{"id":1361,"date":"2020-07-28T09:44:02","date_gmt":"2020-07-28T12:44:02","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=1361"},"modified":"2020-07-28T09:44:02","modified_gmt":"2020-07-28T12:44:02","slug":"clube-de-leitura-da-casa-amarela-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2020\/07\/28\/clube-de-leitura-da-casa-amarela-19\/","title":{"rendered":"Clube de Leitura da Casa Amarela"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/clube-de-leitura-da-casa-amarela-roseana-murray-saquarema-rj-1.jpeg\" alt=\"clube-de-leitura-da-casa-amarela-roseana-murray-saquarema-rj\" width=\"720\" height=\"652\" class=\"alignnone size-full wp-image-1362\" \/><\/p>\n<p>Talvez o chamamento do Krenak para adiar o fim do mundo tenha sido uma das coisas mais impressionantes que j\u00e1 tenha acontecido com o Clube de Leitura da Casa Amarela.<br \/>\nNosso encontro virtual acontece por zap, para que n\u00e3o tenhamos restri\u00e7\u00e3o de tempo.<br \/>\nNo dia 25 de julho de 2020, nossa conversa durou mais de tr\u00eas horas.<br \/>\nQuando terminou as pessoas almo\u00e7aram e voltaram e n\u00e3o pararam mais de falar e juntar as suas m\u00e3os, as suas vozes para suspender o c\u00e9u.<br \/>\nCome\u00e7amos com um mito ind\u00edgena Caraj\u00e1, que Edith Lacerda nos trouxe.<br \/>\nE assim entramos na dimens\u00e3o m\u00e1gica que a voz do Krenac nos prop\u00f5e, onde um rio \u00e9 seu av\u00f4, um rio que est\u00e1 sendo velado depois de morto, at\u00e9 que um dia os esp\u00edritos, quem sabe, o ajudem a reviver, onde as pedras s\u00e3o parentes, onde homem e natureza se fundem, porque somos apenas uma varia\u00e7\u00e3o  de milhares de formas de vida.<br \/>\nKrenac desnuda o absurdo que \u00e9 a nossa &#8220;humanidade&#8221; depredadora, genocida, e nos fala de outra humanidade, a que vive nas beiradas, nas margens, dentro das florestas, a que \u00e9 invis\u00edvel, sem voz e que possui outra maneira de dizer o mundo, a vida.<br \/>\nKrenac nos mostra a nossa verdadeira face: zumbis, consumidores, aut\u00f4matos, buscando como cegos o sentido da vida, quando o sentido da vida \u00e9 a pr\u00f3pria vida.<br \/>\nKrenac nos chama para que reavivemos a chama sagrada da lucidez, para que recusemos o que essa &#8221; humanidade&#8221; nos prop\u00f5e: a destrui\u00e7\u00e3o da Terra, das montanhas, dos rios, das florestas, das v\u00edsceras da terra, at\u00e9 que nada sobre e o c\u00e9u caia sobre n\u00f3s.<br \/>\nPara que isso n\u00e3o aconte\u00e7a, que se construam outros caminhos, outra escuta para outras vozes.<br \/>\nPaula, nossa leitora de Bras\u00edlia, nos contou de sua tatarav\u00f3 \u00edndia, raptada:<br \/>\n&#8220;\u00d4  povo querido, sinto muitas saudades &#8230;. Sinto-me tamb\u00e9m transpassada e tocada pela leitura de &#8221; Ideias para adiar o fim do mundo&#8221;, de Ailton Krenak. H\u00e1 muito n\u00e3o me sentia t\u00e3o capturada por uma leitura, que testemunha a vida de povos que  possuem uma forma t\u00e3o singular e respeitosa de habitar a terra. Enquanto vivemos com a vida em estado de suspens\u00e3o e morte em fun\u00e7\u00e3o da pandemia, Krenak \u00e9 testemunha viva de um modo intenso de viver no agora, e assim &#8221; adiar o fim do mundo&#8221;. Mas, hoje,  vou me prender no mi\u00fado de minhas hist\u00f3rias. Minha tatarav\u00f3 era \u00edndia, que fugiu com um branco, nas beiradas da cidade de Campina Grande, na Para\u00edba. Nunca se falou disso na fam\u00edlia, n\u00e3o era um assunto comentado, fazia parte das hist\u00f3rias familiares silenciadas. Para ter sua hist\u00f3ria t\u00e3o sufocada, sempre imaginei o quanto ela, minha tatarav\u00f3, foi sufocada e maltratada. Agora entendo mais ainda as raz\u00f5es. Al\u00e9m do preconceito j\u00e1 sabido, Krenak expressa a for\u00e7a da vida dos povos ind\u00edgenas e toda a pot\u00eancia simb\u00f3lica, est\u00e9tica e pol\u00edtica que essa forma de viver na terra tem para balan\u00e7ar, desnortear e at\u00e9 derrubar nossas estruturas colonizadas e euroc\u00eantricas. Em uma entrevista feita a Kreinak, perguntam: &#8221; O que o \u00edndio pode ensinar para o branco?