{"id":457,"date":"2011-09-21T16:46:03","date_gmt":"2011-09-21T19:46:03","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=457"},"modified":"2011-09-21T16:46:03","modified_gmt":"2011-09-21T19:46:03","slug":"berta-lucia-tagliari-feba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2011\/09\/21\/berta-lucia-tagliari-feba\/","title":{"rendered":"Berta L\u00facia Tagliari Feba"},"content":{"rendered":"<p><strong>A expressividade da palavra e da imagem no livro<\/strong><br \/>\nO tra\u00e7o e a tra\u00e7a, de Roseana Murray (Livro selecionado para o PNBE 2012 )<\/p>\n<p>Roseana,<br \/>\nOs versos do livro O tra\u00e7o e a tra\u00e7a, de Roseana Murray, apresentam a hist\u00f3ria de tra\u00e7as que comiam os tra\u00e7os das letras dos livros. A autora tem mais de 40 t\u00edtulos publicados para o p\u00fablico infantil, mas a qualidade liter\u00e1ria de seus textos n\u00e3o delimita idade e demonstra atemporalidade, interessando tamb\u00e9m \u00e0queles para os quais n\u00e3o foram inicialmente pretendidos. Recebeu pr\u00eamios concedidos pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e pela Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte (APCA), que potencializam sua import\u00e2ncia no contexto da literatura infantojuvenil contempor\u00e2nea. Elma, a ilustradora, \u00e9 uma \u201cartes\u00e3 de ternuras\u201d, como diz em seu blog. Al\u00e9m desse, j\u00e1 ilustrou livros de Tatiana Belinky (Acalantos e encantos, \u00c1tica, 2009), Rosana Rios (Poesia todo dia, Ave-Maria, 2009) e Andr\u00e9 Neves (Rabiscos para dias rurais, Cortez, 2009), e tem escrito e ilustrado suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, como A princesa Anast\u00e1cia (DCL, 2006).<\/p>\n<p>O primeiro papel que uma tra\u00e7a comeu apresentava a hist\u00f3ria de uma cotovia, cujo canto n\u00e3o estava descrito, mas sim seus sonhos feitos de terra e ar. De tanta indigest\u00e3o essa tra\u00e7a morreu e deu espa\u00e7o para outra, que comeu uma folha onde havia a hist\u00f3ria de Maria, que, por sua vez, tinha mania de fazer cole\u00e7\u00e3o: \u201cCatava bicho, catava folha, \/ catava tudo que \u00e9 porcaria, \/ caco de pedra, terra macia\u201d (p. 18). A tra\u00e7a, no entanto, comeu toda a cole\u00e7\u00e3o de Maria e \u201cacabou igual a outra tra\u00e7a, \/ bem morta no ch\u00e3o\u201d (p. 21). A morte desta fez entrar em cena mais uma tra\u00e7a, por\u00e9m em outra hist\u00f3ria, na de Jo\u00e3o. Esse momento nos relata que, depois de ter matado a tra\u00e7a com o dedo polegar, Jo\u00e3o come\u00e7ou a andar pelo livro \u201cassim como quem \/ n\u00e3o quer nada\u201d (p. 28) at\u00e9 encontrar Maria, \u201csentada \/ num canto do p\u00e9 da p\u00e1gina\u201d (p. 28). Com isso, por acharem que este livro j\u00e1 estava \u201cmuito chato\u201d (p. 29), os dois decidem ir para outro, a fim de viverem muitas aventuras, como \u201ccabra-cega, esconde-esconde, \/ p\u00eara-uva-ou-ma\u00e7\u00e3\u201d (p. 30). Esse t\u00e9rmino concedido \u00e0 hist\u00f3ria propicia ao leitor, por um lado, o di\u00e1logo entre este texto e todos os outros que na leitura o antecederam, e, por outro, leva-o a imaginar o que podem contar essas novas aventuras em outro livro.