{"id":432,"date":"2013-01-02T16:32:26","date_gmt":"2013-01-02T18:32:26","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=432"},"modified":"2013-01-02T16:32:26","modified_gmt":"2013-01-02T18:32:26","slug":"vera-maria-tietzmann-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2013\/01\/02\/vera-maria-tietzmann-silva\/","title":{"rendered":"Vera Maria Tietzmann Silva"},"content":{"rendered":"<p><strong>Roseana Murray: poemas para ler na escola<\/strong><\/p>\n<p>Poesia juvenil, um terreno pouco trilhado.<\/p>\n<p>A ideia de se fazer um tipo especial de texto para o adolescente \u00e9 relativamente nova. As gera\u00e7\u00f5es passadas, que se iniciavam na leitura pelos quadrinhos e livros infantis, passavam \u00e0s novelas de aventuras e, destas, aos grandes ficcionistas e poetas, fazendo essa transi\u00e7\u00e3o de modo natural, sem traumas ou dificuldades.<\/p>\n<p>Quando os horm\u00f4nios promoviam suas mudan\u00e7as no corpo, e o anseio amoroso ou as d\u00favidas existenciais avassalavam a mente e inquietavam o cora\u00e7\u00e3o, meninos e meninas buscavam nos poetas consagrados a voz capaz de expressar em palavras o que eles pr\u00f3prios sentiam. Liam, ent\u00e3o, indiscriminadamente poetas cl\u00e1ssicos e modernos, portugueses e brasileiros, de Castro Alves a Vin\u00edcius, de Cam\u00f5es a Cec\u00edlia. N\u00e3o se cogitava a hip\u00f3tese de existir uma poesia voltada para a adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Nos anos 70, com a expans\u00e3o editorial e a intensa oferta de livros para a crian\u00e7a e o jovem, esse p\u00fablico passou a ter acesso a uma produ\u00e7\u00e3o cultural espec\u00edfica e atraente. Contudo, a presen\u00e7a da literatura infantil e juvenil na escola parece ter acompanhado a divis\u00e3o das s\u00e9ries, predominando as obras infantis, voltadas para a primeira fase do Ensino Fundamental, havendo menos op\u00e7\u00f5es para pr\u00e9-adolescentes e adolescentes.<\/p>\n<p>[1] Texto publicado na colet\u00e2nea de artigos cr\u00edticos Olhar o poema: teoria e pr\u00e1tica do letramento po\u00e9tico, organizada por D\u00e9bora Cristina dos Santos e Silva, Goiandira Ortiz de Camargo e Maria Severina Batista Guimar\u00e3es (Goi\u00e2nia: C\u00e2none Editorial, 2012), p.165-177.<\/p>\n<p>Ainda assim, a chamada literatura juvenil, de contornos e limites t\u00e3o imprecisos quanto os do f\u00edsico e da mente de seus leitores, sem d\u00favida existe e vem merecendo a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica especializada, servindo j\u00e1 h\u00e1 algum tempo de corpus de an\u00e1lise para disserta\u00e7\u00f5es e teses acad\u00eamicas. Uma consulta aos cat\u00e1logos das editoras logo deixa perceber que sob o r\u00f3tulo de juvenil h\u00e1 um imenso n\u00famero de novelas e contos, por\u00e9m escassos livros de poemas. A faixa fronteiri\u00e7a entre o infantil e o adulto, o reduzido espa\u00e7o que permeia essas duas fases da vida, parece estreitar-se ainda mais quando se entra no dom\u00ednio do po\u00e9tico. Em boa parte dos livros de poemas declaradamente juvenis observa-se que a qualidade est\u00e9tica com frequ\u00eancia deixa a desejar, seja pela banalidade do conte\u00fado, seja pela indig\u00eancia das solu\u00e7\u00f5es formais \u2013 s\u00e3o poucas as obras que merecem o nome de poesia. Nesse cen\u00e1rio, a obra de Roseana Murray destaca-se pela excel\u00eancia.<\/p>\n<p>Roseana Murray, que estreou na literatura em 1980 com um livro de poemas para a inf\u00e2ncia, inclui-se entre os primeiros poetas a contemplar o p\u00fablico jovem. Desde a d\u00e9cada de 80, ela vem construindo uma obra s\u00f3lida e constante, de amplo reconhecimento da cr\u00edtica, o que se evidencia nas sucessivas premia\u00e7\u00f5es e nos estudos cr\u00edticos sobre sua obra, realizados principalmente nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras.<\/p>\n<p>Roseana tamb\u00e9m incursionou na fic\u00e7\u00e3o, mas seu territ\u00f3rio essencial \u00e9 a poesia, que ela produz em diversas modula\u00e7\u00f5es, ora mais voltada para crian\u00e7as, ora para jovens ou mesmo para leitores adultos. As grada\u00e7\u00f5es de tom, l\u00e9xico, tem\u00e1tica ou recursos estil\u00edsticos \u00e0s vezes s\u00e3o t\u00e3o sutis que se levanta a d\u00favida sobre qual seria, afinal, o p\u00fablico-alvo pretendido. Frequentemente \u00e9 no formato e no projeto gr\u00e1fico, ou, ainda, no cat\u00e1logo da editora, mais do que nos textos em si, que o leitor vai encontrar esse esclarecimento.<\/p>\n<p>Se o destinat\u00e1rio dos poemas de Roseana Murray nem sempre \u00e9 declarado, a sua leitura autoriza duas certezas: de que se est\u00e1 diante de textos genuinamente po\u00e9ticos e de que a autora n\u00e3o subestima seu leitor com facilita\u00e7\u00f5es de linguagem e obviedades de assuntos.