconteceria caso a vírgula fosse deslocada para o final do primeiro verso (‘Beija-flor pequeninho, / que beija a flor com carinho,’). O ‘beija-flor’, entidade evocada, adquire aqui, então, especificidade: é ‘pequenininho’ e, simultaneamente, é o que ‘beija a flor com carinho’, deixando de ser qualquer para ser aquele. Outro aspecto sintático que merece nota ocorre no terceiro verso. Nele, a anteposição do pronome reflexivo ‘me’, sintaticamente objeto indireto da frase, ao verbo dar, no presente no imperativo, é marca da oralidade e, embora não chegue a constituir um desvio significativo, é de assinalar a sua harmonia com o carácter popular do poema a que aludimos no início. A pontuação, por sua vez, é marcada por um uso predominante da vírgula, que aparece em cinco versos, e pela ausência de ponto final, substituído por reticências. Entendemos aqui o uso da vírgula, o sinal de pontuação mais afeito à oralidade e ao seu caráter continuum, como sendo outro aspecto formal em consonância com plano de conteúdo, que, não nos esqueçamos, pode ser compreendido como uma espécie de ‘diálogo’ ou interpelação direta da entidade do beija-flor. Já a utilização das reticências pode ser lida como uma pausa voluntária na ‘fala’ do eu-lírico, sugerindo uma dificuldade em verbalizar a sua solidão (‘que hoje estou tão sozinho…’), comprovada pela mudança brusca de assunto que ocorre no verso seguinte. A sonoridade expressiva lograda pela aliteração da nasal palatal (‘pequenininho’, ‘carinho’, ‘sozinho’, ‘beijinho’) sublinha o carácter motivado da seleção lexical: é, pois, precisamente essa aliteração que ajuda a construir um tom tristonho, disfórico e monótono, em harmonia com a súplica e a expressa solidão que ocorrem do plano de conteúdo. Assim, entendemos a evocação da presença do beija-flor por parte do eu-lírico: estando triste, sozinho e como estratégia de solução para esse estado, evoca o pássaro associado ao amor romântico e à claridade e ao qual se atribuem poderes de cura e de atração da felicidade. Chama-nos a atenção, por último, o carácter lúdico que, ainda que discreto, é passível de ser identificado na utilização que o poema faz de dois vocábulos específicos. Note-se que ‘beija’, justaposto a flor, em ‘beija-flor’, é um substantivo; no segundo verso, o mesmo vocábulo transforma-se em verbo transitivo direto, cujo complemento é ‘flor’. Semelhante situação ocorre com o vocábulo ‘flor’ – notemos que, no primeiro e segundo versos, ‘flor’ é substantivo; já no sexto verso, o mesmo vocábulo transforma-se em adjetivo, numa construção marcada pela ausência de um previsível artigo indefinível que o substantivaria (‘é certo que não sou flor’). Estes ‘jogos morfológicos’ fazem também de Beija-flor um exercício lúdico de exploração da linguagem. Aline Universidade Federal de Rondônia – Campus Vilhena

Lilian Rocha de A. Hattori – Universidade Federal de Rondônia – Campus Vilhena

Uma possiblidade de leitura do poema “O poeta”, de Roseana Murray O poeta O poeta vai tirando da vida os seus poemas como pássaros desobedientes e amestrados A palavra é o seu castelo sua árvore encantada, abracadabra construindo o universo. A presente análise procura demonstrar a desestabilização de sentido no poema “O poeta”, de Roseana Murray. No primeiro verso do poema o verbo “vai” acompanhado de um verbo no gerúndio (“tirando”) cria uma ideia de prolongamento do ato do poeta, gerando a sensação de que a ação dele é eterna. A ausência de pontuação encarada como pausa ou interrompimento, nessa estrofe, acentua esse prolongamento. É como se o poeta estivesse sempre a construir os seus poemas. os seus poemas como pássaros desobedientes e amestrados O uso da comparação (“os seus poemas / como pássaros desobedientes ∕ e amestrados”) cria semelhança entre os dois substantivos, pois a construção do poema é sempre uma lida, em que o poeta trabalha com uma pluralidade de sentidos que precisam ser adequados (amestrados) a sua necessidade. A palavra é o seu castelo Esse verso pode SER entendido de duas formas Numa primeira, a “palavra” pode ser tomada como moradia do poeta, já que ele a habita. Ela é sua matéria prima e o seu resultado. Numa segunda leitura, a equiparação da “palavra” ao “castelo” confere àquela o poder de ser construída. A palavra é o seu castelo sua árvore encantada, abracadabra construindo o universo. O último verso aparenta ser contraditório a toda a construção anterior do poema. Pois, quando “abracadabra” é colocada como sujeito da oração (“abracadabra construindo o universo”), ela se torna a agente da construção. De que universo fala o eu poético? Se do universo da linguagem, universo como linguagem, a construção desse universo já não é do poeta e sim da magia. Essa resultante desconstrói o que antes havia sido colocado no poema. O que antes era construído como um poema metalinguístico é destruído por sua própria estrutura. Universidade Federal de Rondônia – Campus Vilhena Língua Portuguesa V Professor: Carlos Cintra Acadêmica: Lilian Rocha de A. Hattori

