SAPATEEEEIRO! SOLADO, MEIA-SOLA, 

SALTOS E COSTURAS!

 

Antigamente, os sapatos
eram preciosos
e se usavam até acabar.
Com remendos e novas
costuras, outra sola,
outro salto,
nenhum sapato
ia para o lixo
sem antes quase
desaparecer
tão completamente
que nem se diria
um sapato.
E, então, havia
os sapateiros ambulantes
com suas ferramentas.
Paravam à porta
das casas,
e, um por um,
os sapatos velhos
se apresentavam
feito parentes
que tinham voltado
de uma longa viagem.

poema3

GATOS

Um gato azul
parece feito
de nuvem de veludo;
onde pisa
deixa pegadas
de seda,
pegadas de ar.
Será que pensa
luar?


Um pé em casa,
um pé na rua,
um olho no dono
outro na lua.


De cima do telhado,
com os olhos,
gatos desamarram
a lua do céu.
De cima do telhado,
gatos mastigam
estrelas
que cintilam sonhos.

in Gatos, Ed. Penalux

poemas

CORPO E AMOR

Para te desvestir
arrumo a cama
o camarim
as fantasias
os delírios
as miragens
arrumo rosas
e tulipas
e a ondulação
da areia no deserto
transformo
o deserto em jardim

Para te desvestir
e te vestir de mim
arrumo os espelhos

 


 

Seu corpo
me dá notícias
de mim
quando me perco
sua pele me lembra
quem sou
quem já fui
um dia

Seu corpo
tão docemente
atlas
mapa
farol
concha
e ninho
me adivinha

 


 

Onde no corpo
a nascente
das lágrimas?

Como um bailarino
que dançasse sobre
o fio de linha
do horizonte
assim o corpo
se equilibra
entre
uma emoção e outra

 in Corpo e Amor, Ed. Gradiva

SUSPIROS DE LUZ

A dama da noite
o vento leva o perfume
inebria a lua

As flores sussurram
seus coloridos poemas
nas horas azuis

A felicidade
borboleta furta-cor
acende o ar

In Suspiros de Luz


Desde o começo
do mundo,
homens tecem
com seu sopro
e delírio
a estrada azul
dos pássaros,
pois sozinhos
não podem voar.

In Desejo de Árvores e Pássaros


Com quantos azuis
se faz um pássaro?
O que se aninha
em seu pequeno
coração, quando,
ao anoitecer, busca
o caminho de casa
com a lua nas asas?

In Desejo de Árvores e Pássaros

CORAÇÃO À DERIVA

Pendurada
num fio de lua
como num trapézio,
lá do alto a sereia espia
o navegante solitário
no mar escuro,
dentro da noite,
no sobe e desce das ondas.
Para ele acende uma estrela.

Um anjo passa e de presente
lhe traz um par de asas.

Dentro dos olhos do navegante
a íris se transforma em fio de lua.
Seu coração vira estrela
enquanto o barco sussurra
e sobre as águas desliza,
rumo ao amanhecer.


Quando o dia derrama
suas últimas gotas de luz
dentro da noite
que tudo invade
com suas luas
e galáxias distantes,
nesse líquido mágico
a sereia se banha
e brilha e sonha.


As gaivotas acdam o mar,
parecem estilhaços
de branco no azul.

A sereia estica o braço,
abre a palma da mão
sem linhas:

Seu destino
é a eternidade
do mar.

04/11/2015

Coreção à Deriva, Aquarelas de Claudia Simões, Ed. Rovelle


poema5

CESTA DE COSTURA

Dentro da cesta
de costura
da mãe e da tia,
agulhas e
fios de linha
colorida,
botões, rendinhas,
dedal.
A boneca pede
e a menina obedece:
Quero
um vestido novo,
com manga
e bainha.
A mãe ajuda,
corta o pano,
costura.

E lá vai a menina
feito fada madrinha
da boneca de roupa nova.
15.12.2014

Brinquedos e Brincadeiras, ed FTD


CAIXA

Carregamos pela vida afora
os cheiros dos encontros raros,
dos acontecimentos,
da nossa primeira casa,
do quintal, se houve quintal,
da mãe na cozinha,
dos sonhos quando acordamos.
Se houvesse uma caixa
para guardá-los, seriam
nosso tesouro.

