{"id":734,"date":"2018-05-15T10:42:36","date_gmt":"2018-05-15T13:42:36","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=734"},"modified":"2018-05-15T10:42:36","modified_gmt":"2018-05-15T13:42:36","slug":"krishnamurti-goes-dos-anjos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2018\/05\/15\/krishnamurti-goes-dos-anjos\/","title":{"rendered":"Krishnamurti Go\u00e9s dos Anjos"},"content":{"rendered":"<p>Sabemos que o metr\u00f4nomo \u00e9 um instrumento que marca o ritmo das m\u00fasicas. O seu funcionamento \u00e9 constru\u00eddo para dar suporte a mensura\u00e7\u00e3o da passagem do tempo, permite que a m\u00fasica flua com maior organiza\u00e7\u00e3o e expressividade e assim, tempo e m\u00fasica se misturam metaforicamente a tecer a po\u00e9tica de Roseana que se pergunta sobre essa costura de t\u00eanues fios:<br \/>\n\u201cA linha\u201d<\/p>\n<p>\u201cDe onde vem \/ essa linha fina \/ de costurar poesia? \/ De qual oriente? \/ De qual mil e uma \/ noites, \/ de qual dia? \/ De onde a seda \/ dessa linha \/ que borda, \/ que transborda \/ do papel \/ para o mar \/ e o c\u00e9u? \/ De que estrela \/ desconhecida, \/ de que bicho \/ da seda?\u201d<\/p>\n<p>Abordando temas densos como a solid\u00e3o, a morte, a ang\u00fastia, a mem\u00f3ria e as perdas, os poemas se sustentam em refinado jogo de linguagem que transparece apenas para revelar o que \u00e9 simples e delicado no cotidiano que est\u00e1 em todas as coisas, sobretudo no sil\u00eancio. Este, visto n\u00e3o somente como necess\u00e1rio \u00e0 apreens\u00e3o das verdades da vida, mas, por outro lado, quando precisa ser quebrado. Um ouvido no sil\u00eancio e outro no verbo portanto.<\/p>\n<p>\u201cNoz\u201d<\/p>\n<p>\u201cE se o teu sil\u00eancio \/ se partisse feito uma noz, \/ um c\u00e1lice \/ e se fizesse m\u00fasica, \/ e rumor de um rio,  \/ de um riso, \/ de passos sobre folhas \/ secas, \/ de fio de luz \/ esgar\u00e7ando a noite, \/ ou chuva. \/ E se o teu sil\u00eancio \/ se abrisse \/ e desvendasse \/ uma escrita t\u00e3o antiga, \/ perdida?\u201d<\/p>\n<p>A autora segue despertando verdadeiras epifanias, veja-se a profundidade existencial de um poema como: \u201cO que te espera\u201d<\/p>\n<p>\u201cAncorado no cais \/ da palavra \/ um barco te espera, \/ um rio te espera, \/ no azul da montanha, \/ um o\u00e1sis te espera \/ na orla do deserto, \/ uma miragem \/ te espera \/ na superf\u00edcie da vig\u00edlia, \/ a vida te espera, \/ o assombro, \/ o espanto\u201d<\/p>\n<p>E sempre um retorno ao fundamental da vida. \u201cAs m\u00e3os\u201d nos faz relembrar o pensamento de Octavio Paz. \u201cAs palavras chegam e se juntam sem que ningu\u00e9m as chame; e essas reuni\u00f5es e separa\u00e7\u00f5es [&#8230;] s\u00e3o regidas por uma ordem de afinidades e repuls\u00f5es. As palavras se juntam e se separam atendendo a certos princ\u00edpios r\u00edtmicos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAs m\u00e3os querem \/ m\u00fasica \/ quando abrem \/ a caixa da vida \/ para que a noite \/ escreva estrelas \/ cadentes \/ e o dia o seu trigo, \/ seus girass\u00f3is. \/ As m\u00e3os querem \/ a \u00e1gua do po\u00e7o \/ das palavras \/ que voam\u201d.<\/p>\n<p>Em outro poema, \u201cPasto\u201d, a poeta cria por analogia. Seu modelo \u00e9 o ritmo que move o poema,  palavras em estado de abund\u00e2ncia verbal, corrente r\u00edtmica que se manifesta em imagens e n\u00e3o em conceitos. <\/p>\n<p>\u201cEm meu pasto \/ de palavras, \/ por debaixo \/ da terra, \/ onde correm \/ profundos \/ os veios de \u00e1gua, \/ os veios do que \/ pode e n\u00e3o pode \/ ser dito, \/ onde uma luz \/ \u00e0s vezes sombra \/ acende a m\u00fasica \/ oculta dos sentidos, \/ cavalos se aquietam \/ diante do abismo, \/ onde caem as horas\u201d<\/p>\n<p>E mais uma vez, e aprofundando o que j\u00e1 fora dito, o poema \u201cO rio invis\u00edvel\u201d revela o talento da autora que se volta para perceber a poesia contida desde um simples rio, ao sol.