Clube de Leitura da Casa Amarela

Ontem aconteceram vários milagres. O tempo amanheceu belíssimo, quando na véspera havia chovido torrencialmente. A temperatura era de paraíso. Acordei bem cedo para fazer os pães. O segundo milagre é o que se repete a cada encontro desde 2010: As pessoas chegam com sua alegria, para essa comunhão entre literatura e amizade, regada a pão e vinho, comida maravilhosa, fogão de lenha aceso e música do mar. Confesso que sempre me espanto de que o Clube de Leitura continue existindo e que novas pessoas continuem chegando. Ontem veio pela primeira vez Marcia Borges uma leitora incrível. Edith Lacerda veio também. Quando ganhei o livro A Assinatura de Todas as Coisas de Elizabeth Gilbert, não dei um tostão por ele. Autora de best seller, escreveu Comer, Rezar e Amar, que virou filme. Deve ter ganho rios de dinheiro, mas o livro segue uma receita fácil e não aconselharia a sua leitura em nosso Clube. A assinatura de Todas as Coisas ficou em cima da bancada onde vivem os livros ao alcance da mão e um dia eu disse: ganhei tão gentilmente de presente da Flora, vou ler. E a minha surpresa foi imensa e não parei de me espantar até a última linha. Entramos no século XIX, no prólogo, com o nascimento de Alma em 1800. E todas as questões do século estão postas com uma trama extraordinária, uma linguagem fluida, um trabalho de pesquisa de botânica impressionante. É raro encontrar personagens tão densos e interessantes, que conservam sua coerência durante todo o livro. Que a literatura opere esse milagre a cada livro é a maior dádiva da existência: somos transportados no tempo, nesse livro viajamos duzentos anos num abrir e fechar de olhos, entramos no corpo e no psiquismo de outras pessoas, sentimos o que sentem, numa gama imensa de emoções… Todos os leitores amaram o livro. E nosso poeta escolhido foi Cruz e Souza. Gilcilene Cardoso, nossa maranhense, negra belíssima, foi a primeira a contar a sua história mas antes fez um depoimento impressionante. Disse: as cadeias estão cheias de negros, porque não puderam estudar. Olhem Cruz e Souza, filho de escravos alforriados, estudou e que poeta magnífico! Sua poesia é pura música. Música triste. Nosso almoço é sempre uma festa. Festejamos os aniversariantes Samuel, nosso jardineiro, Fernando e Ângela, que não pode vir. Já no fim da tarde chegou Rafael Santana de surpresa e deu para quem ainda estava aqui uma aula fantástica de Mário Sá Carneiro. Nosso próximo encontro será dia 5 de maio. Os livros serão Outros Cantos de Maria Valéria Rezende e Dona Purcina, A Matriarca dos Loucos, de Cineas Santos. O poeta, Carlos Nejar.

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A Quinta da Harmonia fica entre o sonho e o delírio. É um dos lugares mais belos que conheço, na zona rural de Saquarema e foi lá o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. O livro era Terra sem Mapa, do uruguaio Ángel Rama. Éramos muitos. Juan Arias começou falando da sua infância na Galícia, no fim da Guerra Civil, nos contou que aquelas memórias do livro poderiam ser as suas. Mas o livro acordou em quase todos alguma terra sem mapa, as nossas próprias memórias. Trouxemos relatos da nossa infância. Concordamos que o livro está dividido em cenas, como pinturas e não capítulos. Concordamos que sua escrita consegue com sua beleza um esgarçamento das nossas emoções. Mas nem todos concordaram. Máximo, cineasta italiano, achou a sua linguagem artificial. Felipe Lacerda achou o livro sentimental demais. O livro é narrado sob o ponto de vista de uma menina pequena e muitas vezes me trouxe Miguilim. Depois só Juan e Maria Clara falaram um poema do Antonio Machado. Porque já era tarde, porque o tempo começou a nos atropelar. Tínhamos fome. Havia um clima tão festivo no Clube, uma espécie de festa de Natal e de fim de ano, com tanta alegria, que parecia que poderíamos voar. Brindamos ao Clube: literatura, vinhos, amizade. Aos anfitriões Hélio e Fernando que nos receberam da maneira mais linda. Depois do almoço tivemos sorteio de livros e fomos ficando até o fim da tarde na Quinta da Harmonia, que não parece de verdade, parece um filme, ou as páginas de um livro maravilhoso. Vida longa ao nosso Clube. O próximo encontro será no dia 24 de fevereiro. O livro: Os Tambores de São Luís, Josué Montello e o poeta Cruz e Souza.

