{"id":459,"date":"2011-08-01T16:54:56","date_gmt":"2011-08-01T19:54:56","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=459"},"modified":"2011-08-01T16:54:56","modified_gmt":"2011-08-01T19:54:56","slug":"roseana-murray-poesia-para-jovens-leitores-vera-maria-tietzmann-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2011\/08\/01\/roseana-murray-poesia-para-jovens-leitores-vera-maria-tietzmann-silva\/","title":{"rendered":"Roseana Murray: poesia para jovens leitores &#8211; Vera Maria Tietzmann Silva"},"content":{"rendered":"<p>Leitores e leituras<br \/>\nUma pergunta que se ouve com certa frequ\u00eancia quando se trabalha com poesia na escola \u00e9: existe poesia juvenil? Essa quest\u00e3o requer algumas considera\u00e7\u00f5es iniciais.<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo, ou se era crian\u00e7a, ou se era adulto \u2013 e \u00e9 assim que vemos os her\u00f3is das hist\u00f3rias de fadas, transformando-se de meninos fr\u00e1geis e desajeitados em homens viris e independentes, quase da noite para o dia. A denomina\u00e7\u00e3o &#8220;juvenil&#8221; aponta para o reconhecimento que a adolesc\u00eancia vem tendo como uma fase bem caracterizada na vida. Atualmente existe toda uma produ\u00e7\u00e3o cultural voltada para o adolescente, assim como uma ampla gama de servi\u00e7os cl\u00ednicos e psicol\u00f3gicos especializados que se ocupam dos problemas pr\u00f3prios dessa fase de transi\u00e7\u00e3o entre a inf\u00e2ncia e a vida adulta.<\/p>\n<p>A ideia de se fazer um tipo especial de texto para o adolescente \u00e9 relativamente nova. As gera\u00e7\u00f5es passadas, que se iniciavam na leitura pelos quadrinhos e livros infantis, passavam \u00e0s novelas de aventuras e, destas, aos grandes ficcionistas e poetas, fazendo essa transi\u00e7\u00e3o de modo natural, sem traumas ou dificuldades. Mas isso era assim at\u00e9 os anos 60, quando a leitura se inclu\u00eda entre as op\u00e7\u00f5es de lazer, sem v\u00ednculos com a escola.<\/p>\n<p>Quando os horm\u00f4nios promoviam suas mudan\u00e7as no corpo, e o anseio amoroso ou as d\u00favidas existenciais avassalavam a mente e inquietavam o cora\u00e7\u00e3o, meninos e meninas buscavam nos poetas consagrados a voz capaz de expressar em palavras o que eles pr\u00f3prios sentiam. Liam, ent\u00e3o, indiscriminadamente poetas cl\u00e1ssicos e modernos, portugueses e brasileiros, de Castro Alves a Vin\u00edcius, de Cam\u00f5es a Cec\u00edlia. N\u00e3o se cogitava a hip\u00f3tese de existir uma poesia voltada para a adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Nos anos 70, com a expans\u00e3o editorial e a intensa oferta de livros para a crian\u00e7a e o jovem, esse p\u00fablico passou a ter acesso a uma produ\u00e7\u00e3o ficcional e po\u00e9tica espec\u00edfica e atraente. Contudo, a presen\u00e7a da literatura infantil e juvenil na escola parece ter acompanhado a divis\u00e3o das s\u00e9ries, predominando as obras voltadas para a primeira fase do Ensino Fundamental, havendo menos op\u00e7\u00f5es para pr\u00e9-adolescentes e adolescentes.<\/p>\n<p>A chamada literatura juvenil, de contornos e limites t\u00e3o imprecisos quanto os do f\u00edsico e da mente de seus leitores, sem d\u00favida existe. Ela vem merecendo a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica especializada e j\u00e1 h\u00e1 algum tempo tem servido de corpus de an\u00e1lise de disserta\u00e7\u00f5es e teses acad\u00eamicas. Maria Zaira Turchi, que vem orientando pesquisas nessa \u00e1rea, comenta:<\/p>\n<p>O g\u00eanero juvenil parece estar marcado por uma transitoriedade; melhor dizendo, como o adolescente, a literatura juvenil \u00e9 um g\u00eanero em transi\u00e7\u00e3o. Essa quest\u00e3o pode ser vista sob dois \u00e2ngulos: transitoriedade porque a \u00eanfase excessiva em elementos que est\u00e3o na moda, assuntos e preocupa\u00e7\u00f5es em evid\u00eancia entre os jovens, pode fazer a obra envelhecer e tornar-se logo desinteressante ao leitor. Sob outro \u00e2ngulo, a transitoriedade se manifesta na obra, como Jano, deus bifronte, com duas faces, uma que olha para tr\u00e1s e outra que olha para frente; da\u00ed a ambiguidade de alguns textos que suscitam a pergunta: \u00e9 para jovens ou j\u00e1 \u00e9 literatura para adultos? (Turchi, 2002, p.29)<\/p>\n<p><em>Ocorre, por\u00e9m, que uma consulta nos cat\u00e1logos das editoras logo deixa perceber que sob o r\u00f3tulo de juvenil h\u00e1 um imenso n\u00famero de novelas e contos, por\u00e9m escassos livros de poemas. A faixa de fronteira entre o infantil e o adulto, o reduzido espa\u00e7o que permeia os dois olhares opostos de Jano, parece estreitar-se ainda mais quando se entra no dom\u00ednio do po\u00e9tico. Quando livros de poemas declaradamente juvenis existem, sua qualidade est\u00e9tica muitas vezes deixa a desejar, seja pela banalidade do conte\u00fado, seja pela indig\u00eancia das solu\u00e7\u00f5es formais. Retoma-se, ent\u00e3o, a indaga\u00e7\u00e3o inicial, com uma varia\u00e7\u00e3o: existe para o jovem algo que possa ser efetivamente chamado de poesia?<\/em><\/p>\n<p><strong>A poesia e seus estatutos<\/strong><\/p>\n<p>O poeta ingl\u00eas William Wordsworth (1770-1850) definiu a poesia como \u201cuma emo\u00e7\u00e3o relembrada na tranquilidade\u201d, ideia que o te\u00f3rico italiano Benedetto Croce desdobraria em 1928 ao afirmar que reconhecemos um poema quando \u201cdiscernimos ao primeiro olhar, constantes e necess\u00e1rios, dois elementos: um complexo de imagens e um sentimento que o anima\u201d (apud Bosi, 2001, p.8). \u00c0 mola propulsora, que \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o, portanto, ele acrescentou um tipo especial de lavor, o da cria\u00e7\u00e3o de imagens.<\/p>\n<p>Costumamos associar o poema \u00e0 sua peculiar forma gr\u00e1fica: a de um texto segmentado com ou sem simetria, em fragmentos denominados versos e estrofes, apresentando uma certa regularidade na repeti\u00e7\u00e3o de pausas, acentos, sons. Mas o que fundamentalmente distingue um poema de um texto em prosa n\u00e3o \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica das palavras sobre o papel, tampouco o recurso intensivo \u00e0 sonoridade da l\u00edngua, num jogo de asson\u00e2ncias, alitera\u00e7\u00f5es, rimas e ritmo, por\u00e9m \u00e9 antes o seu especial modo de constru\u00e7\u00e3o, que exige um leitor especial.