Clube de Leitura da Casa Amarela

Hoje mergulhamos no mundo cigano, na Andaluzia do Século XVIII, no âmago desse povo nômade e perseguido, quase inteiramente destruído , sobrevivente de chacinas, encarceramento, expulsões e sempre com a liberdade como bandeira e com sua música e dança como alimento. O livro é teatral ao extremo e seus personagens apaixonantes. A escrava Caridad, a menina Milagros, o velho Melchor, a curandeira Maria, o Frei Joaquim, cada um exercendo um papel impressionante nesta trama folhetinesca. Muitas questões foram colocadas: Um dos clãs, os Vegas, não se entregaram aos “payos” para garantir a sua sobrevivência. Mas os Garcías de certa maneira se assimilaram e traíram as suas raízes . É válido fazer esse pacto? Até onde se pode ir? No livro há de tudo: Um cenário histórico maravilhosamente documentado, a sujeira, a hipocrisia da Igreja, dos nobres, a corrupção. Paixões, amizade, lealdade, traição, vingança, roubos, assassinatos, contrabando. E um amor tão belo quanto improvável de uma ex escrava com um velho cigano. Todos amaram o livro. A história dos ciganos representa, de alguma maneira, todas as perseguições aos “diferentes” Muitos leitores tinham alguma memória da infância onde os ciganos se faziam presentes. O cenário do Clube hoje era luxuriante. Um lugar belíssimo na zona rural de Saquarema. Recebemos novos leitores, grande alegria. O grupo, tão diverso, é um luxo. Os anfitriões eram impecáveis em sua gentileza. E o almoço divino. O próximo encontro será dia 1 de fevereiro e o livro será Prólogo, Ato, Epílogo, de Fernanda Montenegro.

São CIEP 384

Hoje foi o dia do São CIEP 384, de São Vicente, uma cidadezinha linda, perto de Araruama. Alunos do Ensino Médio do curso de Empreendorismo. Chegaram com o meu livro Corpo e Amor (ed. Gradiva) nas mãos e um sorriso maior do que o ônibus que os trouxe. E eu tinha uma surpresa maravilhosa para eles: o mímico Jiddu. K. Saldanha. Depois do Café e do Pão, na hora do Texto, eu e Jiddu fizemos a leitura do meu livro Maria Fumaça Cheia de Graça. Eu com palavras e ele com gestos. Foi incrível!!!! E conversamos sobre o livro Corpo e Amor, fomos desenrolando linhas coloridas, tantos fios e conversamos sobre tantas e muitas coisas. Alguns alunos vieram até a frente da plateia para ler um poema. É muito bom ouvir o meu poema em outras vozes. No final o mímico fez uma cena linda sobre o desenrolar da vida… emocionante. Cada encontro é único.

Clube de Leitura da Casa Amarela

O Clube de Leitura da Casa Amarela hoje foi a Marte. Nosso foguete era o livro Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, que indiquei por muitos motivos. É uma belíssima premonição deste nosso tempo, tantos anos antes de que a nossa sociedade capitalista de consumo atingisse esse grau alucinado de destruição dos recursos do planeta. Todos acharam que o livro era difícil, que para entrar era preciso um grande esforço e quase sempre uma segunda leitura. Em algumas crônicas dessa colonização de Marte pelo Sapiens, a beleza da linguagem nos leva a uma emoção imensa, há que caminhar pelas páginas com cuidado. Bradbury consegue criar um contraponto impressionante : o requinte, a sofisticação, a sensibilidade de um povo, que, como sublinhou uma das leitoras, é quase pura luz, com a grosseria e o ímpeto de destruição dos humanos colonizadores. Esse contraste nos coloca na posição incômoda de nos olharmos no espelho e nos reconhecermos. O autor está falando de Marte, mas está falando do europeu chegando na América e na África para se apossar e destruir. Está falando do Império e de colonizadores e de morte e destruição. De crônica em crônica, ao chegarmos na última linha, debruçados sobre um canal marciano de águas translúcidas, podemos pescar esperança. Quem sabe depois de tanta destruição possamos recomeçar. O encontro entre pessoas que amam livros é sempre uma dádiva e a leitura se expande, se enriquece, se alarga. O encontro de pessoas que amam livros é quase como ver Marte intacta outra vez. Crônicas Marcianas acorda o silêncio que existe em nós, o respeito por quem não sou eu, o desejo de que possamos reconstruir o nosso mundo que se estilhaça. Preservar o que resta. Lemos belos poemas do Octavio Paz para fechar o encontro. E dividir o pão, o vinho e a comida é o mais belo ritual. PS: O próximo encontro será no dia 23 de novembro e o livro é A Rainha Descalça de Ildefonso Falcones.