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Hoje o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela foi uma grande celebração. De muitas coisas. Do Prêmio Comunique-se que o Juan Arias ganhou. De termos Marijose Sanchez de Arias, nossa sobrinha de Granada e sua amiga Loli Ortiz Lirola na casa. De celebrarmos Antonia, ainda na barriga da mãe Carol, mulher do Felipe Lacerda, que é leitor do Clube desde o seu começo. Celebramos também o aniversário da Vanda Oliveira, meu anjo da guarda, do Chico Peres e da Adelaide Vidal. Discutir o Livro dos Homens de Ronaldo Correia de Brito não é tarefa nada fácil. Começamos pelo primeiro conto mas logo, feito uma enxurrada, os contos iam se atropelando como a água nas pedras e era impossivel conter cada conto em suas margens. Cada conto tem a sua crueldade e beleza. A morte é personagem constante. Atravessam os contos do primeiro ao último. Os contos são cinema, puro Glauber Rocha, diz Máximo, cineasta italiano. E aproveita para comparar o Sertão com a Sicília, com seus códigos de honra. Cristiano Mota Mendes nos fala da diferença do sertão de Ronaldo e de Guimarães Rosa. O sertão de Ronaldo é seco, nos remete a Graciliano. Cesar Alves nos traz semelhanças entre personagens de sua aldeia natal com alguns personagens. Bruna aponta a questão feminina. Maria Clara fez uma pesquisa exaustiva sobre o nome de cada personagem, nomes que já trazem em seu bojo muitos significados. Uma descoberta maravilhosa. E fomos, pulando de conto em conto sem saber qual o mais impressionante, cada pessoa com o seu preferido. É um livro magistral. E a discussão em grupo foi alargando, ampliando os significados. Como se junto com a Carol, fossemos engravidando também. Cada conto com a sua extrema beleza, às vezes uma beleza terrível. Ronaldo é um arquiteto. Nada é ao acaso. Recomendo este livro com fervor. E não é um.livro fácil. Juan nos diz que as grandes obras se inspiram no local , na aldeia. Parte do pequeno para o Universal. Não por acaso cultura significa cultivar a terra. E de repente a surpresa que Ângela preparou para comemorar os sete anos do Clube: Cada pessoa leu um poema de minha autoria. Até minha tia Alice se levantou e leu. Fiquei absurdamente emocionada. Não podia acreditar, pois eu havia indicado Ana Cristina César, mas sem eu saber, fui a poeta escolhida. O almoço foi magnífico. Eu havia pedido que todos trouxessem fraldas para Antonia. E realmente fizemos uma montanha de pacotes de fraldas. Nosso próximo encontro será dia 2 de dezembro. O livro é Terra sem Mapa de Ángel Rama. O poeta é Antonio Machado. Casamento perfeito.

