Café, Pão e Texto

Como se forma um leitor? Hoje tivemos um encontro aqui na Casa Amarela com jovens do nono ano da E.M.Gustavo Campos. Vieram a pé, com a Professora Sa Lima, da Sala de Leitura e o Professor Rafael. Por mim, caminhadas pela cidade deveriam fazer parte da grade. Para fotografar, para olhar e contar depois o que viram. Dos dezoito alunos cinco se disseram leitores. E frequentadores da Sala de Leitura do Gustavo, que é muito boa. E os outros treze? Então algo precisa ser feito com urgência. Esses jovens ano que vem irão para o Ensino Médio. Acordei e antes de tomar café fiz um pão. Um jovem ficou emocionado e me contou que seu avô foi padeiro e fazia uma broa de milho maravilhosa. Falamos sobre tantas coisas. Mas principalmente sobre o quanto temos que melhorar como seres humanos e o quanto e como a literatura pode ajudar.Uma das alunas leitoras contou o seu envolvimento com um romance. Foi muito bom ela ter contado sua própria experiência. Li poemas. Falamos de identidade e desejos. Foi divertido, agradável, instigante. Eles amaram o jardim e não queriam ir embora nunca mais!

O Remanescente

Nosso encontro do Clube de Leitura do dia 11 de março de 2017 reuniu muita gente em torno do livro O remanescente de Rafael Cardoso. Quando li o livro fiquei muito impactada, pois essa história tem liames profundos com a minha própria história. Quando uma história se enlaça com a nossa, quando numa grande vertigem somos sugados para dentro de um livro, para um outro espaço – tempo, quando seus personagens se fundem com nossas almas e ossos, então o milagre aconteceu e saímos do lado de lá transformados, porque não há lado de lá ou de cá. Eu estava em Visconde de Mauá, na minha casinha da montanha, acendendo o fogão de lenha. Uma página de jornal na minha mão falava da Berlim de 1920, da Berlim do Nazismo, da Berlim de hoje, tão miscigenada. Não acreditei na coincidência. Personagens que estavam na festa que abre o livro em julho de 1930, estavam no artigo. Resolvi guardar o jornal e abrir o nosso debate com a sua leitura. Propus discutirmos o livro por cenas ou acontecimentos. Mas Cristiane disse, não! Antes preciso ler as últimas frases do Prelúdio. No prelúdio o autor conta como foi atropelado por sua história familiar quando soube que seus avós não eram franceses, mas sim alemães. Então Cristiane leu: “ Palavras podem conter imagens. Imagens podem ter significados múltiplos. Tudo pode não ser bem o que parece. Este livro não é um simples inventário de achados, mas o memorial da enxada que revira a terra escura do passado”. Eu mesma contei um pouco da minha infância. A tristeza que foi viver numa casa de imigrantes. Meus pais também vieram de navio. E eu nunca fiz as perguntas que hoje estão na ponta da minha língua, mas não há papéis para decifrar, eles estão mortos, morrerei também sem as respostas. Laís e Sarita falaram a mesma coisa. Elas também filhas de imigrantes judeus poloneses. Então começamos com a primeira cena do livro. Uma festa magnífica na casa do Hugo Simon, banqueiro, homem sensível, socialista, judeu alemão totalmente assimilado, mecenas, culto, um homem verdadeiramente extraordinário, cercado pela nata da inteligência alemã. Filósofos, pintores, cientistas. Estamos em abril de 1930. Gertrudes sua mulher é uma anfitriã perfeita. O casal está vivendo o esplendor, que logo, se estilhaçará em mil pedaços. Como os vidros, na noite de cristal. Passamos para a cena do restaurante onde estão Demeter e Ursula e onde pela primeira vez nos defrontamos com um nazista de carne e osso. O primeiro ovo da serpente. Este nazista reage violentamente a um beijo entre duas mulheres e Ursula sai em defesa das duas de uma maneira magnífica e selvagem. Evelyn Kligerman sublinha o quanto esta Ursula se parte e fragiliza com o exílio e o triângulo amoroso que viverá com a irmã. Falamos da fuga. De como Gertrudes já estava com tudo preparado antes de Hugo lhe dizer que fugiriam. Falamos da intuição feminina, mas Andre Murray, meu filho,sublinha que esta mulher que sabia organizar um jantar esplendidamente, sabendo quem deveria sentar-se ao lado de quem, era uma grande estrategista e usa esse talento cada vez em que a linha entre a vida e a morte fica muito tênue. Hector diz que era impressionante como os nazistas nunca estavam a mais de 300 metros dos personagens. Hector nos lembra as origens da II Guerra e fala em como hoje estamos vivendo um momento também tão estranho e perigoso. Falamos da fuga de Paris, de como Demeter, que no começo era um dândi, cresce como ser humano a partir do momento em que não sendo judeu, escolhe ficar com a família, fugir do trem, entrar para a resistência… Gilcilene diz que ficou muito triste do autor não escrever o seu reencontro com a família que conseguiu resgatar. Falamos da chegada no Brasil. Do medo, do pavor de que a identidade original pudesse vir à tona. Falamos do Estado Novo. Laís nos diz que o livro nos torna melhores, e que para além de todos os ismos o que conta é a bondade humana, a capacidade que o ser humano tem de se reinventar, de cair e levantar. Falamos do milagre da amizade entre Hugo e Bernanos. Do suicídio de Walter Benjamin e Setephan Zweig. Cristiano conta que Walter Benjamin já estava convidado para dar aulas no Brasil. Falamos do encontro lindo entre Demeter e Lasar Ségall debaixo da chuva. Do desejo latente todo o tempo de revelar a identidade oculta, que lateja e dói muito. Evelyn sublinha que hoje por um nada nos derrubamos e imagina o que esses imigrantes passaram, como tiveram que cair e se levantar e seguir em frente, num exílio em espiral que nunca termina, pois ao exílio de fora corresponde um exílio interno, um vagar para sempre. Imaginem, dissemos todos, os deslocados e exilados de hoje. E assim fechamos o encontro deste livro absolutamente maravilhoso. Lemos em voz alta alguns poemas do Gullar. Delma deu um show com o poema que escolheu. O almoço esteve esplêndido, um coq au vin, preparado com tanto amor por meu filho Chef André Murray. Uma torta de chocolate para os aniversariantes feita pela minha nora Daniela Keiko Takahagui Murray. Livros foram sorteados. E Rivka nos contou que está criando junto com uma amiga, um Clube de Leitura em Teresópolis. Eu só lembrei: Mas não pode faltar comida! E Rivka disse um ditado em hebraico, que sem pão não há Torá…

