{"id":3084,"date":"2023-12-05T12:32:00","date_gmt":"2023-12-05T12:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=3084"},"modified":"2023-12-05T12:32:00","modified_gmt":"2023-12-05T12:32:00","slug":"clube-de-leitura-da-casa-amarela-35","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2023\/12\/05\/clube-de-leitura-da-casa-amarela-35\/","title":{"rendered":"Clube de Leitura da Casa  Amarela"},"content":{"rendered":"<p>Uma vez por ano, no belo m\u00eas de dezembro, com os flamboyants floridos, o Clube de Leitura sai da Casa Amarela em caravana e joga as suas \u00e2ncoras na Quinta da Harmonia, linda Ch\u00e1cara na zona rural de Saquarema, e somos recebidos por dois anfitri\u00f5es espl\u00eandidos.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3085 \" src=\"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/a94f47d1-f4bf-4608-9a80-5dbab51a84d4.jpg\" alt=\"\" width=\"522\" height=\"696\" srcset=\"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/a94f47d1-f4bf-4608-9a80-5dbab51a84d4.jpg 768w, https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/a94f47d1-f4bf-4608-9a80-5dbab51a84d4-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 522px) 100vw, 522px\" \/><\/p>\n<p>O livro a ser discutido era A Muralha de Dinah Silveira de Queiroz.<br \/>\nA manh\u00e3 era azul e fresca, um vento-car\u00edcia varria a nossa pele na varanda, com a lagoa em nossos olhos e a vegeta\u00e7\u00e3o luxuriante. O cen\u00e1rio era perfeito.<br \/>\nComecei lendo o primeiro par\u00e1grafo e destaquei os meus assombros com o livro:<br \/>\n1- nunca havia lido num romance com escravizados ind\u00edgenas e negros trabalhando no mesmo lugar, nesse princ\u00edpio de Brasil.<br \/>\n2- a complexidade dos personagens \u00e9 um susto.<br \/>\nE ent\u00e3o passei a palavra, \u00e9ramos umas vinte e cinco pessoas, e como uma vela que se acende e tremula, iluminando peda\u00e7os do aposento, cada participante trouxe a sua pr\u00f3pria luz e fomos puxando os in\u00fameros fios da narrativa. O livro \u00e9 de uma solidez monumental e de tanta viol\u00eancia e beleza.<br \/>\nA &#8220;reinol&#8221; Cristina parece ser a personagem principal, ou o fio condutor, j\u00e1 que o livro come\u00e7a e termina com ela, que n\u00e3o cabe em lugar nenhum, como foi dito.<br \/>\n\u00c0s vezes algumas passagens nos trazem um pouco do on\u00edrico de Gabriel Garcia Marquez, \u00e0s vezes algum eco do Grande Sert\u00e3o, apesar de Guimar\u00e3es Rosa o ter publicado depois.<br \/>\nAs mulheres s\u00e3o de uma for\u00e7a descomunal. O foco passa das mulheres para os homens, da poesia para a brutalidade. O leitor, enredado pela trama, n\u00e3o consegue parar.<br \/>\nA\u00ed est\u00e3o as sementes do Brasil atual. As sementes do capitalismo selvagem e destruidor.<br \/>\nA\u00ed est\u00e1 a ra\u00edz do nosso racismo estrutural, do abismo social, do genoc\u00eddio ind\u00edgena. A\u00ed est\u00e1 o colonizador, na figura de Cristina, com seu ar de superioridade.<br \/>\nE as Entradas e Bandeiras, que matavam, estupravam, que em meus livros de escola, eram her\u00f3is, viram gente de verdade. Assistimos a Guerra dos Emboabas, com suas emboscadas e trai\u00e7\u00f5es e na \u00faltima linha, fechado o livro, entendemos mais o nosso pa\u00eds.<br \/>\nO Clube de Leitura da Casa Amarela amou o livro A Muralha, que foi escrito na d\u00e9cada de 50 em fasc\u00edculos antes de virar livro, que foi s\u00e9rie da Globo, e que nos emocionou at\u00e9 a medula, neste final de 2023.<br \/>\nUm almo\u00e7o espl\u00eandido nos lembrava os banquetes do livro. E este dia ficar\u00e1 para sempre em nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vez por ano, no belo m\u00eas de dezembro, com os flamboyants floridos, o Clube de Leitura sai da Casa Amarela em caravana e joga as suas \u00e2ncoras na Quinta da Harmonia, linda Ch\u00e1cara na zona rural de Saquarema, e somos recebidos por dois anfitri\u00f5es espl\u00eandidos. O livro a ser discutido era A Muralha de Dinah Silveira de Queiroz. A manh\u00e3 era azul e fresca, um vento-car\u00edcia varria a nossa pele na varanda, com a lagoa em nossos olhos e a vegeta\u00e7\u00e3o luxuriante. O cen\u00e1rio era perfeito. Comecei lendo o primeiro par\u00e1grafo e destaquei os meus assombros com o livro: 1- nunca havia lido num romance com escravizados ind\u00edgenas e negros trabalhando no mesmo lugar, nesse princ\u00edpio de Brasil. 2- a complexidade dos personagens \u00e9 um susto. E ent\u00e3o passei a palavra, \u00e9ramos umas vinte e cinco pessoas, e como uma vela que se acende e tremula, iluminando peda\u00e7os do aposento, cada participante trouxe a sua pr\u00f3pria luz e fomos puxando os in\u00fameros fios da narrativa. O livro \u00e9 de uma solidez monumental e de tanta viol\u00eancia e beleza. A &#8220;reinol&#8221; Cristina parece ser a personagem principal, ou o fio condutor, j\u00e1 que o livro come\u00e7a e termina com ela, que n\u00e3o cabe em lugar nenhum, como foi dito. \u00c0s vezes algumas passagens nos trazem um pouco do on\u00edrico de Gabriel Garcia Marquez, \u00e0s vezes algum eco do Grande Sert\u00e3o, apesar de Guimar\u00e3es Rosa o ter publicado depois. As mulheres s\u00e3o de uma for\u00e7a descomunal. O foco passa das mulheres para os homens, da poesia para a brutalidade. O leitor, enredado pela trama, n\u00e3o consegue parar. A\u00ed est\u00e3o as sementes do Brasil atual. As sementes do capitalismo selvagem e destruidor. A\u00ed est\u00e1 a ra\u00edz do nosso racismo estrutural, do abismo social, do genoc\u00eddio ind\u00edgena. A\u00ed est\u00e1 o colonizador, na figura de Cristina, com seu ar de superioridade. E as Entradas e Bandeiras, que matavam, estupravam, que em meus livros de escola, eram her\u00f3is, viram gente de verdade. Assistimos a Guerra dos Emboabas, com suas emboscadas e trai\u00e7\u00f5es e na \u00faltima linha, fechado o livro, entendemos mais o nosso pa\u00eds. O Clube de Leitura da Casa Amarela amou o livro A Muralha, que foi escrito na d\u00e9cada de 50 em fasc\u00edculos antes de virar livro, que foi s\u00e9rie da Globo, e que nos emocionou at\u00e9 a medula, neste final de 2023. Um almo\u00e7o espl\u00eandido nos lembrava os banquetes do livro. E este dia ficar\u00e1 para sempre em nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3085,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-3084","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-clube-de-leitura-da-casa-amarela"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3084"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3084\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3086,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3084\/revisions\/3086"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}