E então, em dias de saudade,
abriríamos nossa caixa
e mergulharíamos
como num túnel do tempo.

03.07.2014

In Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê


DESEJO DO CHEIRO
DA CASA DA AVÓ:

Tudo o que a avó fabrica
em sua cozinha encantada
tem cheiro bom:
bolo de chocolate, biscoito de nata,
sonhos embrulhados
em açúcar e canela,
que são como nuvens
no céu da boca e expulsam
qualquer pesadelo.
As mãos da avó,
cheias de farinha
e tempo acumulado,
acariciam, tocam na superfície
dos pães e da pele da gente
com tanto amor
que curam qualquer defeito
do lado esquerdo ou direito.

Na casa da avó
o ar é perfumado
e parece um abraço
e até o final dos tempos
o cheiro da casa da avó
fica grudado em nosso
pensamento.

01.07.2014

In Poço dos Desejos, Ed. Moderna, 2014

CONSERTAM-SE PANELA, BACIA E PENICO.

QUEM QUER?

 

Mal a cozinheira
ouve o grito,
junta as panelas
tortas, furadas,
sem cabo e esquisitas.
Desce correndo
as escadas do sobrado,
entrega ao consertador
o seu maior tesouro,
e, maravilhada, acompanha
seus movimentos.
As mãos do homem
batem, pregam, colam,
acariciam,
e logo as panelas
estarão outra vez
no fogo, estalando seus temperos,
espalhando pela casa
os mais maravilhosos
cheiros.

poemas

MÁQUINA FOTOGRÁFICA

A máquina fotográfica
do Armarinho Mágico
é bem diferente:
Não faz fotos de paisagens,
bichos ou gente.
Fotografias de sentimentos
é o que faz.
Para cada um, uma cor.

Só vou contar a primeira
fotografia,
não importa se é noite
ou dia,
o amor é sempre dourado.
O resto você inventa.


 

POTE COM O BRILHO DA FELICIDADE

As pessoas não sabem,
mas quando estão felizes
exalam um brilho
meio azulado,
meio dourado,
que as borboletas recolhem no ar
e no Armarinho Mágico
é possível comprar
um pote
cheio até a boca
com o brilho da felicidade:
Serve para iluminar
os dias
escuros e sombrios.

in Armarinho Mágico, Ed. Estrela Cultural

poema5

SANGUE NÔMADE

O sangue é nômade.
É o que está escrito
nas veias.
Grãos de areia, escombros,
tantas ruínas
e um trânsito intenso
sobre pontes
que atravessam continentes.
Nas bagagens,
pesadas pelo tempo,
as histórias se acumulam
entre as roupas.
O sangue é nômade,
e o ruído de passos
marca a linha que divide
o real e o devaneio.

Poemas para metrônomo e vento, Ed. Penalux


PARA CABER NO CORPO

Quando a alma é livre
e nômade
e só descansa
em movimento, debruçada
no parapeito do mundo,
quando mergulha
nos abismos
mais profundos,
se estilhaça e voa
e volta,
quando a alma
se reconhece nas nuvens
e nas pedras, nas miragens
do deserto,
e não teme
as encruzilhadas,
então a alma
cabe no corpo.

Poemas para metrônomo e vento, Ed. Penalux


NAS PAREDES

O homem deixou
sua mão na parede
das cavernas
para que tentassemos
decifrar seu coração,
ainda não sabia
que outras mãos
um dia descobririam
mundos,
inventariam máquinas,
abririam as paredes
do céu.
Que nossas mãos
sobre as suas,
nesse interminável,
nesse alfabeto
de genealogias,
não se cansem
de fabricar amor.

Poemas para metrônomo e vento, Ed. Penalux


UMA PALAVRA MÁGICA

Me diga uma palavra
mágica,
para que antes
de dormir
eu possa dobrar
minha sombra,
acalmar as pedras
dos meus rios,
traçar acalantos
como preces
nos quatro cantos
do quarto.
Me diga uma palavra
apenas,
que contenha
o universo e o mistério
das seivas,
e então poderei
dançar
dentro do sonho.

