Penélope Martins
Para Eunice, um texto corajoso que nos propulsiona a pensar na possibilidade restaurativa do afeto para curar as feridas sociais. A menina branca que aprendeu a amar a mulher preta que a obrigava a comer com o chinelo na mesa, tempos depois revisita a história para se conciliar com as dores da injustiça. Se Eunice deixasse a menina minguar de tão magra, seria ela a única culpada. Junto disso, o filho da empregada crescia longe dos olhos atentos e cuidados de sua mãe. Cuidando das filhas brancas, Eunice se apartava do seu mundo e inventava um tempo e lugar para si e para os inocentes. Eram duas meninas brancas, mas eram duas crianças apenas. Os olhos de Eunice podiam ver tudo como um rio de águas límpidas. O dinheiro pingava, o amor abrandava sua falta. O mais bonito é poder ler uma poeta mulher, mãe, avó, figura pública lida e relida por tantas pessoas, assumindo para si a responsabilidade de dizer: sim, eu aprendi a amar com uma mulher preta, mas foi dela que tiraram o maior amor que sentira, o de seu próprio filho. Triste e belíssimo. Corajoso, acima de tudo. Obrigada, Roseana. Penélope Martins
Luciana Hidalgo
Tenho acompanhado com entusiasmo a multiplicidade de clubes de leitura no Brasil. É uma eficaz forma de tirar o leitor da sua solidão e levá-lo a ampliar a íntima experiência da leitura, ao compartilhar a sua percepção pessoal de um livro com percepções alheias. Meu romance “O passeador” foi o livro desse mês do Clube de Leitura da Casa Amarela, e essa imagem dos leitores em pleno debate sobre as andanças de Afonso (o jovem Lima Barreto) pelo Rio de Janeiro da Belle Époque é para mim preciosa. Quem coordena o Clube é ninguém menos que Roseana Murray, poeta e autora de mais de cem livros, que ainda escreveu esse belo, emocionante texto sobre “O passeador”. Fico comovida com esse interesse cada vez maior pela leitura no Brasil; esse sim o país do futuro. Luciana Hidalgo
Maria Suely Moreira
Prezada Roseana, Que privilégio ter acesso à sua obra URDIDURAS. Sou-lhe muito grata por esse desprendimento. Você disse algo como ter sido uma ousadia se parear com Guimarães Rosa. E foi mesmo. Sou absolutamente fascinada com ele e confesso que a princípio estava duvidando do seu trabalho. Qual não foi a surpresa quando tive a grata oportunidade de apreciar o seu livro. Ainda bem que você teve essa ousadia. Deu muito certo. Fiquei simplesmente encantada, embasbacada com tamanha sensibilidade artística, inclusive em relação ao trabalho de sua irmã. Parabéns a vocês duas e a todos que participaram dessa obra prima. Por favor, me avise se houver alguma chance de obter o livro físico. Seria uma preciosidade para mim. Obrigada mil vezes e parabéns pela façanha bem sucedida. Maria Suely Moreira Belo Horizonte
Clube de Leitura da Casa Amarela

O Passeador de Luciana Hidalgo foi o livro lido e discutido pelo Clube de Leitura da Casa Amarela. O livro apaixona do título até a última linha. Afonso Lima Barreto nos leva com ele pelo Rio de Janeiro do comecinho do século XX, em suas andanças pelo centro da cidade que começa a ser demolido para ser reconstruído nos moldes de Paris. Os tambores das Senzalas ainda ecoam. O apartheid social é nítido. A Elite fala francês. Passeamos com ele em sua dor. Entramos em bondes, sebos, livrarias da moda, Confeitaria Colombo, becos, botequins…vamos juntos até a sua casa no subúrbio. Vivemos com ele seu progressivo alcoolismo e o tédio do trabalho na repartição, as humilhações. O medo da loucura do pai estar em seu sangue. Vivemos com ele o que não sabemos se é verdade ou delírio, na tênue linha que divide o real da loucura. Com seus pés andamos noite adentro e quando terminamos de ler, a sua dor é nossa.
Ebook – Urdiduras

