{"id":2488,"date":"2015-10-03T09:47:34","date_gmt":"2015-10-03T12:47:34","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=51"},"modified":"2015-10-03T09:47:34","modified_gmt":"2015-10-03T12:47:34","slug":"mestres-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2015\/10\/03\/mestres-do-amor\/","title":{"rendered":"Mestres do Amor"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma magia e um mist\u00e9rio nos encontros. No Clube de Leitura da Casa Amarela essa maravilhosa alquimia sempre se repete.<br \/>\nOntem discutimos Judas, do Amos \u00d3z e A \u00daltima Escala do Velho Cargueiro, do grande escritor colombiano \u00c1lvaro M\u00fatis.<br \/>\nCristiano, que foi quem sugeriu a leitura do Judas, n\u00e3o pode vir, mas me escreveu pelo whatsup oferecendo uma chave para o elo entre os dois romances:<br \/>\n\u201c Puxe pelas duas mulheres dos romances. S\u00e3o personagens extraordin\u00e1rias. Mestres do amor, como Diadorim foi para Riobaldo\u201d.<br \/>\nSuzana Vargas sugeriu que um bom come\u00e7o seria ler um trecho do velho cargueiro. Ela sempre faz isso em seus encontros de leitura.<br \/>\nAdorei a id\u00e9ia e escolhi o primeiro encontro do narrador com o navio, quando vai a Helsinque e quer chegar ao extremo da Finl\u00e2ndia para ver as c\u00fapulas douradas de S\u00e3o Petersburgo. Felipe Lacerda, que voltou ao Clube quase depois de um ano de aus\u00eancia, leu em voz alta, j\u00e1 que al\u00e9m de ter passado em primeiro lugar no concurso para professor em Duque de Caxias, \u00e9 ator.<br \/>\nH\u00e1 uma beleza t\u00e3o imensa nesta cena, \u00e9 tudo t\u00e3o absolutamente perfeito, que todos ficamos sem f\u00f4lego e a partir da\u00ed recontamos o romance que tem dois narradores, j\u00e1 quem um deles conta a hist\u00f3ria que ouve de outro. E o livro \u00e9 uma incr\u00edvel hist\u00f3ria de amor. E ao unir as duas mulheres dos dois livros ,Warda e Atalia, que s\u00e3o duas mestres do amor, foi poss\u00edvel come\u00e7ar a discutir o Judas, um dos melhores livros que j\u00e1 li na vida. Fizemos a mesma coisa, comecei lendo o primeiro par\u00e1grafo:<br \/>\n\u201c Eis a\u00ed uma hist\u00f3ria dos dias de inverno no final de 1959 e in\u00edcio de 1960. Nesta hist\u00f3ria h\u00e1 erro e desejo, h\u00e1 amor frustrado e certa quest\u00e3o religiosa que ficou aqui sem resposta. Em alguns pr\u00e9dios ainda se reconhecem os sinais da guerra que h\u00e1 dez anos dividiu a cidade. Ao fundo d\u00e1 para ouvir o toque distante de um acorde\u00e3o ou os sons nost\u00e1lgicos de uma gaita ao entardecer, por tr\u00e1s de uma persiana cerrada.\u201d<br \/>\nO romance inteiro j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed, concordamos todos. Neste trecho m\u00ednimo Amos Oz j\u00e1 nos joga neste lugar, Jersusal\u00e9m dos anos 60, j\u00e1 nos situa historicamente, falando das ru\u00ednas da Guerra da Independ\u00eancia, e nos fala de erro e desejo, e ao evocar os sons nost\u00e1lgicos da gaita, tamb\u00e9m nos fala de mem\u00f3ria.<br \/>\nE a maior quest\u00e3o do livro que tem muitas e muitas camadas \u00e9 a trai\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSuzana Vargas disse que a ep\u00edgrafe tamb\u00e9m diz o livro inteiro:<br \/>\n\u201cEis que corre o traidor na beira do campo.<br \/>\nN\u00e3o ao vivo, mas ao morto que h\u00e1 nele a pedra mirava.<br \/>\nNathan Alterman\u201d<br \/>\nShmuel, o estudante, nos \u00e9 oferecido em sua inteireza quebrada.<br \/>\nEle perde tudo de uma s\u00f3 vez: a namorada, a mesada dos pais para poder estudar, a irm\u00e3 que vai para a It\u00e1lia.