E.M Simar Machado Sodré

Hoje a chegou na minha casa com uma orquídea e as crianças mais maravilhosas do mundo e a viagem de Rio das Ostras até Saquarema demorou muito. Havia obras na estrada. As Professoras Marilene, Juanita, Alessandra, Luzia, Dulce e Kellrem fazem um trabalho tão extraordinário que vou levar muito tempo para me recuperar da emoção. Toda a força da Escola Simar nasce da sua Sala de Leitura, que havia sido desativada e as professoras conseguiram recuperar. É impressionante a força e a luz destas professoras. As crianças eram magníficas, lendo com total fluência e propriedade. Elas me trouxeram uma surpresa: Como atores e atrizes profissionais, encenaram em cima do tapete uma peça que era a junção de poemas do meu livro Colo de Avó e Um Avô e seu Neto. Uma montagem LINDA!!! Com figurino e tudo. Posso afirmar que essa escola está salvando 743 crianças com teatro, livros, poesia! Perguntei para as crianças o que havia de bom na escola e a resposta foi unânime: A Sala de Leitura e as Professoras. Os alunos que vieram eram da terceira, quarta e quinta séries. A escola termina na quinta e quem vai embora está muito triste, me contaram. Fizeram poemas incríveis inspirados no Colo de Avó. Eram crianças muito sensibilizadas. Um sonho. E adoraram o café da manhã e ganhei tantos milhões de abraços e beijos que irei levitar por muito tempo.

Café, Pão e Texto

Esta foi a minha semana da sorte. Ganhei três grandes prêmios. 1 – No dia 2 recebi uma escola maravilhosa de Duque de Caxias e já contei aqui o que aconteceu. 2 – Ontem foi a estreia do filme Luneta e Bia Hetzel escolheu meu poema para abrir seu primeiro filme de rara beleza. 3- Hoje recebi uma turma de 30 crianças e jovens do Educandário do Bem de Saquarema, de 7 a 13 anos, de 7 escolas diferentes: do primeiro ao nono ano: Escolas Municipais Menaldo, Margarida, Anízia, Padre Manoel, Luciana, Jd.Ipitangas, Teófilo. Este ano Fátima Alves, que dirige a ONG que trabalha no contra turno, decidiu colocar toda a ênfase na Sala de Leitura e o que vi hoje superou TODAS as minhas expectativas. Eles eram incríveis!!!! Começamos conversando sobre sentimentos tóxicos e sentimentos maravilhosos. Fizemos uma lista dos dois. Falamos do que nos faz humanos, falamos de como ler nos ajuda a desenvolver a empatia. Falamos de bulliyng e suicídio. Falamos um pouco de tudo. Lemos poesia. Eles leram poesia. A minha e a deles. Brincaram no jardim. Enlouqueceram com o meu pão. Foi um presente monumental esta tarde com eles. Estou plena. Cheia de alegria. O Educandário faz um trabalho esplêndido que complementa as escolas do seu entorno. Essas crianças leitoras e estes jovens leitores, que se tornaram leitores graças ao trabalho do Educandário, poderão ajudar na imensa tarefa, gota a gota, de mudar o mundo.

E.M. Pedro Paulo da Silva

A E.M. Pedro Paulo da Silva marcou um Café, Pão e Texto. Mas de Duque de Caxias até Saquarema são duas horas e meia de viagem ou três. E a Escola me perguntou: – Dá pra gente levar o almoço e você arruma um lugarzinho no jardim para eles comerem? Então troquei a palavra CAFÉ pela palavra ALMOÇO e eles amaram tudo o que a Vanda preparou. Depois da corrida e brincadeiras no jardim, depois das brincadeiras poéticas, todos juntos arrumamos um Restaurante na varanda! Que lindos e maravilhosos os meninos e meninas e professoras! Encheram de seiva boa o meu coração.