<\/p>\n<p>\u201cA musica do rio \/ invis\u00edvel, \/ que canta \/ conduzindo \/ os navegantes, \/ os sem rumo, \/ os perdidos, \/ os maltrapilhos. \/ H\u00e1 que ouvir \/ essa voz distante, \/ para sair \/ do labirinto. \/ H\u00e1 que buscar \/ as setas \/ que apontam \/ o nome: \/ aquele escrito \/ com o sol. \/ S\u00f3 ent\u00e3o \/ a alma pode \/ voar e levar \/ o corpo \/ e mesmo que a luz \/ desfa\u00e7a suas asas, \/ ser\u00e1 poss\u00edvel enxergar \/ na escurid\u00e3o<\/p>\n<p>Uma obra como \u201cPoemas para metr\u00f4nomo e vento\u201d ajuda-nos a ascender a novas fases de consci\u00eancia. Inebria-nos com o c\u00e2ntico das grandes leis da vida, nos faz voar, leve, r\u00e1pido, distilando intelectualidade mas, num sentido de orienta\u00e7\u00e3o. Desperta afinal, resson\u00e2ncias noutras almas e isso j\u00e1 \u00e9 muito. O mundo hoje, mais do que nunca tem necessidade destas revela\u00e7\u00f5es \u00edntimas. Precisa destas afirma\u00e7\u00f5es de espiritualidade, necessita de quem grite, em tempos de materialismo e ego\u00edsmo desenfreados, a grande palavra da alma; de quem d\u00ea, em tempos de apatia e indiferen\u00e7a, exemplo de f\u00e9; de quem repita, as grandes verdades esquecidas. Confiram detidamente isto, e outras coisas bem pr\u00f3ximas, em poemas como: \u201cGeografia\u201d, \u201cPara caber no corpo\u201d, \u201cNas paredes\u201d, \u201cA chave\u201d, \u201cVoo\u201d, \u201cViajante\u201d e finalmente \u201cVazio\u201d, que transcrevemos:<\/p>\n<p>\u201cAntes quase no come\u00e7o \/ do mundo, \/ quando as estrelas \/ diziam o caminho \/ e os p\u00e1ssaros eram \/ a fronteira entre \/ o c\u00e9u e a terra, \/ as palavras ainda \/ buscavam a sua m\u00fasica \/ e os p\u00e9s deixavam \/ a marca indel\u00e9vel \/ dos que passavam \/ em busca do que n\u00e3o \/ tinha nome. \/ Hoje, o vazio do que \/ est\u00e1 sempre abarrotado \/ de tudo \/ \u00e9 o abismo onde ca\u00edmos \/ todos os dias. \/ As palavras j\u00e1 n\u00e3o \/ se entrela\u00e7am, \/ s\u00e3o ru\u00eddos roucos \/ e in\u00fateis. \/ H\u00e1 que reinventar \/ o tempo. \/ Largo e liso \/ feito um lago. \/ Espelho do que \/ um dia fomos\u201d. <\/p>\n<p><strong>Livro: Poemas para metr\u00f4nomo e vento \u2013 Poesias de Roseana Murray<br \/>\nEditora Penalux, Guaratinguet\u00e1 SP, 2018, 110 p.<br \/>\nISBN: 978-85-5833-323-8<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabemos que o metr\u00f4nomo \u00e9 um instrumento que marca o ritmo das m\u00fasicas. 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Este, visto n\u00e3o somente como necess\u00e1rio \u00e0 apreens\u00e3o das verdades da vida, mas, por outro lado, quando precisa ser quebrado. Um ouvido no sil\u00eancio e outro no verbo portanto. \u201cNoz\u201d \u201cE se o teu sil\u00eancio \/ se partisse feito uma noz, \/ um c\u00e1lice \/ e se fizesse m\u00fasica, \/ e rumor de um rio, \/ de um riso, \/ de passos sobre folhas \/ secas, \/ de fio de luz \/ esgar\u00e7ando a noite, \/ ou chuva. \/ E se o teu sil\u00eancio \/ se abrisse \/ e desvendasse \/ uma escrita t\u00e3o antiga, \/ perdida?