Delírios

Acabei de fazer a leitura do e-book “Delírios”, da poeta Roseana Murray. Ler livros nesse suporte é, para mim, algo novo, tão apegado que sou ao objeto de papel, cheio de folhas, nas quais posso fazer minhas anotações com o lápis que sempre me acompanha. Mas confesso que gostei muito da experiência. O primor das ilustrações de Evelyn Klingerman auxilia bastante, mas, é claro, que o que sobressai é o destro dessa escritora multifacetada que é a Roseana. “Delírios” é um título bem apropriado para o conjunto de 33 poemas, que apresenta leveza e profundidade ao retratar temas como morte e vida, distância e tempo, signo e linguagem. Tudo isso perpassado por um vento que nos leva pela tarde e deixa um gesto de saudade. Roseana Murray é da família poética de Cecília Meireles – há na sua poesia o sopro lírico indispensável às epifanias. No texto de apresentação, acerta em cheio o poeta Salgado Maranhão, quando afirma que “Ao término da leitura, nos apossa a sensação de não ter chegado ao fim, como se fora um convite ao recomeço”. Fica aqui o meu convite a todos os amigos que apreciam a boa poesia, para que dêem continuidade a esse ciclo de leitura, prenhe de recomeços e de novidades. Basta clicar no e-book e adentrar nos delírios da loba e aprender uma lição de dança desenhada pela linguagem poética. José Inácio Vieira de Melo OBS: O E-BOOK É GRATUITO! Visite a página da escritora: Roseana Murray E-books

E.M. Natércia Rodrigues Rocha

Recebi a E.M.Natércia Rodrigues Rocha, de Itaboraí, para o penúltimo Café, Pão e Texto do ano, pelas mão das professoras Élida, Raquel, Eveline, Geruza e Carmem Valéria. Vieram crianças de várias séries misturadas e deu muito certo! As dinâmicas com os poemas saíram lindas, as crianças eram vivas, maravilhosas. Conversamos sobre muitas coisas, sérias e engraçadas. Com meu livro Colo de Avó, muitos falaram da sua avó e do que ela gostava de fazer. O amor que sentem pela avó transborda. Uma disse que a avó gostava de costurar e li o poema Máquina de Costura. Foi lindo ver como o poema se encaixava na sua avó. Foi lindo ver como dando linha, a pipa da imaginação deles vai muito longe na apreensão do poema. As professoras eram tão amorosas, o encontro foi tão bom, as crianças nunca querendo ir embora, que agora estou em pleno voo.