Cristiano Mota

Roseana, Me sinto a beira de um precipício ao terminar de ler Carteira de Identidade. Abismos navegáveis a barquinhos de papel, como diria Rosa. Esse quem sou constante, de dentro da caverna, a se embrenhar por dentro cada vez que um espinho de luz fere, um poema único em fragmentos que levam até as estrelas, até os ossos do tempo. Vejo Nise da Silveira no poema Flores, mais um, entre tantos fragmentos de metamorfose. Revivo suas palavras, no pequenino apartamento da Marquês de Abrantes, cercada de gatos por todos lados. Falava de Jung, que lhe aconselhou a ler as Metamorfoses de Ovídio. Era poesia. Não sei se em algum lugar, de algum jeito, continuamos a existir; de algum absurdo modo, a falar, ver e sentir. Por isso não sei como mandar teu livro pra Nise. Mas se isto fosse possível, mandaria teu livro para algum lugar, onde Nise existiria, e assim escreveria a dedicatória: “Minha amada Nise: recebe este livro, metamorfose de flor, rio e estrela. Uma maneira que encontrei para recordar que ainda somos capazes de encantamento”. Não coube no email anterior colocar toda a surpresa, todo o prazer que a leitura de Carteira de Identidade me trouxe. As imagens de Elvira Vigna, que incrível sensibilidade! Dois rios que se juntaram nesse trabalho. É como se teus poemas escorressem dos desenhos dela, feito o sumo de uma fruta, redesenhando pelas palavras novos sentidos. Esse processo alquímico aparece brilhante em Vento, como um buquê de significados que se entrelaçam. Mais uma vez a imagem das borboletas me trazem a sensação de metamorfose poética. Nada é estático. Palavras e imagens se mexem dentro de quem lê. Não sou teórico nem acadêmico, mas acho que consigo enxergar e sentir a beleza de um som ou de um pensamento que atinge meu coração. E esse teu livro me atingiu com força e delicadeza. Um beijo, Cristiano Mota