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Uma vez por ano o nosso Clube de Leitura da Casa Amarela funciona na casinha branca na montanha. É uma maneira de dividir esse espaço dentro da mata, esse espaço mágico, com amigos, que como eu, amam livros e árvores. Muitos habitantes do Clube não puderam vir, mas recebemos a visita maravilhosa de três baianos. Max, Sara e Fabiane. Vieram de Salvador e Tucano, no Sertão, fizeram essa imensa viagem só para estar aqui. Max e Sara fazem Doutorado sobre leitura e nosso Clube está dentro de suas pesquisas. Karine, que tem um sítio por aqui, veio e tavez leve essa experiência para o Curso de Pedagogia da Faculdade Celso Lisboa, onde é uma das Diretoras. Conversar sobre Cem Anos de Solidão, é tarefa imensa. Por onde se começa? Cem Anos mistura os relatos bíblicos e as 1001 Noites, e o maravilhoso está presente em cada página.E pouco a pouco somos contaminados. Não com a peste da insônia, mas com a peste da beleza. Cem Anos começa e termina com um incesto. Seguimos a trilha dos acontecimentos mais marcantes. Os personagens mais incríveis, as cenas mais inesquecíveis, as que nos assombram por seu extremo grau de beleza. Cem Anos funda seus alicerces na poesia e quando se entra em Macondo se ganha a chave para quase decifrar o tempo e a condição humana. Falamos da circularidade do tempo, de fim e recomeço, de como os mortos de Macondo nos trazem nossos próprios mortos. Macondo, em seu começo, quando Úrsula Iguarán ainda não encontrou a saída e nem trouxe os forasteiros, é a nossa infância, nosso paraíso perdido, onde as coisas ainda não tinham nome. Falamos de Melquíades e seu conhecimento maravilhoso que de certa maneira também funda Macondo. Falamos dos amores desvairados e da extrema beleza da linguagem que nos leva ao céu com Remédios. A beleza feita de palavras que se transformam em cheiros e sons, em imagens tão belas como nunca houve, em pura poesia. Falamos das guerras. Do desatino das guerras , do seu não sentido: a própria materialização da loucura humana. Falamos da nossa pobre América Latina- Macondo em seus estertores. Construção, destruição, reconstrução, vidamortevida, Gabo apaga essas fronteiras. Dois irmãos, César e Chico, trouxeram episódios de sua infância no interior que poderiam estar em Macondo. Cada um entrou em Macondo do seu jeito. E quando a última palavra do pergaminho é decifrada, queremos voltar ao começo e viver tudo outra vez. Agradeço a todos que vieram por todos os meios: ônibus, carro, avião, a pé, de tapete voador: Jose Augusto Messias, Maximiano Martins de Meireles, Fabiane, Sara, Hélio, Fernando, Cesar Alves, Fatima Chico Peres, Denise, Kátia, Salvador Almeida, Karine, Gilcilene Cardosoe seu marido, Evelyn Kligerman. Agradeço ao meu filho Andre Murray que fez a feijoada no Babel Restaurante e a torta sacher dos aniversariantes. Os ausentes estiveram presentes. Cristiano Mota Mendes e Ana e Suzana Vargas que quase vieram. Cristiano com sua Macondo-Maioba. E William Amorim com quem tambem discuti o livro e que gostaria de ter estado aqui, certamente.

Clube de Leitura da Casa Amarela

O livro que foi lido para o encontro de maio do Clube de Leitura da Casa Amarela, A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata, deixou os leitores apaixonados. Foi unãnime . O livro é todo epistolar e o leitor vai montando o quebra cabeça. Na primeira carta sabemos que uma escritora inglesa escreve para seu editor. O ano é 1946. Pós Guerra. E a falta de comida ocupa um grande espaço. A partir disso, Máximo, nosso leitor italiano, cineasta e poeta, contou as suas lembranças do pós guerra. Apesar de ter apenas quatro anos, ele se lembrava de muitas coisas. Seu pai era da Resistência. Ele diz que se lembra do cheiro do pós guerra. Renné falou do seu encanto com a estrutura do livro. De como, através das cartas, vamos montando uma história incrivel, cheia de histórias. Cada carta de cada personagem para a autora vai acrescentando mais um pedacinho. Falamos de como a Sociedade Literária, fruto de um acaso e da imaginação de uma personagem, garante a sobrevivência do grupo. De como a partir da Sociedade Literária os laços de afeto, de amizade entre as pessoas, se tornam vigorosos e espessos. Uma história linda de liberdade e amor. E o humor inglês é absoluto. Apesar de tantas histórias tristíssimas, saimos leves do livro. Essa magia que existe e circula entre as pessoas que leram o mesmo livro e discutem, é palpável e enche o espaço de alegria. Entre os leitores de uma ilha, na época da Segunda Guerra e nós, hoje. Maria Clara e Fernando levantaram a questão: Será que esses personagens existiram? Mas eu acho que isso não importa. O que importa é que acreditamos no que está sendo contado, nos identificamos com os personagens, sonhamos e sofremos junto com eles. Maria Clara deu a ideia: Deixamos um espaço de tempo para que quem quiser possa seduzir o leitor falando de algum livro que tenha amado. Fernando falou de Guerra e Paz. Eu falei do Tempo entre Costuras, de Maria Dueñas. Uma vez por ano nosso encontro acontece numa propriedade rural. Fernando foi um anfitrião maravilhoso. O almoço na varanda era de cinema. Foi um grande encontro. Agradeço aos leitores do Clube que estiveram presentes: Máximo, Renée, Paulo, Adelaide, Ângela, Gil, Bruna, Maria Clara, Flora, Hector, César, Chico, Denise. Agradeço ao Hélio e Fernando. E espero que o Clube tenha uma vida muito longa. Nosso próximo livro é Cem Anos de Solidão e o encontro será dia 15 de julho em Visconde de Mauá, com 3 leitores visitantes de Salvador.