<\/p>\n<p>O leitor de poesia precisa estar atento \u00e0s peculiares da dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica para ser capaz de fru\u00ed-la em sua justa medida. Para tanto, ele deve ter o ouvido agu\u00e7ado para apreciar o jogo das sonoridades que, como a m\u00fasica, evoca sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es, refor\u00e7ando o que as palavras dizem. E ele precisa ter tamb\u00e9m a vis\u00e3o desenvolvida, ser capaz de \u201cver com a imagina\u00e7\u00e3o\u201d, visualizar mentalmente em cores, formas e volumes aquilo que as imagens po\u00e9ticas lhe sugerem. Sim, porque \u00e9 de fato nas imagens po\u00e9ticas que se fundamenta a linguagem da poesia.<\/p>\n<p>Um texto em prosa se constr\u00f3i pelo encadeamento de ora\u00e7\u00f5es, per\u00edodos, par\u00e1grafos.  Um poema, como bem assinalou Croce, se faz com uma constela\u00e7\u00e3o de imagens.  Ainda assim, n\u00e3o h\u00e1 um div\u00f3rcio total entre a prosa e a poesia, pois a sintaxe estar\u00e1 presente no poema, e o ficcionista poder\u00e1 valer-se de imagens ao construir seus textos.  Trata-se de uma quest\u00e3o de predomin\u00e2ncia, n\u00e3o de exclusividade.  Enquanto a prosa se guia pela l\u00f3gica e aciona a mente racional do leitor, a poesia, ao contr\u00e1rio, fala \u00e0 sua subjetividade, ao seu lado noturno, que ignora o crivo da l\u00f3gica.  Como ocorre com os sonhos, a poesia toca diretamente a emo\u00e7\u00e3o do leitor, e a linguagem po\u00e9tica recorre aos mesmos processos da linguagem on\u00edrica, transformando o abstrato em concreto, condensando o que \u00e9 complexo e deslocando livremente as imagens.<\/p>\n<p>Mais do que sua t\u00edpica disposi\u00e7\u00e3o na mancha gr\u00e1fica, o poema se revela como tal por constituir um modo especial de olhar. O poeta observa o mundo com um olhar novo, como se o visse pela primeira vez, como fazem as crian\u00e7as.  O leitor, em contato com o texto, revive essa capacidade de ter um olhar inaugural, capaz de ver poeticamente as coisas mais banais. Por isso, todo poema bem constru\u00eddo deve ter o dom de surpreender o leitor.<\/p>\n<p>A palavra ou locu\u00e7\u00e3o que corporifica a imagem num poema \u2013 em geral um substantivo concreto que se deixa visualizar na imagina\u00e7\u00e3o \u2013 marca-se pela densidade e se intensifica pela repeti\u00e7\u00e3o.  No mais conhecido poema de Drummond, a cada vez que se repete a imagem da pedra, esse obst\u00e1culo no caminho do poeta se torna mais \u00e1spero, mais duro, frio e intranspon\u00edvel.  As imagens utilizadas, al\u00e9m disso, podem estar sendo tomadas de empr\u00e9stimo a outros poetas, a outros poemas (o que tamb\u00e9m ocorre nesse poema de Drummond).  Tal furto, longe de diminuir o m\u00e9rito do poeta, aumenta-o, pois que torna seu texto duplamente instigante, pois provoca o leitor a comparar e a somar ao novo texto os significados do texto original.  \u00c9 a chamada intertextualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A leitura de um texto dessa natureza pede uma atitude especial do leitor, semelhante \u00e0 de um jogador: atenta, alerta, dispon\u00edvel.  Cabe a ele fazer o preenchimento dos espa\u00e7os do n\u00e3o dito, a tradu\u00e7\u00e3o das met\u00e1foras e alegorias, o reconhecimento da ironia, o desvendamento do que \u00e9 apenas sugerido, a descoberta das alus\u00f5es a outros textos, a outros autores.  Um poeta que permite a seu leitor desempenhar esse papel parte do pressuposto de que ele \u00e9 inteligente.<\/p>\n<p>Para perceber as imagens e reconhecer as intertextualiza\u00e7\u00f5es, o leitor precisa ter alguma experi\u00eancia de leitura, ser capaz de ir al\u00e9m da superf\u00edcie dos versos. Por isso, esses recursos estil\u00edsticos s\u00e3o menos frequentes nos poemas infantis, onde os jogos sonoros e os trocadilhos, que as crian\u00e7as tanto apreciam, s\u00e3o mais presentes.<\/p>\n<p>Dispomos de duas perspectivas de apreens\u00e3o da realidade, a da raz\u00e3o e a da emo\u00e7\u00e3o. Faz parte da nossa tradi\u00e7\u00e3o cultural valorizar a racionalidade em detrimento da intui\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que a escola faz, compartimentando curr\u00edculos e avaliando o desempenho dos alunos em termos num\u00e9ricos. Tudo \u00e9 regido pela l\u00f3gica, n\u00e3o h\u00e1 lugar para a emo\u00e7\u00e3o ou para a subjetividade. As disciplinas nobres e valorizadas s\u00e3o as que estimulam o racioc\u00ednio. As que demandam intui\u00e7\u00e3o e criatividade, como as artes em suas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es, ficam longe dos curr\u00edculos das escolas que se proclamam \u201cs\u00e9rias\u201d. Nesta nossa sociedade racionalista, a literatura \u00e9 o \u00faltimo reduto onde a emo\u00e7\u00e3o tem seu lugar, por isso cabe \u00e0 escola recuperar um pouco desse desenvolvimento emocional que ficou interrompido.<\/p>\n<p><strong>Poesia para crian\u00e7as e jovens<\/strong><\/p>\n<p>No artigo \u201cTend\u00eancias da poesia infanto-juvenil brasileira\u201d, Maria Zaira Turchi tra\u00e7a um panorama da produ\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel no mercado e prop\u00f5e uma sistematiza\u00e7\u00e3o desse material:<\/p>\n<p><em>Pode-se pensar em tr\u00eas grandes modalidades: o poema que se realiza de maneira mais l\u00edrica ou mais l\u00fadica; o poema narrativo que \u00e9 a hist\u00f3ria contada em versos com rima e ritmo; a prosa po\u00e9tica que, sem estar presa ao verso, se constr\u00f3i a partir de imagens po\u00e9ticas. (Turchi, in Mello et al, 1995, p.156)<\/em><\/p>\n<p>Direcionados \u00e0 crian\u00e7a, os poemas l\u00fadicos, que trabalham o humor nas situa\u00e7\u00f5es que descreve e nas brincadeiras com o significante, parecem predominar. Textos mais est\u00e9ticos e permeados de emo\u00e7\u00e3o voltados ao p\u00fablico infantil s\u00e3o menos numerosos, e a ensa\u00edsta d\u00e1 o merecido destaque ao cl\u00e1ssico Ou isto ou aquilo (1964), de Cec\u00edlia Meireles, que re\u00fane o olhar l\u00edrico e os jogos l\u00fadicos com a linguagem:<\/p>\n<p><em>Como afirma Bachelard, a imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas a faculdade de formar imagens da realidade, mas a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade \u2013 uma faculdade de sobre-humanidade: &#8220;A imagina\u00e7\u00e3o inventa mais que coisas e dramas; inventa vida nova [&#8230;]\u201d. Os poemas