Vera Maria Tietzmann Silva

Roseana Murray: poemas para ler na escola Poesia juvenil, um terreno pouco trilhado. A ideia de se fazer um tipo especial de texto para o adolescente é relativamente nova. As gerações passadas, que se iniciavam na leitura pelos quadrinhos e livros infantis, passavam às novelas de aventuras e, destas, aos grandes ficcionistas e poetas, fazendo essa transição de modo natural, sem traumas ou dificuldades. Quando os hormônios promoviam suas mudanças no corpo, e o anseio amoroso ou as dúvidas existenciais avassalavam a mente e inquietavam o coração, meninos e meninas buscavam nos poetas consagrados a voz capaz de expressar em palavras o que eles próprios sentiam. Liam, então, indiscriminadamente poetas clássicos e modernos, portugueses e brasileiros, de Castro Alves a Vinícius, de Camões a Cecília. Não se cogitava a hipótese de existir uma poesia voltada para a adolescência. Nos anos 70, com a expansão editorial e a intensa oferta de livros para a criança e o jovem, esse público passou a ter acesso a uma produção cultural específica e atraente. Contudo, a presença da literatura infantil e juvenil na escola parece ter acompanhado a divisão das séries, predominando as obras infantis, voltadas para a primeira fase do Ensino Fundamental, havendo menos opções para pré-adolescentes e adolescentes. [1] Texto publicado na coletânea de artigos críticos Olhar o poema: teoria e prática do letramento poético, organizada por Débora Cristina dos Santos e Silva, Goiandira Ortiz de Camargo e Maria Severina Batista Guimarães (Goiânia: Cânone Editorial, 2012), p.165-177. Ainda assim, a chamada literatura juvenil, de contornos e limites tão imprecisos quanto os do físico e da mente de seus leitores, sem dúvida existe e vem merecendo a atenção da crítica especializada, servindo já há algum tempo de corpus de análise para dissertações e teses acadêmicas. Uma consulta aos catálogos das editoras logo deixa perceber que sob o rótulo de juvenil há um imenso número de novelas e contos, porém escassos livros de poemas. A faixa fronteiriça entre o infantil e o adulto, o reduzido espaço que permeia essas duas fases da vida, parece estreitar-se ainda mais quando se entra no domínio do poético. Em boa parte dos livros de poemas declaradamente juvenis observa-se que a qualidade estética com frequência deixa a desejar, seja pela banalidade do conteúdo, seja pela indigência das soluções formais – são poucas as obras que merecem o nome de poesia. Nesse cenário, a obra de Roseana Murray destaca-se pela excelência. Roseana Murray, que estreou na literatura em 1980 com um livro de poemas para a infância, inclui-se entre os primeiros poetas a contemplar o público jovem. Desde a década de 80, ela vem construindo uma obra sólida e constante, de amplo reconhecimento da crítica, o que se evidencia nas sucessivas premiações e nos estudos críticos sobre sua obra, realizados principalmente nos programas de pós-graduação em Letras. Roseana também incursionou na ficção, mas seu território essencial é a poesia, que ela produz em diversas modulações, ora mais voltada para crianças, ora para jovens ou mesmo para leitores adultos. As gradações de tom, léxico, temática ou recursos estilísticos às vezes são tão sutis que se levanta a dúvida sobre qual seria, afinal, o público-alvo pretendido. Frequentemente é no formato e no projeto gráfico, ou, ainda, no catálogo da editora, mais do que nos textos em si, que o leitor vai encontrar esse esclarecimento. Se o destinatário dos poemas de Roseana Murray nem sempre é declarado, a sua leitura autoriza duas certezas: de que se está diante de textos genuinamente poéticos e de que a autora não subestima seu leitor com facilitações de linguagem e obviedades de assuntos. Poesia, um modo especial de ver a realidade Mais do que a típica disposição na mancha gráfica ou a valorização do estrato sonoro da língua, o poema se revela como tal por constituir um modo especial de olhar. O poeta observa o mundo com um olhar novo, como se o visse pela primeira vez. O leitor, diante do texto, revive essa capacidade de ter um olhar inaugural, capaz de ver poeticamente as coisas mais banais. Por isso, todo poema bem construído deve surpreender o leitor, seja pela originalidade do enfoque, seja pelo uso criativo da linguagem. Um poema se faz com uma constelação de imagens. Sim, porque é de fato nas imagens que se alicerça a linguagem poética. A palavra ou locução que corporifica a imagem – em geral um substantivo concreto que se deixa visualizar na mente de quem lê – marca-se pela densidade e se intensifica pela repetição. A leitura de um texto poético pede uma atitude especial do leitor: atenta, alerta, disponível, isso porque cabe a ele fazer o preenchimento dos espaços do não dito, a tradução das metáforas e alegorias, o desvendamento daquilo que é apenas sugerido, a descoberta das alusões a outros textos e autores. Ora, quem concede esse papel de parceria no jogo poético, como faz Roseana Murray, parte do pressuposto de que seu leitor é inteligente. O leitor de poesia precisa estar atento às peculiaridades da dicção poética para ser capaz de fruí-la em sua justa medida. Para tanto, ele deve ter o ouvido aguçado para apreciar o jogo das sonoridades que, como a música, evoca sentimentos e sensações, reforçando o que as palavras dizem. E ele precisa ter também a visão desenvolvida, ser capaz de “ver com a imaginação”, visualizar mentalmente em cores, formas e volumes aquilo que as imagens poéticas apenas sugerem. Para perceber as imagens e reconhecer as intertextualizações, escondidas aqui e ali sob a capa de alusões, o leitor de poesia não pode ser um neófito. Ele precisa ter alguma experiência de leitura, ser capaz de ir além da superfície dos versos. Por isso, esses recursos estilísticos são menos frequentes nos poemas infantis, onde os jogos sonoros e as brincadeiras com as palavras, que as crianças tanto apreciam, são mais presentes. Além disso, o leitor precisa desarmar-se das peias do pensamento lógico e abrir-se à imaginação sem rédeas, como faz nos momentos de sonho ou de devaneio. Isto porque a poesia reside

