{"id":426,"date":"2013-03-16T16:28:25","date_gmt":"2013-03-16T19:28:25","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=426"},"modified":"2013-03-16T16:28:25","modified_gmt":"2013-03-16T19:28:25","slug":"aline-universidade-federal-de-rondonia-campus-vilhena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2013\/03\/16\/aline-universidade-federal-de-rondonia-campus-vilhena\/","title":{"rendered":"Aline &#8211; Universidade Federal de Rond\u00f4nia \u2013 Campus Vilhena"},"content":{"rendered":"<p><strong>Beija-flor<\/strong><br \/>\n<em><br \/>\nBeija-flor pequenininho<br \/>\nque beija a flor com carinho,<br \/>\nme d\u00e1 um pouco de amor,<br \/>\nque hoje estou t\u00e3o sozinho&#8230;<br \/>\nBeija-flor pequenininho,<br \/>\n\u00e9 certo que n\u00e3o sou flor,<br \/>\nmas eu quero um beijinho,<br \/>\nque hoje estou t\u00e3o sozinho&#8230;<\/em><\/p>\n<p>(Roseana Murray, vers\u00e3o obtida no blog da autora: <a href=\"http:\/\/blogdaroseana.blogspot.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/blogdaroseana.blogspot.com.br<\/a>)<\/p>\n<p>Beija-flor, de Roseana Murray, \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o curta, constitu\u00edda por duas quadrinhas heptass\u00edlabas cujo conte\u00fado ostensivo, de extrema simplicidade, n\u00e3o oferece qualquer dificuldade de compreens\u00e3o para o leitor: o poema \u00e9 escrito sob a forma de um apelo ou s\u00faplica \u2013 o pedido de um \u2018beijinho\u2019, de um eu-l\u00edrico que fala na primeira pessoa, dirigido a um \u2018beija-flor pequenininho\u2019. N\u00e3o obstante essa aludida simplicidade, merecem nota alguns procedimentos utilizados pela autora na fatura do poema.<\/p>\n<p>O verso de sete s\u00edlabas, utilizado em Beija-flor, \u00e9 o verso popular por excel\u00eancia, de grande varia\u00e7\u00e3o r\u00edtmica e com regras de acentua\u00e7\u00e3o, em princ\u00edpio, mais f\u00e1ceis de seguir, utilizado na literatura de cordel e nas cantigas populares. Esse esquema r\u00edtmico particular, aliado \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, na segunda estrofe, do primeiro e \u00faltimo versos da primeira estrofe faz lembrar o rond\u00f3, forma fixa de composi\u00e7\u00e3o musical. O esquema rim\u00e1tico AABA \/\/ABAA refor\u00e7a tamb\u00e9m essa natureza musical do poema \u2013 note-se que a rima consiste quase exclusivamente na reprodu\u00e7\u00e3o do \/ \u0272\u01b1\/ no final de seis dos oito versos que comp\u00f5em as duas quadras, repeti\u00e7\u00e3o que evoca a regularidade t\u00edpica da can\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>O l\u00e9xico e a sintaxe de Beija-flor s\u00e3o tamb\u00e9m simples, organizados numa ordem expositiva clara e direta, numa quase aus\u00eancia de linguagem figurada, sendo as palavras utilizadas, em geral, no seu sentido mais pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O verso de abertura do poema \u00e9 marcado por um enjambement com o segundo verso, cuja v\u00edrgula final marca sintaticamente a presen\u00e7a de um vocativo, correspondendo, no plano sem\u00e2ntico, a uma ap\u00f3strofe ou invoca\u00e7\u00e3o da entidade do \u2018beija-flor\u2019. Esse enjambement \u00e9 \u00fanico no poema e contrasta com os demais versos, que constituem unidades sint\u00e1ticas completas. Notemos que a presen\u00e7a da v\u00edrgula apenas no final do segundo verso (\u2018Beija-flor pequeninho\/que beija a flor com carinho,\u2019)  atribui um car\u00e1cter restritivo \u00e0 ideia de \u2018beijar a flor\u2019, em contraste com a possibilidade de uma ora\u00e7\u00e3o explicativa, o que aconteceria caso a v\u00edrgula fosse deslocada para o final do primeiro verso (\u2018Beija-flor pequeninho, \/ que beija a flor com carinho,\u2019). O \u2018beija-flor\u2019, entidade evocada, adquire aqui, ent\u00e3o, especificidade: \u00e9 \u2018pequenininho\u2019 e, simultaneamente, \u00e9 o que \u2018beija a flor com carinho\u2019, deixando de ser qualquer para ser aquele. Outro aspecto sint\u00e1tico que merece nota ocorre no terceiro verso. Nele, a anteposi\u00e7\u00e3o do pronome reflexivo \u2018me\u2019, sintaticamente objeto indireto da frase, ao verbo dar, no presente no imperativo, \u00e9 marca da oralidade e, embora n\u00e3o chegue a constituir um desvio significativo, \u00e9 de assinalar a sua harmonia com o car\u00e1cter popular do poema a que aludimos no in\u00edcio.