<br \/>\nPoesia, um modo especial de ver a realidade<br \/>\nMais do que a t\u00edpica disposi\u00e7\u00e3o na mancha gr\u00e1fica ou a valoriza\u00e7\u00e3o do estrato sonoro da l\u00edngua, o poema se revela como tal por constituir um modo especial de olhar. O poeta observa o mundo com um olhar novo, como se o visse pela primeira vez.  O leitor, diante do texto, revive essa capacidade de ter um olhar inaugural, capaz de ver poeticamente as coisas mais banais. Por isso, todo poema bem constru\u00eddo deve surpreender o leitor, seja pela originalidade do enfoque, seja pelo uso criativo da linguagem.<\/p>\n<p>Um poema se faz com uma constela\u00e7\u00e3o de imagens. Sim, porque \u00e9 de fato nas imagens que se alicer\u00e7a a linguagem po\u00e9tica. A palavra ou locu\u00e7\u00e3o que corporifica a imagem \u2013 em geral um substantivo concreto que se deixa visualizar na mente de quem l\u00ea \u2013 marca-se pela densidade e se intensifica pela repeti\u00e7\u00e3o.  A leitura de um texto po\u00e9tico pede uma atitude especial do leitor: atenta, alerta, dispon\u00edvel, isso porque cabe a ele fazer o preenchimento dos espa\u00e7os do n\u00e3o dito, a tradu\u00e7\u00e3o das met\u00e1foras e alegorias, o desvendamento daquilo que \u00e9 apenas sugerido, a descoberta das alus\u00f5es a outros textos e autores.  Ora, quem concede esse papel de parceria no jogo po\u00e9tico, como faz Roseana Murray, parte do pressuposto de que seu leitor \u00e9 inteligente.<\/p>\n<p>O leitor de poesia precisa estar atento \u00e0s peculiaridades da dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica para ser capaz de fru\u00ed-la em sua justa medida. Para tanto, ele deve ter o ouvido agu\u00e7ado para apreciar o jogo das sonoridades que, como a m\u00fasica, evoca sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es, refor\u00e7ando o que as palavras dizem. E ele precisa ter tamb\u00e9m a vis\u00e3o desenvolvida, ser capaz de \u201cver com a imagina\u00e7\u00e3o\u201d, visualizar mentalmente em cores, formas e volumes aquilo que as imagens po\u00e9ticas apenas sugerem.<br \/>\nPara perceber as imagens e reconhecer as intertextualiza\u00e7\u00f5es, escondidas aqui e ali sob a capa de alus\u00f5es, o leitor de poesia n\u00e3o pode ser um ne\u00f3fito. Ele precisa ter alguma experi\u00eancia de leitura, ser capaz de ir al\u00e9m da superf\u00edcie dos versos. Por isso, esses recursos estil\u00edsticos s\u00e3o menos frequentes nos poemas infantis, onde os jogos sonoros e as brincadeiras com as palavras, que as crian\u00e7as tanto apreciam, s\u00e3o mais presentes. Al\u00e9m disso, o leitor precisa desarmar-se das peias do pensamento l\u00f3gico e abrir-se \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o sem r\u00e9deas, como faz nos momentos de sonho ou de devaneio. Isto porque a poesia reside no dom\u00ednio da emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poesia para ler na escola: temas e voltas<br \/>\nEm 2011, Hebe Coimbra, que em 2002 j\u00e1 havia organizado a colet\u00e2nea Poesia essencial, selecionou os Poemas para ler na escola , uma antologia reunindo 109 poemas de Roseana Murray, editados no per\u00edodo que vai de 1984 a 2010. N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre a origem ou o ano de produ\u00e7\u00e3o de cada poema, n\u00e3o h\u00e1 ilustra\u00e7\u00f5es ou divis\u00e3o por partes, tampouco se percebe com clareza algum tipo de estrutura ou inten\u00e7\u00e3o subjacente \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o dos textos, que parecem fluir de modo mais ou menos aleat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nos mesmos moldes da antologia anterior, esta nova colet\u00e2nea traz poemas curtos e densos, sem facilita\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m sem hermetismo. O projeto gr\u00e1fico \u00e9 s\u00f3brio, apontando para um leitor maduro. A \u00fanica indica\u00e7\u00e3o que remete a um p\u00fablico adolescente \u00e9 o t\u00edtulo, tomado \u00e0 cole\u00e7\u00e3o Para ler na escola, da Editora Objetiva, de que faz parte. Essa cole\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ada em 2011, congrega essencialmente autores da literatura para adultos, como Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o, Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Ronaldo Correia de Brito, Moacyr Scliar e outros. A partir dessa escolha, infere-se que os editores tiveram em mente como p\u00fablico-alvo tamb\u00e9m a escola noturna, as turmas de EJA, os muitos adultos que, por motivos v\u00e1rios, retomam seus estudos tardiamente.