{"id":572,"date":"2017-03-13T10:32:59","date_gmt":"2017-03-13T13:32:59","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=572"},"modified":"2017-03-13T10:32:59","modified_gmt":"2017-03-13T13:32:59","slug":"o-remanescente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2017\/03\/13\/o-remanescente\/","title":{"rendered":"O Remanescente"},"content":{"rendered":"<p>Nosso encontro do Clube de Leitura do dia 11 de mar\u00e7o de 2017 reuniu muita gente em torno do livro O remanescente de Rafael Cardoso.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-574\" src=\"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/roseana-murray-saquarema.jpg\" alt=\"roseana-murray-saquarema\" width=\"900\" height=\"520\" \/>Quando li o livro fiquei muito impactada, pois essa hist\u00f3ria tem liames profundos com a minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Quando uma hist\u00f3ria se enla\u00e7a com a nossa, quando numa grande vertigem somos sugados para dentro de um livro, para um outro espa\u00e7o &#8211; tempo, quando seus personagens se fundem com nossas almas e ossos, ent\u00e3o o milagre aconteceu e sa\u00edmos do lado de l\u00e1 transformados, porque n\u00e3o h\u00e1 lado de l\u00e1 ou de c\u00e1.<\/p>\n<p>Eu estava em Visconde de Mau\u00e1, na minha casinha da montanha, acendendo o fog\u00e3o de lenha. Uma p\u00e1gina de jornal na minha m\u00e3o falava da Berlim de 1920, da Berlim do Nazismo, da Berlim de hoje, t\u00e3o miscigenada. N\u00e3o acreditei na coincid\u00eancia. Personagens que estavam na festa que abre o livro em julho de 1930, estavam no artigo.<\/p>\n<p>Resolvi guardar o jornal e abrir o nosso debate com a sua leitura. Propus discutirmos o livro por cenas ou acontecimentos.<\/p>\n<p>Mas Cristiane disse, n\u00e3o! Antes preciso ler as \u00faltimas frases do Prel\u00fadio.<\/p>\n<p>No prel\u00fadio o autor conta como foi atropelado por sua hist\u00f3ria familiar quando soube que seus av\u00f3s n\u00e3o eram franceses, mas sim alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Cristiane leu: \u201c Palavras podem conter imagens. Imagens podem ter significados m\u00faltiplos. Tudo pode n\u00e3o ser bem o que parece. Este livro n\u00e3o \u00e9 um simples invent\u00e1rio de achados, mas o memorial da enxada que revira a terra escura do passado\u201d.<\/p>\n<p>Eu mesma contei um pouco da minha inf\u00e2ncia. A tristeza que foi viver numa casa de imigrantes. Meus pais tamb\u00e9m vieram de navio. E eu nunca fiz as perguntas que hoje est\u00e3o na ponta da minha l\u00edngua, mas n\u00e3o h\u00e1 pap\u00e9is para decifrar, eles est\u00e3o mortos, morrerei tamb\u00e9m sem as respostas.<\/p>\n<p>La\u00eds e Sarita\u00a0falaram a mesma coisa. Elas tamb\u00e9m filhas de imigrantes judeus poloneses.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7amos com a primeira cena do livro. Uma festa magn\u00edfica na casa do Hugo Simon, banqueiro, homem sens\u00edvel, socialista, judeu alem\u00e3o totalmente assimilado, mecenas, culto, um homem verdadeiramente extraordin\u00e1rio, cercado pela nata da intelig\u00eancia alem\u00e3. Fil\u00f3sofos, pintores, cientistas. Estamos em abril de 1930. Gertrudes sua mulher \u00e9 uma anfitri\u00e3 perfeita. O casal est\u00e1 vivendo o esplendor, que logo, se estilha\u00e7ar\u00e1 em mil peda\u00e7os. Como os vidros, na noite de cristal.<\/p>\n<p>Passamos para a cena do restaurante onde est\u00e3o Demeter e Ursula e onde pela primeira vez nos defrontamos com um nazista de carne e osso. O primeiro ovo da serpente. Este nazista reage violentamente a um beijo entre duas mulheres e Ursula sai em defesa das duas de uma maneira magn\u00edfica e selvagem.<\/p>\n<p>Evelyn Kligerman sublinha o quanto esta Ursula se parte e fragiliza com o ex\u00edlio e o tri\u00e2ngulo amoroso que viver\u00e1 com a irm\u00e3.<\/p>\n<p>Falamos da fuga. De como Gertrudes j\u00e1 estava com tudo preparado antes de Hugo lhe dizer que fugiriam. Falamos da intui\u00e7\u00e3o feminina, mas Andre Murray, meu filho,sublinha que esta mulher que sabia organizar um jantar esplendidamente, sabendo quem deveria sentar-se ao lado de quem, era uma grande estrategista e usa esse talento cada vez em que a linha entre a vida e a morte fica muito t\u00eanue.<\/p>\n<p>Hector diz que era impressionante como os nazistas nunca estavam a mais de 300 metros dos personagens. Hector nos lembra as origens da II Guerra e fala em como hoje estamos vivendo um momento tamb\u00e9m t\u00e3o estranho e perigoso.<\/p>\n<p>Falamos da fuga de Paris, de como Demeter, que no come\u00e7o era um d\u00e2ndi, cresce como ser humano a partir do momento em que n\u00e3o sendo judeu, escolhe ficar com a fam\u00edlia, fugir do trem, entrar para a resist\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Gilcilene diz que ficou muito triste do autor n\u00e3o escrever o seu reencontro com a fam\u00edlia que conseguiu resgatar.