De poeta, filósofo e louco todo mundo tem um pouco

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Boa Noite! Gostaria, inicialmente de bem dizer da minha múltipla alegria de estar aqui hoje, nessa cidade que amo tanto e que está amalgamada na minha alma para todo o sempre. Nesta Recife tão pródiga em cultura, tão intelectual e artisticamente inquieta como bem comprovam os intelectuais pernambucanos, o cinema que se produz aqui, os incontáveis escritores, de João Cabral à nossa magistral romancista Luzilá Gonçalves Ferreira, que tanto ama e causa amor em relação à tradição, à cultura, às narrativas deliciosamente pernambucanas e com quem aprendi e aprendo muito sempre. Luzilá é uma das pessoas mais cultas, bem formadas e intelectualmente generosas que conheço.
Feliz pelo convite feito pela tão querida Joana Cavalcanti, com quem tive a honra de algum convívio nos bons tempos na UFPE. Feliz com esse reencontro afetivo com esta cidade e os muitos amigos – psicanalistas e não psicanalistas – com que ela me presenteou. Feliz por fazer parte e testemunhar o nascimento desse belo projeto da Joana e de seus colegas. Mas, sobretudo hoje, feliz por poder estar ao lado dessa nossa poeta maior que é a Roseana Murray e que me concedeu a alegria legítima de ser um dos primeiros leitores desse magnífico livro que será lançado aqui hoje: o Delírios. Tenho profunda admiração, amor e respeito pela obra que ela tem consciência de que construiu. É um milagre o incessante brotar de poemas dessa mulher que faz versos como faz pão, que faz o tão misterioso ofício do poeta parecer o mais banal dos atos. Enquanto poeta, Roseana atingiu o requinte maior: a simplicidade. Como bem diz meu conterrâneo, o poeta Salgado Maranhão, “Neste seu DELÍRIOS, sua voz reafirma o rigor e a raridade da expressão poética, que já é uma marca da sua extensa obra. Aqui, os poemas são límpidos e complexos, porque ser simples, é o grau mais alto de complexidade”.
Os escritores, os artistas e os gênios de um modo geral possuem esse dom de desvelar o novo no déjá vu, no que todos veem mas não conseguem enxergar. Freud, que eu considero um grande gênio, introduziu algo novo na cultura ocidental, a psicanálise, recolhendo tudo que era rejeitado, descartado como dejeto, pela ciência. Freud tinha profunda curiosidade pelo humano, pelo simples, pelo cotidiano, pelo que estava na boca do povo, pela palavra em seu estado primitivo.
Aprendi com Freud, entre outras coisas, que “Diante do problema do artista criador, a análise, ai de nós, tem de depor suas armas.”(Freud, 1928 [1927]). Então, aviso aos navegantes, não se trata aqui de desvendar os mistérios da criação poética de Roseana Murray ou de revelar os insondáveis de seu livro. Mas, ao contrário, dividir com vocês um pouco do que me iluminou, um pouco desse delírio compartilhado.
Dizia a vocês que Freud era muito atento aos ditos populares. Ocorreu-me um, a propósito do titulo do livro Delírios: “De poeta, de filósofo e de louco, todo mundo tem um pouco” . Acrescentaria aí também o termo criança, porque o adulto é só uma miragem, o infantil não conhece idade.
Crianças, filósofos, loucos e poetas (criadores) são sempre os que, inconformados com a realidade, criam uma outra realidade. A diferença é que os loucos, os psicóticos, na maioria das vezes, não conseguem fazer o caminho de volta. Enquanto que os outros transitam de um lado ao outro e suas produções não rompem o laço social, mas o reforçam.
Indagando-se sobre a origem ou as origens da criação literária, sobre esse grande enigma, em O Poeta e o Fantasiar (1908), Freud localiza a raiz dessa atividade poética no brincar das crianças, estabelecendo uma correspondência entre essa atividade que por excelência é da criança, o brincar, e a atividade literária, posto que ambas criam um mundo de fantasia próprio, no qual tudo é ajustado de modo a agradar o máximo possível aquele que os criou.

Mas se o brincar e a criação literária são correspondentes, não são iguais. O que os distinguiria? É que o escritor, diferentemente da criança, mantém uma clara distinção entre o mundo da fantasia e o da realidade. A criança mesmo sabendo tratar-se de algo irreal ela o liga à realidade, ou seja, ela renega esse saber.

Freud nos autoriza assim a fazermos uma aproximação entre a ficção engendrada no brincar infantil e a ficção propriamente dita, a literária. Ao tornarmo-nos adultos, trocamos o brincar pela fantasia, esse substituto direto da brincadeira infantil. Já o adulto escritor é aquele que permanece mais próximo da fantasia e da atividade do fantasiar (Coutinho Jorge:2004,86). É nesse sentido, que o psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge, assegura, de modo preciso, que o escritor “é o elo intermediário entre a criança que brinca e o adulto que fantasia”(Ibidem).

Aprendemos com o saber psiquiátrico que o delírio é um fenômeno elementar da psicose e que deve ser suprimido via medicação. Para Freud, delírio não era doença, mas já um trabalho de elaboração do sujeito, uma tentativa de se reconectar com a realidade na falta do recurso à fantasia. Além disso, ele, de algum modo, nos indica, que todos nós deliramos. Afinal, o sonho seria o delírio dos ditos normais. Diz ele textualmente:
“O sonho é, portanto, uma psicose, com todos os disparates, formações delirantes e confusões sensoriais que lhes são próprios. É, porém, uma psicose de curta duração, inofensiva, à qual se atribui uma função utilitária (…)” (Compêndio de Psicanálise:1940)
O Delírios, de Roseana Murray, é compartilhado, não faz uso particular do significante, é como o sonho, um rebus de metáforas e metonímias, “uma psicose de curta duração”, que nos retira de nossa realidade empobrecida em sua fixidez e nos liberta, nos dá o combustível necessário para delirarmos com certa margem de segurança e nos reconectarmos com nossa realidade psíquica de modo mais largo, mais expandido.
Passemos agora à leitura de alguns poemas que eu escolhi para apresentar a vocês. Tarefa tão difícil essa de, entre tantos belos poemas do livro, recolher apenas alguns. Ao lerem o livro vocês entenderão bem o meu drama.
Obrigado.

William Amorim
Psicanalista e Escritor
Recife, 22 de outubro de 2016
Livraria Cultura Paço Alfândega.

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