<\/p>\n<p>A pontua\u00e7\u00e3o, por sua vez, \u00e9 marcada por um uso predominante da v\u00edrgula, que aparece em cinco versos, e pela aus\u00eancia de ponto final, substitu\u00eddo por retic\u00eancias. Entendemos aqui o uso da v\u00edrgula, o sinal de pontua\u00e7\u00e3o mais afeito \u00e0 oralidade e ao seu car\u00e1ter continuum, como sendo outro aspecto formal em conson\u00e2ncia com plano de conte\u00fado, que, n\u00e3o nos esque\u00e7amos, pode ser compreendido como uma esp\u00e9cie de \u2018di\u00e1logo\u2019 ou interpela\u00e7\u00e3o direta da entidade do beija-flor. J\u00e1 a utiliza\u00e7\u00e3o das retic\u00eancias pode ser lida como uma pausa volunt\u00e1ria na \u2018fala\u2019 do eu-l\u00edrico, sugerindo uma dificuldade em verbalizar a sua solid\u00e3o (\u2018que hoje estou t\u00e3o sozinho&#8230;\u2019), comprovada pela mudan\u00e7a brusca de assunto que ocorre no verso seguinte.<\/p>\n<p>A sonoridade expressiva lograda pela alitera\u00e7\u00e3o da nasal palatal (\u2018pequenininho\u2019, \u2018carinho\u2019, \u2018sozinho\u2019, \u2018beijinho\u2019) sublinha o car\u00e1cter motivado da sele\u00e7\u00e3o lexical: \u00e9, pois, precisamente essa alitera\u00e7\u00e3o que ajuda a construir um  tom tristonho, disf\u00f3rico e mon\u00f3tono, em harmonia com a s\u00faplica e a expressa solid\u00e3o que ocorrem do plano de conte\u00fado. Assim, entendemos a evoca\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do beija-flor por parte do eu-l\u00edrico: estando triste, sozinho e como estrat\u00e9gia de solu\u00e7\u00e3o para esse estado, evoca o p\u00e1ssaro associado ao amor rom\u00e2ntico e \u00e0 claridade e ao qual se atribuem poderes de cura e de atra\u00e7\u00e3o da felicidade.<\/p>\n<p>Chama-nos a aten\u00e7\u00e3o, por \u00faltimo, o car\u00e1cter l\u00fadico que, ainda que discreto, \u00e9 pass\u00edvel de ser identificado na utiliza\u00e7\u00e3o que o poema faz de dois voc\u00e1bulos espec\u00edficos. Note-se que \u2018beija\u2019, justaposto a flor, em \u2018beija-flor\u2019, \u00e9 um substantivo; no segundo verso, o mesmo voc\u00e1bulo transforma-se em verbo transitivo direto, cujo complemento \u00e9 \u2018flor\u2019. Semelhante situa\u00e7\u00e3o ocorre com o voc\u00e1bulo \u2018flor\u2019 \u2013 notemos que, no primeiro e segundo versos, \u2018flor\u2019 \u00e9 substantivo; j\u00e1 no sexto verso, o mesmo voc\u00e1bulo transforma-se em adjetivo, numa constru\u00e7\u00e3o marcada pela aus\u00eancia de um previs\u00edvel artigo indefin\u00edvel que o substantivaria (\u2018\u00e9 certo que n\u00e3o sou flor\u2019). Estes \u2018jogos morfol\u00f3gicos\u2019 fazem tamb\u00e9m de Beija-flor um exerc\u00edcio l\u00fadico de explora\u00e7\u00e3o da linguagem.<\/p>\n<p>Aline<\/p>\n<p>Universidade Federal de Rond\u00f4nia \u2013 Campus Vilhena<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beija-flor Beija-flor pequenininho que beija a flor com carinho, me d\u00e1 um pouco de amor, que hoje estou t\u00e3o sozinho&#8230; Beija-flor pequenininho, \u00e9 certo que n\u00e3o sou flor, mas eu quero um beijinho, que hoje estou t\u00e3o sozinho&#8230; (Roseana Murray, vers\u00e3o obtida no blog da autora: http:\/\/blogdaroseana.blogspot.com.br) Beija-flor, de Roseana Murray, \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o curta, constitu\u00edda por duas quadrinhas heptass\u00edlabas cujo conte\u00fado ostensivo, de extrema simplicidade, n\u00e3o oferece qualquer dificuldade de compreens\u00e3o para o leitor: o poema \u00e9 escrito sob a forma de um apelo ou s\u00faplica \u2013 o pedido de um \u2018beijinho\u2019, de um eu-l\u00edrico que fala na primeira pessoa, dirigido a um \u2018beija-flor pequenininho\u2019. 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J\u00e1 a utiliza\u00e7\u00e3o das retic\u00eancias pode ser lida como uma pausa volunt\u00e1ria na \u2018fala\u2019 do eu-l\u00edrico, sugerindo uma dificuldade em verbalizar a sua solid\u00e3o (\u2018que hoje estou t\u00e3o sozinho&#8230;\u2019), comprovada pela mudan\u00e7a brusca de assunto que ocorre no verso seguinte. A sonoridade expressiva lograda pela alitera\u00e7\u00e3o da nasal palatal (\u2018pequenininho\u2019, \u2018carinho\u2019, \u2018sozinho\u2019, \u2018beijinho\u2019) sublinha o car\u00e1cter motivado da sele\u00e7\u00e3o lexical: \u00e9, pois, precisamente essa alitera\u00e7\u00e3o que ajuda a construir um tom tristonho, disf\u00f3rico e mon\u00f3tono, em harmonia com a s\u00faplica e a expressa solid\u00e3o que ocorrem do plano de conte\u00fado. 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