<\/p>\n<p>O texto po\u00e9tico apresenta muitas qualidades est\u00e9ticas. A primeira delas refere-se \u00e0 musicalidade, revelada pelas rimas \u201chavia\u201d, \u201cmania\u201d, \u201cporcaria\u201d e \u201cmacia\u201d (p. 18), pelas alitera\u00e7\u00f5es nas palavras \u201cTRa\u00c7o\u201d e \u201cTRa\u00c7a\u201d (p. 4, 16), \u201cCanTo\u201d e \u201cCoTovia\u201d (p. 10), pela asson\u00e2ncia da vogal \u201cA\u201d em \u201cprA\u00e7A\u201d e \u201ctrA\u00e7A\u201d (p. 13), al\u00e9m do recurso muito frequente em poesias como a repeti\u00e7\u00e3o \u201cTinha mais livro, \/ tinha mais tra\u00e7o \/ e tinha outra tra\u00e7a, comendo outra folha\u201d (p. 16). Essa reitera\u00e7\u00e3o contribui para a amplia\u00e7\u00e3o do sentido do texto, uma vez que s\u00e3o somados mais elementos \u00e0queles que j\u00e1 faziam parte da hist\u00f3ria, como livro, tra\u00e7o, tra\u00e7a e folha de papel. Com isso, o leitor sabe que mesmo com a morte de uma tra\u00e7a de tanto comer, ter\u00e1 a possibilidade de ler novos fatos com ind\u00edcios parecidos. Uma segunda caracter\u00edstica pode ser explicada pela fun\u00e7\u00e3o que o texto de imagem assume ao dialogar com o texto verbal e complet\u00e1-lo. Um claro exemplo \u00e9 o verso terminado com retic\u00eancias (p. 25) e preenchido pela onomatopeia \u201cnhoc, nhoc, nhoc\u201d (p. 25), reproduzida em ponto de cruz sobre o \u00e9tamine, para imitar o barulho que Jo\u00e3o ouviu sair de seu segredo guardado debaixo da cama. Outra qualidade, ainda, pode ser explicada pela plurissignifica\u00e7\u00e3o do texto liter\u00e1rio evidente em \u201cSe a tra\u00e7a soubesse \/ que num papel cabe \/ mais mundo \/ do que gente numa pra\u00e7a \/ ser\u00e1 que desistia?\u201d (p. 13), versos que levam o leitor a participar da leitura e a criar imagens de que tudo o que existe ao seu redor Ipotesi, Juiz de Fora, v. 13, n. 2, p. 171 &#8211; 172, jul.\/dez. 2009 172 pode ser assunto a ser tratado nos livros que a tra\u00e7a comia e, consequentemente, por ser diversificado e em grande quantidade, ela n\u00e3o aguentaria. O efeito de alegria \u00e9 constitu\u00eddo pelo jogo de palavras e de figuras, ao utilizar recursos lingu\u00edsticos como os dois pontos nos versos: \u201cMas a tra\u00e7a n\u00e3o sabia \/ e foi comendo tudo, \/ o ninho, o sol, o canto, \/ os sonhos da cotovia [&#8230;] e [&#8230;] acabou desse jeito:\u201d (p. 14). Sem texto verbal para terminar a frase, o leitor precisa imaginar a forma como a tra\u00e7a ficou depois de comer muito ou pode ainda interpretar a ilustra\u00e7\u00e3o que demonstra uma das possibilidades de sentido para o texto que, simbolicamente, possibilita fazer escolhas de acordo com suas experi\u00eancias de leitura anteriores e com seus conhecimentos pr\u00e9vios. Ademais, contribuem para a cria\u00e7\u00e3o desse efeito as imagens que reproduzem tecidos coloridos bordados sobre \u00e9tamine, lan\u00e7ando ao leitor a viv\u00eancia de texto liter\u00e1rio como uma trama de fios, na qual palavras e imagens se entrela\u00e7am e formam novos significados.<\/p>\n<p>Por esses motivos, o livro propicia uma intera\u00e7\u00e3o l\u00fadica do leitor com a linguagem po\u00e9tica, promovendo a express\u00e3o de seus pensamentos e de seus sentimentos, al\u00e9m de possibilitar a visualiza\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora do texto como um tecido, tanto por meio da organiza\u00e7\u00e3o das palavras no texto-verbal quanto pela composi\u00e7\u00e3o do texto n\u00e3o-verbal. Outra met\u00e1fora que emerge desta produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 a do leitor voraz, ou seja, do leitor como um \u201cdevorador de livros\u201d, tendo em vista a refer\u00eancia feita \u00e0 tra\u00e7a que come todos os tra\u00e7os das letras.