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Encantamentos
Rose, Cris e Evelyn, Só agora pude me debruçar sobre esses encantamentos produzidos por vocês. Eu queria estar inteira e sem distrações para mergulhar na leitura. Este ebook é como um rio com toda a potência das águas; é como uma floresta inteira plena de pássaros e raízes; é como uma montanha majestosa diante da qual nos calamos em reverência; é fogo ancestral que alumeia e aquece. É céu e chão, profundeza e leveza. Beleza em prosa e poesia em estado puro como o barro cru. O entrelaçamento da arte de vocês três não poderia ter outro nome: Encantamentos. Merece ser impresso em papel, um livro de arte para inundar os leitores de delicadeza. Um livro para ficar na cabeceira, ao alcance da mão e do coração. Só posso agradecer por tanto. E dizer, com orgulho, que são meus amigos que produzem tamanha preciosidade. Edith Lacerda
E-book – Luis, Gabi e os cachorros – Roseana Murray e Caó Cruz Alves

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Clube de Leitura da Casa Amarela em 05/12/2021
Carta ao Pai, de Franz Kafka, foi o livro escolhido para nosso encontro ainda virtual de dezembro. Ler o livro é uma maneira magnífica de nos aproximarmos ou reaproximarmos da obra de Kafka por dentro. Ele abre as suas entranhas nessa carta absurdamente densa, bela, terrivel, triste,que nunca foi entregue. Não é fácil. Somos sacudidos de um lado para outro diante do despotismo do pai como se estivéssemos em mar bravio, a deriva. É um livro que ao falar do autoritarismo do pai diante da criança, ao falar do seu poder, está falando de todas as tiranias, está faĺando de milhões de infâncias. A criança sensível, desamparada que foi Kafka, aterrorizada, envergonhada, reverbera não só na sua vida, mas em toda a sua obra. A partir do pai ele pode escrever o absurdo que é o mundo e com sua escrita límpida ele nos desvela as horríveis engrenagens do poder e da burocracia que ignora o humano. Os relatos dos leitores foram magníficos. Reflexões intensas sobre amor e ódio, sobre o Mal, a maneira com que lidamos com pais e filhos. Alguns escreveram cartas aos próprios pais para falar de Hermann Kafka. Hoje nos emocionamos muito. Kafka soube como ninguém nos colocar em lugares irrespiráveis. Viajar com ele é uma difícil aventura.
Ebook – Encantamentos – Roseana Murray e Cristiano Mota Mendes

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Clube de Leitura da Casa Amarela
Às vezes um livro inacreditavelmente belo, de repente, chega em nossas mãos. O encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela com O Som do Rugido da Onça de Micheliny Verunschk quase não pode ser contado em língua de gente. Micheliny, como historiadora e poeta, nos leva até o princípio do mundo, nas tradições indígenas, nos leva até a Munique do Século XIX, a bordo das duas crianças que sobreviveram a una viagem terrível, embarcadas como coisas por dois cientistas, junto com espécimes da fauna e flora da Floresta Amazônica, para serem exibidos diante dos europeus. Micheliny sabe que o tempo é um contínuo e nos traz de volta até hoje, dentro do corpo e da mente de Josefa, que num susto, ao ver a imagem das duas crianças, uma Juri e a outra Miranha, numa exposição, se desloca até as suas raízes profundas. Vai buscar a sua onça. Ouve o seu rugido atravessando o tempo. O livro levanta um leque impressionante de questões e ao mesmo tempo somos mergulhados numa escrita que é de beleza e sonho, totalmente onírica, testemunha dos milagres que se pode fazer com a linguagem. E então entendemos a língua da onça, a língua dos rios. Micheliny consegue traduzir sensações e miragens, com tanta força, que é como se viajássemos nas várias camadas de tecido do tempo, seda-veludo-algodão-dor-luz e sangue. Nesse encontro virtual, sem imagem, apenas as vozes de cada um, como um sussurro, atravessava o espaço e nos contava como cada leitor viveu a experiência deste livro fascinante. A autora esteve presente. Participou do encontro. Houve música, memórias, num ritual que se repete a cada dois meses em torno de um livro. A literatura como banquete. E levaremos para sempre o som deste rugido da onça, essa força necessária para vivermos o presente. Roseana Murray