de Ou isto ou aquilo, operando com imagens e s\u00edmbolos, apresentam uma multiplicidade de significados, que se constroem nos gestos simples do cotidiano infantil \u2013 imagens sonoras e visuais \u2013 como jogar bola, brincar com o eco, observar o mundo (peixes, bolhas, cavalinho, flor), mas se abrem para o encontro de reflex\u00f5es profundas sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, recorrentes na sintaxe po\u00e9tica de Cec\u00edlia. (Turchi, in Mello et al, 1995)<\/em><\/p>\n<p>Embora, como todo texto liter\u00e1rio bem realizado, o livro de Cec\u00edlia possa ser lido com prazer por todo o tipo de leitor, ele n\u00e3o contempla uma tem\u00e1tica que se poderia definir como juvenil. Ainda demoraria um tempo at\u00e9 que as preocupa\u00e7\u00f5es adolescentes ganhassem express\u00e3o po\u00e9tica. Entre os primeiros poetas a abrir espa\u00e7o para o p\u00fablico jovem destaca-se Roseana Murray, uma carioca que estreou na literatura em 1980, com Fardo de carinho, um livro de poemas infantis que deixa entrever um parentesco est\u00e9tico com Ou isto ou aquilo. Desde ent\u00e3o, essa poetisa vem construindo uma obra s\u00f3lida e constante, de amplo reconhecimento da cr\u00edtica, o que se evidencia nas sucessivas premia\u00e7\u00f5es e nos estudos cr\u00edticos sobre sua obra, realizados principalmente nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras. Em 2004, por exemplo, Sonia Maria dos Santos Menezes defendeu sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado sobra essa autora, sob o t\u00edtulo De \u00e1gua e de ar: a poesia de Roseana Murray, estudo que retomaremos nesta exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Roseana tem algumas obras narrativas, mas seu territ\u00f3rio essencial \u00e9 a poesia, que ela produz em grada\u00e7\u00f5es diversas, ora mais voltadas para um p\u00fablico infantil, ora para jovens ou mesmo para leitores adultos. As distin\u00e7\u00f5es de tom, vocabul\u00e1rio, temas ou recursos estil\u00edsticos \u00e0s vezes s\u00e3o t\u00e3o sutis que o leitor fica em d\u00favida sobre qual seria o p\u00fablico-alvo pretendido. Frequentemente o formato e o projeto gr\u00e1fico, ou, ainda, o cat\u00e1logo da editora, mais do que os textos em si, \u00e9 que d\u00e3o essa resposta.<\/p>\n<p>Se o destinat\u00e1rio dos poemas de Roseana Murray nem sempre \u00e9 claro, a sua leitura autoriza duas certezas: de que se est\u00e1 diante de textos genuinamente po\u00e9ticos e de que a autora n\u00e3o subestima a intelig\u00eancia do leitor com facilita\u00e7\u00f5es e redund\u00e2ncias. Pensando nos adolescentes como poss\u00edvel p\u00fablico-alvo, selecionamos uma amostragem (cerca de 10%) da extensa produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da autora. Trata-se de uma sele\u00e7\u00e3o representativa da sua trajet\u00f3ria ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas, com dois t\u00edtulos dos anos 80, dois dos 90 e tr\u00eas dos anos 2000. A seguir, portanto, comentaremos brevemente os seguintes livros, na cronologia de sua primeira edi\u00e7\u00e3o: Classificados po\u00e9ticos (1984), Fruta no ponto (1986), Receitas de olhar (1992), O mar e os sonhos (1996), Caminhos da magia (2001), Poesia essencial (2002) e Poemas para ler na escola (2011). Os dois \u00faltimos s\u00e3o antologias com poemas de diversas fontes, selecionados por Hebe Coimbra.<\/p>\n<p><strong>Poesia para todas as idades<\/strong><\/p>\n<p>Em 1984, Classificados po\u00e9ticos trouxe como novidade situar-se na fronteira entre o referencial e o liter\u00e1rio, o infantil e o juvenil, o verso e a prosa. Esta obra singular apresenta textos em formato de poemas, inspirados no modelo textual mais prosaico e direto poss\u00edvel, os an\u00fancios classificados de jornais, obtendo por essa fus\u00e3o efeitos est\u00e9ticos muito interessantes, que podem agradar leitores de qualquer idade. Sua ficha catalogr\u00e1fica informa tratar-se de literatura infantil e infanto-juvenil, seu formato e ilustra\u00e7\u00e3o confirmam essa classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde seu lan\u00e7amento, este livro teve bem mais de vinte edi\u00e7\u00f5es, circulando nas escolas do Ensino Fundamental e entrando nos acervos de bibliotecas e de programas de incentivo \u00e0 leitura de todo o pa\u00eds. Seguindo o modelo dos classificados de jornais, os poemas anunciam compras, vendas, aluguel, trocas, buscas, ofertas, perdas \u2013 tudo aparentemente muito referencial, por\u00e9m o po\u00e9tico se instala quando o leitor constata que se quer comprar \u201cum barco feito de vento\u201d, vender \u201cuma casa encantada\u201d, alugar um bazar onde se venda \u201cum farol em alto mar\u201d, trocar \u201cum fusca branco por um cavalo cor de vento\u201d, procurar \u201calgum lugar do planeta onde a vida seja sempre uma festa\u201d, oferecer \u201cum cora\u00e7\u00e3o cheio de vento onde quem quiser pode soprar tr\u00eas sementes de sonho\u201d, comunicar a perda de uma \u201cmaleta cheia de nuvens e de flores\u201d. Do contraste entre a realidade prosaica dos an\u00fancios de jornal e a imagina\u00e7\u00e3o dos seus anunciantes abre-se o espa\u00e7o da poesia.<br \/>\nS\u00f4nia Menezes, retomando a ideia de Octavio Paz de que poesia implica participa\u00e7\u00e3o, sem a qual o leitor n\u00e3o logra atingir o que ele chama de \u201cestado po\u00e9tico\u201d, assim comenta os poemas de Classificados po\u00e9ticos:<\/p>\n<p><em>Essa rela\u00e7\u00e3o leitor\/poesia estreita-se na medida em que o eu-l\u00edrico vai enumerando [&#8230;] os objetos que anuncia para alugar, comprar, vender, trocar. A poetisa consegue, na articula\u00e7\u00e3o das imagens e na sele\u00e7\u00e3o das palavras, romper com a objetividade e materialidade do mundo e criar, poeticamente, impress\u00f5es de leveza, pureza, juventude e do\u00e7ura, enfim, um lado diferenciado do ser humano: o lado da emo\u00e7\u00e3o, da mem\u00f3ria, dos afetos, das lembran\u00e7as. (Menezes, 2004, p.30)<\/em><\/p>\n<p>Em muitos desses classificados, meninos e meninas apresentam-se solit\u00e1rios ou apaixonados, inseguros ou sonhadores, idealistas ou participativos, olhando para dentro de si com a perplexidade e o maravilhamento de quem come\u00e7a a descobrir o anseio amoroso. Mas esse olhar que se volta para dentro n\u00e3o impede que eles vejam tamb\u00e9m a realidade que os cerca, cientes dos problemas que hoje afligem o mundo. Em outras palavras, n\u00e3o mais se trata de um olhar de crian\u00e7a, mas de um olhar adolescente, que ultrapassa a limitada esfera do universo infantil.