<\/p>\n<p>A organizadora da antologia, Hebe Coimbra, antecede sua sele\u00e7\u00e3o de textos por uma \u201cApresenta\u00e7\u00e3o\u201d, em que se dirige diretamente ao jovem estudante, revelando-lhe, de modo sedutor, coloquial e did\u00e1tico, os segredos da leitura de poesia, fazendo-lhe um convite irrecus\u00e1vel para \u201cafinar o olhar\u201d:<br \/>\nDiante de uma obra que nos emociona, seja um poema, um jardim, uma m\u00fasica ou uma dan\u00e7a, \u00e9 o conjunto, o todo que primeiro nos captura. Mas, uma vez capturados, tendemos a afinar nosso olhar sobre ela, a curti-la com mais vagar, e acabamos descobrindo o detalhe, as artes e artimanhas do autor, assim como seus temas e preocupa\u00e7\u00f5es recorrentes, sua vis\u00e3o de mundo. Afinar o olhar&#8230; \u00c9 exatamente isso que voc\u00ea vai fazer agora. (Coimbra, apud Murray, 2011, p.16)<br \/>\nOs \u201ctemas e preocupa\u00e7\u00f5es recorrentes\u201d de Roseana ficam bem vis\u00edveis ao leitor atento \u00e0 medida que percorre a sele\u00e7\u00e3o dos Poemas para ler na escola. \u00c9 pela reitera\u00e7\u00e3o de imagens e situa\u00e7\u00f5es que a \u00eanfase emerge e o mundo po\u00e9tico da autora toma forma. A leitura corrida de todos os poemas logo revela ao leitor a exist\u00eancia de um pequeno conjunto de temas em torno dos quais gravitam todos os textos. S\u00e3o temas e subtemas que \u00e0s vezes se definem em sua singularidade, outras vezes tangenciam-se mutuamente, ou mesmo se aglutinam e confundem. Em suas m\u00faltiplas varia\u00e7\u00f5es, poder\u00edamos dizer que eles se reduzem a dois eixos principais: o ser da poesia e a busca da identidade.<br \/>\nO ser da poesia<br \/>\nEste eixo tem\u00e1tico pode ser percebido, por um lado, na forma como a autora aborda temas e trabalha a linguagem; por outro, no teor metalingu\u00edstico de diversos poemas.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia l\u00edrica dos textos de Roseana Murray \u2013 o ser da sua poesia \u2013 manifesta-se por meio de alguns tra\u00e7os bem espec\u00edficos do g\u00eanero, como, por exemplo, a fus\u00e3o entre o eu-l\u00edrico e a realidade a seu redor. Em diversos poemas, a natureza \u00e9 animada, compartilha sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es com a voz que fala ao leitor: s\u00e3o as m\u00e3os da poetisa, que ela diz que \u201cse queimam no fogo das estrelas mortas\u201d (p.34); a sua casa que, sob seus passos, \u201cacorda [&#8230;], estremece, oscila\u201d (p.41); ou, ainda, as violetas \u00e0 janela, que operam m\u00e1gica metamorfose: \u201ctoco em suas folhas de veludo escuro, e por um momento minhas m\u00e3os se tornam p\u00e9talas\u201d (p.81). \u201cCorpo\u201d mostra bem essa simbiose t\u00edpica do lirismo:<\/p>\n<p><em>Onde termina meu corpo<br \/>\ne come\u00e7a o mundo?<br \/>\nMeu corpo se abre<br \/>\ncomo uma esquina,<br \/>\nas asas espalmadas, inexistentes,<br \/>\ne cada fato, \u00e1rvore,<br \/>\nbicho ou gente,<br \/>\naqui faz pouso [&#8230;].<\/em><br \/>\n(Corpo, p.117)<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 pr\u00f3prio do po\u00e9tico lan\u00e7ar um olhar novo sobre o trivial, transcendendo os limites estreitos da banalidade. Quando descreve as \u201cbuganv\u00edlias no telhado\u201d como um \u201cinc\u00eandio de flores\u201d (p.104), a poetisa exerce o que chamamos de \u201colhar inaugural\u201d, compartilhado por crian\u00e7as e poetas. Vejamos alguns excertos de poemas que exemplificam essa vis\u00e3o surpreendente sobre o corriqueiro, mostrando, sob um prisma novo, respectivamente, uma planta\u00e7\u00e3o de girass\u00f3is em flor, roupas secando no varal, a lua cheia refletida na \u00e1gua, as nuvens vagando no c\u00e9u e um barco atracado no cais:<\/p>\n<p><em>Pequenos s\u00f3is iluminam a terra.<br \/>\nQuem sabe ca\u00edram do c\u00e9u [&#8230;]<br \/>\ncora\u00e7\u00f5es ardentes<br \/>\niluminando nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/em><br \/>\n(Um campo de girass\u00f3is, p.90)<\/p>\n<p><em>As roupas dan\u00e7am no varal,<br \/>\npingam \u00e1gua limpa [&#8230;]<br \/>\ne agora, como p\u00e1ssaros coloridos<br \/>\naprisionados no vento,<br \/>\nesvoa\u00e7am enquanto o sol mergulha.<\/em><br \/>\n(No varal, p.75)<\/p>\n<p><em>No meio do lago<br \/>\na lua est\u00e1 viva<br \/>\ncomo pedra branca<br \/>\nde onde jorra m\u00fasica<br \/>\ne luz de nata<br \/>\npara os poetas<br \/>\nencherem seus potes.<\/em><br \/>\n(A lua, p.58)<\/p>\n<p><em>No oceano do c\u00e9u<br \/>\nas nuvens s\u00e3o barcos<br \/>\nlevando os pensamentos.<\/em><br \/>\n(Nuvens, p.38)<\/p>\n<p><em>O barco \u00e9 leve sombra<br \/>\nsobre a pele do futuro,<br \/>\nno meio do caminho<br \/>\nentre a chegada e a partida.