&#8221; E ele responde: &#8221; O que ele quiser aprender!&#8221;<br \/>\nJiddu, lindamente mesti\u00e7o, nos falou de sua origem ind\u00edgena por parte de pai e como o pai lhe ensinou a escutar tudo, as panelas, os postes, a terra, o fogo, porque tudo fala.<br \/>\nE a energia que houve neste encontro, cada um em sua casa, gente de longe, de Goi\u00e2nia, S.Paulo, Bras\u00edlia, Visconde de Mau\u00e1, Cear\u00e1, Tel Aviv, era um rio caudaloso, vivo, serpenteante.<br \/>\nCada depoimento maravilhoso, pura emoc\u00e3o.<br \/>\nCristiano Mota cantou. Ana Cristina cantou. Nati falou seu poema.<br \/>\nE Edith fechou nosso encontro lendo um trecho do seu livro Tempo de  Aldeia.<br \/>\nNosso pr\u00f3ximo encontro ser\u00e1 com Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, Olhos D&#8217;\u00c1gua.<br \/>\nAssim completamos a trilogia de vozes de sobreviventes de genoc\u00eddios.<br \/>\nAnne Frank, com seu Di\u00e1rio, morreu, mas n\u00e3o morreu, porque sua voz est\u00e1 viva e chega l\u00edmpida e potente para denunciar o nazismo.<br \/>\nKrenac \u00e9 a voz mais bela que, penso, temos hoje, sobrevivente do genoc\u00eddio ind\u00edgena em curso desde 1500, acirrado por um Governo disposto a levar este projeto de destrui\u00e7\u00e3o at\u00e9 a solu\u00e7\u00e3o final.<br \/>\nE Concei\u00e7\u00e3o nos traz com sua voz o genoc\u00eddio dos ancestrais africanos, mesmo quando n\u00e3o fala disso, pois, nos ensina Krenac, somos tamb\u00e9m a hist\u00f3ria dos ancestrais. Os africanos foram arrancados de suas terras para sempre, despojados de tudo, do nome, da l\u00edngua, brutalizados, humilhados, assassinados. Concei\u00e7\u00e3o nos traz com sua voz o genoc\u00eddio de talentos no Brasil, quando n\u00e3o oferece educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de alt\u00edssima qualidade.<br \/>\nN\u00f3s, leitores pensantes e l\u00facidos abrimos nossos para- quedas coloridos e tentamos voar e segurar o c\u00e9u.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez o chamamento do Krenak para adiar o fim do mundo tenha sido uma das coisas mais impressionantes que j\u00e1 tenha acontecido com o Clube de Leitura da Casa Amarela. Nosso encontro virtual acontece por zap, para que n\u00e3o tenhamos restri\u00e7\u00e3o de tempo. No dia 25 de julho de 2020, nossa conversa durou mais de tr\u00eas horas. Quando terminou as pessoas almo\u00e7aram e voltaram e n\u00e3o pararam mais de falar e juntar as suas m\u00e3os, as suas vozes para suspender o c\u00e9u. Come\u00e7amos com um mito ind\u00edgena Caraj\u00e1, que Edith Lacerda nos trouxe. E assim entramos na dimens\u00e3o m\u00e1gica que a voz do Krenac nos prop\u00f5e, onde um rio \u00e9 seu av\u00f4, um rio que est\u00e1 sendo velado depois de morto, at\u00e9 que um dia os esp\u00edritos, quem sabe, o ajudem a reviver, onde as pedras s\u00e3o parentes, onde homem e natureza se fundem, porque somos apenas uma varia\u00e7\u00e3o de milhares de formas de vida. Krenac desnuda o absurdo que \u00e9 a nossa &#8220;humanidade&#8221; depredadora, genocida, e nos fala de outra humanidade, a que vive nas beiradas, nas margens, dentro das florestas, a que \u00e9 invis\u00edvel, sem voz e que possui outra maneira de dizer o mundo, a vida. Krenac nos mostra a nossa verdadeira