<\/p>\n<p>Dois anos mais tarde, em 1986, a autora lan\u00e7a Fruta no ponto, que nesse mesmo ano ganhou da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do Livro Infantil e Juvenil o selo \u201cMelhor para o Jovem\u201d. A ficha catalogr\u00e1fica classifica-o como infanto-juvenil, mas o teor dos poemas, a ep\u00edgrafe de Drummond e mesmo o seu projeto gr\u00e1fico restringem esse adjetivo, definindo esse livro como poesia juvenil.<\/p>\n<p>Fruta no ponto re\u00fane 25 poemas que v\u00e3o desfiando anseios e preocupa\u00e7\u00f5es adolescentes, como a procura por um amor (\u201cNa multid\u00e3o busco meu amor\/ ainda an\u00f4nimo\u201d), a descoberta do ser amado e a expectativa que antecede esse momento de epifania (\u201cquando te vi\/ o amor era simples\/[&#8230;] n\u00e3o pedia\/ nada mais\/ do que milagre\/ da \u00e1gua nascendo\u201d), o amor crescendo no \u00edntimo, secreto como p\u00e9rola (\u201cs\u00f3 quem ama a gente\/ percebe\/ esse fazer delicado\/ oculto aos olhos de outra\/ gente\u201d), a decep\u00e7\u00e3o de um amor n\u00e3o correspondido (\u201camor n\u00e3o correspondido\/ vai virando tudo em deserto\/ vai calando a voz do mundo\u201d), o fim do amor (\u201cQuando o amor acaba\/ \u00e9 como [&#8230;] se o tesouro enterrado\/ fosse uma caixa vazia\u201d). Amizade, segredos, saudades, ci\u00fames tamb\u00e9m entram neste livro, que, ao lado de tantos temas pr\u00f3prios do lirismo, traz alguns momentos jocosos, como as refer\u00eancias culin\u00e1rias em \u201cTorta de cebola para prender namorado\u201d e \u201cBanho-maria\u201d.<\/p>\n<p>A ilustra\u00e7\u00e3o da capa, um trabalho em gravura de Sara \u00c1vila, sem definir contornos, mais sugere do que retrata. Dentro de uma esp\u00e9cie de moldura oval, que lembra um espelho (o narcisismo e a busca da identidade t\u00e3o pr\u00f3prios da adolesc\u00eancia se insinuam no simbolismo dessa imagem), h\u00e1 uma fruta com seu ped\u00fanculo, mas que tamb\u00e9m pode ser entendida como um cora\u00e7\u00e3o e suas art\u00e9rias \u2013 um cora\u00e7\u00e3o arrancado do peito. Seria o cora\u00e7\u00e3o ansioso e anelante do jovem leitor, pronto para a experi\u00eancia amorosa, a fruta que se oferece, j\u00e1 no ponto de ser colhida? Maria Antonieta Antunes Cunha, que assina o texto da quarta capa, diz:<\/p>\n<p><em>Em Fruta no ponto, a tem\u00e1tica \u00e9 o amor, no sentido mais amplo e profundo do termo \u2013 o que une as pessoas na compreens\u00e3o e na generosidade [&#8230;]. \u00c9 por isso que a obra me parece talhada para jovens \u2013 essas pessoas especiais na sua capacidade de entrega e \u00e2nsia de di\u00e1logo, abertas a toda forma de amar.<\/em><\/p>\n<p>Sem cair no pieguismo ou na obviedade, criando versos em que, segundo Antonieta, exercita \u201co requinte do simples\u201d, Roseana Murray consegue equilibrar-se no estreito limite que separa a poesia para jovens daquela destinada aos adultos. Utiliza imagens densas, mas n\u00e3o herm\u00e9ticas, como p\u00e9rola, deserto, nascente, vento, rio, buscadas na natureza e, por isso, compartilhadas e entendidas por todo leitor sens\u00edvel. Com essas imagens comp\u00f5e um conjunto equilibrado de poemas exemplares endere\u00e7ados ao leitor adolescente.<\/p>\n<p>Em 1992, a autora lan\u00e7a Receitas de olhar, uma colet\u00e2nea de poemas que segue de perto a linha tem\u00e1tica e as solu\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas de Fruta no ponto, direcionando-se claramente para um p\u00fablico leitor adolescente. Tamb\u00e9m para este livro continuam valendo as palavras que Maria Antonieta Antunes Cunha dissera sobre a linguagem da poetisa, que rejeita as solu\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas banais, t\u00e3o frequentes em poemas infantis:<\/p>\n<p><em>Quanto \u00e0 forma, cada vez mais Roseana Murray se vem desvencilhando da rima tradicional para tirar maior efeito de asson\u00e2ncias inesperadas, de novas modula\u00e7\u00f5es r\u00edtmicas e, sobretudo, de met\u00e1foras originadas da linguagem cotidiana.<\/em><\/p>\n<p>Retomando o mote culin\u00e1rio de dois poemas de Fruta no ponto (sobre uma torta de cebolas e sobre o cozimento em banho-maria), a autora amarra todos os poemas do novo livro pelo formato de receitas. N\u00e3o mais de bolos ou tortas, mas receitas de como lidar com as pequenas ou grandes adversidades da vida, como, entre outras, receita de se olhar no espelho, de arrumar gavetas, de abrir o cora\u00e7\u00e3o, de espantar tristeza, de desamarrar os n\u00f3s, receita contra dor de amor e, acima de tudo, receita de olhar.<\/p>\n<p>Esta talvez seja a mais importante, n\u00e3o s\u00f3 por dar nome ao livro, mas por traduzir a atitude que distingue os poetas frente \u00e0 vida, uma atitude de permanente curiosidade e admira\u00e7\u00e3o: \u201cNas primeiras horas da\/ manh\u00e3\/ desamarre o olhar\/ deixe que se derrame\/ sobre todas as coisas belas\/ o mundo \u00e9 sempre novo\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m com esse olhar de quem v\u00ea o mundo pela primeira vez que a poetisa aconselha o leitor a se olhar no espelho: \u201cSe olhe de frente\/ de lado\/ de costas [&#8230;] e se veja sempre surpresa\/ quem \u00e9 voc\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>Para arrumar gavetas, abrir o cora\u00e7\u00e3o, superar a dor do amor e desamarrar os n\u00f3s, as receitas s\u00e3o bem parecidas, elas prop\u00f5em sempre deixar espa\u00e7o para um recome\u00e7o. Ao arrumar gavetas, Roseana aconselha deixar \u201cum espa\u00e7o\/ vazio\/ para o que vai acontecer\u201d; para abrir o cora\u00e7\u00e3o, toma-se a pequena chave \u201cde ouro e coragem\u201d, deixando a \u201cporta aberta para o outro\/ gaveta aberta para a vida\u201d; contra a dor do amor \u00e9 inevit\u00e1vel chorar muito, chorar \u201cum mar inteiro, [&#8230;] o sol e a lua\/ a chuva e o vento\u201d, pois s\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel que \u201cuma nova semente\/ entre pela janela adentro\u201d. Na receita de desamarrar os n\u00f3s, entram todos os entraves (inclusive os representados pelo pronome n\u00f3s): os n\u00f3s dos sapatos, dos p\u00e9s tolhidos, \u201cos la\u00e7os in\u00fateis\/ os