Texto da Feira Literária de Trajano

Para Roseana Murray Você escreveu, Roseana! Avesso Quem sou eu em meu avesso? Que urdiduras na sombra Que tramas secretas Num quarto escuro de mim? Quem sou eu Quando durmo Ou quando, de olhos abertos, Me remeço para o futuro, Saltando ilhas e desertos? Quem sou eu Quando me confundo e tropeço Alço voo e mergulho? (Roseana Murray) Poema com um eu lírico, você própria, Roseana?! Ou um eu lírico nós todos?! Importa, não! A gente vai brincar de tentar responder, Com carinho e respeito, para você, O que esse eu lírico quer saber A gente acha que sabe. Quem é você? Quem é esta mulher Que, ao futuro marido Disse ser “despencada”? Ah, destino querido! Roseana despencada?! Ah, que seja uma penca Dessas! Que é esta mulher? Esta que, em cada orelha, Usava um brinco diferente? Estranhamente! Ah, era o que dava na telha! E ela, por coincidência ou não, Escreveu , lindamente, “Quem vê cara não vê coração?” Que lição! Não é boba, não! Ah, não! Quem é esta mulher singular, Se, de todas, a mais plural, Até no nome? Roseana: Rosa e Ana! Ah, destino apraz! Há anos, ela lavra Palavra por palavra E é capaz De nomear, ciente, Docemente O que a gente sente. E no seu poema, o eu lírico questiona, Roseana: “Quem sou em meu avesso?” A gente reflete e responde: Um avesso? Que nada! De Roseana? Como assim?! Ela nada em águas Mais profundas! Nada, nada, nada E o nada vira tudo. Ela É ser inquieto. E, dessa inquietude, Busca atitude. É dela! E cria e recria, Enfeita a vida! Mas não em linha reta Vida não é assim. Ela é feita de “Tantos medos E outras coragens”. Nela e por ela é preciso Ousadia, guerrear, Abrir o coração E seguir a direção, A que está lá em “Receitas de olhar” E pra bem enxergar! Tá bem? “Quem sou em meu avesso?” Nenhum avesso! Para Roseana A vida desenhou Os caminhos! E deles, cuidou , velou, E com que amor! “Fardos de carinho”! Ah, o destino! Sempre à espreita! Para Roseana, Soube traçar empreitada: Se ela, com sua casa Não casava, Por que não morar Onde o avesso e o direito Podem se encontrar? Em outras “Casas”, em “Tribos”. Lá onde moram bichos, Pessoas, flores, frutos… Sentimentos todos! Uma “Fábrica de poesias”?! Produzindo e espalhando Vida: matéria-prima do poeta? Roseana mora lá Onde o teto Por um “Abecedário Poético” Completo, é recortado, É costurado, É construído: Na tessitura do afeto! É lá que Roseana mora Nos livros. No agora. E essa casa Por “Classificados Poéticos” Pode ser dela, Minha e sua. É “Fruta no Ponto”. Amor de ponto em ponto, Mas não o final. Afinal, Roseana é imortal! E o eu lírico, ainda quer saber: “Quem sou eu Quando durmo Ou quando, de olhos abertos, Me remeço para o futuro, Saltando ilhas e desertos?” A gente quer responder: Ah, quem é você, Roseana, nessas horas? Acordada ou não, Com os pés no presente E olhos no futuro… Quem é você, nessas horas? A Roseana dos temas. Escolhe um e faz festa! Com ele, entoa versos e infesta Nossa vida de cenas e lemas! E, para você, Roseana, há tema? Hum! A gente acha que há trama Do destino Que tramou seu encontro Com o “Ou isto ou aquilo?” De Cecília Meireles! Licença poética Que Cecilia Sabia a quem dava: A alguém que não acreditava Poder unir e se regalar Com a alquimia que é Escrever e cozinhar. Roseana, perdão, E dispensa, ops! Quase a da cozinha, viu? Mas não, é a poética! O que a gente acha ( só acha) Que tudo com você, Assim, se dava Assim, de forma ética: “Ou amasso o pão Ou escrevo no chão. Ou escolho o pote de mel Ou prefiro escrever “Poemas no céu”!” Escrevia, cozinhava… E a magia acontecia: Não só em forma de receita Veio por um bilhete Mensagem perfeita de uma sábia professora: – “ Seus poemas são maravilhosos! Publica!” E , com eles, passou a encantar Nossos olhos de leitores curiosos! Sonho! Ele existe! Acredite! Você acreditou. Você acredita! E faz a gente acreditar!´ E sonha com a gente, lá, de lá À beira-mar, na Casa Amarela. Distribui “Rios de alegria”, nela E tenham certeza, toda gente! Mesmo que lá aja “A Bruxa da Casa Amarela”, Café, Pão e Texto é o que se acha. Alimento para o corpo e para a alma. Tudo tão direito! Tão perfeito Que extasia Por tanta fantasia Por tanta melodia! Oh! Dá vontade de soltar Suspiros de luz Só de pensar! “Quem sou eu Quando me confundo e tropeço Alço voo e mergulho?” – Questiona o poema, ciente: Desta casa amarela, Recheada de Corpo e amor Roseana, você, é a que Lança semente, E docemente, Alegremente, Magicamente, Espalha amor! E, como se isso não bastasse, Ainda nos oferece E nos aquece com … “Desejo de abraço Nunca passa. Abraço é o nó Mais delicado que há. Um braço aqui Outro lá E o coração se derrete O corpo afunda Na mais gigantesca felicidade.” A gente, Roseana, deseja te abraçar hoje. E hoje, amanhã com um braço aqui e outro lá, estamos perto! Mas depois, para sempre, seus textos serão esses braços, através dos quais nosso coração se afundará na mais gigantesca felicidade! Para você, todo nosso afeto e gratidão!

