{"id":424,"date":"2013-03-17T16:26:50","date_gmt":"2013-03-17T19:26:50","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=424"},"modified":"2013-03-17T16:26:50","modified_gmt":"2013-03-17T19:26:50","slug":"luana-raquel-da-silva-universidade-federal-de-rondonia-campus-vilhena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2013\/03\/17\/luana-raquel-da-silva-universidade-federal-de-rondonia-campus-vilhena\/","title":{"rendered":"Luana Raquel da Silva &#8211; Universidade Federal de Rond\u00f4nia \u2013 Campus Vilhena"},"content":{"rendered":"<p><strong>Receita de espantar a tristeza<\/strong><br \/>\n(Roseana Murray)<\/p>\n<p><em>Fa\u00e7a uma careta<br \/>\ne mande a tristeza<br \/>\npra longe pro outro lado<br \/>\ndo mar ou da rua<br \/>\nv\u00e1 para o meio da rua<br \/>\ne plante bananeira<br \/>\nfa\u00e7a alguma besteira<\/p>\n<p>depois estique os bra\u00e7os<br \/>\napanhe a primeira estrela<br \/>\ne procure o melhor amigo<br \/>\npara um longo e apertado abra\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p>O poema proporciona uma imagem de movimento: parece pedir certas a\u00e7\u00f5es internas e externas do leitor: as primeiras, interiores, como base para a realiza\u00e7\u00e3o das segundas, que por sua vez, s\u00e3o exteriores. Desenha-se um estado de humor que vai se alterando, ou que deve ser alterado, conforme as a\u00e7\u00f5es que devem ser feitas, a partir de um \u201cpasso-a-passo\u201d para mandar a tristeza embora.<\/p>\n<p>O conjunto de verbos no modo imperativo fa\u00e7a, mande, v\u00e1, plante, estique, apanhe, procure, parece marcar a fun\u00e7\u00e3o conativa da linguagem eaponta uma s\u00e9rie de ordens ou conselhos, tra\u00e7o lingu\u00edstico comum em receitas (textos instrucionais).<\/p>\n<p>As estrofes \u2013 versificadas sem pontua\u00e7\u00e3o \u2013 se posicionam obedecendo \u00e0 ideia de grada\u00e7\u00e3o, apresentando ideias de a\u00e7\u00f5es internas (mandar a tristeza embora) e externas (ir para o meio da rua e abra\u00e7ar um amigo). Pode-se pensar que elas funcionam como grandes (or)a\u00e7\u00f5es principais, respons\u00e1veis por gerar o que vem adiante, n\u00e3o permitindo que as a\u00e7\u00f5es sejam independentes ou que sejam trocadas de lugar: para a receita surtir efeito, as ideias (estrofes) devem obedecer \u00e0 regra de estarem umas ap\u00f3s as outras.<\/p>\n<p>Embora haja, explicitamente, apenas um adv\u00e9rbio de tempo no poema (depois, no primeiro verso da terceira estrofe), \u00e9 percept\u00edvel a presen\u00e7a impl\u00edcita de outros, sublinhando ainda mais a sensa\u00e7\u00e3o de ordem, de grada\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, como sugerido a seguir:<\/p>\n<p>Primeiro\u00b9, fa\u00e7a uma careta<br \/>\ndepois, mande a tristeza pra longe<br \/>\npro outro lado do mar ou da lua<br \/>\nagora, v\u00e1 para o meio da rua<br \/>\ne plante bananeira, fa\u00e7a alguma besteira<br \/>\nDepois\u00b2, estique os bra\u00e7os e apanhe a primeira estrela<br \/>\nPor fim, procure o melhor amigo<br \/>\npara um longo e apertado abra\u00e7o.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de movimento em \u201cReceita de espantar a tristeza\u201d \u00e9 formada n\u00edtida e gradativamente; contudo, n\u00e3o apenas a partir dos verbos ativos, mas atrav\u00e9s de todo o conjunto de escolhas estil\u00edsticas.