Poemas para metrônomo e vento, Ed. Penalux


COLO DE AVÓ

Tem avó que é diferente,
nada de cachorro, gato,
cavalo ou duende.
Galinha de estimação
é o que a avó carrega
feito mapa do tesouro,
para lá e para cá
(parecem duas dançarinas).
e para quem conta
os seus segredos, fala do tempo,
do que vai colher, do que vai plantar.

A galinha concorda: có,
discorda: cócó,
Às vezes dorme, às vezes acorda
e muitas vezes esquece
que a avó não é galinha.
Apesar de tão quentinha,
a avó é gente.

11/05/2015

Colo de Avó, ed. Manati


poema3

CIRANDA

Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
enquanto ainda dá tempo,
a primeira estrela anuncia:
A noite já vai chegar.
Vamos dar a meia volta
de mãos bem apertadas
e corações entrelaçados,
volta e meia vamos dar.

O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou,
o tempo parece de vidro,
há que carregar com cuidado,
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou,
mas amor nunca se acaba,
meia-volta, volta e meia,
outro amor há de chegar.
15.12.2014

Brinquedos e Brincadeiras, ed FTD



PULAR CORDA

Se pudesse o menino pularia
corda
com a linha do horizonte,
se deitaria sobre a curvatura
da Terra
para sempre e sempre
saudar o sol,
encheria os bolsos
de terra e girassóis.
Mas chove uma chuva
fina

e o menino vai até a cozinha
fritar ideias
15.12.2014

Brinquedos e Brincadeiras, ed FTD


VIDA

Cada criança que nasce
em qualquer lugar do mundo
com sua história que vai ser escrita
luz por luz,
dor por dor,
é minha.
Que sua vida se cumpra:
Sua morte também é a minha.

03.07.2014

In Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê

OLHA O ROLETE DE CANA-CAIANA!

De onde vem
o mel da cana?
Escondido bem
no fundo,
no meio da sua trama,
é a terra que fabrica
esse presente em silêncio.
A doçura se derrama
feito chama
na boca inteira.
Dia de cana
é dia de festa.

In MEIO-DIA, DONA MARIA!
PANELA NO FOGO,
BARRIGA VAZIA!
Ilustrações de Caó Cruz Alves

PAULUS EDITORA


MÁQUINA DE COSTURA

A avó tem uma máquina
de costura
que foi da mãe da sua mãe,
da sua avó.

A avó pedala a máquina
e costura rendas na barra
dos vestidos,
costura um sol e uma lua
no bolso das camisas,
costura uma hora na outra,
um carinho no outro.

E o chão fica cheio de fios
e linha colorida
enquanto a avó vai costurando
amor.

11/05/2015

Colo de Avó, ed. Manati


PASSARINHOS

A avó é amestradora
de passarinhos.

Ela canta, assovia.
do seu corpo o amor escapa
e enlaça o ar.

Então os passarinhos
voam para seus braços
e ela vira ninho.

11/05/2015

Colo de Avó, ed. Manati


poemas

HIBISCO

Há flores que se comem
como se fossem frutas,
numa comunhão entre
os olhos, a boca, o jardim.
Hibiscos coloridos, caprichosos,
derramam no prato a sua beleza,
passageira como um relâmpago,
e ao morder um hibisco
nos transformamos em poesia.

Abecedário (Poético) de Frutas, ed. Rovelle, 2013


ROUPA SUJA SE LAVA EM CASA

Nem teria graça
lavar roupa suja
no meio da rua,
no meio dos carros,
com o sinal aberto
ou fechado.
Mas em alguns lugares
ainda se lava roupa suja
nos rios
e é uma bela cena
para pintar aquarelas.
também se pode lavar
roupa suja
com água da chuva
mas é perigoso:
a roupa pode ficar
com gosto de céu.


A PALAVRA É DE PRATA E O SILÊNCIO É DE OURO

O silêncio é uma caixa
imensa onde cabem
e ressoam
todas as palavras
e há que pescá-las com cuidado.
Existem as redondas
e macias,
palavras vaga-lumes,
que iluminam a boca
de amor e doçura,
e outras com espinhos,
essa é melhor deixar
no fundo da caixa do mundo.

Dentro do silêncio
as palavras iluminadas
nadam
como peixes dourados.

In Quem vê cara não vê coração, ed. Callis & Instituto Houaiss, 2012