E.M. Alcebíades Afonso Viana Filho

Começo pelo final: Antes de ir embora as crianças foram até o mar e viram uma baleia e seu filhote passeando. O mar estava tão azul. Eles ficaram loucos de felicidade. Agora volto para o começo: Hoje recebi uma escola rural de Maricá: A E.M. Alcebíades Afonso Viana Filho. Já aprendi: antes de tudo ofereço o jardim, para que corram e respirem a beleza das orquídeas. Depois nos sentamos na varanda e lemos poemas e brincamos de poesia. Aí veio o momento das perguntas, dos autógrafos num pequeno livro que produziram com meus poemas. E finalmente o Café. Fiz uma focaccia com gosto de pizza. E para terminar foram até a praia e arremataram o passeio com a felicidade de ver uma baleia. Muitos queriam ficar aqui para sempre. Até as professoras! Outros me disseram que nunca mais irão se esquecer deste dia. Eram da quarta e quinta séries.

Receita de Pão e Amor

Hoje vivi uma experiência maravilhosa e inédita: dei a minha primeira aula de pão e poesia, dentro do meu Projeto Café, Pão e Texto. A turma do último ano do CIEP de Bacaxá veio em pequeno número. Eram 15. Quando chegaram eu já havia estendido um plástico transparente na mesa e todos os ingredientes já estavam em fila, esperando. O que era necessário: – Um bol grande de cerâmica – Fermento seco em pó – Sal – Água fria. – Azeite Coloquei 2/3 de um quilo de farinha no bol, 2 pacotes de fermento para um quilo de farinha e mexi, depois coloquei o sal. Abri um buraco na farinha, como se fosse um vulcão. Despejei o azeite neste buraco. Uma aluna foi vertendo a água até unir todo a massa. Depois da massa unida, forrei a mesa com farinha onde a despejei. Todos os 15 alunos e a Professora Elaine estavam em volta da mesa. Começamos a amassar o pão com a farinha restante para dar o ponto. Cada aluno amassou um pouco. Fizemos uma bola com a massa e deixamos descansar num bol . Cobrimos a massa com um plástico. Amassamos outro pão, esse com cúrcuma na massa. Depois que a massa cresceu, a afundamos com a mão. Quando cresceu novamente, forramos outra vez a mesa com farinha e abrimos a massa do primeiro pão e recheamos com línguiça e muzzarela. O mesmo processo para o segundo pão, de cúrcuma, mas esse não recheamos. Enquanto os pães assavam, contei para eles toda o caminho do livro até a sua publicação. Depois li alguns poemas do Corpo e Amor, ed Gradiva. Quando terminava de ler um poema, alguém falava do que sentiu. E pediam outro! Falamos da diferença entre poesia e prosa. Falamos de tudo! Machismo, violência, racismo, homofobia, preconceitos, amor, amizade. Falamos da diferença entre erotismo e pornografia. Falamos da desigualdade social no Brasil. E o que podem fazer para seguir adiante: ler, estudar. Os pães saíram do forno: perfeitos, maravilhosos. Foram comidos até a última migalha, com manteiga, requeijão, azeite, mel, tomate ralado. Sucos e café com leite. Eu hoje estava sozinha, sem a ajuda da Vanda e eles tiraram a mesa, lavaram a louça, foram incríveis e se sentiram em casa. A minha emoção e amor por eles não tem medida. Que todos os belos desejos que expressaram aqui na varanda, possam se realizar. Um jovem disse: “Quero um dia comprar uma casa para a minha mãe. É o que me move.” É o meu desejo que seus desejos se realizem. PS: Essa é a turma do último ano do CIEP 258 AUTROGILDO PEREIRA. TURMA 3001 INTEGRAL. Este ano se formam em técnicos em administração com ênfase em empreendorismo.