O Remanescente

Nosso encontro do Clube de Leitura do dia 11 de março de 2017 reuniu muita gente em torno do livro O remanescente de Rafael Cardoso. Quando li o livro fiquei muito impactada, pois essa história tem liames profundos com a minha própria história. Quando uma história se enlaça com a nossa, quando numa grande vertigem somos sugados para dentro de um livro, para um outro espaço – tempo, quando seus personagens se fundem com nossas almas e ossos, então o milagre aconteceu e saímos do lado de lá transformados, porque não há lado de lá ou de cá. Eu estava em Visconde de Mauá, na minha casinha da montanha, acendendo o fogão de lenha. Uma página de jornal na minha mão falava da Berlim de 1920, da Berlim do Nazismo, da Berlim de hoje, tão miscigenada. Não acreditei na coincidência. Personagens que estavam na festa que abre o livro em julho de 1930, estavam no artigo. Resolvi guardar o jornal e abrir o nosso debate com a sua leitura. Propus discutirmos o livro por cenas ou acontecimentos. Mas Cristiane disse, não! Antes preciso ler as últimas frases do Prelúdio. No prelúdio o autor conta como foi atropelado por sua história familiar quando soube que seus avós não eram franceses, mas sim alemães. Então Cristiane leu: “ Palavras podem conter imagens. Imagens podem ter significados múltiplos. Tudo pode não ser bem o que parece. Este livro não é um simples inventário de achados, mas o memorial da enxada que revira a terra escura do passado”. Eu mesma contei um pouco da minha infância. A tristeza que foi viver numa casa de imigrantes. Meus pais também vieram de navio. E eu nunca fiz as perguntas que hoje estão na ponta da minha língua, mas não há papéis para decifrar, eles estão mortos, morrerei também sem as respostas. Laís e Sarita falaram a mesma coisa. Elas também filhas de imigrantes judeus poloneses. Então começamos com a primeira cena do livro. Uma festa magnífica na casa do Hugo Simon, banqueiro, homem sensível, socialista, judeu alemão totalmente assimilado, mecenas, culto, um homem verdadeiramente extraordinário, cercado pela nata da inteligência alemã. Filósofos, pintores, cientistas. Estamos em abril de 1930. Gertrudes sua mulher é uma anfitriã perfeita. O casal está vivendo o esplendor, que logo, se estilhaçará em mil pedaços. Como os vidros, na noite de cristal. Passamos para a cena do restaurante onde estão Demeter e Ursula e onde pela primeira vez nos defrontamos com um nazista de carne e osso. O primeiro ovo da serpente. Este nazista reage violentamente a um beijo entre duas mulheres e Ursula sai em defesa das duas de uma maneira magnífica e selvagem. Evelyn Kligerman sublinha o quanto esta Ursula se parte e fragiliza com o exílio e o triângulo amoroso que viverá com a irmã. Falamos da fuga. De como Gertrudes já estava com tudo preparado antes de Hugo lhe dizer que fugiriam. Falamos da intuição feminina, mas Andre Murray, meu filho,sublinha que esta mulher que sabia organizar um jantar esplendidamente, sabendo quem deveria sentar-se ao lado de quem, era uma grande estrategista e usa esse talento cada vez em que a linha entre a vida e a morte fica muito tênue. Hector diz que era impressionante como os nazistas nunca estavam a mais de 300 metros dos personagens. Hector nos lembra as origens da II Guerra e fala em como hoje estamos vivendo um momento também tão estranho e perigoso. Falamos da fuga de Paris, de como Demeter, que no começo era um dândi, cresce como ser humano a partir do momento em que não sendo judeu, escolhe ficar com a família, fugir do trem, entrar para a resistência… Gilcilene diz que ficou muito triste do autor não escrever o seu reencontro com a família que conseguiu resgatar. Falamos da chegada no Brasil. Do medo, do pavor de que a identidade original pudesse vir à tona. Falamos do Estado Novo. Laís nos diz que o livro nos torna melhores, e que para além de todos os ismos o que conta é a bondade humana, a capacidade que o ser humano tem de se reinventar, de cair e levantar. Falamos do milagre da amizade entre Hugo e Bernanos. Do suicídio de Walter Benjamin e Setephan Zweig. Cristiano conta que Walter Benjamin já estava convidado para dar aulas no Brasil. Falamos do encontro lindo entre Demeter e Lasar Ségall debaixo da chuva. Do desejo latente todo o tempo de revelar a identidade oculta, que lateja e dói muito. Evelyn sublinha que hoje por um nada nos derrubamos e imagina o que esses imigrantes passaram, como tiveram que cair e se levantar e seguir em frente, num exílio em espiral que nunca termina, pois ao exílio de fora corresponde um exílio interno, um vagar para sempre. Imaginem, dissemos todos, os deslocados e exilados de hoje. E assim fechamos o encontro deste livro absolutamente maravilhoso. Lemos em voz alta alguns poemas do Gullar. Delma deu um show com o poema que escolheu. O almoço esteve esplêndido, um coq au vin, preparado com tanto amor por meu filho Chef André Murray. Uma torta de chocolate para os aniversariantes feita pela minha nora Daniela Keiko Takahagui Murray. Livros foram sorteados. E Rivka nos contou que está criando junto com uma amiga, um Clube de Leitura em Teresópolis. Eu só lembrei: Mas não pode faltar comida! E Rivka disse um ditado em hebraico, que sem pão não há Torá…

