{"id":189,"date":"2014-11-25T15:17:14","date_gmt":"2014-11-25T17:17:14","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=189"},"modified":"2014-11-25T15:17:14","modified_gmt":"2014-11-25T17:17:14","slug":"bau-de-afetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2014\/11\/25\/bau-de-afetos\/","title":{"rendered":"Ba\u00fa de Afetos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/roseana-cafe-07.jpg\" alt=\"roseana-cafe-07\" width=\"100%\" class=\"alignnone size-full wp-image-190\" \/>Eu n\u00e3o me lembrava, mas logo antes da minha cirurgia uma E.M Rural de Saquarema, a Jo\u00e3o Machado da Cunha, veio me pedir para participar do Projeto Caf\u00e9, P\u00e3o e Texto. Eu expliquei para a professora que era imposs\u00edvel, eu n\u00e3o sabia como iria estar me sentindo. Ela sugeriu ent\u00e3o trazer poucas crian\u00e7as , apenas para uma entrevista, sem o caf\u00e9 da manh\u00e3. Ent\u00e3o concordei e anotei na agenda. Mas eu nunca olho a agenda! E havia mesmo me esquecido completamente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ontem, ao me aproximar do port\u00e3o para ver o mar, um \u00f4nibus escolar passou pela minha porta, era pequeno, amarelinho, e dei adeus para as crian\u00e7as com as m\u00e3os. Acontece que o \u00f4nibus parou logo adiante , as crian\u00e7as desceram e vieram para o port\u00e3o com duas professoras.<\/p>\n<p>Eu perguntei: _Gente, marquei alguma coisa com voc\u00eas?<\/p>\n<p>E elas_ Sim, marcou uma entrevista.<\/p>\n<p>Falei: Esqueci!!! Mas improvisaremos um caf\u00e9 da manh\u00e3. Vou pedir ao Sr.Motorista para comprar p\u00e3o na padaria.<\/p>\n<p>E elas: _ N\u00e3o, voc\u00ea combinou sem caf\u00e9 da manh\u00e3. Trouxemos um lanche para fazer um piquenique na praia.<\/p>\n<p>Eles entraram e eu pedi para irem todos ao jardim e quem encontrasse um jabuti primeiro ganhava um livro.<\/p>\n<p>Dois , um menino e uma menina acharam um jabuti ao mesmo tempo!<\/p>\n<p>Depois fizemos uma rodinha com bancos e cadeiras no canto do fog\u00e3o de lenha e comecei perguntando se a escola tinha horta . N\u00e3o tem, eles me explicaram que a escola \u00e9 bem pequena mesmo e n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para uma horta, nem Sala de Leitura.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o perguntei se eles sabiam que uma horta pode mudar pessoas. Eles me olharam com cara de espanto. Perguntei se eles conheciam Nelson Mandela, se j\u00e1 tinham ouvido falar do apartheid na \u00c1frica do Sul. N\u00e3o, n\u00e3o conheciam Nelson Mandela, nunca ouviram falar da \u00c1frica do Sul. Ent\u00e3o contei a hist\u00f3ria do Nelson Mandela, do Apartheid, de como o Mandela come\u00e7ou querendo fazer uma revolu\u00e7\u00e3o violenta e como entendeu que seria muito melhor mudar as coisas de uma maneira pac\u00edfica. Acho que havia apenas uma aluna branca. Todos eram negros ou mesti\u00e7os. Todos lind\u00edssimos. Ent\u00e3o contei como o Nelson Mandela conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o para fazer uma horta na pris\u00e3o, pois foi preso e ficou preso por muitos anos. E como a horta foi mudando o comportamento dos guardas terr\u00edveis com os presos. Como a horta, lind\u00edssima, conseguiu abrandar seus cora\u00e7\u00f5es. Depois falei da import\u00e2ncia do perd\u00e3o. Se negros e brancos n\u00e3o tivessem se perdoado mutuamente, haveria, depois do apartheid , um banho de sangue. Falamos do Dia da Consci\u00eancia Negra e de como o Mandela \u00e9 uma das figuras mais importantes que j\u00e1 existiram.<\/p>\n<p>Fui entremeando tudo com brincadeiras po\u00e9ticas com a leitura dos poemas. Perguntei se algu\u00e9m sabia um ditado popular, quem respondesse primeiro ganhava um livro. Um menino disse: Quem v\u00ea cara n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00e3o e ganhou um livro e eu li este poema. Perguntei se algu\u00e9m j\u00e1 sentiu dor no cora\u00e7\u00e3o com alguma coisa, se j\u00e1 sentiu o cora\u00e7\u00e3o disparar com alguma coisa e finalmente se algu\u00e9m j\u00e1 havia conseguido abrir algum cora\u00e7\u00e3o fechado. Muitos disseram que sim, mas n\u00e3o quiseram me contar. Era segredo.