n\u00f3s que n\u00e3o servem mais\u201d. A poetisa subverte o sentido desses la\u00e7os dando ao poema um final suspensivo, em aberto: \u201cdesamarre o barco do cais\/ os n\u00f3s das janelas\/ e ent\u00e3o deixe que o vento&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O seguinte livro que iremos aqui comentar \u00e9 O mar e os sonhos, editado em 1996, quatro anos depois de Receitas de olhar. A ficha catalogr\u00e1fica classifica O mar e os sonhos como poesia brasileira, mas o formato e o projeto gr\u00e1fico indicam pertencer ao cat\u00e1logo infantil da Editora. Portanto, ainda que explicitamente n\u00e3o se rotule como poesia juvenil ou infantil, o livro mant\u00e9m essa ambiguidade em rela\u00e7\u00e3o ao seu leitor potencial, dada pelo contraste entre formato e linguagem. Isso tamb\u00e9m pode ser constatado em outros livros da autora. A dic\u00e7\u00e3o estetizada dos poemas tem seu contraponto tamb\u00e9m est\u00e9tico na linguagem pict\u00f3rica das ilustra\u00e7\u00f5es, ambas distanciando-se das facilita\u00e7\u00f5es de leitura pr\u00f3prias do texto infantil.<\/p>\n<p>Este livro tem ilustra\u00e7\u00f5es de Elvira Vigna, que j\u00e1 havia ilustrado Receitas de olhar com imagens n\u00e3o figurativas, manchas difusas e coloridas sobre o fundo branco do papel, compondo o que se convenciona chamar de arte abstrata. A t\u00e9cnica usada por Elvira Vigna na ilustra\u00e7\u00e3o de O mar e os sonhos ainda parece ser a mesma de Receitas de olhar, mas neste novo livro o estilo tende para uma representa\u00e7\u00e3o mais impressionista do que abstrata. Nas manchas de tinta podem distinguir-se imagens do universo marinho, como gaivotas, barcos, peixes, ondas, espumas. Marinhas tamb\u00e9m s\u00e3o as cores, em que predominam os tons de verde e azul, com incurs\u00f5es das cores do sol e do c\u00e9u em algumas pranchas.<\/p>\n<p>De contornos indefinidos, as imagens pintam o cen\u00e1rio em tra\u00e7os r\u00e1pidos, sem contornos, n\u00e3o mais que impress\u00f5es, em perfeita sintonia com os poemas de Roseana, tamb\u00e9m vis\u00f5es fugazes e fugidias de cenas mais sugeridas do que descritas. Observe-se, por exemplo, como \u00e9 retratado um pescador fabricando artesanalmente sua rede. N\u00e3o \u00e9 a fidelidade ao objeto descrito que prevalece, mas as impress\u00f5es que a cena provoca no observador:<\/p>\n<p><em>As m\u00e3os s\u00e3o \u00e1geis<br \/>\ncomo borboletas voando<br \/>\nem m\u00e1gica dan\u00e7a.<br \/>\nAs m\u00e3os s\u00e3o t\u00e3o \u00e1geis<br \/>\ntecendo a teia<br \/>\nque parecem separadas<br \/>\ndo corpo.<\/em><\/p>\n<p>\u00c0s vezes os breves poemas s\u00e3o entremeados de imagens simb\u00f3licas ou m\u00edticas: no ar, sobre o mar tempestuoso, \u201cgalopam cavalos de fogo\u201d; o mar \u201cfaz e desfaz\/ seu sinuoso jardim\u201d; cavalos marinhos se movem \u201cnos labirintos do mar\u201d; o oceano revela seus estranhos habitantes, \u201cNetuno e seu tridente\/ sereias e serpentes\/ devoradoras de homens\u201d; evoca-se, ainda, o continente de Atl\u00e2ntida, com todo seu peso simb\u00f3lico de para\u00edso perdido.<\/p>\n<p>Pelos breves poemas de Roseana tamb\u00e9m desfilam personagens da tradi\u00e7\u00e3o popular e da literatura, como Of\u00e9lia, Robinson Cruso\u00e9, Sexta-Feira, Aladim, o Holand\u00eas Voador, os piratas do Caribe, instigando o leitor a ir al\u00e9m do texto, a confrontar os versos que l\u00ea com o seu pr\u00f3prio repert\u00f3rio de conhecimento e de leituras. Sem d\u00favida, essa parceria exigida pela poetisa pressup\u00f5e um leitor capaz de abstra\u00e7\u00f5es, confrontos, avalia\u00e7\u00f5es, ou seja, um leitor que j\u00e1 ultrapassou a fronteira da inf\u00e2ncia. Faz sentido, portanto, a ficha catalogr\u00e1fica n\u00e3o haver restringido o destinat\u00e1rio deste belo livro.<br \/>\nEm 2001, Roseana Murray lan\u00e7a Caminhos da magia, um livro que tem um projeto gr\u00e1fico primoroso e muito original, com ilustra\u00e7\u00f5es de Marcelo Ribeiro a partir de desenhos de Leonardo da Vinci, parte de um precioso acervo descoberto em Madri em 1965. Mais uma vez a ficha catalogr\u00e1fica omite a qual leitor a obra se destina, anotando somente o g\u00eanero: poesia, poesia brasileira. E novamente \u00e9 a sua editora\u00e7\u00e3o que indica isso ao incluir um suplemento de leitura com sugest\u00f5es de trabalho para o professor do Ensino Fundamental (5\u00aa. \u00e0 8\u00aa. s\u00e9ries, ou seja, pr\u00e9-adolescentes e adolescentes) dentro dos temas transversais propostos pelos PCN.<\/p>\n<p>Ainda assim, ao definir seu corpus de estudo, S\u00f4nia Menezes preferiu incluir Caminhos da magia entre as obras destinadas ao p\u00fablico adulto (v. Menezes, 2004, p.11), justificando serem muito t\u00eanues os indicativos de faixa de leitor no conjunto da obra da autora:<\/p>\n<p><em>O cotidiano, transformado em poesia, resgata a vontade, o querer e a busca, essenciais ao viver. Apenas diferen\u00e7as muito sutis no tratamento do tema permitem ao mercado editorial definir o p\u00fablico leitor, mas os poemas remetem sempre \u00e0 eterna busca das realiza\u00e7\u00f5es, da felicidade e do outro. (Menezes, 2004, p.19)<\/em><\/p>\n<p>No caso deste livro, acreditamos ser mais adequada uma op\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, a do p\u00fablico juvenil, pois os poemas, com suas alus\u00f5es multiculturais parecem n\u00e3o estar ao alcance da bagagem ainda leve dos alunos do 5\u00ba. ou 6\u00ba. anos do Ensino Fundamental como a ficha prev\u00ea, mas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o cifrados que requeiram leitores j\u00e1 adultos.<\/p>\n<p>\u00c9 no limiar que separa a inf\u00e2ncia da maturidade que o apelo do mist\u00e9rio se faz mais forte. Os adolescentes t\u00eam uma curiosidade insaci\u00e1vel sobre o destino que os aguarda, sobre os amores que encontrar\u00e3o, a carreira profissional que lhes dar\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o \u2013 tudo que ainda estiver envolto nas brumas do futuro \u2013 e por isso s\u00e3o fortemente atra\u00eddos pelos mist\u00e9rios da magia.