E.M. Genésio da Costa Cotrim

Hoje recebi a E.M. Genésio da Costa Cotrim, de Itaboraí. Eram crianças de sete anos, totalmente adoráveis. Fazia frio e ventava, então, depois do momento pipi e do café da manhã, o jeito foi colocar todo mundo bem apertadinho dentro da sala. Ficou muito aconchegante. Brincamos com a minha poesia, conversamos, misturamos as nossas alegrias. Depois que nos aplaudimos ( eles adoram aplaudir) e nos abraçamos muito, levei as crianças para o jardim. Eles amaram as árvores de cravo e canela. Foram até o mar. Várias crianças não conheciam o mar. E depois partiram e ficou a saudade.

E-books

Agora estou focada nos meus e books. Sinto uma energia tão grande nesse projeto que parece que vou partir para uma grande viagem, rumo a um planeta desconhecido. Não consigo publicar meus poemas dirigidos ao público, digamos, adulto. Nenhuma editora se interessa. Então resolvi publicar as minhas coletâneas em formato digital , sem nenhum lucro. Qualquer pessoa pode acessar gratuitamente. Mas, para não perder a dignidade, mandei fazer 50 exemplares da coletânea DELÍRIOS,, numa edição artesanal, com técnica do século XVII, por Domingo Gonzáles, o que me provoca uma grande alegria. Imagino que poderiam ter sido produzidos na pequena gráfica onde trabalhava Natanael, maravilhoso personagem do livro Como a Água que Corre, da Marguetite Yourcenar, que lemos no Clube. E assim, apago as fronteiras do tempo, apago as fronteiras entre realidade e ficção. O livro em papel ficou lindo. Mas a edição digital será maravilhosa também, com desenhos feitos em cerâmica pela minha irmã Evelyn Kligerman. Em dezembro estará accessível. E então aconteceu uma alegria inesperada, já que a vida é uma caixinha de música, mas ao contrário das caixinhas com a bailarina aprisionada para sempre nos mesmos acordes, a música nunca se repete: Joana Cavalcânti me convidou para a inauguração da sua Casa Azul, em Recife. E aí vou apresentar meu livro novo, Delírios, com a voz do William Amorim, grande amigo, psicanalista e escritor, que fala poesia lindamente. Ele irá de São Luis ao Recife especialmente para isso e para dividirmos o palco na Fundaj, num evento lindo para professores . Depois farei um lançamento do Delírios em Mauá, no Babel Restaurante do meu filho André Murray e então, quem sabe terei novamente a voz do William e a presença da Joana. Vou dando corda na minha caixinha.

Convidado Especial

O motorista que trouxe os professores de Itaboraí se enrolou e chegaram um pouco atrasados. O Café foi o primeiro ítem da lista. O texto veio depois. Com uma convidada maravilhosa: Gilcelene Braga, assistente social. Ela trabalha com inclusão no Cemaee de Itaguaí. Um Centro criado para potencializar as Salas de Recursos da Rede. Seria interdisciplinar, Saúde e Educação. Toda a fala da Gil era centrada nas crianças “especiais” que deveriam estar incluídas na Rede e não estão. E quando estão o professor é colocado diante de uma situação difícil, quase sempre sem ajuda e esses Centros correm o risco da extinção. Os professores que estiveram aqui hoje deram depoimentos lindos e incriveis. Falaram das dificuldades de lidar com os autistas sem preparo para isso, falaram dos progressos . Falamos também sobre um outro tipo de educação, menos fabril. Que cada um tem seu tempo de aprendizagem e como seria belo poder respeitar esse tempo. Mas depois de falar tanto sobre inclusão e educação, uma professora disse: – Mas para fazer uma educação diferente precisamos ser sensibilzados. Queremos ouvir teus poemas! Li alguns poemas. Falei da construção de alguns livros. Tivemos um momento de autógrafos, de fotos. Os professores eram de escolas rurais e ganhei muitos presentes maravilhosos que vieram direto da horta que fazem com as famílias. Cenouras, abóboras, laranjas, tangerinas, doces, salsa e cebolinha. Minha cozinha e meu coração agora estão transbordando de cores.