<\/p>\n<p>Para se contrapor \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o gradativa do poema, analisa-se agora, por \u00faltimo, o t\u00edtulo (que \u00e9 o come\u00e7o): ele aparece como \u00edndice de um \u201cmodo de fazer\u201d que independeria de a\u00e7\u00f5es subjetivas, quando, na realidade, parece desafiar quem recebe a \u201creceita\u201d, convidando o receptor a ser o ingrediente principal. Movimentar-se dentro de si, no mundo e para o outro \u00e9, no fim, a receita de espantar a tristeza.<\/p>\n<p>\u00b9 Os adv\u00e9rbios negritados e as v\u00edrgulas s\u00e3o sugest\u00f5es minhas<br \/>\n\u00b2 Tal qual o original<\/p>\n<p>Universidade Federal de Rond\u00f4nia<br \/>\nLuana Raquel da Silva<br \/>\nAn\u00e1lise estil\u00edstica de &#8220;Receita de espantar a tristeza&#8221;, de Roseana Murray<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Receita de espantar a tristeza (Roseana Murray) Fa\u00e7a uma careta e mande a tristeza pra longe pro outro lado do mar ou da rua v\u00e1 para o meio da rua e plante bananeira fa\u00e7a alguma besteira depois estique os bra\u00e7os apanhe a primeira estrela e procure o melhor amigo para um longo e apertado abra\u00e7o. O poema proporciona uma imagem de movimento: parece pedir certas a\u00e7\u00f5es internas e externas do leitor: as primeiras, interiores, como base para a realiza\u00e7\u00e3o das segundas, que por sua vez, s\u00e3o exteriores. Desenha-se um estado de humor que vai se alterando, ou que deve ser alterado, conforme as a\u00e7\u00f5es que devem ser feitas, a partir de um \u201cpasso-a-passo\u201d para mandar a tristeza embora. O conjunto de verbos no modo imperativo fa\u00e7a, mande, v\u00e1, plante, estique, apanhe, procure, parece marcar a fun\u00e7\u00e3o conativa da linguagem eaponta uma s\u00e9rie de ordens ou conselhos, tra\u00e7o lingu\u00edstico comum em receitas (textos instrucionais). As estrofes \u2013 versificadas sem pontua\u00e7\u00e3o \u2013 se posicionam obedecendo \u00e0 ideia de grada\u00e7\u00e3o, apresentando ideias de a\u00e7\u00f5es internas (mandar a tristeza embora) e externas (ir para o meio da rua e abra\u00e7ar um amigo). Pode-se pensar que elas funcionam como grandes (or)a\u00e7\u00f5es principais, respons\u00e1veis por gerar o que vem adiante, n\u00e3o permitindo que as a\u00e7\u00f5es sejam independentes ou que sejam trocadas de lugar: para a receita surtir efeito, as ideias (estrofes) devem obedecer \u00e0 regra de estarem umas ap\u00f3s as outras. Embora haja, explicitamente, apenas um adv\u00e9rbio de tempo no poema (depois, no primeiro verso da terceira estrofe), \u00e9 percept\u00edvel a presen\u00e7a impl\u00edcita de outros, sublinhando ainda mais a sensa\u00e7\u00e3o de ordem, de grada\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, como sugerido a seguir: Primeiro\u00b9, fa\u00e7a uma careta depois, mande a tristeza pra longe pro outro lado do mar ou da lua agora, v\u00e1 para o meio da rua e plante bananeira, fa\u00e7a alguma besteira Depois\u00b2, estique os bra\u00e7os e apanhe a primeira estrela Por fim, procure o melhor amigo para um longo e apertado abra\u00e7o. A no\u00e7\u00e3o de movimento em \u201cReceita de espantar a tristeza\u201d \u00e9 formada n\u00edtida e gradativamente; contudo, n\u00e3o apenas a partir dos verbos ativos, mas atrav\u00e9s de todo o conjunto de escolhas estil\u00edsticas. Para se contrapor \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o gradativa do poema, analisa-se agora, por \u00faltimo, o t\u00edtulo (que \u00e9 o come\u00e7o): ele aparece como \u00edndice de um \u201cmodo de fazer\u201d que independeria de a\u00e7\u00f5es subjetivas, quando, na realidade, parece desafiar quem recebe a \u201creceita\u201d, convidando o receptor a ser o ingrediente principal. 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