<\/em><br \/>\n(Fronteira, p.91)<\/p>\n<p>Em diversos poemas, o objeto sobre o qual a voz l\u00edrica fala \u00e9 a pr\u00f3pria poesia. S\u00e3o os poemas metalingu\u00edsticos. \u201cNo papel em branco\/ cabe o mundo\u201d (p.109), diz a poetisa, e para povo\u00e1-lo, ela busca \u201ca nascente do poema,\/ seu come\u00e7o de \u00e1gua t\u00edmida\u201d (p.72) at\u00e9 encontrar \u201ctodas as palavras\/ que n\u00e3o foram ditas,\/ as que ficaram presas\/ no fundo da garganta\u201d (p.127). Nesses poemas que tematizam a express\u00e3o po\u00e9tica, a autora fala de seu labor com a linguagem, realizado com afinco e delibera\u00e7\u00e3o, mas fala tamb\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o compulsiva, dom ou sina que se cumpre.<br \/>\nEntre os poemas metalingu\u00edsticos selecionados para esta antologia, inclui-se a s\u00e9rie intitulada \u201cTeia\u201d (p.65, 68, 95), cujo primeiro texto serve de ep\u00edgrafe a esta an\u00e1lise. O t\u00edtulo desses tr\u00eas poemas j\u00e1 \u00e9 altamente simb\u00f3lico por si s\u00f3, pois remete ao trabalho das aranhas (e \u00e0 sua ancestral m\u00edtica, a tecel\u00e3 Aracne). Por compuls\u00e3o, necessidade ou castigo, as aranhas incessantemente fabricam suas teias, feitas de delicadeza e visgo, fasc\u00ednio e perigo. A aranha em seu infinito tecer e as teias com que enreda os passantes podem, numa leitura metaf\u00f3rica, representar o poeta diligente e seus poemas sedutores.<\/p>\n<p>A busca da identidade<br \/>\nO segundo grande eixo tem\u00e1tico diz respeito \u00e0 busca da identidade pessoal, familiar ou humana, pela via da reflex\u00e3o ou da mem\u00f3ria. Dir\u00edamos que esse \u00e9 um tema dominante, uma vez que corresponde a cerca de 20% dos poemas selecionados para esta antologia.<\/p>\n<p>A busca da identidade pessoal \u00e9 um tema que mobiliza principalmente os adolescentes. \u201cQuem sou eu?\u201d e \u201cDe onde eu vim?\u201d s\u00e3o quest\u00f5es fulcrais na vida de todos n\u00f3s e que v\u00eam sendo trabalhadas no mito e nas artes desde todo o sempre. \u00c9dipo Rei, de S\u00f3focles, talvez seja o mais antigo registro liter\u00e1rio deste tema, que costuma ser retomado em filmes e novelas, nas tramas que envolvem a busca de filhos (ou pais) perdidos. O poema escolhido para abrir a antologia focaliza essa quest\u00e3o e atua como um anzol para fisgar o interesse dos jovens, eles mesmos muitas vezes confusos e inseguros ao lidarem com seus \u201cavessos\u201d e seus \u201cquartos escuros\u201d:<\/p>\n<p><em>Quem sou eu<br \/>\ne meu avesso?<br \/>\nQue urdiduras<br \/>\nna sombra,<br \/>\nque tramas secretas<br \/>\nnum quarto escuro<br \/>\nde mim? [&#8230;]<\/em><br \/>\n(Avesso, p. 21)<\/p>\n<p>Buscar a identidade implica olhar para tr\u00e1s e, pela mem\u00f3ria, que a poetisa considera \u201couro no fundo do pote\u201d (p.137), voltar ao passado. Ela, ent\u00e3o, se pergunta: \u201c\u00c9 de ar o tempo?\/ \u00c9 de vento?\/ De que impalp\u00e1vel mat\u00e9ria?\u201d (p.73). Ciente da passagem implac\u00e1vel desse Cronos que tudo devora, ela viaja para tr\u00e1s at\u00e9 as origens mais recuadas, para \u201cescavar o tempo\/ at\u00e9 que as cordas se rompam\/ [&#8230;] e a mem\u00f3ria, serpente\/ enterrada,\/ possa deslizar\u201d (p.108). Chega assim ao tempo das cavernas, um tempo remoto, mas que reconhece como seu, ao afirmar: \u201ctoda lembran\u00e7a\/ da humanidade \u00e9 minha\u201d (p.42).<\/p>\n<p>O forte la\u00e7o que une a experi\u00eancia pessoal da poetisa \u00e0 de seus ancestrais primitivos s\u00e3o os barcos em suas incertas viagens na travessia dos oceanos:<\/p>\n<p><em>Penso nos primeiros homens [&#8230;]<br \/>\na longa viagem por todos os continentes<br \/>\ne quantos mil\u00eanios j\u00e1 se passaram,<br \/>\npenso nos antigos navegantes [&#8230;]<br \/>\naonde chegamos?<br \/>\n(Partida, p.55)<\/em><\/p>\n<p>Com muita insist\u00eancia, na po\u00e9tica de Roseana Murray o tema da identidade soma-se ao da mem\u00f3ria. Nesse caso, o conceito de identidade amplia-se, deixa de ser apenas a identidade pessoal, para converter-se na identidade de uma fam\u00edlia, de um povo ou, mesmo, da humanidade. No poema que encerra o livro, a autora resume o percurso efetuado pela via da mem\u00f3ria: \u201cPara encontrar minhas long\u00ednquas\/ ra\u00edzes,\/ [&#8230;] tenho que cavar o mar\u201d (Sentinela, p.139).<\/p>\n<p>Nos poemas em que, \u201ccavando o mar\u201d, Roseana recupera a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia, observa-se a recorr\u00eancia de uma manifesta\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica, uma imagem entranhada na genealogia de autora. Como no \u201cBolero\u201d de Ravel, nesses poemas h\u00e1 uma esp\u00e9cie de frase musical, que sempre retorna com pequenas varia\u00e7\u00f5es: \u00e9 o barco sobre as \u00e1guas, uma imagem forte porque simb\u00f3lica, de apelo universal.