<br \/>\nEnt\u00e3o come\u00e7a a sua aventura, ao aceitar o emprego de \u201cdistrair\u201d e cuidar um pouco do velho intelectual, Guershom Wald.<br \/>\nShmuel escreve sua tese. A de que Judas n\u00e3o era um traidor, mas sim o disc\u00edpulo que mais amou Jesus.<br \/>\nO pr\u00f3prio av\u00f4 de Shmuel foi considerado traidor pelos israelenses e assassinado, quando na verdade era um agente duplo.<br \/>\nO pai de Atalia foi considerado um traidor, pois antes da Declara\u00e7\u00e3o do Estado de Israel pela ONU, ele pregava um n\u00e3o Estado, com \u00e1rabes e israelenses vivendo juntos e misturados, sem fronteiras. Ele, como um profeta, j\u00e1 previa a carnificina futura.<br \/>\nEnt\u00e3o Amos \u00d3z, concordamos todos, desarruma o conceito de trai\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs tra\u00e7os f\u00edsicos, o cheiro de cada personagem \u00e9 tantas vezes refor\u00e7ado, que eles saem do livro e est\u00e3o ali, bem diante dos nossos olhos, de carne e osso.<br \/>\nSuzana Vargas mos diz que Am\u00f3s Oz parece que escreve fazendo cinema.<br \/>\nGilcilene fez um depoimento lind\u00edssimo. Ela disse que a cada encontro do livro seus preconceitos s\u00e3o destru\u00eddos, h\u00e1 uma desconstru\u00e7\u00e3o de tantas id\u00e9ias preconcebidas que ela tinha.<br \/>\nFernando, Helio, Cesar, Flora, tantos falaram sobre a trai\u00e7\u00e3o de Judas, e do que seria o mundo e o cristianismo se o juda\u00edsmo tivesse aceito Jesus. Shmuel , em sua tese, sustenta que, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o foi uma trai\u00e7\u00e3o. Judas n\u00e3o era um traidor. Abravanel n\u00e3o era um traidor, o av\u00f4 do Shmuel n\u00e3o era um traidor.<br \/>\nFalamos todos da beleza e do cuidado que havia entre Shmuel, o estudante e Guershom, o velho.<br \/>\nDo cuidado com que Alalia, a mulher misteriosa e inalcan\u00e7\u00e1vel tem com o estudante, ela, a sua \u201cmestre do amor\u201d.<br \/>\nMessias , que n\u00e3o pode vir, tamb\u00e9m me mandou um whatsup sugerindo:<br \/>\n\u201c Um dos cl\u00edmax do livro \u00e9 a carta da irm\u00e3!!!! Quase a meton\u00edmia do enredo do romance&#8230;\u201d<br \/>\nLemos ent\u00e3o um trecho da carta, bel\u00edssima, da irm\u00e3 que vai para a It\u00e1lia e pede ao irm\u00e3o que n\u00e3o pare de estudar.<br \/>\nNa verdade esta \u00e9 a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o familiar n\u00e3o destro\u00e7ada.<br \/>\nMaria Clara leu o trecho em que Guershom fala que Atalia, sua nora \u00e9 sua \u201cKon\u00e1\u201d, que no hebraico contempor\u00e2neo, feminino de \u201ckon\u00e9\u201d, quer dizer compradora, mas no hebraico b\u00edblico tem o sentido de criador e dono. Assim, At\u00e1lia era a sua \u201cdona\u201d.<br \/>\nE foi imposs\u00edvel esgotar todas as maravilhas do livro que merece uma segunda leitura, uma terceira.<br \/>\nAssim, de literatura, p\u00e3o e vinho, a amizade de todos do grupo, a cada encontro se alimenta e fortalece.<br \/>\nO almo\u00e7o estava magn\u00edfico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma magia e um mist\u00e9rio nos encontros. 