Aline – Universidade Federal de Rondônia – Campus Vilhena

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Beija-flor

Beija-flor pequenininho
que beija a flor com carinho,
me dá um pouco de amor,
que hoje estou tão sozinho…
Beija-flor pequenininho,
é certo que não sou flor,
mas eu quero um beijinho,
que hoje estou tão sozinho…

(Roseana Murray, versão obtida no blog da autora: http://blogdaroseana.blogspot.com.br)

Beija-flor, de Roseana Murray, é uma composição curta, constituída por duas quadrinhas heptassílabas cujo conteúdo ostensivo, de extrema simplicidade, não oferece qualquer dificuldade de compreensão para o leitor: o poema é escrito sob a forma de um apelo ou súplica – o pedido de um ‘beijinho’, de um eu-lírico que fala na primeira pessoa, dirigido a um ‘beija-flor pequenininho’. Não obstante essa aludida simplicidade, merecem nota alguns procedimentos utilizados pela autora na fatura do poema.

O verso de sete sílabas, utilizado em Beija-flor, é o verso popular por excelência, de grande variação rítmica e com regras de acentuação, em princípio, mais fáceis de seguir, utilizado na literatura de cordel e nas cantigas populares. Esse esquema rítmico particular, aliado à repetição, na segunda estrofe, do primeiro e último versos da primeira estrofe faz lembrar o rondó, forma fixa de composição musical. O esquema rimático AABA //ABAA reforça também essa natureza musical do poema – note-se que a rima consiste quase exclusivamente na reprodução do / ɲƱ/ no final de seis dos oito versos que compõem as duas quadras, repetição que evoca a regularidade típica da canção popular.

O léxico e a sintaxe de Beija-flor são também simples, organizados numa ordem expositiva clara e direta, numa quase ausência de linguagem figurada, sendo as palavras utilizadas, em geral, no seu sentido mais próprio.

O verso de abertura do poema é marcado por um enjambement com o segundo verso, cuja vírgula final marca sintaticamente a presença de um vocativo, correspondendo, no plano semântico, a uma apóstrofe ou invocação da entidade do ‘beija-flor’. Esse enjambement é único no poema e contrasta com os demais versos, que constituem unidades sintáticas completas. Notemos que a presença da vírgula apenas no final do segundo verso (‘Beija-flor pequeninho/que beija a flor com carinho,’) atribui um carácter restritivo à ideia de ‘beijar a flor’, em contraste com a possibilidade de uma oração explicativa, o que aconteceria caso a vírgula fosse deslocada para o final do primeiro verso (‘Beija-flor pequeninho, / que beija a flor com carinho,’). O ‘beija-flor’, entidade evocada, adquire aqui, então, especificidade: é ‘pequenininho’ e, simultaneamente, é o que ‘beija a flor com carinho’, deixando de ser qualquer para ser aquele. Outro aspecto sintático que merece nota ocorre no terceiro verso. Nele, a anteposição do pronome reflexivo ‘me’, sintaticamente objeto indireto da frase, ao verbo dar, no presente no imperativo, é marca da oralidade e, embora não chegue a constituir um desvio significativo, é de assinalar a sua harmonia com o carácter popular do poema a que aludimos no início.

A pontuação, por sua vez, é marcada por um uso predominante da vírgula, que aparece em cinco versos, e pela ausência de ponto final, substituído por reticências. Entendemos aqui o uso da vírgula, o sinal de pontuação mais afeito à oralidade e ao seu caráter continuum, como sendo outro aspecto formal em consonância com plano de conteúdo, que, não nos esqueçamos, pode ser compreendido como uma espécie de ‘diálogo’ ou interpelação direta da entidade do beija-flor. Já a utilização das reticências pode ser lida como uma pausa voluntária na ‘fala’ do eu-lírico, sugerindo uma dificuldade em verbalizar a sua solidão (‘que hoje estou tão sozinho…’), comprovada pela mudança brusca de assunto que ocorre no verso seguinte.

A sonoridade expressiva lograda pela aliteração da nasal palatal (‘pequenininho’, ‘carinho’, ‘sozinho’, ‘beijinho’) sublinha o carácter motivado da seleção lexical: é, pois, precisamente essa aliteração que ajuda a construir um tom tristonho, disfórico e monótono, em harmonia com a súplica e a expressa solidão que ocorrem do plano de conteúdo. Assim, entendemos a evocação da presença do beija-flor por parte do eu-lírico: estando triste, sozinho e como estratégia de solução para esse estado, evoca o pássaro associado ao amor romântico e à claridade e ao qual se atribuem poderes de cura e de atração da felicidade.

Chama-nos a atenção, por último, o carácter lúdico que, ainda que discreto, é passível de ser identificado na utilização que o poema faz de dois vocábulos específicos. Note-se que ‘beija’, justaposto a flor, em ‘beija-flor’, é um substantivo; no segundo verso, o mesmo vocábulo transforma-se em verbo transitivo direto, cujo complemento é ‘flor’. Semelhante situação ocorre com o vocábulo ‘flor’ – notemos que, no primeiro e segundo versos, ‘flor’ é substantivo; já no sexto verso, o mesmo vocábulo transforma-se em adjetivo, numa construção marcada pela ausência de um previsível artigo indefinível que o substantivaria (‘é certo que não sou flor’). Estes ‘jogos morfológicos’ fazem também de Beija-flor um exercício lúdico de exploração da linguagem.

Aline

Universidade Federal de Rondônia – Campus Vilhena

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