{"id":1285,"date":"2020-02-17T09:40:45","date_gmt":"2020-02-17T12:40:45","guid":{"rendered":"http:\/\/roseanamurray.com\/site\/?p=1285"},"modified":"2020-02-17T09:40:45","modified_gmt":"2020-02-17T12:40:45","slug":"prof-dr-rafael-santana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roseanamurray.com\/site\/2020\/02\/17\/prof-dr-rafael-santana\/","title":{"rendered":"Prof. Dr. Rafael Santana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">Habitar os olhos de um gato<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Rafael Santana \u2013 UFRJ<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">[&#8230;]<br \/>\nViens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux;<br \/>\nRetiens le griffe de ta patte,<br \/>\nEt laisse-moi plonger dan tes beaux yeux,<br \/>\nM\u00eal\u00e9s de m\u00e9tal et d\u2019agate.<br \/>\n[&#8230;]<br \/>\n(Charles Baudelaire)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Gato que brincas na rua<br \/>\nComo se fosse na cama [&#8230;]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00c9s feliz porque \u00e9s assim,<br \/>\nTodo nada que \u00e9s \u00e9 teu.<br \/>\nEu vejo-me e estou sem mim,<br \/>\nConhe\u00e7o-me e n\u00e3o sou eu.<br \/>\n(Fernando Pessoa)<\/p>\n<p>Habitar os olhos de um gato n\u00e3o \u00e9, nunca foi, e jamais ser\u00e1 uma experi\u00eancia da ordem do simpl\u00f3rio. Porque para que um ser humano logre viver nos globos oculares de um felino faz-se inicialmente necess\u00e1rio que ele, enquanto sujeito, anele tornar-se agente de perscruta\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria sombra, no intento de vislumbrar, qui\u00e7\u00e1, a sua claridade interior. Gatos s\u00e3o animais independentes, misteriosos, m\u00edsticos: luz e trevas que emanam de corpos que se movimentam em ziguezague, lascivos e inebriantes, em est\u00e9sicas dobras de linguagem. N\u00e3o \u00e9 por acaso que eles tanto fascinaram \u2013 e n\u00e3o cessam de fascinar \u2013 os poetas! Enfrentar os nossos gatos internos \u00e9, com efeito, uma tentativa de autoconhecimento que o poema de Fernando Pessoa, inscrito na ep\u00edgrafe, bem sinaliza. Ou, nas palavras mais contempor\u00e2neas de Nise da Silveira, \u201cO gato \u00e9 um ser essencialmente livre e essa liberdade desafia o homem\u201d. Eis a reflex\u00e3o de abertura do livro Gatos, publicado a quatro m\u00e3os por Roseana Murray e William Amorim pela Editora Viegas, de S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, em 2019.<\/p>\n<p>Anunciado, pois, o desafio de liberdade expresso na ep\u00edgrafe de Nise da Silveira, os poemas de Gatos s\u00e3o precedidos ainda de uma bel\u00edssima apresenta\u00e7\u00e3o de Arlete Nogueira da Cruz, que nos d\u00e1 a ler um texto enxuto e de preciosa sele\u00e7\u00e3o vocabular. Dessa apresenta\u00e7\u00e3o, recorto estrategicamente um sintagma bastante interessante, que a autora utiliza para se referir ao assomo dos felinos aquando do seu desejo de aconchego junto aos homens: aproxima\u00e7\u00e3o orbital. El\u00e1sticos, os gatos achegam-se devagarinho, enroscam-se por entre as nossas pernas, deixam pouco a pouco que toquemos os seus corpos mornos e macios. Magn\u00e9ticos, os seus olhos de metal e \u00e1gata se cruzam com os nossos e nos imp\u00f5em o desafio: decifra-me \/ decifra-te.