<\/p>\n<p>O poema n\u00e3o menciona a hist\u00f3ria de Jo\u00e3o e Maria, mas h\u00e1 uma alus\u00e3o \u00e0 narrativa t\u00e3o conhecida pelas crian\u00e7as, nutrindo o intertexto tematizado n\u00e3o somente pelo nome das personagens, mas tamb\u00e9m pela busca do caminho de casa, presente no conto, e pela procura de participa\u00e7\u00e3o em novos tra\u00e7os do papel, inerente ao texto da escritora.<\/p>\n<p>Os recursos desses versos de Murray e das ilustra\u00e7\u00f5es de Elma garantem a expressividade do leitor mirim. Assim, o texto atinge o estatuto da arte por meio da estiliza\u00e7\u00e3o da linguagem verbal e do primoroso projeto gr\u00e1fico editorial, levando a crian\u00e7a a compreender o mundo a sua volta e desafiando-a a completar os vazios ali existentes. A obra contribui, por fim, para a amplia\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cultural de qualidade para crian\u00e7as e pode ser lida por todos aqueles que buscam leituras inovadoras e novas experi\u00eancias est\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Nota explicativa * Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Maring\u00e1. Professora da Faculdade de Presidente Prudente (UNIESP \u2013 FAPEPE) e l\u00edder do grupo de pesquisa \u201cForma\u00e7\u00e3o de professores e as rela\u00e7\u00f5es entre as pr\u00e1ticas educativas em leituras, literatura e avalia\u00e7\u00e3o do texto liter\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Berta L\u00facia Tagliari Feba<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A expressividade da palavra e da imagem no livro O tra\u00e7o e a tra\u00e7a, de Roseana Murray (Livro selecionado para o PNBE 2012 ) Roseana, Os versos do livro O tra\u00e7o e a tra\u00e7a, de Roseana Murray, apresentam a hist\u00f3ria de tra\u00e7as que comiam os tra\u00e7os das letras dos livros. A autora tem mais de 40 t\u00edtulos publicados para o p\u00fablico infantil, mas a qualidade liter\u00e1ria de seus textos n\u00e3o delimita idade e demonstra atemporalidade, interessando tamb\u00e9m \u00e0queles para os quais n\u00e3o foram inicialmente pretendidos. 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Outra qualidade, ainda, pode ser explicada pela plurissignifica\u00e7\u00e3o do texto liter\u00e1rio evidente em \u201cSe a tra\u00e7a soubesse \/ que num papel cabe \/ mais mundo \/ do que gente numa pra\u00e7a \/ ser\u00e1 que desistia?\u201d (p. 13), versos que levam o leitor a participar da leitura e a criar imagens de que tudo o que existe ao seu redor Ipotesi, Juiz de Fora, v. 13, n. 2, p. 171 &#8211; 172, jul.\/dez. 2009 172 pode ser assunto a ser tratado nos livros que a tra\u00e7a comia e, consequentemente, por ser diversificado e em grande quantidade, ela n\u00e3o aguentaria. O efeito de alegria \u00e9 constitu\u00eddo pelo jogo de palavras e de figuras, ao utilizar recursos lingu\u00edsticos como os dois pontos nos versos: \u201cMas a tra\u00e7a n\u00e3o sabia \/ e foi comendo tudo, \/ o ninho, o sol, o canto, \/ os sonhos da cotovia [&#8230;] e [&#8230;] acabou desse jeito:\u201d (p. 14). 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