CORAÇÃO À DERIVA

Pendurada
num fio de lua
como num trapézio,
lá do alto a sereia espia
o navegante solitário
no mar escuro,
dentro da noite,
no sobe e desce das ondas.
Para ele acende uma estrela.

Um anjo passa e de presente
lhe traz um par de asas.

Dentro dos olhos do navegante
a íris se transforma em fio de lua.
Seu coração vira estrela
enquanto o barco sussurra
e sobre as águas desliza,
rumo ao amanhecer.


Quando o dia derrama
suas últimas gotas de luz
dentro da noite
que tudo invade
com suas luas
e galáxias distantes,
nesse líquido mágico
a sereia se banha
e brilha e sonha.


As gaivotas acdam o mar,
parecem estilhaços
de branco no azul.

A sereia estica o braço,
abre a palma da mão
sem linhas:

Seu destino
é a eternidade
do mar.

04/11/2015

Coreção à Deriva, Aquarelas de Claudia Simões, Ed. Rovelle

poema5

CESTA DE COSTURA

Dentro da cesta
de costura
da mãe e da tia,
agulhas e
fios de linha
colorida,
botões, rendinhas,
dedal.
A boneca pede
e a menina obedece:
Quero
um vestido novo,
com manga
e bainha.
A mãe ajuda,
corta o pano,
costura.

E lá vai a menina
feito fada madrinha
da boneca de roupa nova.
15.12.2014

Brinquedos e Brincadeiras, ed FTD


CAIXA

Carregamos pela vida afora
os cheiros dos encontros raros,
dos acontecimentos,
da nossa primeira casa,
do quintal, se houve quintal,
da mãe na cozinha,
dos sonhos quando acordamos.
Se houvesse uma caixa
para guardá-los, seriam
nosso tesouro.

E então, em dias de saudade,
abriríamos nossa caixa
e mergulharíamos
como num túnel do tempo.

03.07.2014

In Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê


DESEJO DO CHEIRO
DA CASA DA AVÓ:

Tudo o que a avó fabrica
em sua cozinha encantada
tem cheiro bom:
bolo de chocolate, biscoito de nata,
sonhos embrulhados
em açúcar e canela,
que são como nuvens
no céu da boca e expulsam
qualquer pesadelo.
As mãos da avó,
cheias de farinha
e tempo acumulado,
acariciam, tocam na superfície
dos pães e da pele da gente
com tanto amor
que curam qualquer defeito
do lado esquerdo ou direito.

Na casa da avó
o ar é perfumado
e parece um abraço
e até o final dos tempos
o cheiro da casa da avó
fica grudado em nosso
pensamento.

01.07.2014

In Poço dos Desejos, Ed. Moderna, 2014

COLO DE AVÓ

Tem avó que é diferente,
nada de cachorro, gato,
cavalo ou duende.
Galinha de estimação
é o que a avó carrega
feito mapa do tesouro,
para lá e para cá
(parecem duas dançarinas).
e para quem conta
os seus segredos, fala do tempo,
do que vai colher, do que vai plantar.

A galinha concorda: có,
discorda: cócó,
Às vezes dorme, às vezes acorda
e muitas vezes esquece
que a avó não é galinha.
Apesar de tão quentinha,
a avó é gente.

11/05/2015

Colo de Avó, ed. Manati


poema3

CIRANDA

Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
enquanto ainda dá tempo,
a primeira estrela anuncia:
A noite já vai chegar.
Vamos dar a meia volta
de mãos bem apertadas
e corações entrelaçados,
volta e meia vamos dar.

O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou,
o tempo parece de vidro,
há que carregar com cuidado,
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou,
mas amor nunca se acaba,
meia-volta, volta e meia,
outro amor há de chegar.
15.12.2014

Brinquedos e Brincadeiras, ed FTD



PULAR CORDA

Se pudesse o menino pularia
corda
com a linha do horizonte,
se deitaria sobre a curvatura
da Terra
para sempre e sempre
saudar o sol,
encheria os bolsos
de terra e girassóis.
Mas chove uma chuva
fina

e o menino vai até a cozinha
fritar ideias
15.12.2014

Brinquedos e Brincadeiras, ed FTD


VIDA

Cada criança que nasce
em qualquer lugar do mundo
com sua história que vai ser escrita
luz por luz,
dor por dor,
é minha.
Que sua vida se cumpra:
Sua morte também é a minha.

03.07.2014

In Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê

MÁQUINA DE COSTURA

A avó tem uma máquina
de costura
que foi da mãe da sua mãe,
da sua avó.

A avó pedala a máquina
e costura rendas na barra
dos vestidos,
costura um sol e uma lua
no bolso das camisas,
costura uma hora na outra,
um carinho no outro.

E o chão fica cheio de fios
e linha colorida
enquanto a avó vai costurando
amor.

11/05/2015

Colo de Avó, ed. Manati


PASSARINHOS

A avó é amestradora
de passarinhos.

Ela canta, assovia.
do seu corpo o amor escapa
e enlaça o ar.

Então os passarinhos
voam para seus braços
e ela vira ninho.

11/05/2015

Colo de Avó, ed. Manati


poemas

HIBISCO

Há flores que se comem
como se fossem frutas,
numa comunhão entre
os olhos, a boca, o jardim.
Hibiscos coloridos, caprichosos,
derramam no prato a sua beleza,
passageira como um relâmpago,
e ao morder um hibisco
nos transformamos em poesia.

Abecedário (Poético) de Frutas, ed. Rovelle, 2013


ROUPA SUJA SE LAVA EM CASA

Nem teria graça
lavar roupa suja
no meio da rua,
no meio dos carros,
com o sinal aberto
ou fechado.
Mas em alguns lugares
ainda se lava roupa suja
nos rios
e é uma bela cena
para pintar aquarelas.
também se pode lavar
roupa suja
com água da chuva
mas é perigoso:
a roupa pode ficar
com gosto de céu.


A PALAVRA É DE PRATA E O SILÊNCIO É DE OURO

O silêncio é uma caixa
imensa onde cabem
e ressoam
todas as palavras
e há que pescá-las com cuidado.
Existem as redondas
e macias,
palavras vaga-lumes,
que iluminam a boca
de amor e doçura,
e outras com espinhos,
essa é melhor deixar
no fundo da caixa do mundo.

Dentro do silêncio
as palavras iluminadas
nadam
como peixes dourados.

In Quem vê cara não vê coração, ed. Callis & Instituto Houaiss, 2012