<\/p>\n<p>Navegando nas \u00e1guas dos rios ou do oceano, real ou metaf\u00f3rico, o barco \u2013 \u00e0s vezes reduzido \u00e0 precariedade de \u201cuma jangada de fogo\u201d (p.54) \u2013 est\u00e1 sempre presente na poesia desta autora, associado ao tempo e \u00e0 mem\u00f3ria. Em \u201cVig\u00edlia\u201d, ela declara que \u201ch\u00e1 sempre um barco\/ assombrando a vig\u00edlia\u201d, fustigado \u201cpelas tempestades e sonhos\u201d, um barco que \u201coscila\/ enquanto ouvimos\/ o tropel do tempo\u201d (p.82). Isso merece algumas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mesmo atracado no cais ou estacionado em terra, o barco traz impl\u00edcita a viagem, travessia literal ou aleg\u00f3rica. Ele \u00e9 \u201cs\u00edmbolo do corpo ou ve\u00edculo da exist\u00eancia\u201d (Cirlot, 1984, p.115). Em todas as culturas antigas o barco tem um lugar especial, muitas vezes associado aos rituais da morte e ao mundo das sombras, como entre os gregos, os vikings e os eg\u00edpcios. Na tumba dos fara\u00f3s, a presen\u00e7a de um barco era a garantia da jornada do morto rumo \u00e0 eternidade, ao renascimento. Morte e vida em sobreposi\u00e7\u00e3o, completando-se, como o objeto e sua sombra.<\/p>\n<p>Com respaldo na teoria de Gaston Bachelard sobre a predomin\u00e2ncia de um dos quatro elementos na produ\u00e7\u00e3o dos poetas, S\u00f4nia Menezes, em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, intitulada De \u00e1gua e de ar: a poesia de Roseana Murray, destaca a \u00eanfase das imagens do ar e das \u00e1guas na produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da autora. E \u00e9 sobre as \u00e1guas fluviais ou marinhas que se movem os numerosos barcos de seus poemas, numa rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica de m\u00fatua depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Os dicion\u00e1rios registram que, em termos simb\u00f3licos, o barco, assim como a casa \u2013 imagem tamb\u00e9m recorrente em Roseana \u2013 s\u00e3o imagens femininas, espa\u00e7os c\u00f4ncavos que protegem e abrigam. No caso do barco, por\u00e9m, h\u00e1 uma paradoxal superposi\u00e7\u00e3o de sentidos, pois ele tanto pode ser o \u00fatero que gesta a crian\u00e7a como a urna funer\u00e1ria que encerra o cad\u00e1ver, e cumpre, portanto, uma viagem de chegada ou de partida. Bachelard explica, em A \u00e1gua e os sonhos, que a barca conduzindo ao renascimento, como no mito eg\u00edpcio, \u00e9 o ber\u00e7o reencontrado. Os opostos se reconciliam, e a \u00faltima viagem passa a ser, ent\u00e3o, a primeira viagem (Bachelard, 1989, p.75). No caso da poesia de Roseana Murray, acreditamos que a imagem do barco se reveste ainda de um matiz significativo especial. Vejamos.<\/p>\n<p>Nas Am\u00e9ricas, o povoamento se fez pela imigra\u00e7\u00e3o. Que resta hoje dos povos aut\u00f3ctones? Uma parcela t\u00e3o \u00ednfima e marginalizada que dificilmente lembramos que s\u00e3o eles, os \u00edndios, os leg\u00edtimos brasileiros. N\u00f3s todos, os outros, n\u00e3o passamos de estrangeiros em terra alheia. Estrangeiros que para c\u00e1 vieram h\u00e1 anos, d\u00e9cadas ou mesmo s\u00e9culos, n\u00e3o importa. Nossas ra\u00edzes mais remotas est\u00e3o em outro pa\u00eds, em outro continente.<\/p>\n<p>Para a maioria das pessoas, essa \u00e9 uma quest\u00e3o menor, esquecida no fundo da mente e rejeitada no plano da consci\u00eancia. Mas para muitos, e n\u00e3o s\u00f3 para os rec\u00e9m-chegados, ou os provenientes de culturas ex\u00f3ticas, a sombra do ex\u00edlio d\u00f3i, \u00e9 um peso carregado ao longo da vida e transmitido de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, inelutavelmente. Ciganos e judeus, em especial, pela for\u00e7a do preconceito que milenarmente os marcou, trazem essa carga gen\u00e9tica de estranhamento nas veias.<\/p>\n<p>Na poesia de Roseana percebe-se um insistente olhar para tr\u00e1s, buscando as remotas linhas de sua genealogia, sobretudo recuperando a linhagem sofrida das mulheres que a antecederam na fam\u00edlia. No poema \u201cHeran\u00e7a\u201d, ela declara, j\u00e1 nos dois primeiros versos: \u201cAntes de nascer\/ herdei um barco\u201d. \u00c9 o navio que atravessou o Atl\u00e2ntico, trazendo seus av\u00f3s e seu pai menino para o Brasil e que ela tem a dupla miss\u00e3o de levar \u201cgentilmente\/ at\u00e9 um porto de \u00e1guas calmas\u201d e tamb\u00e9m de tranquilizar o menino assustado, garantindo-lhe que ir\u00e1 \u201cguard\u00e1-lo\/ entre as dobras da pele,\/ entre as dobras de uma mem\u00f3ria [&#8230;] para que em sua morte\/ ele possa dormir em paz\u201d (Heran\u00e7a, p.47-48).<\/p>\n<p>Na tentativa de definir o grande paquiderme que \u00e9 o barco \u201cde nome incompreens\u00edvel\u201d, a poetisa diz que ele \u00e9 aquilo \u201cque carrega e a sua sombra\u201d, sombra feita de medo e incerteza, mas tamb\u00e9m tingida de esperan\u00e7a:<\/p>\n<p><em>Um barco s\u00e3o homens e mulheres<br \/>\nque fogem<br \/>\ndesde s\u00e9culos a fio,<br \/>\nos p\u00e9s fincados no conv\u00e9s molhado,<br \/>\na \u00e1gua salgada dos seus olhos<br \/>\ntece o mapa<br \/>\nda terra prometida.