{"id":47,"date":"2016-02-17T09:45:26","date_gmt":"2016-02-17T11:45:26","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=47"},"modified":"2016-02-17T09:45:26","modified_gmt":"2016-02-17T11:45:26","slug":"com-ginzburg-e-calvino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2016\/02\/17\/com-ginzburg-e-calvino\/","title":{"rendered":"Com Ginzburg e Calvino"},"content":{"rendered":"<p>Ontem me dei conta de que nosso Clube de Leitura da Casa Amarela j\u00e1 tem seis anos. Sei porque meu grande e amado amigo Latuf, que foi embora para Pas\u00e1rgada em 2010, estava vivo quando fizemos nosso primeiro encontro.<br \/>\nAcho que agora n\u00e3o h\u00e1 mais perigo do Clube se desmanchar no ar, sempre tive esse medo.<br \/>\nDesde crian\u00e7a achava que ningu\u00e9m viria nos meus anivers\u00e1rios e que claro, iriam se esquecer de mim.<br \/>\nMas os la\u00e7os que a literatura cria entre as pessoas s\u00e3o impressionantes. E cada vez mais gente quer vir ao nosso encontro.<br \/>\nOntem recebemos cinco pessoas novas. A casa estava lotada. E me trouxeram muitos presentes! Tortas, vinho, geleias, licores.<br \/>\nO livro As Pequenas Virtudes, que chegou nas minhas m\u00e3os inesperadamente numa tarde em Salvador, pelas m\u00e3os da minha amiga Verbena, deixou todo mundo emocionado, extasiado.<br \/>\nS\u00e3o cr\u00f4nicas. O livro se divide em duas partes. A primeira, bastante autobiogr\u00e1fica, a segunda, como sublinhou Maria Clara, mais ensa\u00edstica.<br \/>\nFomos passando cr\u00f4nica por cr\u00f4nica. Falamos do ex\u00edlio e da mem\u00f3ria. Da escrita maravilhosa da Nat\u00e1lia. M\u00e1ximo Tarantini, italiano, nos falou das dist\u00e2ncias naquela \u00e9poca. Ent\u00e3o, quando a fam\u00edlia estava exilada em Abruzzo, escondida, durante a guerra, al\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio, pois haviam abandonado a pr\u00f3pria casa, os amigos, a fam\u00edlia, tudo o que amavam, havia a dificuldade de se chegar at\u00e9 l\u00e1. N\u00e3o \u00e9 como hoje, diz Maximo, quando se vai de Roma a Abruzzo em quarenta minutos.<br \/>\nRafael falou de Proust para falar da mem\u00f3ria.<br \/>\nCristiano lembrou que a cantiga infantil que Nat\u00e1lia ouvia em Abruzzo era um pren\u00fancio da morte do seu marido, como se anunciasse o seu assassinato.<br \/>\nCada cr\u00f4nica dessa primeira parte, onde ela fala da sua vida, tem a sua cor. Uma nostalgia que \u00e9 como um vento triste, \u00e0s vezes muito humor, como quando ela fala da sua estadia na Inglaterra, ou da sua rela\u00e7\u00e3o com o segundo marido.<br \/>\nEm outra cr\u00f4nica Nat\u00e1lia conta a amizade com Cesare Pavese, autor premiad\u00edssimo. \u00c9 o mais belo tratado sobre a amizade: ela n\u00e3o esconde nada do g\u00eanio dific\u00edlimo do amigo, das suas manias e esquisitices, mas com suas palavras ela vai untando o amigo com uma camada espessa de amor, quase um unguento. At\u00e9 o desfecho , o seu suic\u00eddio, pensado e preparado, num m\u00eas quente de agosto, num hotel em Turim, a sua cidade natal. Li um poema bel\u00edssimo do Pavese.<br \/>\nM\u00e1ximo nos lembrou que o suic\u00eddio naquela \u00e9poca era uma filosofia de vida. Cesare dizia que a \u00fanica liberdade que o homem tinha era a de escolher o momento de sair da vida. Lembramos que anos mais tarde Primo Levi tamb\u00e9m se matou.<br \/>\nNa cr\u00f4nica sapatos rotos falamos da liberdade . Da import\u00e2ncia de ter uma inf\u00e2ncia s\u00f3lida, com sapatos fortes, para que no futuro se possa fazer belas escolhas, inclusive a de andar com sapatos rotos, uma met\u00e1fora maravilhosa.<br \/>\nGilcilene nos disse que As Pequenas Virtudes, cr\u00f4nica maravilhosa sobre as Pequenas e Grandes Virtudes, trouxe de volta seu pai, pela rela\u00e7\u00e3o desprendida que ele tinha com o dinheiro. Falamos um pouco sobre o significado do dinheiro.<br \/>\nDenise e Chico disseram que a cr\u00f4nica fez com que repensassem muitas atitudes com os filhos.<br \/>\nA paix\u00e3o de todos foi a cr\u00f4nica Meu Of\u00edcio, que no caso de Nat\u00e1lia era a escrita, mas suas considera\u00e7\u00f5es valem para qualquer of\u00edcio.