Pra Dizer o Indizível

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“quanto mais poético, mais verdadeiro”
(Novalis, Fragmentos)
No mundo moderno, mundo das comunicações, da velocidade da informação, das tecnologias de ponta, há de tudo e em excesso. Cardápios variados de todos os tipos… Isso nos atordoa, nos anestesia…. Se por um lado, temos comunicação, falta-nos, por outo lado, criação. Criação no sentido humanístico do termo. Parece que nos desentendemos com o nosso interior. Não sabemos lidar com a nossa insegurança, os nossos medos e, principalmente, com a nossa solidão, uma solidão intensificada pelos mecanismos virtuais. Não sabemos lidar mais com o presente. Há excesso de exposição… É como se vivêssemos permanentemente no divã do psicanalista. O passado sorrateiramente sempre nos ronda… Mas, ao mesmo tempo, parece que foram inúteis as lições desse passado. Desaprendemos a lê-las… não soubemos interpretá-las, incorporá-las, utilizá-las convincentemente para a construção de um presente melhor. Vivemos atabalhoadamente…
Se nos perguntarmos do que temos falta, indubitavelmente, a resposta primeira seria: de poesia. A poesia humaniza o ser… Ela nos torna mais leves, nos faz melhores, nos devolve a nós mesmos… As palavras estão gastas, estão duras… parecem que, numa triste consonância com a aridez do caminho, se petrificaram… Em um mundo assim, só a poesia pode nos salvar…
Ler Roseana Murray é revitalizar discursos, é viajar nas inusitadas possibilidades da palavra, é flanar na sonoridade dos versos, para re-significar os sentidos da existência, “para farejar / o desenho / da existência”, (Desenho), redimensionando aspectos da nossa realidade tão pobre… Que felicidade é poder entregar-se à magia do poema e, nas asas dessa magia, viajar na tão necessária redescoberta de nós mesmos…
Mas, para isso, é necessário poesia autêntica… uma poesia de verdade… Sobejam, na contemporaneidade, arremedos de poesia… Esses meio poetas não nos convencem, não nos tocam, não nos sensibilizam…
Há, no mundo moderno, muitas e novas formas de ler… lemos nos mais variados suportes… para mim, no entanto, em todos esses variados suportes eu busco o ‘livro’. O livro em sua essência… É o livro, com sua dimensão mágica, que me seduz. E, no livro, busco o poeta. E, no poeta, a poesia, a beleza, o encontro…
O autêntico poeta, “o poeta jogador / separa / as cartas-palavras” e, de posse delas “embaralha, corta, / sopra, / para que voem / e digam e desdigam / o destino” (O louco do tarô).
Em “Causa Amante”, já dizia Maria Gabriela Llansol, “o que me atrai no livro é que se abra. Que eu possa ir a todos os seus recantos, como se ele fosse um labirinto de ações, um guia em mundos que desconheço, uma sequência de imagens exatas, uma paisagem com força de existir, um velho manuscrito que fale verdade, e responda”.
Bom poder ir a todos os recantos do livro de Roseana Murray… Em cada recanto, um novo e sedutor canto… um feliz encanto… Esse mágico “labirinto de ações”…
Somos o que somos, mas somos, também, o que imaginamos, o que criamos, o que ousamos, o que sonhamos, o que projetamos. Ao lançarmos sobre nós mesmos novos olhares, abrimos novas perspectivas de (e para a) criação… Quem diz que sou apenas o que sou?… Somos muitos e esses muitos que nos habitam, nos tomam, nos incitam, nos provocam de incontáveis maneiras… O outro, o olhar do outro, a percepção do outro nos redimensionam. “O outro / que também sou / no avesso do espelho” (Avesso do espelho). Somos todos os que nos antecederam… Somos também os que ainda convivem conosco. “Eu era meu pai-minha mãe / meu avô-minha-avó / bisavô-bisavó” (Tantos e tantas). Somos os que convivem conosco à nossa volta e de tal maneira que “quase [podemos] tocar / a sua existência” (Um cavalo). Somos pedaços de realidade, sorvemos pequeninos cálices de felicidade, momentos tão plenos quanto efêmeros de sonhos… mas somos, também, em contrapartida, maresias de desejos, revoadas de anseios, prenúncios de angústias, incertas trajetórias de percalços, portos onde se ancora a solidão. “Na voragem / do tempo” (Linha reta), com palavras “penduradas no vento” (Sol Miguilim), outros roseanos e benfazejos sóis nos iluminam. Benvindos sóis!…
Estou em estado de graça e digo isso tudo porque me deparei com um novo trabalho dessa poeta magistral que é Roseana Murray. Trata-se do livro “Delírio”, disponibilizado em formato de e-book. É um espaço em que só “a poesia é a fronteira/ onde a língua / se desfaz / dos seus limites” (Fronteira).
“Delírio” é um presente dos deuses para os leitores sensíveis. Um verdadeiro achado… Uma viagem liricamente reflexiva aos nossos sótãos interiores. Revisitamos “a teia da memória / que com seus fios / escreve e reescreve os sentimentos”… (Sopro). A poeta nos exorta que “para viver há que buscar miragens” (Libélula). Temos que nos soltar “para que as palavras / arrumem e desarrumem / a casa e os pensamentos” (Visita). Sentirmos os “nós com que / se amarra a saudade” (Distância). E, mesmo quando evocamos o passado, quando, para amenizar a saudade, miramos os velhos retratos desbotados pelo tempo, nessa volta rememorativa, descobrimos que “na fotografia faltam / os cheiros, / os pensamentos atrás do sorriso”… porque os retratos são momentos… talvez aprisionem lembranças, mas essas lembranças são sempre lacunares… e, ainda que imersos nos tons e semitons do passado, elas não nos darão novamente “ a temperatura / do tempo aprisionado” (Fotografia).
Em meio à turbulência dos dias que vivenciamos, em que “tudo se precipita / numa pressa louca / de mastigar o tempo” (Alfabeto), o que se foi, se foi… E embora de tudo fique um pouco, como queria o poeta, sempre acabamos por nos perder nos “vãos / do tempo” (Rios subterrâneos).
Para que a poesia aconteça, para tornar mais leve “a superfície do dia” (Garrafa azul), enfim, “para que a poesia / não faça cerimônia, / ela tem que ser / a tua pele e tua sombra (Visita). Temos que, como num esmaecido retrato, nela, nos reconhecer…
Como professores de literatura e, mais que isso, como mestres no exercício permanente da vida, que felicidade poder brincar ludicamente com os versos de Roseana Murray, trabalhar com as riquíssimas metáforas criadas por ela, e, assim, tirar o limbo que encobre as palavras… Podemos promover, a partir da obra desta poeta magistral, um estímulo à criatividade. Não há como não se apaixonar pelo seu universo mágico.
O melhor disso tudo é que a disponibilidade do livro está a apenas um toque… Uma obra tão rica e – para o nosso prazer, para o nosso deleite – disponível na Net… O endereço do Site é o seguinte: www.roseanamurray.com
Boa leitura.
(*) do poema “Linguagem”.
Joel Cardoso
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