<\/p>\n<p>Falamos da chegada no Brasil. Do medo, do pavor de que a identidade original pudesse vir \u00e0 tona. Falamos do Estado Novo.<\/p>\n<p>La\u00eds nos diz que o livro nos torna melhores, e que para al\u00e9m de todos os ismos o que conta \u00e9 a bondade humana, a capacidade que o ser humano tem de se reinventar, de cair e levantar.<\/p>\n<p>Falamos do milagre da amizade entre Hugo e Bernanos. Do suic\u00eddio de Walter Benjamin e Setephan Zweig. Cristiano conta que Walter Benjamin j\u00e1 estava convidado para dar aulas no Brasil.<\/p>\n<p>Falamos do encontro lindo entre Demeter e Lasar S\u00e9gall debaixo da chuva.<\/p>\n<p>Do desejo latente todo o tempo de revelar a identidade oculta, que lateja e d\u00f3i muito. Evelyn sublinha que hoje por um nada nos derrubamos e imagina o que esses imigrantes passaram, como tiveram que cair e se levantar e seguir em frente, num ex\u00edlio em espiral que nunca termina, pois ao ex\u00edlio de fora corresponde um ex\u00edlio interno, um vagar para sempre.<\/p>\n<p>Imaginem, dissemos todos, os deslocados e exilados de hoje.<\/p>\n<p>E assim fechamos o encontro deste livro absolutamente maravilhoso.<\/p>\n<p>Lemos em voz alta alguns poemas do Gullar. Delma deu um show com o poema que escolheu.<\/p>\n<p>O almo\u00e7o esteve espl\u00eandido, um coq au vin, preparado com tanto amor por meu filho Chef Andr\u00e9 Murray. Uma torta de chocolate para os aniversariantes feita pela minha nora Daniela Keiko Takahagui Murray. Livros foram sorteados.<\/p>\n<p>E Rivka nos contou que est\u00e1 criando junto com uma amiga, um Clube de Leitura em Teres\u00f3polis. Eu s\u00f3 lembrei: Mas n\u00e3o pode faltar comida! E Rivka disse um ditado em hebraico, que sem p\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 Tor\u00e1&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nosso encontro do Clube de Leitura do dia 11 de mar\u00e7o de 2017 reuniu muita gente em torno do livro O remanescente de Rafael Cardoso. Quando li o livro fiquei muito impactada, pois essa hist\u00f3ria tem liames profundos com a minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria. 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No prel\u00fadio o autor conta como foi atropelado por sua hist\u00f3ria familiar quando soube que seus av\u00f3s n\u00e3o eram franceses, mas sim alem\u00e3es. Ent\u00e3o Cristiane leu: \u201c Palavras podem conter imagens. Imagens podem ter significados m\u00faltiplos. Tudo pode n\u00e3o ser bem o que parece. Este livro n\u00e3o \u00e9 um simples invent\u00e1rio de achados, mas o memorial da enxada que revira a terra escura do passado\u201d. Eu mesma contei um pouco da minha inf\u00e2ncia. A tristeza que foi viver numa casa de imigrantes. Meus pais tamb\u00e9m vieram de navio. E eu nunca fiz as perguntas que hoje est\u00e3o na ponta da minha l\u00edngua, mas n\u00e3o h\u00e1 pap\u00e9is para decifrar, eles est\u00e3o mortos, morrerei tamb\u00e9m sem as respostas. La\u00eds e Sarita\u00a0falaram a mesma coisa. Elas tamb\u00e9m filhas de imigrantes judeus poloneses. Ent\u00e3o come\u00e7amos com a primeira cena do livro. 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De como Gertrudes j\u00e1 estava com tudo preparado antes de Hugo lhe dizer que fugiriam. Falamos da intui\u00e7\u00e3o feminina, mas Andre Murray, meu filho,sublinha que esta mulher que sabia organizar um jantar esplendidamente, sabendo quem deveria sentar-se ao lado de quem, era uma grande estrategista e usa esse talento cada vez em que a linha entre a vida e a morte fica muito t\u00eanue. Hector diz que era impressionante como os nazistas nunca estavam a mais de 300 metros dos personagens. Hector nos lembra as origens da II Guerra e fala em como hoje estamos vivendo um momento tamb\u00e9m t\u00e3o estranho e perigoso. Falamos da fuga de Paris, de como Demeter, que no come\u00e7o era um d\u00e2ndi, cresce como ser humano a partir do momento em que n\u00e3o sendo judeu, escolhe ficar com a fam\u00edlia, fugir do trem, entrar para a resist\u00eancia&#8230; Gilcilene diz que ficou muito triste do autor n\u00e3o escrever o seu reencontro com a fam\u00edlia que conseguiu resgatar. 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Imaginem, dissemos todos, os deslocados e exilados de hoje. E assim fechamos o encontro deste livro absolutamente maravilhoso. Lemos em voz alta alguns poemas do Gullar. Delma deu um show com o poema que escolheu. O almo\u00e7o esteve espl\u00eandido, um coq au vin, preparado com tanto amor por meu filho Chef Andr\u00e9 Murray. Uma torta de chocolate para os aniversariantes feita pela minha nora Daniela Keiko Takahagui Murray. Livros foram sorteados. E Rivka nos contou que est\u00e1 criando junto com uma amiga, um Clube de Leitura em Teres\u00f3polis. Eu s\u00f3 lembrei: Mas n\u00e3o pode faltar comida! 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