<br \/>\nEm nosso Clube temos contadores, advogados, professores, um m\u00e9dico, Dr. Messias, comerciantes,poetas e cada um se viu nesta cr\u00f4nica,<br \/>\nTodos sublinharam como Nat\u00e1lia trabalha o tempo todo com luz e sombra,<br \/>\nMessias disse que ela traz para a sua escrita todas as nuances do ser humano, todas as suas faces.<br \/>\nAo passar para Calvino, Marcovaldo, Cristiano disse que nem parecia o mesmo escritor das Cidades Invis\u00edveis (que j\u00e1 lemos no clube).Mas a sua escrita maravilhosa \u00e9 sempre a mesma.<br \/>\nPropus que cada um falasse o que quisesse sobre qualquer epis\u00f3dio.<br \/>\nE que maravilha de considera\u00e7\u00f5es. Cristiano definiu Marcovaldo: uma mistura de Chaplin com D.Quixote. Ou foi Maria Clara, n\u00e3o tenho certeza..<br \/>\n\u00cdamos nos lembrando e rindo e amando relembrar.<br \/>\nM\u00e1ximo disse algo muito interessante. Depois da Guerra a It\u00e1lia se uniu e perdoou. Todos se perdoaram querendo olhar para o futuro.<br \/>\nMarcovaldo fazia parte deste momento.<br \/>\nFalamos da sua busca pela beleza, pela natureza, quando a It\u00e1lia deixava de ser agr\u00e1ria para ser industrial.<br \/>\nAcho que Marcovaldo, apesar da sua condi\u00e7\u00e3o de extrema pobreza, da consci\u00eancia que tinha dessa pobreza, da sua vida miser\u00e1vel, n\u00e3o desistia de tentar viver poeticamente: a\u00ed reside a sua maravilha. O seu olhar buscava os caminhos para chegar at\u00e9 o fio que divide a dureza da vida, da experi\u00eancia po\u00e9tica.<br \/>\nAlguns leram poemas da Emily Dickinson.<br \/>\nRonaldo e Ana cantaram: alimento.antes do almo\u00e7o.<br \/>\nFiz tabule, um arroz cremoso com frango desfiado e um arroz bem mediterr\u00e2neo com atum.<br \/>\nCantamos parab\u00e9ns para os aniversariantes, Samuel, nosso caseiro, Angela e Fernando.<br \/>\nVinho branco e vinho tinto. Meus p\u00e3es.<br \/>\nCada um ganhou um livro do Juan autografado, O Amor Imposs\u00edvel, longa entrevista com Saramago.<br \/>\nO livro \u00e9 maravilhoso e est\u00e1 saindo do cat\u00e1logo da Manati. Se algu\u00e9m tiver interesse pode encomendar na editora.<br \/>\nAngela trouxe livros para sortear e M\u00e1ximo tamb\u00e9m.<br \/>\nNosso pr\u00f3ximo encontro ser\u00e1 dia 7 de maio. Os livros:<br \/>\nO Memorial de Maria Moura de Raquel de Queir\u00f3z e O Compadre de Ogum de Jorge Amado.<br \/>\nPoemas do Quintana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem me dei conta de que nosso Clube de Leitura da Casa Amarela j\u00e1 tem seis anos. Sei porque meu grande e amado amigo Latuf, que foi embora para Pas\u00e1rgada em 2010, estava vivo quando fizemos nosso primeiro encontro. Acho que agora n\u00e3o h\u00e1 mais perigo do Clube se desmanchar no ar, sempre tive esse medo. Desde crian\u00e7a achava que ningu\u00e9m viria nos meus anivers\u00e1rios e que claro, iriam se esquecer de mim. Mas os la\u00e7os que a literatura cria entre as pessoas s\u00e3o impressionantes. E cada vez mais gente quer vir ao nosso encontro. Ontem recebemos cinco pessoas novas. A casa estava lotada. E me trouxeram muitos presentes! Tortas, vinho, geleias, licores. O livro As Pequenas Virtudes, que chegou nas minhas m\u00e3os inesperadamente numa tarde em Salvador, pelas m\u00e3os da minha amiga Verbena, deixou todo mundo emocionado, extasiado. S\u00e3o cr\u00f4nicas. O livro se divide em duas partes. A primeira, bastante autobiogr\u00e1fica, a segunda, como sublinhou Maria Clara, mais ensa\u00edstica. Fomos passando cr\u00f4nica por cr\u00f4nica. Falamos do ex\u00edlio e da mem\u00f3ria. Da escrita maravilhosa da Nat\u00e1lia. M\u00e1ximo Tarantini, italiano, nos falou das dist\u00e2ncias naquela \u00e9poca. Ent\u00e3o, quando a fam\u00edlia estava exilada em Abruzzo, escondida, durante a guerra, al\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio, pois haviam abandonado a pr\u00f3pria casa, os amigos, a fam\u00edlia, tudo o que amavam, havia a dificuldade de se chegar at\u00e9 l\u00e1. N\u00e3o \u00e9 como hoje, diz Maximo, quando se vai de Roma a Abruzzo em quarenta minutos. Rafael falou de Proust para falar da mem\u00f3ria. Cristiano lembrou que a cantiga infantil