<\/p>\n<p>Gatos \u00e9 precedido ainda de mais dois paratextos: o primeiro, de Roseana Murray; o segundo, de William Amorim. Roseana Murray alude \u00e0 met\u00e1fora do jogo para elucidar o processo de constru\u00e7\u00e3o dos poemas: fios, tecidos, sedas, tafet\u00e1s ora lan\u00e7ados por ela, ora por William Amorim, cada um com a sua linha na agulha, prontos a contar, a recontar e a acrescentar um novo ponto. No fundo a pergunta e o repto lan\u00e7ados por Roseana Murray ao final do seu pequeno paratexto \u2013 \u201cOs gatos s\u00e3o decifr\u00e1veis? Leia o livro para saber!\u201d \u2013 j\u00e1 abrem o fil\u00e3o de pensamento de William Amorim que, como psicanalista, incita-nos \u00e0 surpresa da descoberta de um pouco mais de n\u00f3s mesmos no enfrentamento dos nossos gatos de linguagem. Por outros termos, \u00e9 como se o corpo do gato ativasse um fio capaz de alinhavar o texto em palavras: o gato \u00e9 um devir; \u00e9 uma linguagem desejante da sua escrita; linguagem obscura que, quando executada, se torna solar n\u00e3o porque decifrada, mas porque transformada em poesia, ou melhor, naquilo que se desvela para tornar a velar&#8230; Sobre esse tema espec\u00edfico, considero paradigm\u00e1ticos estes dois poemas:<\/p>\n<p>De madrugada,<br \/>\nquando os gatos que te habitam<br \/>\npodem sair do seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne andar pela casa sem medo,<br \/>\ndormes o sono dos justos<br \/>\ncomo se tua \u00faltima noite.<br \/>\nMas quando os gatos que te habitam<br \/>\nretornam cansados<br \/>\nao teu cora\u00e7\u00e3o de sal e sol,<br \/>\nandas pelas ruas insone. (AMORIM, 2019, p.29)<\/p>\n<p>E William Amorim prossegue:<\/p>\n<p>Mais silencioso que espelho,<br \/>\nMais aventureiro que o tempo,<br \/>\nMais indecifr\u00e1vel que esfinge.<br \/>\nGato, dorso de solid\u00e3o e car\u00edcia,<br \/>\nA liberdade \u00e9 teu segredo. (AMORIM, 2019, p.62)<\/p>\n<p>Na p\u00e1gina 56, a pergunta inicial de Roseana Murray \u00e9 reiterada em poema: \u201cSer\u00e1 que d\u00e1 para decifrar \/ um gato \/ [&#8230;] em l\u00edngua humana?\u201d. Ora, um gato n\u00e3o pode ser decifrado em l\u00edngua humana e ambos os autores acabam por responder essa quest\u00e3o. A linguagem n\u00e3o d\u00e1 conta do real; \u00e9 dele apenas uma \u00ednfima vers\u00e3o&#8230; Todavia, o sujeito-gato que se dramatiza, isto \u00e9, que no solil\u00f3quio de um discurso amoroso (e n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que a experi\u00eancia do amor requer sempre a luz e a sombra) o sujeito-gato, repito, absorto nas dores e nas del\u00edcias de falar de si mesmo ou, se quisermos, de amar a si mesmo, de converter-se ele pr\u00f3prio em ser de linguagem, v\u00ea-se de repente assaltado por m\u00faltiplas lufadas de pensamento capazes de desviar o seu olhar, mudando, dessa feita, a sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo; alterando, enfim, a sua percep\u00e7\u00e3o das ocorr\u00eancias. O ser e a linguagem n\u00e3o s\u00e3o decifr\u00e1veis e \u00e9 por isso que existe uma hist\u00f3ria da literatura, da arte, da filosofia, da psicologia. Significativamente, deixar que os nossos gatos interiores saiam da sombra e venham \u00e0 luz \u00e9, reitero, uma busca de autoconhecimento.<\/p>\n<p>De fato, ao longo daquilo que se conhece por Hist\u00f3ria da Humanidade, nunca deixamos de repetir a todo momento o eco da inscri\u00e7\u00e3o \u00e0 porta do templo de Delfos: \u201cConhece-te a ti mesmo\u201d. E assim como as explica\u00e7\u00f5es do or\u00e1culo eram, no fundo, a devolu\u00e7\u00e3o de um outro enigma, ao tocar o limite da linguagem o homem que se autoanalisa \u00e9 tamb\u00e9m ele aquele que desvela para tornar a velar. Na repeti\u00e7\u00e3o desse processo, joga-se infinitamente o jogo da Esfinge: \u201cDecifra-me ou te devoro\u201d!