E-books

Agora estou focada nos meus e books. Sinto uma energia tão grande nesse projeto que parece que vou partir para uma grande viagem, rumo a um planeta desconhecido. Não consigo publicar meus poemas dirigidos ao público, digamos, adulto. Nenhuma editora se interessa. Então resolvi publicar as minhas coletâneas em formato digital , sem nenhum lucro. Qualquer pessoa pode acessar gratuitamente. Mas, para não perder a dignidade, mandei fazer 50 exemplares da coletânea DELÍRIOS,, numa edição artesanal, com técnica do século XVII, por Domingo Gonzáles, o que me provoca uma grande alegria. Imagino que poderiam ter sido produzidos na pequena gráfica onde trabalhava Natanael, maravilhoso personagem do livro Como a Água que Corre, da Marguetite Yourcenar, que lemos no Clube. E assim, apago as fronteiras do tempo, apago as fronteiras entre realidade e ficção. O livro em papel ficou lindo. Mas a edição digital será maravilhosa também, com desenhos feitos em cerâmica pela minha irmã Evelyn Kligerman. Em dezembro estará accessível. E então aconteceu uma alegria inesperada, já que a vida é uma caixinha de música, mas ao contrário das caixinhas com a bailarina aprisionada para sempre nos mesmos acordes, a música nunca se repete: Joana Cavalcânti me convidou para a inauguração da sua Casa Azul, em Recife. E aí vou apresentar meu livro novo, Delírios, com a voz do William Amorim, grande amigo, psicanalista e escritor, que fala poesia lindamente. Ele irá de São Luis ao Recife especialmente para isso e para dividirmos o palco na Fundaj, num evento lindo para professores . Depois farei um lançamento do Delírios em Mauá, no Babel Restaurante do meu filho André Murray e então, quem sabe terei novamente a voz do William e a presença da Joana. Vou dando corda na minha caixinha.