<br \/>\nMagda Frediani Martins, autora do folheto did\u00e1tico inclu\u00eddo na edi\u00e7\u00e3o, explicita seu p\u00fablico-alvo ao declarar: \u201cdedicando este livro aos adolescentes e jovens, a autora espera que a efervesc\u00eancia deles possa ser transformada em energia criativa\u201d. Ela assim resume o conte\u00fado do livro:<\/p>\n<p><em>Em Caminhos da magia, Roseana Murray fala-nos, em linguagem liter\u00e1ria, sobre essa eterna procura pelos segredos do universo, descrevendo algumas das formas que foram e continuam sendo usadas pelos seres humanos na busca do conhecimento. H\u00e1 poemas sobre a alquimia, utilizada para a transmuta\u00e7\u00e3o dos elementos; sobre os jogos adivinhat\u00f3rios, como as runas e o tar\u00f4; sobre a intui\u00e7\u00e3o, poder que temos de ouvir \u201ca voz de dentro\u201d; sobre a mandala, \u201cc\u00edrculo m\u00e1gico\u201d usado na medita\u00e7\u00e3o; sobre os quatro elementos&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Quer dizer, os poemas deste livro lidam com o mist\u00e9rio, ou melhor, com a magia \u2013 os instrumentos e artif\u00edcios que os homens inventam para tentar decifrar os mist\u00e9rios do mundo. S\u00e3o 24 textos que passeiam por elementos de v\u00e1rios tempos e culturas, falando de entidades m\u00e1gicas: anjos, ciganas, bruxas, gatos, duendes, elfos; e tamb\u00e9m das chaves de acesso a esse mundo oculto: a alquimia, as runas, os n\u00fameros, as linhas da m\u00e3o, as cartas de tar\u00f4, as mandalas, o I Ching, os cristais. S\u00e3o poemas em torno dos limites humanos que nos constringem e da \u00e2nsia que temos de ultrapass\u00e1-los, de conhecer \u201co lado de l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Diante de uma tal tem\u00e1tica, parece paradoxal a escolha da ilustra\u00e7\u00e3o haver reca\u00eddo sobre desenhos de maquinismos e engrenagens. Qual a raz\u00e3o disso? No texto da quarta capa, a tamb\u00e9m escritora Nilma Gon\u00e7alves Lacerda, respons\u00e1vel pela concep\u00e7\u00e3o editorial de Caminhos da magia, assim justifica a op\u00e7\u00e3o pelos projetos de Leonardo da Vinci, esse homem admir\u00e1vel que \u201cfazia o presente e vivia o futuro\u201d:<\/p>\n<p><em>Este g\u00eanio, para quem \u00e9 muito \u00edntima a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e poesia, considerava a linguagem uma forma de construir o mundo t\u00e3o s\u00f3lida e eficaz quanto as roldanas, p\u00eandulos e mecanismos que concebia. Resolvemos, por isso, unir estes poemas de Roseana Murray aos desenhos deste esp\u00edrito do Renascimento italiano.<\/em><\/p>\n<p>Essa surpreendente conjun\u00e7\u00e3o de poesia e mec\u00e2nica no projeto gr\u00e1fico deste livro tamb\u00e9m pode ser vista como uma alegoria. A poesia como produto da mente intuitiva e emocional, de um lado, e os minuciosos projetos de maquinismos, resultado do esfor\u00e7o racional e l\u00f3gico, de outro, parecem sugerir que para chegar \u00e0s respostas dos mist\u00e9rios maiores \u00e9 preciso que o homem se desenvolva de forma plena, que busque a integra\u00e7\u00e3o entre cora\u00e7\u00e3o e mente, entre sentimento e raz\u00e3o. Essa \u00edntima rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 antecipada ao leitor no poema \u201cN\u00fameros\u201d, que inicia com uma indaga\u00e7\u00e3o: \u201cComo converter n\u00fameros em palavras?\/ Qual a equa\u00e7\u00e3o que transforma\/ n\u00fameros em poesia?\u201d. Com os poemas de Caminhos da magia Roseana Murray parece ter conseguido isso, num verdadeiro processo de alquimia po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Em 2002, Hebe Coimbra organizou a antologia Poesia essencial, reunindo poemas de quatro livros para adultos, dois esgotados e dois in\u00e9ditos: Paredes vazadas (Mem\u00f3rias Futuras, 1988), P\u00e1ssaros do absurdo (Editora Tch\u00ea, 1990), Caravana (1994) e As cidades e a casa (1998). Da compara\u00e7\u00e3o entre a obra mais voltada para o p\u00fablico infantil ou juvenil e esta antologia, cujos poemas harmonizam-se t\u00e3o bem que nem parece serem origin\u00e1rios de fontes diversas, o leitor pode perceber semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>A semelhan\u00e7a maior decorre da linguagem que, como j\u00e1 fizera notar Maria Antonieta Antunes Cunha em rela\u00e7\u00e3o a Fruta no ponto, traz \u201cmet\u00e1foras originadas da linguagem cotidiana\u201d. Predominam imagens impregnadas de valor simb\u00f3lico buscadas na paisagem natural ou na paisagem modificada pelo homem. S\u00e3o as \u00e1rvores e os ninhos, os gatos, os p\u00e1ssaros e cavalos, a lua e as estrelas, mas, sobretudo, as \u00e1guas, as nuvens e o vento, como bem notou S\u00f4nia Menezes em seu mencionado estudo. De presen\u00e7a forte e apelo marcante, a paisagem marinha se imp\u00f5e na po\u00e9tica de Roseana: barcos, navios, farol, oceano, ondas, espumas, peixes e redes s\u00e3o imagens recorrentes, em que a a\u00e7\u00e3o do homem e da natureza se completam. Criada pela m\u00e3o humana, a casa, com suas possibilidades de abrigo ou esconderijo, com seus po\u00e7os e gavetas, ou com suas vias de acesso, suas portas e janelas, \u00e9 presen\u00e7a insistente na obra desta poetisa. Costumam ser casas abertas, prontas para a troca com o outro, suas portas, janelas e gavetas nunca est\u00e3o definitivamente cerradas, antes s\u00e3o mostradas em movimento de vaiv\u00e9m, seja para entrar ou sair, para guardar ou ofertar.<br \/>\nSe as imagens s\u00e3o as mesmas, percebe-se que h\u00e1 uma concis\u00e3o maior na linguagem, que se mostra mais el\u00edptica, deixando mais hiatos para o leitor preencher. Nota-se tamb\u00e9m um afastamento do plano da realidade concreta para a abstra\u00e7\u00e3o, para o dom\u00ednio do aleg\u00f3rico. Isso fica evidente, por exemplo, quando se compara \u201cA rede\u201d, de O mar e os sonhos, h\u00e1 pouco transcrita, com \u201cRede\u201d, nesta antologia:<\/p>\n<p><em>que a poesia<br \/>\napanhe apenas o invis\u00edvel<br \/>\nem sua rede de nuvens e vento<br \/>\npor exemplo<br \/>\no leve lamento que atravessa a casa<br \/>\nquando o passado invade<br \/>\ntudo de repente<br \/>\ne com sua teia transparente<br \/>\nparalisa o gesto<br \/>\nno meio do movimento<br \/>\nque a poesia diga<br \/>\no que n\u00e3o pode ser dito<br \/>\npedra e sentimento<br \/>\n <\/em><br \/>\nComo se v\u00ea, a rede se desmaterializa, n\u00e3o \u00e9 tecida de fios nem pesca peixes; \u00e9 poesia feita de nuvem e vento e captura coisas tamb\u00e9m impalp\u00e1veis, os lamentos do passado. Note-se, ainda, neste e em outros poemas de Poesia essencial, como o tom se altera na dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica: o eu-l\u00edrico