<\/p>\n<p>Fizemos uma Orquestra Noturna com vozes de sapos e corujas e percuss\u00e3o no corpo, com meu poema do livro Caixinha de M\u00fasica. Fizemos uma cena teatral com meu poema Receita de se Olhar no Espelho, do livro Receitas de Olhar, e no final todos gritaram seus nomes bem alto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu ia respondendo as perguntas deles e intercalando brincadeiras com poemas . Falamos de bullying e eles s\u00e3o t\u00e3o amigos e t\u00e3o amorosos que n\u00e3o h\u00e1 hostilidade entre eles. Mas um menino lindo me disse que o amigo o chamou de macaco. Ent\u00e3o falamos sobre estes xingamentos racistas e eu disse que achava que eram uma bobagem pois a verdadeira ofensa seria chamar um macaco de homem, pois os macacos s\u00e3o muito melhores do que a gente. Tamb\u00e9m chamam a mulher de cachorra e n\u00e3o h\u00e1 nada mais magnifico do que uma cachorra, as f\u00eameas s\u00e3o amorosas ao extremo, m\u00e3es maravilhosas, as melhores amigas. Sempre preferi ter cachorras do que cachorros. Tamb\u00e9m chamam algumas mulheres de galinha, mas n\u00e3o deveria ser uma ofensa, pois as galinhas s\u00e3o lindas, roubamos seus ovos para comer e elas nem fazem uma revolu\u00e7\u00e3o! e falei um pouco das coisas que dizemos por h\u00e1bito.<\/p>\n<p>Perguntei se eles estavam com muita fome e vontade de ir embora e eles disseram que n\u00e3o, nunca, de jeito nenhum, ent\u00e3o ainda ficaram e fechamos com o jogral do Caldeir\u00e3o da Bruxa, do meu livro Poemas e Comidinhas. Perguntei se eles queriam a sopa da bruxa ou biscoitos e distribu\u00edmos biscoitos, fizemos fotos e minhas amigas baianas Regina Celi Pires e Verbena participaram de tudo. Antes , quando ainda eram distribu\u00eddos os biscoitos, o Motorista, que participou de tudo, sentado na Roda, pediu para falar. Disse que se chamava Silvio Santos mas o seu ba\u00fa n\u00e3o continha nada material, era um ba\u00fa cheio de amor! Pedi abra\u00e7os , nos abra\u00e7amos muito, todos e foi a manh\u00e3 mais maravilhosa do mundo e l\u00e1 foram eles com as Professoras Bruna Macedo e Rog\u00e9ria Marins rumo ao piquenique na praia com toalha e tudo!!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o me lembrava, mas logo antes da minha cirurgia uma E.M Rural de Saquarema, a Jo\u00e3o Machado da Cunha, veio me pedir para participar do Projeto Caf\u00e9, P\u00e3o e Texto. Eu expliquei para a professora que era imposs\u00edvel, eu n\u00e3o sabia como iria estar me sentindo. Ela sugeriu ent\u00e3o trazer poucas crian\u00e7as , apenas para uma entrevista, sem o caf\u00e9 da manh\u00e3. Ent\u00e3o concordei e anotei na agenda. Mas eu nunca olho a agenda! E havia mesmo me esquecido completamente. Ent\u00e3o ontem, ao me aproximar do port\u00e3o para ver o mar, um \u00f4nibus escolar passou pela minha porta, era pequeno, amarelinho, e dei adeus para as crian\u00e7as com as m\u00e3os. Acontece que o \u00f4nibus parou logo adiante , as crian\u00e7as desceram e vieram para o port\u00e3o com duas professoras. Eu perguntei: _Gente, marquei alguma coisa com voc\u00eas? E elas_ Sim, marcou uma entrevista. Falei: Esqueci!!! Mas improvisaremos um caf\u00e9 da manh\u00e3. Vou pedir ao Sr.Motorista para comprar p\u00e3o na padaria. E elas: _ N\u00e3o, voc\u00ea combinou sem caf\u00e9 da manh\u00e3. Trouxemos um lanche para fazer um piquenique na praia. Eles entraram e eu pedi para irem todos ao jardim e quem encontrasse um jabuti primeiro ganhava um livro. Dois , um menino e uma menina acharam um jabuti ao mesmo tempo! Depois fizemos uma rodinha com bancos e cadeiras no canto do fog\u00e3o de lenha e comecei perguntando se a escola tinha horta . N\u00e3o tem, eles me explicaram que a