<\/p>\n<p>O complexo de \u00c9dipo, motor da psican\u00e1lise nascente nos finais do s\u00e9culo XIX, aduz, de forma muit\u00edssimo interessante, o que \u00e9 esse movimento de desvelar para velar outra vez, lusco-fusco, contraste entre claridade e escurid\u00e3o. Afinal, Freud n\u00e3o explica!!! Ao contr\u00e1rio, Freud e Lacan permitem ao sujeito cognoscente a experi\u00eancia a um s\u00f3 tempo gozosa e dolorosa do discurso, palavra advinda do termo latino dis-cursus, que \u00e9 etimologicamente a a\u00e7\u00e3o de percorrer diversos lados, de transitar por distintos caminhos. E para tanto \u00e9 preciso saber estabelecer uma paragem na cronologia do tempo; promover uma desordem das coisas para, quem sabe, tornar-se capaz de adentrar, de modo muito labir\u00edntico, os olhos de um gato:<\/p>\n<p>No mundo dos gatos<br \/>\na m\u00fasica \u00e9 l\u00e2nguida<br \/>\ne lenta,<br \/>\na terra gira<br \/>\nmais devagar,<br \/>\nos caminhos<br \/>\ns\u00e3o sinuosos<br \/>\ne obl\u00edquos.<br \/>\nNo mundo dos humanos<br \/>\ntic-tac.<\/p>\n<p>Parceria prodigiosa entre Roseana Murray, William Amorim e Geraldo Fraz\u00e3o, Gatos conta ainda com um bel\u00edssimo trabalho de ilustra\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo, de modo que uma leitura paralela entre os poemas e as imagens permite ao leitor atento o exerc\u00edcio tanto mais encantat\u00f3rio quanto prazeroso da ekphrasis. Para aquele que deseja enfrentar os seus gatos interiores e buscar a sua luz, isto \u00e9, o seu estado de liberdade, a leitura de Gatos ser\u00e1 decerto uma senda deleitosa!<\/p>\n<div><span style=\"font-size: large;\">Prof. Dr. Rafael Santana<\/span><\/div>\n<div><span style=\"font-size: large;\">Professor de Literatura Portuguesa<\/span><\/div>\n<div><span style=\"font-size: large;\">Universidade Federal do Rio de Janeiro &#8211; UFRJ<\/span><\/div>\n<div><span style=\"font-size: large;\">Departamento de Letras Vern\u00e1culas<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Habitar os olhos de um gato Rafael Santana \u2013 UFRJ [&#8230;] Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux; Retiens le griffe de ta patte, Et laisse-moi plonger dan tes beaux yeux, M\u00eal\u00e9s de m\u00e9tal et d\u2019agate. [&#8230;] (Charles Baudelaire) Gato que brincas na rua Como se fosse na cama [&#8230;] \u00c9s feliz porque \u00e9s assim, Todo nada que \u00e9s \u00e9 teu. Eu vejo-me e estou sem mim, Conhe\u00e7o-me e n\u00e3o sou eu. (Fernando Pessoa) Habitar os olhos de um gato n\u00e3o \u00e9, nunca foi, e jamais ser\u00e1 uma experi\u00eancia da ordem do simpl\u00f3rio. Porque para que um ser humano logre viver nos globos oculares de um felino faz-se inicialmente necess\u00e1rio que ele, enquanto sujeito, anele tornar-se agente de perscruta\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria sombra, no intento de vislumbrar, qui\u00e7\u00e1, a sua claridade interior. Gatos s\u00e3o animais independentes, misteriosos, m\u00edsticos: luz e trevas que emanam de corpos que se movimentam em ziguezague, lascivos e inebriantes, em est\u00e9sicas dobras de linguagem. N\u00e3o \u00e9 por acaso que eles tanto fascinaram \u2013 e n\u00e3o cessam de fascinar \u2013 os poetas! Enfrentar os nossos gatos internos \u00e9, com efeito, uma tentativa de autoconhecimento que o poema de Fernando Pessoa, inscrito na ep\u00edgrafe, bem sinaliza. Ou, nas palavras mais contempor\u00e2neas de Nise da Silveira, \u201cO gato \u00e9 um ser essencialmente livre e essa liberdade desafia o