que Nat\u00e1lia ouvia em Abruzzo era um pren\u00fancio da morte do seu marido, como se anunciasse o seu assassinato. Cada cr\u00f4nica dessa primeira parte, onde ela fala da sua vida, tem a sua cor. Uma nostalgia que \u00e9 como um vento triste, \u00e0s vezes muito humor, como quando ela fala da sua estadia na Inglaterra, ou da sua rela\u00e7\u00e3o com o segundo marido. Em outra cr\u00f4nica Nat\u00e1lia conta a amizade com Cesare Pavese, autor premiad\u00edssimo. \u00c9 o mais belo tratado sobre a amizade: ela n\u00e3o esconde nada do g\u00eanio dific\u00edlimo do amigo, das suas manias e esquisitices, mas com suas palavras ela vai untando o amigo com uma camada espessa de amor, quase um unguento. At\u00e9 o desfecho , o seu suic\u00eddio, pensado e preparado, num m\u00eas quente de agosto, num hotel em Turim, a sua cidade natal. Li um poema bel\u00edssimo do Pavese. M\u00e1ximo nos lembrou que o suic\u00eddio naquela \u00e9poca era uma filosofia de vida. Cesare dizia que a \u00fanica liberdade que o homem tinha era a de escolher o momento de sair da vida. Lembramos que anos mais tarde Primo Levi tamb\u00e9m se matou. Na cr\u00f4nica sapatos rotos falamos da liberdade . Da import\u00e2ncia de ter uma inf\u00e2ncia s\u00f3lida, com sapatos fortes, para que no futuro se possa fazer belas escolhas, inclusive a de andar com sapatos rotos, uma met\u00e1fora maravilhosa. Gilcilene nos disse que As Pequenas Virtudes, cr\u00f4nica maravilhosa sobre as Pequenas e Grandes Virtudes, trouxe de volta seu pai, pela rela\u00e7\u00e3o desprendida que ele tinha com o dinheiro. Falamos um pouco sobre o significado do dinheiro. Denise e Chico disseram que a cr\u00f4nica fez com que repensassem muitas atitudes com os filhos. A paix\u00e3o de todos foi a cr\u00f4nica Meu Of\u00edcio, que no caso de Nat\u00e1lia era a escrita, mas suas considera\u00e7\u00f5es valem para qualquer of\u00edcio. Em nosso Clube temos contadores, advogados, professores, um m\u00e9dico, Dr. Messias, comerciantes,poetas e cada um se viu nesta cr\u00f4nica, Todos sublinharam como Nat\u00e1lia trabalha o tempo todo com luz e sombra, Messias disse que ela traz para a sua escrita todas as nuances do ser humano, todas as suas faces. Ao passar para Calvino, Marcovaldo, Cristiano disse que nem parecia o mesmo escritor das Cidades Invis\u00edveis (que j\u00e1 lemos no clube).Mas a sua escrita maravilhosa \u00e9 sempre a mesma. Propus que cada um falasse o que quisesse sobre qualquer epis\u00f3dio. E que maravilha de considera\u00e7\u00f5es. Cristiano definiu Marcovaldo: uma mistura de Chaplin com D.Quixote. Ou foi Maria Clara, n\u00e3o tenho certeza.. \u00cdamos nos lembrando e rindo e amando relembrar. M\u00e1ximo disse algo muito interessante. Depois da Guerra a It\u00e1lia se uniu e perdoou. Todos se perdoaram querendo olhar para o futuro. Marcovaldo fazia parte deste momento. Falamos da sua busca pela beleza, pela natureza, quando a It\u00e1lia deixava de ser agr\u00e1ria para ser industrial. Acho que Marcovaldo, apesar da sua condi\u00e7\u00e3o de extrema pobreza, da consci\u00eancia que tinha dessa pobreza, da sua vida miser\u00e1vel, n\u00e3o desistia de tentar viver poeticamente: a\u00ed reside a sua maravilha. O seu olhar buscava os caminhos para chegar at\u00e9 o fio que divide a dureza da vida, da experi\u00eancia po\u00e9tica. Alguns leram poemas da Emily Dickinson. Ronaldo e Ana cantaram: alimento.antes do almo\u00e7o. Fiz tabule, um arroz cremoso com frango desfiado e um arroz bem mediterr\u00e2neo com atum. Cantamos parab\u00e9ns para os aniversariantes, Samuel, nosso caseiro, Angela e Fernando. Vinho branco e vinho tinto. Meus p\u00e3es. Cada um ganhou um livro do Juan autografado, O Amor Imposs\u00edvel, longa entrevista com Saramago. O livro \u00e9 maravilhoso e est\u00e1 saindo do cat\u00e1logo da Manati. Se algu\u00e9m tiver interesse pode encomendar na editora. Angela trouxe livros para sortear e M\u00e1ximo tamb\u00e9m. Nosso pr\u00f3ximo encontro ser\u00e1 dia 7 de maio. Os livros: O Memorial de Maria Moura de Raquel de Queir\u00f3z e O Compadre de Ogum de Jorge Amado. 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