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Felipe Lacerda, que voltou ao Clube quase depois de um ano de aus\u00eancia, leu em voz alta, j\u00e1 que al\u00e9m de ter passado em primeiro lugar no concurso para professor em Duque de Caxias, \u00e9 ator. H\u00e1 uma beleza t\u00e3o imensa nesta cena, \u00e9 tudo t\u00e3o absolutamente perfeito, que todos ficamos sem f\u00f4lego e a partir da\u00ed recontamos o romance que tem dois narradores, j\u00e1 quem um deles conta a hist\u00f3ria que ouve de outro. E o livro \u00e9 uma incr\u00edvel hist\u00f3ria de amor. E ao unir as duas mulheres dos dois livros ,Warda e Atalia, que s\u00e3o duas mestres do amor, foi poss\u00edvel come\u00e7ar a discutir o Judas, um dos melhores livros que j\u00e1 li na vida. Fizemos a mesma coisa, comecei lendo o primeiro par\u00e1grafo: \u201c Eis a\u00ed uma hist\u00f3ria dos dias de inverno no final de 1959 e in\u00edcio de 1960. Nesta hist\u00f3ria h\u00e1 erro e desejo, h\u00e1 amor frustrado e certa quest\u00e3o religiosa que ficou aqui sem resposta. Em alguns pr\u00e9dios ainda se reconhecem os sinais da guerra que h\u00e1 dez anos dividiu a cidade. Ao fundo d\u00e1 para ouvir o toque distante de um acorde\u00e3o ou os sons nost\u00e1lgicos de uma gaita ao entardecer, por tr\u00e1s de uma persiana cerrada.\u201d O romance inteiro j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed, concordamos todos. Neste trecho m\u00ednimo Amos Oz j\u00e1 nos joga neste lugar, Jersusal\u00e9m dos anos 60, j\u00e1 nos situa historicamente, falando das ru\u00ednas da Guerra da Independ\u00eancia, e nos fala de erro e desejo, e ao evocar os sons nost\u00e1lgicos da gaita, tamb\u00e9m nos fala de mem\u00f3ria. E a maior quest\u00e3o do livro que tem muitas e muitas camadas \u00e9 a trai\u00e7\u00e3o. Suzana Vargas disse que a ep\u00edgrafe tamb\u00e9m diz o livro inteiro: \u201cEis que corre o traidor na beira do campo. 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Ent\u00e3o Amos \u00d3z, concordamos todos, desarruma o conceito de trai\u00e7\u00e3o. Os tra\u00e7os f\u00edsicos, o cheiro de cada personagem \u00e9 tantas vezes refor\u00e7ado, que eles saem do livro e est\u00e3o ali, bem diante dos nossos olhos, de carne e osso. Suzana Vargas mos diz que Am\u00f3s Oz parece que escreve fazendo cinema. Gilcilene fez um depoimento lind\u00edssimo. Ela disse que a cada encontro do livro seus preconceitos s\u00e3o destru\u00eddos, h\u00e1 uma desconstru\u00e7\u00e3o de tantas id\u00e9ias preconcebidas que ela tinha. Fernando, Helio, Cesar, Flora, tantos falaram sobre a trai\u00e7\u00e3o de Judas, e do que seria o mundo e o cristianismo se o juda\u00edsmo tivesse aceito Jesus. Shmuel , em sua tese, sustenta que, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o foi uma trai\u00e7\u00e3o. Judas n\u00e3o era um traidor. Abravanel n\u00e3o era um traidor, o av\u00f4 do Shmuel n\u00e3o era um traidor. Falamos todos da beleza e do cuidado que havia entre Shmuel, o estudante e Guershom, o velho. Do cuidado com que Alalia, a mulher misteriosa e inalcan\u00e7\u00e1vel tem com o estudante, ela, a sua \u201cmestre do amor\u201d. Messias , que n\u00e3o pode vir, tamb\u00e9m me mandou um whatsup sugerindo: \u201c Um dos cl\u00edmax do livro \u00e9 a carta da irm\u00e3!!!! Quase a meton\u00edmia do enredo do romance&#8230;\u201d Lemos ent\u00e3o um trecho da carta, bel\u00edssima, da irm\u00e3 que vai para a It\u00e1lia e pede ao irm\u00e3o que n\u00e3o pare de estudar. Na verdade esta \u00e9 a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o familiar n\u00e3o destro\u00e7ada. Maria Clara leu o trecho em que Guershom fala que Atalia, sua nora \u00e9 sua \u201cKon\u00e1\u201d, que no hebraico contempor\u00e2neo, feminino de \u201ckon\u00e9\u201d, quer dizer compradora, mas no hebraico b\u00edblico tem o sentido de criador e dono. Assim, At\u00e1lia era a sua \u201cdona\u201d. 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