Com Ginzburg e Calvino

Ontem me dei conta de que nosso Clube de Leitura da Casa Amarela já tem seis anos. Sei porque meu grande e amado amigo Latuf, que foi embora para Pasárgada em 2010, estava vivo quando fizemos nosso primeiro encontro. Acho que agora não há mais perigo do Clube se desmanchar no ar, sempre tive esse medo. Desde criança achava que ninguém viria nos meus aniversários e que claro, iriam se esquecer de mim. Mas os laços que a literatura cria entre as pessoas são impressionantes. E cada vez mais gente quer vir ao nosso encontro. Ontem recebemos cinco pessoas novas. A casa estava lotada. E me trouxeram muitos presentes! Tortas, vinho, geleias, licores. O livro As Pequenas Virtudes, que chegou nas minhas mãos inesperadamente numa tarde em Salvador, pelas mãos da minha amiga Verbena, deixou todo mundo emocionado, extasiado. São crônicas. O livro se divide em duas partes. A primeira, bastante autobiográfica, a segunda, como sublinhou Maria Clara, mais ensaística. Fomos passando crônica por crônica. Falamos do exílio e da memória. Da escrita maravilhosa da Natália. Máximo Tarantini, italiano, nos falou das distâncias naquela época. Então, quando a família estava exilada em Abruzzo, escondida, durante a guerra, além da sensação de exílio, pois haviam abandonado a própria casa, os amigos, a família, tudo o que amavam, havia a dificuldade de se chegar até lá. Não é como hoje, diz Maximo, quando se vai de Roma a Abruzzo em quarenta minutos. Rafael falou de Proust para falar da memória. Cristiano lembrou que a cantiga infantil que Natália ouvia em Abruzzo era um prenúncio da morte do seu marido, como se anunciasse o seu assassinato. Cada crônica dessa primeira parte, onde ela fala da sua vida, tem a sua cor. Uma nostalgia que é como um vento triste, às vezes muito humor, como quando ela fala da sua estadia na Inglaterra, ou da sua relação com o segundo marido. Em outra crônica Natália conta a amizade com Cesare Pavese, autor premiadíssimo. É o mais belo tratado sobre a amizade: ela não esconde nada do gênio dificílimo do amigo, das suas manias e esquisitices, mas com suas palavras ela vai untando o amigo com uma camada espessa de amor, quase um unguento. Até o desfecho , o seu suicídio, pensado e preparado, num mês quente de agosto, num hotel em Turim, a sua cidade natal. Li um poema belíssimo do Pavese. Máximo nos lembrou que o suicídio naquela época era uma filosofia de vida. Cesare dizia que a única liberdade que o homem tinha era a de escolher o momento de sair da vida. Lembramos que anos mais tarde Primo Levi também se matou. Na crônica sapatos rotos falamos da liberdade . Da importância de ter uma infância sólida, com sapatos fortes, para que no futuro se possa fazer belas escolhas, inclusive a de andar com sapatos rotos, uma metáfora maravilhosa. Gilcilene nos disse que As Pequenas Virtudes, crônica maravilhosa sobre as Pequenas e Grandes Virtudes, trouxe de volta seu pai, pela relação desprendida que ele tinha com o dinheiro. Falamos um pouco sobre o significado do dinheiro. Denise e Chico disseram que a crônica fez com que repensassem muitas atitudes com os filhos. A paixão de todos foi a crônica Meu Ofício, que no caso de Natália era a escrita, mas suas considerações valem para qualquer ofício. Em nosso Clube temos contadores, advogados, professores, um médico, Dr. Messias, comerciantes,poetas e cada um se viu nesta crônica, Todos sublinharam como Natália trabalha o tempo todo com luz e sombra, Messias disse que ela traz para a sua escrita todas as nuances do ser humano, todas as suas faces. Ao passar para Calvino, Marcovaldo, Cristiano disse que nem parecia o mesmo escritor das Cidades Invisíveis (que já lemos no clube).Mas a sua escrita maravilhosa é sempre a mesma. Propus que cada um falasse o que quisesse sobre qualquer episódio. E que maravilha de considerações. Cristiano definiu Marcovaldo: uma mistura de Chaplin com D.Quixote. Ou foi Maria Clara, não tenho certeza.. Íamos nos lembrando e rindo e amando relembrar. Máximo disse algo muito interessante. Depois da Guerra a Itália se uniu e perdoou. Todos se perdoaram querendo olhar para o futuro. Marcovaldo fazia parte deste momento. Falamos da sua busca pela beleza, pela natureza, quando a Itália deixava de ser agrária para ser industrial. Acho que Marcovaldo, apesar da sua condição de extrema pobreza, da consciência que tinha dessa pobreza, da sua vida miserável, não desistia de tentar viver poeticamente: aí reside a sua maravilha. O seu olhar buscava os caminhos para chegar até o fio que divide a dureza da vida, da experiência poética. Alguns leram poemas da Emily Dickinson. Ronaldo e Ana cantaram: alimento.antes do almoço. Fiz tabule, um arroz cremoso com frango desfiado e um arroz bem mediterrâneo com atum. Cantamos parabéns para os aniversariantes, Samuel, nosso caseiro, Angela e Fernando. Vinho branco e vinho tinto. Meus pães. Cada um ganhou um livro do Juan autografado, O Amor Impossível, longa entrevista com Saramago. O livro é maravilhoso e está saindo do catálogo da Manati. Se alguém tiver interesse pode encomendar na editora. Angela trouxe livros para sortear e Máximo também. Nosso próximo encontro será dia 7 de maio. Os livros: O Memorial de Maria Moura de Raquel de Queiróz e O Compadre de Ogum de Jorge Amado. Poemas do Quintana.