n\u00e3o adota mais uma postura esperan\u00e7osa e confiante de quem tem os olhos postos no futuro e nele acredita, mas se deixa levar por uma certa melancolia, um desencanto de quem olha para o passado, considera sua hist\u00f3ria pessoal e reconhece que a vida \u00e0s vezes oferece seu travo amargo. Essa diferen\u00e7a de tom lembra a dualidade das Can\u00e7\u00f5es de William Blake (1757-1827), Songs of innocence e Songs of experience, embora sem os ressentimentos do poeta ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Em 2011, a mesma Hebe Coimbra organiza Poemas para ler na escola, uma antologia reunindo 109 poemas da autora, produzidos desde 1984 at\u00e9 2010. Nos mesmos moldes de Poesia essencial, traz poemas curtos e densos, sem facilita\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m sem hermetismo. O projeto gr\u00e1fico \u00e9 s\u00f3brio, apontando para um leitor maduro. A \u00fanica indica\u00e7\u00e3o que remete a um p\u00fablico adolescente \u00e9 o t\u00edtulo, tomado \u00e0 cole\u00e7\u00e3o em que se inclui: Para ler na escola, que congrega essencialmente autores da literatura para adultos. Infere-se, pois, que se pensou tamb\u00e9m na escola noturna, nas turmas de EJA, nos adultos que retomam seus estudos tardiamente.<\/p>\n<p>A organizadora faz anteceder a sele\u00e7\u00e3o de poemas por uma Apresenta\u00e7\u00e3o, em que se dirige diretamente ao leitor, revelando-lhe, de modo sedutor e did\u00e1tico, os segredos da dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, fazendo-lhe um convite irrecus\u00e1vel \u00e0 leitura:<\/p>\n<p><em>Diante de uma obra que nos emociona, seja um poema, um jardim, uma m\u00fasica ou uma dan\u00e7a, \u00e9 o conjunto, o todo que primeiro nos captura. Mas, uma vez capturados, tendemos a afinar nosso olhar sobre ela, a curti-la com mais vagar, e acabamos descobrindo o detalhe, as artes e artimanhas do autor, assim como seus temas e preocupa\u00e7\u00f5es recorrentes, sua vis\u00e3o de mundo. Afinar o olhar&#8230; \u00c9 exatamente isso que voc\u00ea vai fazer agora. (Coimbra, apud Murray, 2011, p.16)<\/em><\/p>\n<p>Poesia essencial e Poemas para ler na escola s\u00e3o livros juvenis? Sim, mas n\u00e3o s\u00f3. S\u00e3o livros que satisfazem plenamente jovens e adultos, todos que sabem apreciar a linguagem po\u00e9tica que, mais do que carrear um sentido, chama a aten\u00e7\u00e3o sobre si mesma, mostra-se em sua beleza de alus\u00f5es e subentendidos, dando forma aos sentimentos indefinidos que o leitor n\u00e3o se sente capaz de ele mesmo expressar. Roseana Murray tem esse cond\u00e3o de falar pelo leitor. Para finalizar, transcrevemos o poema \u201cGestos\u201d, de Poesia essencial, um texto com o qual por certo todo leitor adolescente \u00e9 capaz de se identificar:<\/p>\n<p><em>com que medida<br \/>\nse mede o amor?<br \/>\ncom quantas luas<br \/>\nou s\u00f3is oceanos<br \/>\ntormentas<br \/>\ncom quantos pequenos<br \/>\nou quase impercept\u00edveis gestos?<br \/>\nperfumar a casa<br \/>\nfazer a cama<br \/>\ncortar o p\u00e3o<br \/>\nrearrumar os sonhos<br \/>\npronuncio o teu nome<br \/>\ne de muito longe<br \/>\num o\u00e1sis me habita<br \/>\ne o ar estremece<br \/>\npovoado de anjos<\/em><\/p>\n<p>Refer\u00eancias<br \/>\nBOSI, Alfredo. Sobre alguns modos de ler poesia: mem\u00f3rias e reflex\u00f5es. In: BOSI, Alfredo (Org.). Leitura de poesia. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2001, p.7-48.<br \/>\nMENEZES, S\u00f4nia Maria dos Santos. De \u00e1gua e de ar: a poesia de Roseana Murray. 2004. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) \u2013 UFG, Goi\u00e2nia, 2004.<br \/>\nMURRAY, Roseana. Classificados po\u00e9ticos. Ilustra\u00e7\u00f5es de Paula Saldanha. Belo Horizonte: Miguilim, 1984.<br \/>\nMURRAY, Roseana. Fruta no ponto. Ilustra\u00e7\u00f5es de Sara \u00c1vila. S\u00e3o Paulo: FTD, 1986.<br \/>\nMURRAY, Roseana. Receitas de olhar. Ilustra\u00e7\u00f5es de Elvira Vigna. S\u00e3o Paulo: FTD, 1992.<br \/>\nMURRAY, Roseana. O mar e os sonhos. Ilustra\u00e7\u00f5es de Elvira Vigna. Belo Horizonte: Miguilim, 1996.<br \/>\nMURRAY, Roseana. Caminhos da magia. Ilustra\u00e7\u00f5es de Marcelo Ribeiro sobre desenhos de Leonardo da Vinci. S\u00e3o Paulo: DCL, 2001.<br \/>\nMURRAY, Roseana. Poesia essencial. Organiza\u00e7\u00e3o de Hebe Coimbra. Rio de Janeiro: Manati, 2002.<br \/>\nMURRAY, Roseana. Poemas para ler na escola. Organiza\u00e7\u00e3o de Hebe Coimbra. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.<br \/>\nTURCHI, Maria Zaira. Tend\u00eancias da poesia infanto-juvenil brasileira. In: MELLO, A.; TURCHI, M.Z.; SILVA, V.M.T. Literatura infanto-juvenil: prosa &#038; poesia. Goi\u00e2nia: Editora da UFG, 1995, p.155-167.<br \/>\nTURCHI, Maria Zaira. O estatuto da arte na literatura infantil e juvenil. In: TURCHI, M.Z.; SILVA, V.M.T. (Orgs.). Literatura infanto-juvenil: leituras cr\u00edticas. Goi\u00e2nia: Editora da UFG, 2002, p.23-31.<br \/>\nSILVA, Vera Maria T. Nos dom\u00ednios da sensibilidade. In: Leitura liter\u00e1ria &#038; outras leituras: impasses e alternativas no trabalho do professor. Belo Horizonte: RHJ, 2009, p.95-126.<\/p>\n<p>Vera Tietzmann<br \/>\nProfessora aposentada da UFG<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leitores e leituras Uma pergunta que se ouve com certa frequ\u00eancia quando se trabalha com poesia na escola \u00e9: existe poesia juvenil? Essa quest\u00e3o requer algumas considera\u00e7\u00f5es iniciais. At\u00e9 pouco tempo, ou se era crian\u00e7a, ou se era adulto \u2013 e \u00e9 assim que vemos os her\u00f3is das hist\u00f3rias de fadas, transformando-se de meninos fr\u00e1geis e desajeitados em homens viris e independentes, quase da noite para o dia. A denomina\u00e7\u00e3o &#8220;juvenil&#8221; aponta para o reconhecimento que a adolesc\u00eancia vem tendo como uma fase bem caracterizada na vida. Atualmente existe toda uma produ\u00e7\u00e3o cultural voltada para o adolescente, assim como uma ampla gama de servi\u00e7os cl\u00ednicos e psicol\u00f3gicos especializados que se ocupam dos problemas pr\u00f3prios dessa fase de transi\u00e7\u00e3o entre a inf\u00e2ncia e a vida adulta. A ideia de se fazer um tipo especial de texto para o adolescente \u00e9 relativamente nova. As gera\u00e7\u00f5es passadas, que se iniciavam na leitura pelos quadrinhos e livros infantis, passavam \u00e0s novelas de aventuras e, destas, aos