EJA da E.M. Terezinha de Jesus Pereira

Hoje meu corpo era pequeno para aguentar tanta emoção. Desde o minuto em que o ônibus que trouxe a turma de EJA da E.M. Terezinha de Jesus Pereira, vindo de Itaboraí, encostou na minha porta e a alegria das pessoas e seu maravilhamento com o mar me tiraram do chão, até a hora da despedida, quando fui abraçada e abençoada por cada um. Ao chegar foram todos para o jardim onde Samuel , meu caseiro, mostrou as plantas e contou muitas histórias. Voltaram para o café. A mesa era farta, pois além do que preparei, muitas trouxeram bolos e até um empadão. Depois do café, veio o texto com as brincadeiras poéticas. Todos de pé ( e era muita gente), eu subi numa cadeira me fazendo de espelho . E enquanto eu lia o.poema Receita de se Olhar no Espelho, todos tinham que se arrumar. O último verso termina com a pergunta: ” Quem é você? ” E todos gritaram seus nomes bem alto, para o Universo ouvir. Fizemos uma Orquestra Noturna, do livro Caixinha de Música, brincamos de ditados populares, com meu livro ” Quem Vê Cara Não Vê Coração, e apareceram ditados incriveis! Rememoramos brincadeiras da infância, com o livro Brinquedos e Brincadeiras, e de poema em poema a ampulheta foi se esvaziando. Uma aluna me perguntou: — Por que você é tão alegre? E eu respondi: – Porque dá menos trabalho que ser triste. Essa turma de EJA é para alunos de 50 anos para cima. E a Escola oferece aulas de música e artesanato. Ganhei lindos panos de prato bordados. Deixaram a minha alma bordada.

Professoras de Itaboraí na Varanda

Hoje a varanda foi transformada numa sala com tapetes e poltronas para receber as Professoras de Literatura das salas de Leitura de Itaboraí de 2016, pelas mãos da Ana Paula Botelho e Rosane Paiva. Foi um dos encontros mais lindos e impactantes que tivemos aqui. Li o poema Guardador de Rebanhos do Fernando Pessoa para contar que esse poema fez uma amiga ter a sua filha, uma decisão que foi tomada ao ouvir o poema. Chorei muito ao ler o poema, quase não podia ler, pois o poema me trouxe para perto a amiga que amo e a sua filha, hoje uma bela mulher e é um dos poemas mais comoventes do mundo.. Contei essa história para mostrar a força de um poema, a força da literatura, que pode mudar o rumo de uma vida. Mas elas tinham lido meu novo texto Livros e Leitores que está no meu site em formato de e book. E hoje todo o encontro foi pautado por essa evidência: “A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida ” Cesare Pavese. A literatura salva. Lemos poemas, um conto, muitas professoras contaram suas mais belas experiências e todas me disseram: “somos amadas nas escolas e ganhamos muitos presentes”. Falamos dos laços que a literatura faz entre as pessoas. Do agradecimento dos alunos por sentir que são acolhidos. E no final elas me entregaram um texto escrito a partir da experiência da leitura dos Livros e Leitores e chorei outra vez, porque era muita coisa ter um retorno desses. Eu tive que aguentar tanta dor por tantos anos, que quase não consigo chorar. Um amigo diz que choro por dentro. Que meus poemas são minhas lágrimas. Mas hoje chorei. Reproduzo um trecho do texto: ” Obrigada por nos oferecer essa linha tênue entre escritor e leitor, a qual, às vezes, julgamos intransponível. A proposta de conhecê-la era isso:permitir esse contato mais íntimo com o escritor.E você nos abre seus textos, sua poesia, a porta da sua casa literal e conotativa, a sua fala, com Café, Pão e Texto e nos alimenta de fantasia e de reflexões sobre a escola, a Literatura, nós. Nos presenteia com o lindo texto Livros e Leitores, cujo processo de construção da leitora/ escritora vai se revelando e nos fazendo pensar. Frases como: A escola sem literatura é cárcere; O trabalho com a literatura não é evento, é formação do leitor; A literatura é a janela; nos permitem ter consciência do nosso lugar de docentes de literatura e de professores que formam.leitores literários, de que podemos abrir a janela e atravessá -la. Hoje acordei muito cedo para fazer os pães. A mesa tão linda, cheia de iguarias e amor, só faz sentido quando os meus convidados se aproximam, fazem uma roda a sua volta . Hoje essas professoras maravilhosas. Como um livro só faz sentido quando é tocado pelos olhos de alguém. O meu Café, Pão e Texto, nessa manhã me devolveu algo tão grande, como se o mar tivesse trazido todas as suas baleias e cavalos marinhos até a minha porta para que eu pudesse chorar.