Peru de Natal

Uma vez ao ano o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela acontece no sítio de dois leitores, na zona rural de Saquarema, na frente da lagoa, um lugar de indescritível beleza. O primeiro encontro seria na nossa casa de onde saímos em caravana. O caminho até lá já é absolutamente deslumbrante. Ao chegar fui saudada ruidosamente por um peru, em homenagem ao conto do Mário de Andrade. Os donos da casa avisaram: não parem os carros debaixo das mangueiras carregadas! Fui de carona com a Adelaide Vidal, pois não temos carro e nunca soube dirigir. Reencontrei Rafael Santana, que foi amigo do meu amigo Latuf, que ao partir para a Via Láctea com seus livros, me deixou órfã. Rafael Santana é professor titular da UFRJ de literatura e agora entrou para o Clube. Trouxe um pedaço do Latuf, que era seu orientador. Máximo Tarantini, cineasta italiano que vive alguns meses em Saquarema, também é um novo membro do Clube, assim como Paulo Luiz Oliveira, que publicou o livro Tamoios, a presença dos índios na nossa região. Começamos o encontro com o Conto de Natal do Dickens, numa discussão acalorada. Cristiano Mota Mendes lembrou que no século XIX o ocultismo estava na moda, o que de certa moda explicaria a aparição do fantasma do sócio Marley. Falou também da critica social que Dickens faz. Norma Estrela falou de Cronos. Ronaldo falou que astroógicamente Scrooge era um saturniano. Afinal todos concordamos que apesar de não sermos leitores do século XIX e às vezes o conto soar estranho aos nossos ouvidos, o que fica é a transformação de um ser humano, para que assim ajude a transformar uma sociedade tão cruel. Passamos para o maravilhoso Peru de Natal do Mário. Falamos da sua irreverência, de como o patriarcado ali se quebra e começa o reino feminino. Rafael trouxe a lembrança das festas pagãs. Fomos tão felizes nesse conto. Estávamos todos nessa mesa de pura alegria. No Presente dos Magos de O.Henry, nos emocionamos com um amor tão singelo e verdadeiro. Afinal os dois, despojados do que tinham de mais precioso materialmente falando,ficaram mais ricos, pois a consciência de terem um ao outro se fortaleceu. No Natal na Barca falamos da barca de Caronte mas também da barca que leva ao novo, falamos da travessia, da fé, de milagres. É um conto forte e belíssimo esse da Lygia. Natal na Terra das Neves nos levou a um lugar tão estranho para nós, tão inóspito. Nesse conto de Jack London, o Natal é a justiça. E a partida na escuridão rumo à luz. Belo conto. Na Missa do Galo as galinhas d’angola gritavam como loucas no jardim! saudando o conto. Novamente a questão da mulher na sombra e como por alguns instantes aquela mulher se ilumina, transborda, seduz. O conto é de um erotismo sutil e magnífico. Muito se falou então de Machado e Mário de Andrade. Para o conto Presepe, a surpresa: Ronaldo tocou no violão uma canção feita para o conto e cantou junto com Ana. Ronaldo Mota nos prometeu vir sempre aos encontros daqui pra frente. Cantaram ainda junto com Cristiano duas músicas do espetáculo teatral Barquinho, pois tinham algo do espírito do Natal. Felipe Lacerda leu um poema do Drummond. Eu li meu poema de Natal e Fernando leu um poema de Natal do Chico Peres. Então fomos para a mesa que ninguém é de ferro. Hélio e Fernando, nossos anfitriões, prepararam a mesa mais linda. Fizemos nosso amigo oculto de livros e poemas. Angela Maria Quintieri cantou com Ronaldo ao violão. Todos do grupo trocamos juras de amor, pois já somos uma família ligada pela literatura.Antonio Antônio Cesar Alves, Fátima Fatima Alves, incansáveis em sua delicadeza, trazem muita alegria ao grupo. E os ausentes Gilcilene Cardoso, Maria Clara, Leila Bialowas, Jose Augusto Messias, Izabella Coutinho estiveram o tempo todo presentes. Teve bolo de aniversário para Felipe, Cristiano e para mim que faço anos dia 27. E fomos felizes para sempre. Ganhamos livros maravilhosos. Lindas escolhas.