<br \/>\n(Paquiderme, p.124-125)<\/em><\/p>\n<p> Na busca de suas origens, o eu-l\u00edrico recua no tempo, identificando-se com as muitas mulheres que ela mesma foi em s\u00e9culos passados, \u201cas feiticeiras, as atormentadas,\/ as loucas em noites de lua,\/ as que comiam terra\u201d (Clareira, p.64), at\u00e9 encontrar, nessa \u201clinhagem de mulheres\/ andarilhas\u201d, diante de um po\u00e7o, \u201cnuma aldeia long\u00ednqua,\/ a que um dia seria [sua] av\u00f3\u201d (p.56). Seguindo adiante na linha do tempo, avan\u00e7a at\u00e9 ver sua m\u00e3e, que, \u201cna beira do cais,\/ esperava a hora\/ de embarcar em seu destino\u201d, para que a filha, tanto tempo depois, na sua \u201crede de pescar\/ mem\u00f3rias, apanhasse\/ essa hora\u201d (Rede, p.130). Ela sumariza essa sua hist\u00f3ria que vem de longe, viajando pelo sangue das mulheres da fam\u00edlia, dizendo: \u201cmeu alento\/ fala de todas as mulheres\/ que me habitam,\/ das lobas ao redor do fogo\/ num tempo antes do tempo\u201d (Gestos, p.80). E mais revela:<\/p>\n<p><em>Minhas ra\u00edzes vieram<br \/>\nde uma aldeia perdida<br \/>\n[&#8230;].<br \/>\nMinhas ra\u00edzes vieram de barco,<br \/>\nencharcadas de l\u00e1grimas<br \/>\ne \u00e0s vezes se lembram<br \/>\nde uma terra que n\u00e3o conheci [&#8230;].<br \/>\n(Ra\u00edzes, p.83)<\/em><\/p>\n<p>Que resta ao fim dessa viagem no barco da mem\u00f3ria? Restam as lembran\u00e7as do que foi perdido ou deixado para tr\u00e1s, \u201cum casar\u00e3o ausente\u201d, suas \u201cescadas\/ e um som imagin\u00e1rio\/ de passos na madeira\u201d (Um desenho, p.123). Restam, guardados na mala do imigrante:<\/p>\n<p><em>o reboco<br \/>\ndas casas desaparecidas [&#8230;]<br \/>\numa aldeia inteira e seus violinos,<br \/>\nseus cofres abertos, seus mortos<br \/>\n[&#8230;]<br \/>\no que j\u00e1 n\u00e3o existe mais,<br \/>\na pele das fotografias desbotadas,<br \/>\na corda que une os abismos.<br \/>\n(Peda\u00e7os quebrados, p.96-97)<\/em><\/p>\n<p> Resta, ainda, como lembran\u00e7a e penhor desse tempo, uma velha fotografia, que \u201co tempo pinta de amarelo\u201d, como se fosse \u201cuma esp\u00e9cie de outono\u201d:<\/p>\n<p><em>de amarelo os olhares,<br \/>\nos sorrisos, as roupas,<br \/>\nas m\u00e3os, os sapatos.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um amarelo qualquer<br \/>\n[&#8230;]<br \/>\n\u00c9 um amarelo-saudade.<br \/>\n(Fotografia amarelada, p.138)<\/em><\/p>\n<p>Resta, ao fim de tudo, a casa, tornada mais leve sem o peso do sofrimento passado e que, barco liberto de seu lastro, pode enfim navegar, ou at\u00e9 mesmo voar. Nessa casa renovada e inundada pela luz da tarde, somente as boas lembran\u00e7as s\u00e3o preservadas, \u201co rel\u00f3gio bate apenas\/ as horas de alegria\/ e em volta da mesa\/ todos os que partiram,\/ os que ficaram,\/ entrela\u00e7am as m\u00e3os\u201d (Casa, p.110-111).<\/p>\n<p>Para finalizar<br \/>\nPoemas para ler na escola \u00e9 um livro juvenil? Sim, mas n\u00e3o s\u00f3 isso. Seus poemas satisfazem plenamente jovens e adultos, todos os que sabem apreciar a linguagem po\u00e9tica que, mais do que carrear um sentido, chama a aten\u00e7\u00e3o sobre si mesma, mostra-se em sua beleza de alus\u00f5es e subentendidos, dando forma aos sentimentos indefinidos que o leitor n\u00e3o se sente capaz de ele mesmo expressar.<\/p>\n<p>Na trajet\u00f3ria po\u00e9tica de Roseana Murray podemos ver uma semelhan\u00e7a com o caminho que vem sendo percorrido por Lygia Bojunga na fic\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m iniciou sua produ\u00e7\u00e3o com textos inequivocamente direcionados \u00e0 crian\u00e7a, mas que foram pouco a pouco se tornando mais complexos, desafiando o leitor a mergulhos mais profundos pela via do simb\u00f3lico, at\u00e9 chegarem \u00e0s obras mais recentes, onde j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel definir seu p\u00fablico-alvo. Roseana Murray e Lygia Bojunga, dois expoentes da nossa literatura, t\u00eam o cond\u00e3o de tocar o cora\u00e7\u00e3o de seus leitores de qualquer idade, falando com eles e por eles, numa linguagem que \u00e9, acima de tudo, art\u00edstica.<\/p>\n<p>\u201cErgui um monumento mais duradouro do que o bronze\u201d, disse o poeta Hor\u00e1cio. Ultrapassar as barreiras do tempo e permanecer mesmo ap\u00f3s a morte \u00e9 privil\u00e9gio do artista. Tamb\u00e9m Roseana anseia por essa perman\u00eancia, que sem d\u00favida j\u00e1 est\u00e1 assegurada. Com o belo poema \u201cPara lembrar\u201d encerramos esta breve leitura de Poemas para ler na escola:<\/p>\n<p><em>Quando eu morrer<br \/>\nme amarre em teu corpo<br \/>\ncom as vigorosas cordas<br \/>\nda palavra,<br \/>\nquando eu for s\u00f3 palavra<br \/>\nme amarre em teus olhos<br \/>\ncom as fr\u00e1geis cordas<br \/>\nda mem\u00f3ria,<br \/>\nquando eu for apenas<br \/>\numa fragr\u00e2ncia long\u00ednqua,<br \/>\ntoque os s<br \/>\ninos<br \/>\nda minha poesia<br \/>\npara lembrar.