face: zumbis, consumidores, aut\u00f4matos, buscando como cegos o sentido da vida, quando o sentido da vida \u00e9 a pr\u00f3pria vida. Krenac nos chama para que reavivemos a chama sagrada da lucidez, para que recusemos o que essa &#8221; humanidade&#8221; nos prop\u00f5e: a destrui\u00e7\u00e3o da Terra, das montanhas, dos rios, das florestas, das v\u00edsceras da terra, at\u00e9 que nada sobre e o c\u00e9u caia sobre n\u00f3s. Para que isso n\u00e3o aconte\u00e7a, que se construam outros caminhos, outra escuta para outras vozes. Paula, nossa leitora de Bras\u00edlia, nos contou de sua tatarav\u00f3 \u00edndia, raptada: &#8220;\u00d4 povo querido, sinto muitas saudades &#8230;. Sinto-me tamb\u00e9m transpassada e tocada pela leitura de &#8221; Ideias para adiar o fim do mundo&#8221;, de Ailton Krenak. H\u00e1 muito n\u00e3o me sentia t\u00e3o capturada por uma leitura, que testemunha a vida de povos que possuem uma forma t\u00e3o singular e respeitosa de habitar a terra. Enquanto vivemos com a vida em estado de suspens\u00e3o e morte em fun\u00e7\u00e3o da pandemia, Krenak \u00e9 testemunha viva de um modo intenso de viver no agora, e assim &#8221; adiar o fim do mundo&#8221;. Mas, hoje, vou me prender no mi\u00fado de minhas hist\u00f3rias. Minha tatarav\u00f3 era \u00edndia, que fugiu com um branco, nas beiradas da cidade de Campina Grande, na Para\u00edba. Nunca se falou disso na fam\u00edlia, n\u00e3o era um assunto comentado, fazia parte das hist\u00f3rias familiares silenciadas. Para ter sua hist\u00f3ria t\u00e3o sufocada, sempre imaginei o quanto ela, minha tatarav\u00f3, foi sufocada e maltratada. Agora entendo mais ainda as raz\u00f5es. Al\u00e9m do preconceito j\u00e1 sabido, Krenak expressa a for\u00e7a da vida dos povos ind\u00edgenas e toda a pot\u00eancia simb\u00f3lica, est\u00e9tica e pol\u00edtica que essa forma de viver na terra tem para balan\u00e7ar, desnortear e at\u00e9 derrubar nossas estruturas colonizadas e euroc\u00eantricas. Em uma entrevista feita a Kreinak, perguntam: &#8221; O que o \u00edndio pode ensinar para o branco?&#8221; E ele responde: &#8221; O que ele quiser aprender!&#8221; Jiddu, lindamente mesti\u00e7o, nos falou de sua origem ind\u00edgena por parte de pai e como o pai lhe ensinou a escutar tudo, as panelas, os postes, a terra, o fogo, porque tudo fala. E a energia que houve neste encontro, cada um em sua casa, gente de longe, de Goi\u00e2nia, S.Paulo, Bras\u00edlia, Visconde de Mau\u00e1, Cear\u00e1, Tel Aviv, era um rio caudaloso, vivo, serpenteante. Cada depoimento maravilhoso, pura emoc\u00e3o. Cristiano Mota cantou. Ana Cristina cantou. Nati falou seu poema. E Edith fechou nosso encontro lendo um trecho do seu livro Tempo de Aldeia. Nosso pr\u00f3ximo encontro ser\u00e1 com Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, Olhos D&#8217;\u00c1gua. Assim completamos a trilogia de vozes de sobreviventes de genoc\u00eddios. Anne Frank, com seu Di\u00e1rio, morreu, mas n\u00e3o morreu, porque sua voz est\u00e1 viva e chega l\u00edmpida e potente para denunciar o nazismo. Krenac \u00e9 a voz mais bela que, penso, temos hoje, sobrevivente do genoc\u00eddio ind\u00edgena em curso desde 1500, acirrado por um Governo disposto a levar este projeto de destrui\u00e7\u00e3o at\u00e9 a solu\u00e7\u00e3o final. E Concei\u00e7\u00e3o nos traz com sua voz o genoc\u00eddio dos ancestrais africanos, mesmo quando n\u00e3o fala disso, pois, nos ensina Krenac, somos tamb\u00e9m a hist\u00f3ria dos ancestrais. Os africanos foram arrancados de suas terras para sempre, despojados de tudo, do nome, da l\u00edngua, brutalizados, humilhados, assassinados. 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