Mestres do Amor

Há uma magia e um mistério nos encontros. No Clube de Leitura da Casa Amarela essa maravilhosa alquimia sempre se repete. Ontem discutimos Judas, do Amos Óz e A Última Escala do Velho Cargueiro, do grande escritor colombiano Álvaro Mútis. Cristiano, que foi quem sugeriu a leitura do Judas, não pode vir, mas me escreveu pelo whatsup oferecendo uma chave para o elo entre os dois romances: “ Puxe pelas duas mulheres dos romances. São personagens extraordinárias. Mestres do amor, como Diadorim foi para Riobaldo”. Suzana Vargas sugeriu que um bom começo seria ler um trecho do velho cargueiro. Ela sempre faz isso em seus encontros de leitura. Adorei a idéia e escolhi o primeiro encontro do narrador com o navio, quando vai a Helsinque e quer chegar ao extremo da Finlândia para ver as cúpulas douradas de São Petersburgo. Felipe Lacerda, que voltou ao Clube quase depois de um ano de ausência, leu em voz alta, já que além de ter passado em primeiro lugar no concurso para professor em Duque de Caxias, é ator. Há uma beleza tão imensa nesta cena, é tudo tão absolutamente perfeito, que todos ficamos sem fôlego e a partir daí recontamos o romance que tem dois narradores, já quem um deles conta a história que ouve de outro. E o livro é uma incrível história de amor. E ao unir as duas mulheres dos dois livros ,Warda e Atalia, que são duas mestres do amor, foi possível começar a discutir o Judas, um dos melhores livros que já li na vida. Fizemos a mesma coisa, comecei lendo o primeiro parágrafo: “ Eis aí uma história dos dias de inverno no final de 1959 e início de 1960. Nesta história há erro e desejo, há amor frustrado e certa questão religiosa que ficou aqui sem resposta. Em alguns prédios ainda se reconhecem os sinais da guerra que há dez anos dividiu a cidade. Ao fundo dá para ouvir o toque distante de um acordeão ou os sons nostálgicos de uma gaita ao entardecer, por trás de uma persiana cerrada.” O romance inteiro já está aí, concordamos todos. Neste trecho mínimo Amos Oz já nos joga neste lugar, Jersusalém dos anos 60, já nos situa historicamente, falando das ruínas da Guerra da Independência, e nos fala de erro e desejo, e ao evocar os sons nostálgicos da gaita, também nos fala de memória. E a maior questão do livro que tem muitas e muitas camadas é a traição. Suzana Vargas disse que a epígrafe também diz o livro inteiro: “Eis que corre o traidor na beira do campo. Não ao vivo, mas ao morto que há nele a pedra mirava. Nathan Alterman” Shmuel, o estudante, nos é oferecido em sua inteireza quebrada. Ele perde tudo de uma só vez: a namorada, a mesada dos pais para poder estudar, a irmã que vai para a Itália. Então começa a sua aventura, ao aceitar o emprego de “distrair” e cuidar um pouco do velho intelectual, Guershom Wald. Shmuel escreve sua tese. A de que Judas não era um traidor, mas sim o discípulo que mais amou Jesus. O próprio avô de Shmuel foi considerado traidor pelos israelenses e assassinado, quando na verdade era um agente duplo. O pai de Atalia foi considerado um traidor, pois antes da Declaração do Estado de Israel pela ONU, ele pregava um não Estado, com árabes e israelenses vivendo juntos e misturados, sem fronteiras. Ele, como um profeta, já previa a carnificina futura. Então Amos Óz, concordamos todos, desarruma o conceito de traição. Os traços físicos, o cheiro de cada personagem é tantas vezes reforçado, que eles saem do livro e estão ali, bem diante dos nossos olhos, de carne e osso. Suzana Vargas mos diz que Amós Oz parece que escreve fazendo cinema. Gilcilene fez um depoimento lindíssimo. Ela disse que a cada encontro do livro seus preconceitos são destruídos, há uma desconstrução de tantas idéias preconcebidas que ela tinha. Fernando, Helio, Cesar, Flora, tantos falaram sobre a traição de Judas, e do que seria o mundo e o cristianismo se o judaísmo tivesse aceito Jesus. Shmuel , em sua tese, sustenta que, ao contrário, não foi uma traição. Judas não era um traidor. Abravanel não era um traidor, o avô do Shmuel não era um traidor. Falamos todos da beleza e do cuidado que havia entre Shmuel, o estudante e Guershom, o velho. Do cuidado com que Alalia, a mulher misteriosa e inalcançável tem com o estudante, ela, a sua “mestre do amor”. Messias , que não pode vir, também me mandou um whatsup sugerindo: “ Um dos clímax do livro é a carta da irmã!!!! Quase a metonímia do enredo do romance…” Lemos então um trecho da carta, belíssima, da irmã que vai para a Itália e pede ao irmão que não pare de estudar. Na verdade esta é a única relação familiar não destroçada. Maria Clara leu o trecho em que Guershom fala que Atalia, sua nora é sua “Koná”, que no hebraico contemporâneo, feminino de “koné”, quer dizer compradora, mas no hebraico bíblico tem o sentido de criador e dono. Assim, Atália era a sua “dona”. E foi impossível esgotar todas as maravilhas do livro que merece uma segunda leitura, uma terceira. Assim, de literatura, pão e vinho, a amizade de todos do grupo, a cada encontro se alimenta e fortalece. O almoço estava magnífico.