Eça de Queirós

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Quando decidi que leríamos Eça , A Relíquia e As Cidades e as Serras, Rafael, do nosso grupo me disse que sua amiga Monica Figueiredo, professora de literatura portuguesa da UFRJ, certamente gostaria de vir. Ela é especialista em Eça. Como ela mesma nos disse hoje, Eça é o seu homem.
Devo confessar que estava nervosa e com medo. Nossas discussões são afetivas e não seguimos nenhuma linha.
Rafael me acalmou ontem. Ele me disse, a Monica é maravilhosa você vai ver.
Como é dezembro faltou muita gente, mas mesmo assim a sala estava cheia. E Monica começou esbanjando tudo, charme, simpatia, ironia. Monica fala com paixão e com o corpo todo, além de ser íntima de cada suspiro do “seu homem”, de quem ela não esconde os “defeitos”. Começou nos dizendo que o século XIX ainda não acabou e nos colocou politicamente nesta época de tantas mudanças. Falou do declínio de Portugal, das vertentes literárias e começou nos contando, como ela mesmo disse, histórias de “cozinha”, os bastidores, as fofocas. Falou do estranho nascimento de Eça, que só foi reconhecido aos 40 anos pela mãe, ou seja, era reconhecido pelo pai mas não pela mãe! Falou da sua vida desastrada, das suas idas e vindas, de como fez sozinho um jornal inteiro e como O Crime do Padre Amaro fez sucesso imediato. Como era um escritor que reescrevia mil vezes o seu texto, extremamente zeloso e consciente do seu talento. Falou da crítica negativa de Machado de Assis, e oh que delícia, falou que certamente essa crítica foi movida por uma certa inveja de Eça que lhe atrapalhava as vendas com seu sucesso e que esse fato, a crítica negativa, ajudou ainda mais o sucesso do livro. Ao nos colocar no século XIX, Monica chamou a atenção para o leitor do século XIX, um leitor burguês, lendo um romance burguês: exatamente como nós.
A Relíquia, todos sabem, é um romance que tira qualquer leitor da depressão. Se alguém estiver triste, abra A Relíquia em qualquer página e a tristeza se dissipará imediatamente. O livro é debochado e demolidor. Eça ridiculariza tudo e escreve tão magnificamente que sentimos os cheiros, ouvimos as vozes, andamos pela antiguidade na viagem mais inesquecível, na cena do sonho. Voltamos com a certeza absoluta de que estivemos lá, naquele dia, há dois mil anos atrás.
A trama mirabolante da troca dos embrulhos tendo como consequëncia a perda da herança, também é perfeita. E o que dizer do ridículo que são as relíquias? Falamos da maravilha que são as personagens femininas do romance, as prostitutas incríveis do Eça. Falamos da perfeição que é a personagem da titi.
Enfim, aplaudimos de pé.
Monica nos disse que As Cidades e as Serras era um romance mais problemático por ser póstumo e mexido por Ramalho Ortigão na parte das serras.
Talvez Eça não tivesse sido tão romântico e bonzinho no final. Eça não era bonzinho. Mas é também um romance maravilhoso. Como Eça foi profético! Ele já anuncia a nossa terrível sociedade de consumo, a nossa frivolidade de possuir coisas inutilmente. E as cenas do livro são tão cinematográficas. Os passeios por Paris, aquela nobreza decadente, o vazio, o spleen do fin de siècle, está tudo ali. Destaque para a cena do peixe entalado no elevador.
E Monica ressalta um ponto muito importante, a salvação do Jacinto vem pelo trabalho. É o trabalho que lhe dá outra existência. Fala também da crítica social, da descoberta por Jacinto da miséria e de seu desejo então de consertar o mundo.
Falamos das comidas maravilhosas no romance, nos dois romances.
Fechamos o encontro com a leitura de poemas de Fernando Pessoa.
Trocamos livros como presentes de Natal.
E fomos para a mesa, Eça nos deu fome: escondidinho de aipim com carne seca, empadão de legumes, abóbora , arroz, salada. Fernando ofertou brownies artesanais e os proseccos , Ângela trouxe lindos presentes,
Hoje tivemos a volta do Paulo e o ingresso de Renée, minha prima e seu marido. Minha tia Alice, a última da sua linhagem, imã da minha mãe, veio e adorou.
Eu e Felipe fomos os aniversariantes presentes, já que Cristiano e Ana não vieram.
Monica, nossa convidada, ficou muito impressionada com a duração do Clube, já são mais de 6 anos e já somos uma família. Vida longa para nosso Clube, que é uma das maiores alegrias da minha vida.
Que pessoas se juntem para falar de livros e festejar a vida, é um acontecimento.
O próximo encontro será dia 11 de março. O livro: O Remanescente de Rafael Cardoso , Cia das Letras e um poema do Ferreira Gullar.

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