homem\u201d. Eis a reflex\u00e3o de abertura do livro Gatos, publicado a quatro m\u00e3os por Roseana Murray e William Amorim pela Editora Viegas, de S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, em 2019. Anunciado, pois, o desafio de liberdade expresso na ep\u00edgrafe de Nise da Silveira, os poemas de Gatos s\u00e3o precedidos ainda de uma bel\u00edssima apresenta\u00e7\u00e3o de Arlete Nogueira da Cruz, que nos d\u00e1 a ler um texto enxuto e de preciosa sele\u00e7\u00e3o vocabular. Dessa apresenta\u00e7\u00e3o, recorto estrategicamente um sintagma bastante interessante, que a autora utiliza para se referir ao assomo dos felinos aquando do seu desejo de aconchego junto aos homens: aproxima\u00e7\u00e3o orbital. 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(AMORIM, 2019, p.29) E William Amorim prossegue: Mais silencioso que espelho, Mais aventureiro que o tempo, Mais indecifr\u00e1vel que esfinge. Gato, dorso de solid\u00e3o e car\u00edcia, A liberdade \u00e9 teu segredo. (AMORIM, 2019, p.62) Na p\u00e1gina 56, a pergunta inicial de Roseana Murray \u00e9 reiterada em poema: \u201cSer\u00e1 que d\u00e1 para decifrar \/ um gato \/ [&#8230;] em l\u00edngua humana?\u201d. Ora, um gato n\u00e3o pode ser decifrado em l\u00edngua humana e ambos os autores acabam por responder essa quest\u00e3o. A linguagem n\u00e3o d\u00e1 conta do real; \u00e9 dele apenas uma \u00ednfima vers\u00e3o&#8230; Todavia, o sujeito-gato que se dramatiza, isto \u00e9, que no solil\u00f3quio de um discurso amoroso (e n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que a experi\u00eancia do amor requer sempre a luz e a sombra) o sujeito-gato, repito, absorto nas dores e nas del\u00edcias de falar de si mesmo ou, se quisermos, de amar a si mesmo, de converter-se ele pr\u00f3prio em ser de linguagem, v\u00ea-se de repente assaltado por m\u00faltiplas lufadas de pensamento capazes de desviar o seu olhar, mudando, dessa feita, a sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo; alterando, enfim, a sua percep\u00e7\u00e3o das ocorr\u00eancias. O ser e a linguagem n\u00e3o s\u00e3o decifr\u00e1veis e \u00e9 por isso que existe uma hist\u00f3ria da literatura, da arte, da filosofia, da psicologia. Significativamente, deixar que os nossos gatos interiores saiam da sombra e venham \u00e0 luz \u00e9, reitero, uma busca de autoconhecimento. De fato, ao longo daquilo que se conhece por Hist\u00f3ria da Humanidade, nunca deixamos de repetir a todo momento o eco da inscri\u00e7\u00e3o \u00e0 porta do templo de Delfos: \u201cConhece-te a ti mesmo\u201d. E assim como as explica\u00e7\u00f5es do or\u00e1culo eram, no fundo, a devolu\u00e7\u00e3o de um outro enigma, ao tocar o limite da linguagem o homem que se autoanalisa \u00e9 tamb\u00e9m ele aquele que desvela para tornar a velar. Na repeti\u00e7\u00e3o desse processo, joga-se infinitamente o jogo da Esfinge: \u201cDecifra-me ou te devoro\u201d! O complexo de \u00c9dipo, motor da psican\u00e1lise nascente nos finais do s\u00e9culo XIX, aduz, de forma muit\u00edssimo interessante, o que \u00e9 esse movimento de desvelar para velar outra vez, lusco-fusco, contraste entre claridade e escurid\u00e3o. Afinal, Freud n\u00e3o explica!!! Ao contr\u00e1rio, Freud e Lacan permitem ao sujeito cognoscente a experi\u00eancia a um s\u00f3 tempo gozosa e dolorosa do discurso, palavra advinda do termo latino dis-cursus, que \u00e9 etimologicamente a a\u00e7\u00e3o de percorrer diversos lados, de transitar por distintos caminhos. 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