<br \/>\n(Para lembrar, p.74)<\/em><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nBACHELARD, Gaston. A \u00e1gua e os sonhos. Tradu\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio de P\u00e1dua Danesi. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1989.<br \/>\nCHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicion\u00e1rio de s\u00edmbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, n\u00fameros. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera da Costa e Silva et al. 2 ed. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1989.<br \/>\nCIRLOT, Juan-Eduardo. Dicion\u00e1rio de s\u00edmbolos. Tradu\u00e7\u00e3o de Rubens Eduardo Ferreira Frias. S\u00e3o Paulo: Moraes, 1984.<br \/>\nMENEZES, S\u00f4nia Maria dos Santos. De \u00e1gua e de ar: a poesia de Roseana Murray. 2004. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) \u2013 UFG, Goi\u00e2nia, 2004.<br \/>\nMURRAY, Roseana. Poesia essencial. Organiza\u00e7\u00e3o de Hebe Coimbra. Rio de Janeiro: Manati, 2002.<br \/>\nMURRAY, Roseana. Poemas para ler na escola. Organiza\u00e7\u00e3o de Hebe Coimbra. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.<br \/>\nSILVA, Vera Maria T. Nos dom\u00ednios da sensibilidade. In: Leitura liter\u00e1ria &#038; outras leituras: impasses e alternativas no trabalho do professor. Belo Horizonte: RHJ, 2009, p.95-126.<\/p>\n<p>Todas as cita\u00e7\u00f5es de poemas de Roseana Murray pertencem \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o da antologia Poemas para ler na escola (Objetiva, 2011, organizada por Hebe Coimbra) e trazem apenas a indica\u00e7\u00e3o do poema e da p\u00e1gina de onde foram retiradas.<\/p>\n<p>Vera Maria Tietzmann Silva<\/p>\n<p>Entrela\u00e7ar \u00e1gua e fogo<br \/>\nnum encontro imposs\u00edvel:<br \/>\npoesia.<br \/>\n(Roseana Murray)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roseana Murray: poemas para ler na escola Poesia juvenil, um terreno pouco trilhado. A ideia de se fazer um tipo especial de texto para o adolescente \u00e9 relativamente nova. As gera\u00e7\u00f5es passadas, que se iniciavam na leitura pelos quadrinhos e livros infantis, passavam \u00e0s novelas de aventuras e, destas, aos grandes ficcionistas e poetas, fazendo essa transi\u00e7\u00e3o de modo natural, sem traumas ou dificuldades. Quando os horm\u00f4nios promoviam suas mudan\u00e7as no corpo, e o anseio amoroso ou as d\u00favidas existenciais avassalavam a mente e inquietavam o cora\u00e7\u00e3o, meninos e meninas buscavam nos poetas consagrados a voz capaz de expressar em palavras o que eles pr\u00f3prios sentiam. Liam, ent\u00e3o, indiscriminadamente poetas cl\u00e1ssicos e modernos, portugueses e brasileiros, de Castro Alves a Vin\u00edcius, de Cam\u00f5es a Cec\u00edlia. N\u00e3o se cogitava a hip\u00f3tese de existir uma poesia voltada para a adolesc\u00eancia. Nos anos 70, com a expans\u00e3o editorial e a intensa oferta de livros para a crian\u00e7a e o jovem, esse p\u00fablico passou a ter acesso a uma produ\u00e7\u00e3o cultural espec\u00edfica e atraente. Contudo, a presen\u00e7a da literatura infantil e juvenil na escola parece ter acompanhado a divis\u00e3o das s\u00e9ries, predominando as obras infantis, voltadas para a primeira fase do Ensino Fundamental, havendo menos op\u00e7\u00f5es para pr\u00e9-adolescentes e adolescentes. [1] Texto publicado na colet\u00e2nea de artigos cr\u00edticos Olhar o poema: teoria e pr\u00e1tica do letramento po\u00e9tico, organizada por D\u00e9bora Cristina dos Santos e Silva, Goiandira Ortiz de Camargo e Maria Severina Batista Guimar\u00e3es (Goi\u00e2nia: C\u00e2none Editorial, 2012), p.165-177. Ainda assim, a chamada literatura juvenil, de contornos e limites t\u00e3o imprecisos quanto os do f\u00edsico e da mente de seus leitores, sem d\u00favida existe e vem merecendo a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica especializada, servindo j\u00e1 h\u00e1 algum tempo de corpus de an\u00e1lise para disserta\u00e7\u00f5es e teses acad\u00eamicas. Uma consulta aos cat\u00e1logos das editoras logo deixa perceber que sob o r\u00f3tulo de juvenil h\u00e1 um imenso n\u00famero de novelas e contos, por\u00e9m escassos livros de poemas. A faixa fronteiri\u00e7a entre o infantil e o adulto, o reduzido espa\u00e7o que permeia essas duas fases da vida, parece estreitar-se ainda mais quando se entra no dom\u00ednio do