Surpresa no Clube de Leitura

Ontem nosso encontro do Clube de Leitura foi cheio de surpresas. Recebemos muitos hóspedes novos para discutir Morte e Vida Severina do João Cabral e Sagarana do Guimarães Rosa. Às 10 horas a mesa da varanda já estava pronta, 3 mesas juntas, onde se sentariam 24 pessoas. A temperatura estava amena, o dia lindo. E começaram a chegar os convidados. Hélio e Fernando, Edith Lacerda, pela primeira vez no Clube e Maria Clara. Chegaram as duas Ângelas. Isabela e Adelaide, mãe e filha, primeira vez no Clube. Chico Perez, nosso vereador poeta, Felipe e sua amiga-quase-namorada Gisele, Gil de cabelo afro, Aline, (a filha do Samuel, aniversariante ontem, nosso jardineiro e Vanda, nossa caseira), entrou para o Clube e estava linda e eufórica, era a sua primeira experiência do gênero. Chegaram Flora e Héctor. Começamos sem o Professor Ivo que chegou logo depois com Rejane e Carmen Regina. Leila me telefonou do Rio, inconsolável: quando foi estacionar seu carro na Rodoviária do Rio, o vidro explodiu e não podia deixar o carro estacionado sem vidro, então não veio. Começamos com uma leitura em voz alta do maravilhoso trecho do livro que o Chico Buarque musicou e então destacamos os trechos que mais impactaram cada um. Gil falou da sua avó retirante. Maria Clara e Edith falaram da beleza dos ofertórios, os presentes da terra que era oferecido ao recém-nascido. Juan falou da beleza do que é feito com as mãos. Falamos da morte nômade e do final esplêndido em que a vida vence a morte. Falamos do título: não é Vida e Morte, mas sim Morte e Vida. Falamos do nome Severino usado como adjetivo.Fernando falou da vida “severa” que vem de Severino. Aline falou que era uma grande lição: quando se pensa que tudo está perdido vem a vida e nos oferece outra vida. Já íamos começar a discutir os contos do Sagarana quando chegou a grande surpresa que guardei no fundo da boca, não contei para ninguém. Felipe começava a ler o conto Fita Verde no Cabelo quando chegaram Ana Cristina, Cristiano Mota e Ronaldo Mota. Os dois foram do grupo Hombu. Eles são um duo que canta Guimarães Rosa e trouxeram o violão. Aí pronto, foi uma aula de Guimarães Rosa recheada de canções. Impossível escrever tudo o que falamos e ouvimos. Foi uma cachoeira de Guimarães, um grande mergulho. Ana Cristina trabalha no SESC Teresópolis e também é cantora. Eles foram trazidos pelas mãos do Carlos Dimuro que não veio, mas nos deu este presente ao saber que discutiríamos Sagarana. Messias, nosso amigo mais do que amado, foi o grande ausente. Mas o vento maravilhoso que soprava ontem, foi um pedido especial do Messias. Ele, como a Menina de Lá do Guimarães, faz muitos milagres. Quando passamos para a mesa, já estávamos mais do que alimentados, mas a Vanda fez uma comidinha bem da roça no fogão de lenha onde era servida: um arroz maluquinho com muitas surpresas dentro, feijão mulatinho com paio e linguiça e farofa de couve e ovo. Na mesa pães feitos por mim, azeite, vinho, salada de trigo sarraceno. De sobremesa a torta de aniversário do Samuel., pudemos cantar o parabéns com Ronaldo Mota no violão.Flora e Hélio trouxeram pudim. Nosso próximo encontro será dia 27 de abril e o livro: O Físico, do Noah Gordon . Pedi que todos tragam poemas árabes da Idade Média.