\u201d A autora segue despertando verdadeiras epifanias, veja-se a profundidade existencial de um poema como: \u201cO que te espera\u201d \u201cAncorado no cais \/ da palavra \/ um barco te espera, \/ um rio te espera, \/ no azul da montanha, \/ um o\u00e1sis te espera \/ na orla do deserto, \/ uma miragem \/ te espera \/ na superf\u00edcie da vig\u00edlia, \/ a vida te espera, \/ o assombro, \/ o espanto\u201d E sempre um retorno ao fundamental da vida. \u201cAs m\u00e3os\u201d nos faz relembrar o pensamento de Octavio Paz. \u201cAs palavras chegam e se juntam sem que ningu\u00e9m as chame; e essas reuni\u00f5es e separa\u00e7\u00f5es [&#8230;] s\u00e3o regidas por uma ordem de afinidades e repuls\u00f5es. As palavras se juntam e se separam atendendo a certos princ\u00edpios r\u00edtmicos\u201d. \u201cAs m\u00e3os querem \/ m\u00fasica \/ quando abrem \/ a caixa da vida \/ para que a noite \/ escreva estrelas \/ cadentes \/ e o dia o seu trigo, \/ seus girass\u00f3is. \/ As m\u00e3os querem \/ a \u00e1gua do po\u00e7o \/ das palavras \/ que voam\u201d. Em outro poema, \u201cPasto\u201d, a poeta cria por analogia. Seu modelo \u00e9 o ritmo que move o poema, palavras em estado de abund\u00e2ncia verbal, corrente r\u00edtmica que se manifesta em imagens e n\u00e3o em conceitos. \u201cEm meu pasto \/ de palavras, \/ por debaixo \/ da terra, \/ onde correm \/ profundos \/ os veios de \u00e1gua, \/ os veios do que \/ pode e n\u00e3o pode \/ ser dito, \/ onde uma luz \/ \u00e0s vezes sombra \/ acende a m\u00fasica \/ oculta dos sentidos, \/ cavalos se aquietam \/ diante do abismo, \/ onde caem as horas\u201d E mais uma vez, e aprofundando o que j\u00e1 fora dito, o poema \u201cO rio invis\u00edvel\u201d revela o talento da autora que se volta para perceber a poesia contida desde um simples rio, ao sol. \u201cA musica do rio \/ invis\u00edvel, \/ que canta \/ conduzindo \/ os navegantes, \/ os sem rumo, \/ os perdidos, \/ os maltrapilhos. \/ H\u00e1 que ouvir \/ essa voz distante, \/ para sair \/ do labirinto. \/ H\u00e1 que buscar \/ as setas \/ que apontam \/ o nome: \/ aquele escrito \/ com o sol. \/ S\u00f3 ent\u00e3o \/ a alma pode \/ voar e levar \/ o corpo \/ e mesmo que a luz \/ desfa\u00e7a suas asas, \/ ser\u00e1 poss\u00edvel enxergar \/ na escurid\u00e3o Uma obra como \u201cPoemas para metr\u00f4nomo e vento\u201d ajuda-nos a ascender a novas fases de consci\u00eancia. Inebria-nos com o c\u00e2ntico das grandes leis da vida, nos faz voar, leve, r\u00e1pido, distilando intelectualidade mas, num sentido de orienta\u00e7\u00e3o. Desperta afinal, resson\u00e2ncias noutras almas e isso j\u00e1 \u00e9 muito. O mundo hoje, mais do que nunca tem necessidade destas revela\u00e7\u00f5es \u00edntimas. Precisa destas afirma\u00e7\u00f5es de espiritualidade, necessita de quem grite, em tempos de materialismo e ego\u00edsmo desenfreados, a grande palavra da alma; de quem d\u00ea, em tempos de apatia e indiferen\u00e7a, exemplo de f\u00e9; de quem repita, as grandes verdades esquecidas. Confiram detidamente isto, e outras coisas bem pr\u00f3ximas, em poemas como: \u201cGeografia\u201d, \u201cPara caber no corpo\u201d, \u201cNas paredes\u201d, \u201cA chave\u201d, \u201cVoo\u201d, \u201cViajante\u201d e finalmente \u201cVazio\u201d, que transcrevemos: \u201cAntes quase no come\u00e7o \/ do mundo, \/ quando as estrelas \/ diziam o caminho \/ e os p\u00e1ssaros eram \/ a fronteira entre \/ o c\u00e9u e a terra, \/ as palavras ainda \/ buscavam a sua m\u00fasica \/ e os p\u00e9s deixavam \/ a marca indel\u00e9vel \/ dos que passavam \/ em busca do que n\u00e3o \/ tinha nome. \/ Hoje, o vazio do que \/ est\u00e1 sempre abarrotado \/ de tudo \/ \u00e9 o abismo onde ca\u00edmos \/ todos os dias. \/ As palavras j\u00e1 n\u00e3o \/ se entrela\u00e7am, \/ s\u00e3o ru\u00eddos roucos \/ e in\u00fateis. \/ H\u00e1 que reinventar \/ o tempo. \/ Largo e liso \/ feito um lago. \/ Espelho do que \/ um dia fomos\u201d. 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