po\u00e9tico. Em boa parte dos livros de poemas declaradamente juvenis observa-se que a qualidade est\u00e9tica com frequ\u00eancia deixa a desejar, seja pela banalidade do conte\u00fado, seja pela indig\u00eancia das solu\u00e7\u00f5es formais \u2013 s\u00e3o poucas as obras que merecem o nome de poesia. Nesse cen\u00e1rio, a obra de Roseana Murray destaca-se pela excel\u00eancia. Roseana Murray, que estreou na literatura em 1980 com um livro de poemas para a inf\u00e2ncia, inclui-se entre os primeiros poetas a contemplar o p\u00fablico jovem. Desde a d\u00e9cada de 80, ela vem construindo uma obra s\u00f3lida e constante, de amplo reconhecimento da cr\u00edtica, o que se evidencia nas sucessivas premia\u00e7\u00f5es e nos estudos cr\u00edticos sobre sua obra, realizados principalmente nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras. Roseana tamb\u00e9m incursionou na fic\u00e7\u00e3o, mas seu territ\u00f3rio essencial \u00e9 a poesia, que ela produz em diversas modula\u00e7\u00f5es, ora mais voltada para crian\u00e7as, ora para jovens ou mesmo para leitores adultos. As grada\u00e7\u00f5es de tom, l\u00e9xico, tem\u00e1tica ou recursos estil\u00edsticos \u00e0s vezes s\u00e3o t\u00e3o sutis que se levanta a d\u00favida sobre qual seria, afinal, o p\u00fablico-alvo pretendido. Frequentemente \u00e9 no formato e no projeto gr\u00e1fico, ou, ainda, no cat\u00e1logo da editora, mais do que nos textos em si, que o leitor vai encontrar esse esclarecimento. Se o destinat\u00e1rio dos poemas de Roseana Murray nem sempre \u00e9 declarado, a sua leitura autoriza duas certezas: de que se est\u00e1 diante de textos genuinamente po\u00e9ticos e de que a autora n\u00e3o subestima seu leitor com facilita\u00e7\u00f5es de linguagem e obviedades de assuntos. Poesia, um modo especial de ver a realidade Mais do que a t\u00edpica disposi\u00e7\u00e3o na mancha gr\u00e1fica ou a valoriza\u00e7\u00e3o do estrato sonoro da l\u00edngua, o poema se revela como tal por constituir um modo especial de olhar. O poeta observa o mundo com um olhar novo, como se o visse pela primeira vez. O leitor, diante do texto, revive essa capacidade de ter um olhar inaugural, capaz de ver poeticamente as coisas mais banais. Por isso, todo poema bem constru\u00eddo deve surpreender o leitor, seja pela originalidade do enfoque, seja pelo uso criativo da linguagem. Um poema se faz com uma constela\u00e7\u00e3o de imagens. Sim, porque \u00e9 de fato nas imagens que se alicer\u00e7a a linguagem po\u00e9tica. A palavra ou locu\u00e7\u00e3o que corporifica a imagem \u2013 em geral um substantivo concreto que se deixa visualizar na mente de quem l\u00ea \u2013 marca-se pela densidade e se intensifica pela repeti\u00e7\u00e3o. A leitura de um texto po\u00e9tico pede uma atitude especial do leitor: atenta, alerta, dispon\u00edvel, isso porque cabe a ele fazer o preenchimento dos espa\u00e7os do n\u00e3o dito, a tradu\u00e7\u00e3o das met\u00e1foras e alegorias, o desvendamento daquilo que \u00e9 apenas sugerido, a descoberta das alus\u00f5es a outros textos e autores. Ora, quem concede esse papel de parceria no jogo po\u00e9tico, como faz Roseana Murray, parte do pressuposto de que seu leitor \u00e9 inteligente. O leitor de poesia precisa estar atento \u00e0s peculiaridades da dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica para ser capaz de fru\u00ed-la em sua justa medida. Para tanto, ele deve ter o ouvido agu\u00e7ado para apreciar o jogo das sonoridades que, como a m\u00fasica, evoca sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es, refor\u00e7ando o que as palavras dizem. E ele precisa ter tamb\u00e9m a vis\u00e3o desenvolvida, ser capaz de \u201cver com a imagina\u00e7\u00e3o\u201d, visualizar mentalmente em cores, formas e volumes aquilo que as imagens po\u00e9ticas apenas sugerem. Para perceber as imagens e reconhecer as intertextualiza\u00e7\u00f5es, escondidas aqui e ali sob a capa de alus\u00f5es, o leitor de poesia n\u00e3o pode ser um ne\u00f3fito. Ele precisa ter alguma experi\u00eancia de leitura, ser capaz de ir al\u00e9m da superf\u00edcie dos versos. Por isso, esses recursos estil\u00edsticos s\u00e3o menos frequentes nos poemas infantis, onde os jogos sonoros e as brincadeiras com as palavras, que as crian\u00e7as tanto apreciam, s\u00e3o mais presentes. Al\u00e9m disso, o leitor precisa desarmar-se das peias do pensamento l\u00f3gico e abrir-se \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o sem r\u00e9deas, como faz nos momentos de sonho ou de devaneio. Isto porque a poesia reside<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-432","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-e-opinioes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=432"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}