{"id":3879,"date":"2026-03-16T12:02:08","date_gmt":"2026-03-16T12:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=3879"},"modified":"2026-03-16T12:04:34","modified_gmt":"2026-03-16T12:04:34","slug":"william-amorim-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2026\/03\/16\/william-amorim-2\/","title":{"rendered":"William Amorim"},"content":{"rendered":"<p>O trauma \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, um evento que nos deixa sem ch\u00e3o , sem teto. Ele rompe as paredes do nosso psiquismo e nos atira em um vazio onde as palavras perdem o sentido.<\/p>\n<p>A cura, portanto, passa por um gesto de reconstru\u00e7\u00e3o que \u00e9 puramente art\u00edstico, E, como, nos ensina nosso ilustre convidado de hoje, Fr\u00e9deric Viinot, a arte n\u00e3o \u00e9 apenas um adorno para a vida, mas um leg\u00edtimo tratamento para esse desabrigo da alma, pois habitar um lugar exige antes a capacidade de habitar a si mesmo: um processo que o trauma interrompe bruscamente ao transformar o mundo em um cen\u00e1rio estranho e hostil.<\/p>\n<p>Nesse sentido, ao pintarmos uma tela, moldarmos o barro ou escrevermos uma linha, estamos, na verdade, reerguendo as funda\u00e7\u00f5es da nossa casa interna. A arte funciona como uma &#8220;segunda pele&#8221; ou uma pr\u00f3tese simb\u00f3lica: ela oferece contorno ao que antes era apenas dor informe. Quando o sujeito traumatizado consegue projetar seu sofrimento em um objeto externo, ele deixa de ser a pr\u00f3pria ferida para se tornar o autor de uma obra. \u00c9 nesse instante que o &#8220;morar&#8221; deixa de ser uma quest\u00e3o de metros quadrados e passa a ser uma conquista da dignidade humana. Morar \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o do nosso psiquismo.<\/p>\n<p>Diferentemente de outros animais, que possuem instintos r\u00edgidos de constru\u00e7\u00e3o, o ser humano nasce desabrigado e precisa aprender a habitar o mundo atrav\u00e9s da linguagem e da cultura.<\/p>\n<p>Desse modo, situa\u00e7\u00f5es onde o &#8220;habitar&#8221; fracassa, como nos casos de acu mula\u00e7\u00e3o compulsiva, fobias de lugares abertos ou o sentimento de estranheza radical ap\u00f3s trauma, o sujeito \u00e9 desabrigado de si mesmo e retirado da sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e pertencimento. Nesse contexto, a arte e a cria\u00e7\u00e3o surgem como ferramentas terap\u00eauticas fundamentais, uma nova morada que permite ao sujeito restabelecer limites entre o eu e o mundo, transformando o vazio insuport\u00e1vel em um espa\u00e7o habit\u00e1vel e com significado.<\/p>\n<p>A poeta Rosenana Murray, um dos maiores nomes da literatura brasileira, \u00e9 a prova viva disso, de que a arte pode curar o trauma. O Brasil inteiro acompanhou, consternado e estarrecido, a trag\u00e9dia que se abateu sobre ela no dia 05 de abril de 2024. Mas, gra\u00e7as \u00e0 sua arte, a literatura, Roseana n\u00e3o sucumbiu. Fez da sua dor combust\u00edvel para a cria\u00e7\u00e3o e de sua arte uma segunda pele capaz de proteg\u00ea-la do caos.<\/p>\n<p>Ela nos transmitiu lindamente como o fazer art\u00edstico pode nos permitir, enfim, voltar para casa depois de uma tempestade emocional.<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, para voc\u00ea, Roseana Murray, que dedico essa edi\u00e7\u00e3o especial do Caf\u00e9 Freudiano. Obrigado!<\/p>\n<p><em><strong>William Amorim<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trauma \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, um evento que nos deixa sem ch\u00e3o , sem teto. Ele rompe as paredes do nosso psiquismo e nos atira em um vazio onde as palavras perdem o sentido. A cura, portanto, passa por um gesto de reconstru\u00e7\u00e3o que \u00e9 puramente art\u00edstico, E, como, nos ensina nosso ilustre convidado de hoje, Fr\u00e9deric Viinot, a arte n\u00e3o \u00e9 apenas um adorno para a vida, mas um leg\u00edtimo tratamento para esse desabrigo da alma, pois habitar um lugar exige antes a capacidade de habitar a si mesmo: um processo que o trauma interrompe bruscamente ao transformar o mundo em um cen\u00e1rio estranho e hostil. Nesse sentido, ao pintarmos uma tela, moldarmos o barro ou escrevermos uma linha, estamos, na verdade, reerguendo as funda\u00e7\u00f5es da nossa casa interna. A arte funciona como uma &#8220;segunda pele&#8221; ou uma pr\u00f3tese simb\u00f3lica: ela oferece contorno ao que antes era apenas dor informe. Quando o sujeito traumatizado consegue projetar seu sofrimento em um objeto externo, ele deixa de ser a pr\u00f3pria ferida para se tornar o autor de uma obra. \u00c9 nesse instante que o &#8220;morar&#8221; deixa de ser uma quest\u00e3o de metros quadrados e passa a ser uma conquista da dignidade humana. Morar \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o do nosso psiquismo. Diferentemente de outros animais, que possuem instintos r\u00edgidos de constru\u00e7\u00e3o, o ser humano nasce desabrigado e precisa aprender a habitar o mundo atrav\u00e9s da linguagem e da cultura. Desse modo, situa\u00e7\u00f5es onde o &#8220;habitar&#8221; fracassa, como nos casos de acu mula\u00e7\u00e3o compulsiva, fobias de lugares abertos ou o sentimento de estranheza radical ap\u00f3s trauma, o sujeito \u00e9 desabrigado de si mesmo e retirado da sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e pertencimento. Nesse contexto, a arte e a cria\u00e7\u00e3o surgem como ferramentas terap\u00eauticas fundamentais, uma nova morada que permite ao sujeito restabelecer limites entre o eu e o mundo, transformando o vazio insuport\u00e1vel em um espa\u00e7o habit\u00e1vel e com significado. A poeta Rosenana Murray, um dos maiores nomes da literatura brasileira, \u00e9 a prova viva disso, de que a arte pode curar o trauma. O Brasil inteiro acompanhou, consternado e estarrecido, a trag\u00e9dia que se abateu sobre ela no dia 05 de abril de 2024. Mas, gra\u00e7as \u00e0 sua arte, a literatura, Roseana n\u00e3o sucumbiu. Fez da sua dor combust\u00edvel para a cria\u00e7\u00e3o e de sua arte uma segunda pele capaz de proteg\u00ea-la do caos. Ela nos transmitiu lindamente como o fazer art\u00edstico pode nos permitir, enfim, voltar para casa depois de uma tempestade emocional. \u00c9, portanto, para voc\u00ea, Roseana Murray, que dedico essa edi\u00e7\u00e3o especial do Caf\u00e9 Freudiano. Obrigado! William Amorim<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2928,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-3879","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-e-opinioes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3879","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3879"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3882,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3879\/revisions\/3882"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2928"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}