escola \u00e9 bem pequena mesmo e n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para uma horta, nem Sala de Leitura. Ent\u00e3o perguntei se eles sabiam que uma horta pode mudar pessoas. Eles me olharam com cara de espanto. Perguntei se eles conheciam Nelson Mandela, se j\u00e1 tinham ouvido falar do apartheid na \u00c1frica do Sul. N\u00e3o, n\u00e3o conheciam Nelson Mandela, nunca ouviram falar da \u00c1frica do Sul. Ent\u00e3o contei a hist\u00f3ria do Nelson Mandela, do Apartheid, de como o Mandela come\u00e7ou querendo fazer uma revolu\u00e7\u00e3o violenta e como entendeu que seria muito melhor mudar as coisas de uma maneira pac\u00edfica. Acho que havia apenas uma aluna branca. Todos eram negros ou mesti\u00e7os. Todos lind\u00edssimos. Ent\u00e3o contei como o Nelson Mandela conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o para fazer uma horta na pris\u00e3o, pois foi preso e ficou preso por muitos anos. E como a horta foi mudando o comportamento dos guardas terr\u00edveis com os presos. Como a horta, lind\u00edssima, conseguiu abrandar seus cora\u00e7\u00f5es. Depois falei da import\u00e2ncia do perd\u00e3o. Se negros e brancos n\u00e3o tivessem se perdoado mutuamente, haveria, depois do apartheid , um banho de sangue. Falamos do Dia da Consci\u00eancia Negra e de como o Mandela \u00e9 uma das figuras mais importantes que j\u00e1 existiram. Fui entremeando tudo com brincadeiras po\u00e9ticas com a leitura dos poemas. Perguntei se algu\u00e9m sabia um ditado popular, quem respondesse primeiro ganhava um livro. Um menino disse: Quem v\u00ea cara n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00e3o e ganhou um livro e eu li este poema. Perguntei se algu\u00e9m j\u00e1 sentiu dor no cora\u00e7\u00e3o com alguma coisa, se j\u00e1 sentiu o cora\u00e7\u00e3o disparar com alguma coisa e finalmente se algu\u00e9m j\u00e1 havia conseguido abrir algum cora\u00e7\u00e3o fechado. Muitos disseram que sim, mas n\u00e3o quiseram me contar. Era segredo. Fizemos uma Orquestra Noturna com vozes de sapos e corujas e percuss\u00e3o no corpo, com meu poema do livro Caixinha de M\u00fasica. Fizemos uma cena teatral com meu poema Receita de se Olhar no Espelho, do livro Receitas de Olhar, e no final todos gritaram seus nomes bem alto. Ent\u00e3o eu ia respondendo as perguntas deles e intercalando brincadeiras com poemas . Falamos de bullying e eles s\u00e3o t\u00e3o amigos e t\u00e3o amorosos que n\u00e3o h\u00e1 hostilidade entre eles. Mas um menino lindo me disse que o amigo o chamou de macaco. Ent\u00e3o falamos sobre estes xingamentos racistas e eu disse que achava que eram uma bobagem pois a verdadeira ofensa seria chamar um macaco de homem, pois os macacos s\u00e3o muito melhores do que a gente. Tamb\u00e9m chamam a mulher de cachorra e n\u00e3o h\u00e1 nada mais magnifico do que uma cachorra, as f\u00eameas s\u00e3o amorosas ao extremo, m\u00e3es maravilhosas, as melhores amigas. Sempre preferi ter cachorras do que cachorros. Tamb\u00e9m chamam algumas mulheres de galinha, mas n\u00e3o deveria ser uma ofensa, pois as galinhas s\u00e3o lindas, roubamos seus ovos para comer e elas nem fazem uma revolu\u00e7\u00e3o! e falei um pouco das coisas que dizemos por h\u00e1bito. Perguntei se eles estavam com muita fome e vontade de ir embora e eles disseram que n\u00e3o, nunca, de jeito nenhum, ent\u00e3o ainda ficaram e fechamos com o jogral do Caldeir\u00e3o da Bruxa, do meu livro Poemas e Comidinhas. Perguntei se eles queriam a sopa da bruxa ou biscoitos e distribu\u00edmos biscoitos, fizemos fotos e minhas amigas baianas Regina Celi Pires e Verbena participaram de tudo. Antes , quando ainda eram distribu\u00eddos os biscoitos, o Motorista, que participou de tudo, sentado na Roda, pediu para falar. Disse que se chamava Silvio Santos mas o seu ba\u00fa n\u00e3o continha nada material, era um ba\u00fa cheio de amor! 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