Encontro na Casa Amarela

Ontem o Clube de Leitura da Casa Amarela se reuniu e recebeu novos habitantes: três professoras de Saquarema trazidas pela mão do Prof.Ivo. Discutimos os livros “Madalena, O Último Tabú do Cristianismo” do Juan Arias, com ele presente. (Era surpresa. Foi idéia do Fernando , que não pode vir. Combinamos a leitura do livro em segredo total.) e “O Carteiro e o Poeta” do Antonio Skármeta. Também tinhamos que trazer para o nosso encontro a poeta chilena , Prêmio Nobel de literatura, Gabriela Mistral e quem lesse um poema da Gabriela o dedicaria a alguém. O dia estava lindo e a temperatura amena. Chico Perez, nosso único vereador poeta, Flora, Héctor, Maria Clara, Gil, Ivo, Leila, duas Ângelas, o filho da Gil de 12 anos , Felipe, as três novas professoras, eu e Juan, nos entrelaçamos na sala para discutir a Madalena. Depois da surpresa inicial do Juan, Gil começou falando que o livro para ela havia sido um terremoto, pois destruia o seu castelo encantado onde Madalena era uma prostituta arrependida. Mas, pouco a pouco , ela ia voltando ao livro e reconstruindo a figura desta belíssima mulher que não era prostituta e nem arrependida, mas uma mulher culta , interlocutora de Jesus. Foi uma discussão acalorada e apaixonada, maravilhosa. Todos participaram, menos Felipe, que disse que se recusava a discutir um assunto ausente da sua vida. Juan, que estuda teologia desde muito jovem e se formou em teologia e linguas semíticas em Roma, nos trazia a segurança do seu conhecimento, ele nos oferecia uma nova Madalena e seu tempo e ela na frente do seu tempo, uma mulher maravilhosa. O Carteiro e o poeta também gerou paixões.Leila falou da torrrente de emoções que o livro desatou dentro dela, a partir da amizade entre o carteiro e Neruda e ela chorou muito quando leu o livro e chorou muito enquanto falava. Gil disse que foi o livro mais bonito que leu até agora desde que entrou para o Clube: um livro completo, amor, amizade e poesia. Todos falaram da maravilha que foi o encontro do carteiro com a poesia, como este encontro iluminou e mudou a sua vida. Juan disse que não era um livro sobre a amizade, mas sim sobre a poesia, que o carteiro se apaixonou pela poesia e não pelo Neruda como pessoa. Claro que ficaram amigos e também é um livro sobre a amizade, mas é o encontro de uma pessoa qualquer, simples, com a poesia. Héctor achou que era um livro político, que a história era apenas um pretexto, mas quase ninguém concordou. Todos concordaram em que saber a história recente do Chile ampliava a leitura do livro. E vieram os poemas da Gabriela Mistral. Foi um momento luminoso. Cada um trouxe um poema mais belo do que o outro e dedicava a alguém presente. Angela e Maria Clara trouxeram livros para sortear, o “Confesso que vivi” do Neruda e “A Maior Flor do Mundo” do Saramago., Felipe também trouxe um livro do Quintana, e ele ofereceu a alguém que verdadeiramente quisesse o livro. E o poema que falou da Gabriela Mistral era para falar da sua dor, da sua decepção amorosa. E então fomos para a mesa do almoço , na varanda . Espalhei flores sobre a mesa. A feijoada no fogão de lenha. Pão e Vinho, literatura e amizade. Verdadeira celebração. Próximo encontro: dia 23 de fevereiro. Livros: Sagarana, João Guimarães Rosa e Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto.

