Clube de Leitura da Casa Amarela

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Talvez o chamamento do Krenak para adiar o fim do mundo tenha sido uma das coisas mais impressionantes que já tenha acontecido com o Clube de Leitura da Casa Amarela.
Nosso encontro virtual acontece por zap, para que não tenhamos restrição de tempo.
No dia 25 de julho de 2020, nossa conversa durou mais de três horas.
Quando terminou as pessoas almoçaram e voltaram e não pararam mais de falar e juntar as suas mãos, as suas vozes para suspender o céu.
Começamos com um mito indígena Carajá, que Edith Lacerda nos trouxe.
E assim entramos na dimensão mágica que a voz do Krenac nos propõe, onde um rio é seu avô, um rio que está sendo velado depois de morto, até que um dia os espíritos, quem sabe, o ajudem a reviver, onde as pedras são parentes, onde homem e natureza se fundem, porque somos apenas uma variação de milhares de formas de vida.
Krenac desnuda o absurdo que é a nossa “humanidade” depredadora, genocida, e nos fala de outra humanidade, a que vive nas beiradas, nas margens, dentro das florestas, a que é invisível, sem voz e que possui outra maneira de dizer o mundo, a vida.
Krenac nos mostra a nossa verdadeira face: zumbis, consumidores, autômatos, buscando como cegos o sentido da vida, quando o sentido da vida é a própria vida.
Krenac nos chama para que reavivemos a chama sagrada da lucidez, para que recusemos o que essa ” humanidade” nos propõe: a destruição da Terra, das montanhas, dos rios, das florestas, das vísceras da terra, até que nada sobre e o céu caia sobre nós.
Para que isso não aconteça, que se construam outros caminhos, outra escuta para outras vozes.
Paula, nossa leitora de Brasília, nos contou de sua tataravó índia, raptada:
“Ô povo querido, sinto muitas saudades …. Sinto-me também transpassada e tocada pela leitura de ” Ideias para adiar o fim do mundo”, de Ailton Krenak. Há muito não me sentia tão capturada por uma leitura, que testemunha a vida de povos que possuem uma forma tão singular e respeitosa de habitar a terra. Enquanto vivemos com a vida em estado de suspensão e morte em função da pandemia, Krenak é testemunha viva de um modo intenso de viver no agora, e assim ” adiar o fim do mundo”. Mas, hoje, vou me prender no miúdo de minhas histórias. Minha tataravó era índia, que fugiu com um branco, nas beiradas da cidade de Campina Grande, na Paraíba. Nunca se falou disso na família, não era um assunto comentado, fazia parte das histórias familiares silenciadas. Para ter sua história tão sufocada, sempre imaginei o quanto ela, minha tataravó, foi sufocada e maltratada. Agora entendo mais ainda as razões. Além do preconceito já sabido, Krenak expressa a força da vida dos povos indígenas e toda a potência simbólica, estética e política que essa forma de viver na terra tem para balançar, desnortear e até derrubar nossas estruturas colonizadas e eurocêntricas. Em uma entrevista feita a Kreinak, perguntam: ” O que o índio pode ensinar para o branco?” E ele responde: ” O que ele quiser aprender!”
Jiddu, lindamente mestiço, nos falou de sua origem indígena por parte de pai e como o pai lhe ensinou a escutar tudo, as panelas, os postes, a terra, o fogo, porque tudo fala.
E a energia que houve neste encontro, cada um em sua casa, gente de longe, de Goiânia, S.Paulo, Brasília, Visconde de Mauá, Ceará, Tel Aviv, era um rio caudaloso, vivo, serpenteante.
Cada depoimento maravilhoso, pura emocão.
Cristiano Mota cantou. Ana Cristina cantou. Nati falou seu poema.
E Edith fechou nosso encontro lendo um trecho do seu livro Tempo de Aldeia.
Nosso próximo encontro será com Conceição Evaristo, Olhos D’Água.
Assim completamos a trilogia de vozes de sobreviventes de genocídios.
Anne Frank, com seu Diário, morreu, mas não morreu, porque sua voz está viva e chega límpida e potente para denunciar o nazismo.
Krenac é a voz mais bela que, penso, temos hoje, sobrevivente do genocídio indígena em curso desde 1500, acirrado por um Governo disposto a levar este projeto de destruição até a solução final.
E Conceição nos traz com sua voz o genocídio dos ancestrais africanos, mesmo quando não fala disso, pois, nos ensina Krenac, somos também a história dos ancestrais. Os africanos foram arrancados de suas terras para sempre, despojados de tudo, do nome, da língua, brutalizados, humilhados, assassinados. Conceição nos traz com sua voz o genocídio de talentos no Brasil, quando não oferece educação pública de altíssima qualidade.
Nós, leitores pensantes e lúcidos abrimos nossos para- quedas coloridos e tentamos voar e segurar o céu.

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