grandes ficcionistas e poetas, fazendo essa transi\u00e7\u00e3o de modo natural, sem traumas ou dificuldades. Mas isso era assim at\u00e9 os anos 60, quando a leitura se inclu\u00eda entre as op\u00e7\u00f5es de lazer, sem v\u00ednculos com a escola. Quando os horm\u00f4nios promoviam suas mudan\u00e7as no corpo, e o anseio amoroso ou as d\u00favidas existenciais avassalavam a mente e inquietavam o cora\u00e7\u00e3o, meninos e meninas buscavam nos poetas consagrados a voz capaz de expressar em palavras o que eles pr\u00f3prios sentiam. Liam, ent\u00e3o, indiscriminadamente poetas cl\u00e1ssicos e modernos, portugueses e brasileiros, de Castro Alves a Vin\u00edcius, de Cam\u00f5es a Cec\u00edlia. N\u00e3o se cogitava a hip\u00f3tese de existir uma poesia voltada para a adolesc\u00eancia. Nos anos 70, com a expans\u00e3o editorial e a intensa oferta de livros para a crian\u00e7a e o jovem, esse p\u00fablico passou a ter acesso a uma produ\u00e7\u00e3o ficcional e po\u00e9tica espec\u00edfica e atraente. Contudo, a presen\u00e7a da literatura infantil e juvenil na escola parece ter acompanhado a divis\u00e3o das s\u00e9ries, predominando as obras voltadas para a primeira fase do Ensino Fundamental, havendo menos op\u00e7\u00f5es para pr\u00e9-adolescentes e adolescentes. A chamada literatura juvenil, de contornos e limites t\u00e3o imprecisos quanto os do f\u00edsico e da mente de seus leitores, sem d\u00favida existe. Ela vem merecendo a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica especializada e j\u00e1 h\u00e1 algum tempo tem servido de corpus de an\u00e1lise de disserta\u00e7\u00f5es e teses acad\u00eamicas. Maria Zaira Turchi, que vem orientando pesquisas nessa \u00e1rea, comenta: O g\u00eanero juvenil parece estar marcado por uma transitoriedade; melhor dizendo, como o adolescente, a literatura juvenil \u00e9 um g\u00eanero em transi\u00e7\u00e3o. Essa quest\u00e3o pode ser vista sob dois \u00e2ngulos: transitoriedade porque a \u00eanfase excessiva em elementos que est\u00e3o na moda, assuntos e preocupa\u00e7\u00f5es em evid\u00eancia entre os jovens, pode fazer a obra envelhecer e tornar-se logo desinteressante ao leitor. Sob outro \u00e2ngulo, a transitoriedade se manifesta na obra, como Jano, deus bifronte, com duas faces, uma que olha para tr\u00e1s e outra que olha para frente; da\u00ed a ambiguidade de alguns textos que suscitam a pergunta: \u00e9 para jovens ou j\u00e1 \u00e9 literatura para adultos? (Turchi, 2002, p.29) Ocorre, por\u00e9m, que uma consulta nos cat\u00e1logos das editoras logo deixa perceber que sob o r\u00f3tulo de juvenil h\u00e1 um imenso n\u00famero de novelas e contos, por\u00e9m escassos livros de poemas. A faixa de fronteira entre o infantil e o adulto, o reduzido espa\u00e7o que permeia os dois olhares opostos de Jano, parece estreitar-se ainda mais quando se entra no dom\u00ednio do po\u00e9tico. Quando livros de poemas declaradamente juvenis existem, sua qualidade est\u00e9tica muitas vezes deixa a desejar, seja pela banalidade do conte\u00fado, seja pela indig\u00eancia das solu\u00e7\u00f5es formais. Retoma-se, ent\u00e3o, a indaga\u00e7\u00e3o inicial, com uma varia\u00e7\u00e3o: existe para o jovem algo que possa ser efetivamente chamado de poesia? A poesia e seus estatutos O poeta ingl\u00eas William Wordsworth (1770-1850) definiu a poesia como \u201cuma emo\u00e7\u00e3o relembrada na tranquilidade\u201d, ideia que o te\u00f3rico italiano Benedetto Croce desdobraria em 1928 ao afirmar que reconhecemos um poema quando \u201cdiscernimos ao primeiro olhar, constantes e necess\u00e1rios, dois elementos: um complexo de imagens e um sentimento que o anima\u201d (apud Bosi, 2001, p.8). \u00c0 mola propulsora, que \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o, portanto, ele acrescentou um tipo especial de lavor, o da cria\u00e7\u00e3o de imagens. Costumamos associar o poema \u00e0 sua peculiar forma gr\u00e1fica: a de um texto segmentado com ou sem simetria, em fragmentos denominados versos e estrofes, apresentando uma certa regularidade na repeti\u00e7\u00e3o de pausas, acentos, sons. Mas o que fundamentalmente distingue um poema de um texto em prosa n\u00e3o \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica das palavras sobre o papel, tampouco o recurso intensivo \u00e0 sonoridade da l\u00edngua, num jogo de asson\u00e2ncias, alitera\u00e7\u00f5es, rimas e ritmo, por\u00e9m \u00e9 antes o seu especial modo de constru\u00e7\u00e3o, que exige um leitor especial. O leitor de poesia precisa estar atento \u00e0s peculiares da dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica para ser capaz de fru\u00ed-la em sua justa medida. Para tanto, ele deve ter o ouvido agu\u00e7ado para apreciar o jogo das sonoridades que, como a m\u00fasica, evoca sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es, refor\u00e7ando o que as palavras dizem. E ele precisa ter tamb\u00e9m a vis\u00e3o desenvolvida, ser capaz de \u201cver com a imagina\u00e7\u00e3o\u201d, visualizar mentalmente em cores, formas e volumes aquilo que as imagens po\u00e9ticas lhe sugerem. Sim, porque \u00e9 de fato nas imagens po\u00e9ticas que se fundamenta a linguagem da poesia. Um texto em prosa se constr\u00f3i pelo encadeamento de ora\u00e7\u00f5es, per\u00edodos, par\u00e1grafos. Um poema, como bem assinalou Croce, se faz com uma constela\u00e7\u00e3o de imagens. Ainda assim, n\u00e3o h\u00e1 um div\u00f3rcio total entre a prosa e a poesia, pois a sintaxe estar\u00e1 presente no poema, e o ficcionista poder\u00e1 valer-se de imagens ao construir seus textos. Trata-se de uma quest\u00e3o de predomin\u00e2ncia, n\u00e3o de exclusividade. Enquanto a prosa se guia pela l\u00f3gica e aciona a mente racional do leitor, a poesia, ao contr\u00e1rio, fala \u00e0 sua subjetividade, ao seu lado noturno, que ignora o crivo da l\u00f3gica. Como ocorre com os sonhos, a poesia toca diretamente a emo\u00e7\u00e3o do leitor, e a linguagem po\u00e9tica recorre aos mesmos processos da linguagem on\u00edrica, transformando o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-459","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-e-opinioes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/459","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=459"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/459\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}