Gloria Kirinus

No “Diário da Montanha” de Roseana Murray tem mãe e tem filhos. Tem mala aberta, hortênsias e mandala. E ainda Café, pele e Juan. E muito, muito mais… Assim, como se fosse um dicionário de inspirações, procuro este Diário que me alimenta, comove e aquieta quando estou a procura de algo que nem eu bem sei…Aliás, algo que não sabia, porque depois que achei o poema “redemoinho” aprendi a lição de redemoinhar: ” Veio um redemoinho e virou o tempo : as árvores enlouqueceram, como se subitamente não suportassem mais as raízes no chão”. (….) p. 63 E foi ali, nesse último verso da primeira estrofe deste poema intenso e vivo que eu também me desprendi do tempo, do espaço e passou a tarde por mim. Obrigada, Roseana, pela beleza de livro, pelo presente da sua montanha e seu belo diário. Gloria Kirinus

Arnoldo de Souza

Roseana me envia seu livro mais recente, talvez já não seja . Leio , releio , levo-o comigo para Paris, onde , na energia de Mallarmé, Baudellaire e Apolinaire, depois de muito ler e reler, teço essas palavras, minha impressão sobre esse mais novo trabalho dessa poeta amiga, fada da palavras. Em meio a montanha, inebriada de matas , plantas e muita água, Roseana jorra sua poesia como uma enchente, uma tromba d’água inundando as casas da floresta, os vasos de plantas , enchendo o cálice das begônias com sua poesia encantada. E os seres da mata, os entes da natureza estão impregnados em sua narrativa rupestre; seja os duendes e gnomos , transparecendo nos jardins dos seus versos livres , seja os Tronos , em eterno sacríficio pelo surgimento cósmico da beleza da natureza , traduzida por Roseana , seja os serafins e querubins , anjos do amanhecer e do crepúsculo, ornando as bordas dos dias incrustados na poesia-memória de nossa autora. Magia que reflete a luz condensada como expressão da matéria , e o amor expandido como reflexo da energia que paira no vácuo perfeito de toda eternidade. Sim , magia e luz, seres e floresta, água e memória , canto , pranto e paixão desmesurada pela vida , pelos seres do universo. Tudo narrado em verso feito com pergaminho e grafite, iluminado com lamparina , como soe acontecer aos poetas, antenas da raça, em seu exílio da serra , com sua ancestralidade atávica que a faz ressoar na alma sua poesia-mensagem mágica , cotidiana , absurdamente bela, encantadora e encharcada de dor e leveza , amor , carinho e densidade rítmica rara de se ver , boa de se ler, que permanece nos músculos de nossa memória e nos acompanha no perpassar do dia a dia . Espero o próximo . Grande abraço Arnoldo de Souza

Clube de Leitura da Casa Amarela

Nosso encontro de hoje do Clube de Leitura da Casa Amarela foi marcado por ausências. Não vieram, Felipe, Andrea e Cris, de Duque de Caxias. Leila não veio . Messias não veio. Mas vieram todos os outros: Hélio e Fernando, Maria Clara, Chico, Gil, as duas Ângelas, e Ivo, pela primeira vez. Lemos A DAMA DO CACHORRINHO de Anton Tchékhov. Cada um falou do seu conto predileto, daquele que mais tocou seu coração. O conto Vanka, do menino que escreve a carta para o avô foi uma paixão geral. Hélio se debruçou sobre o coração do menino. Todos nos emocionamos com a história tão triste do menino que quer voltar para junto do seu avô. Falamos do conto nas suas minúcias. Maria Clara identifica o avô com o Papai Noel, é um conto de natal. Gil escolheu como seu o conto da Corista e fez uma leitura belíssima . Falou da bondade da corista, da sua sensibilidade e era apenas uma prostituta. Juan falou do conto A Irrequieta e de como o nosso tesouro está quase sempre ao nosso lado e não o vemos . Todos concordamos que o autor nos leva a um desfile impressionante de personagens e conhece conmo poucos a alma humana. A Russia dos tzares hoje esteve em nossa sala. Todos amaram o pequeno livro imenso. Todos ressaltaram a abertura dos contos, nenhum final é fechado. E esse tempo, único, que não existe mais, existe. Basta abrir o livro em qualquer conto e já estaremos instalados numa troika, numa casa de um nobre, de um camponês, um burguês. E a manivela do tempo, a literatura, com todas as suas engrenagens , trará até nós , estas cenas de um passado tão rico, tão denso. Celebramos com pão, vinho e uma comida maravilhosa preparada pela Vanda, nossa caseira de nome russo, a alegria de discutirmos um belo livro. E cantamos parabéns com uma torta maravilhosa de nozes e chocolate branco, pois Vanda fez 50 anos.