Heloisa Souza

E tudo começou com fatias de pão e uma pasta de grão-de-bico…
O Clube da Casa Amarela em mais um encontro. Começamos com um vídeo de Roseana que falou os livros e sobre aquilo que, talvez, mais nos assuste em É isto um homem?perceber que o horror não pertence apenas ao passado. O avanço de discursos e práticas nazistas em diferentes lugares do mundo nos lembra que a barbárie não desaparece simplesmente porque os livros registraram suas marcas. É preciso continuar lendo, lembrando e perguntando.
Também lemos a carta de Celina Rozenblum, que compartilhou sua trajetória: a saída do Brasil, a chegada a Tel Aviv e sua experiência como terapeuta. Mais uma história de deslocamento, de pertencimento e de reinvenção.
Então começamos a discutir sobre os livros O livreiro de Gaza, de Rachid Benzine,que livro que narra o encontro de um fotógrafo francês enviado para cobrir a destruição dos bombardeios em Gaza, com um velho livreiro diante dos escombros de sua livraria, e do livro É isto um homem? do Primo Levi . O encontro do Clube da Casa Amarela desta vez foi na casa de Maria Clara e Renato abriu suas portas para receber o grupo.
O horror em Gaza é descrito com uma linguagem tão poética, que nos faz suportar a narrativa tão dolorosa.Em É isto um homem?, Primo Levi nos conduz a outro lugar de horror: os campos de concentração nazistas. Ali, a sobrevivência parece colocar tudo em suspensão. Os valores, a solidariedade, a moral, aquilo que imaginamos constituir a nossa humanidade. Levi nos obriga a olhar para o homem quando quase tudo lhe foi retirado e, justamente por isso, deixa uma pergunta que atravessa o tempo: o que permanece de humano quando sobreviver passa a ser a única urgência?
E a conversa sobre esses dois livros — tão distantes geograficamente, tão próximos na experiência da violência e da desumanização — foi ganhando corpo e crescendo em emoção. Fechando com a leitura de Eulália do livro para as infâncias Fumaça.
Maria Clara e Renato, com Vanda e Samuel, prepararam um almoço especial. Sobre a mesa, pratos árabes e judeus. Comida como encontro, como memória, como possibilidade de aproximação entre histórias que tantas vezes foram separadas pela guerra, pela política e pelo ódio.
Voltemos ao pão.
Talvez não pudesse ter o início de outra maneira sem este sagrado elemento.
O pão sempre esteve presente no nosso Clube. Roseana costuma preparar um pão para receber os amigos em sua Casa Amarela. Em quase ritual: partir o pão, repartir a conversa, acolher quem chegava.
Mas hoje o pão carregou outras histórias.
O mesmo pão que, nos campos de concentração, podia transformar-se em moeda de troca. O pão que faltava aos refugiados em Gaza. O pão que, durante muito tempo, também faltou à mesa de tantas famílias brasileiras antes das políticas públicas de distribuição de renda.
Há coisas que parecem pequenas até que a história passe por elas.
Um pedaço de pão pode ser alimento. Pode ser troca. Pode ser memória. Pode ser acolhimento. Pode ser a diferença entre a fome e a espera.
E talvez seja por isso que continuamos nos reunindo em torno dos livros e das mesas.
Porque ler é também uma forma de partir o pão.
É repartir histórias, dores, memórias e perguntas.
É tentar compreender o outro antes que o outro seja transformado em inimigo.
