Vera Maria Tietzmann Silva

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Roseana Murray: poemas para ler na escola

Poesia juvenil, um terreno pouco trilhado.

A ideia de se fazer um tipo especial de texto para o adolescente é relativamente nova. As gerações passadas, que se iniciavam na leitura pelos quadrinhos e livros infantis, passavam às novelas de aventuras e, destas, aos grandes ficcionistas e poetas, fazendo essa transição de modo natural, sem traumas ou dificuldades.

Quando os hormônios promoviam suas mudanças no corpo, e o anseio amoroso ou as dúvidas existenciais avassalavam a mente e inquietavam o coração, meninos e meninas buscavam nos poetas consagrados a voz capaz de expressar em palavras o que eles próprios sentiam. Liam, então, indiscriminadamente poetas clássicos e modernos, portugueses e brasileiros, de Castro Alves a Vinícius, de Camões a Cecília. Não se cogitava a hipótese de existir uma poesia voltada para a adolescência.

Nos anos 70, com a expansão editorial e a intensa oferta de livros para a criança e o jovem, esse público passou a ter acesso a uma produção cultural específica e atraente. Contudo, a presença da literatura infantil e juvenil na escola parece ter acompanhado a divisão das séries, predominando as obras infantis, voltadas para a primeira fase do Ensino Fundamental, havendo menos opções para pré-adolescentes e adolescentes.

[1] Texto publicado na coletânea de artigos críticos Olhar o poema: teoria e prática do letramento poético, organizada por Débora Cristina dos Santos e Silva, Goiandira Ortiz de Camargo e Maria Severina Batista Guimarães (Goiânia: Cânone Editorial, 2012), p.165-177.

Ainda assim, a chamada literatura juvenil, de contornos e limites tão imprecisos quanto os do físico e da mente de seus leitores, sem dúvida existe e vem merecendo a atenção da crítica especializada, servindo já há algum tempo de corpus de análise para dissertações e teses acadêmicas. Uma consulta aos catálogos das editoras logo deixa perceber que sob o rótulo de juvenil há um imenso número de novelas e contos, porém escassos livros de poemas. A faixa fronteiriça entre o infantil e o adulto, o reduzido espaço que permeia essas duas fases da vida, parece estreitar-se ainda mais quando se entra no domínio do poético. Em boa parte dos livros de poemas declaradamente juvenis observa-se que a qualidade estética com frequência deixa a desejar, seja pela banalidade do conteúdo, seja pela indigência das soluções formais – são poucas as obras que merecem o nome de poesia. Nesse cenário, a obra de Roseana Murray destaca-se pela excelência.

Roseana Murray, que estreou na literatura em 1980 com um livro de poemas para a infância, inclui-se entre os primeiros poetas a contemplar o público jovem. Desde a década de 80, ela vem construindo uma obra sólida e constante, de amplo reconhecimento da crítica, o que se evidencia nas sucessivas premiações e nos estudos críticos sobre sua obra, realizados principalmente nos programas de pós-graduação em Letras.

Roseana também incursionou na ficção, mas seu território essencial é a poesia, que ela produz em diversas modulações, ora mais voltada para crianças, ora para jovens ou mesmo para leitores adultos. As gradações de tom, léxico, temática ou recursos estilísticos às vezes são tão sutis que se levanta a dúvida sobre qual seria, afinal, o público-alvo pretendido. Frequentemente é no formato e no projeto gráfico, ou, ainda, no catálogo da editora, mais do que nos textos em si, que o leitor vai encontrar esse esclarecimento.

Se o destinatário dos poemas de Roseana Murray nem sempre é declarado, a sua leitura autoriza duas certezas: de que se está diante de textos genuinamente poéticos e de que a autora não subestima seu leitor com facilitações de linguagem e obviedades de assuntos.
Poesia, um modo especial de ver a realidade
Mais do que a típica disposição na mancha gráfica ou a valorização do estrato sonoro da língua, o poema se revela como tal por constituir um modo especial de olhar. O poeta observa o mundo com um olhar novo, como se o visse pela primeira vez. O leitor, diante do texto, revive essa capacidade de ter um olhar inaugural, capaz de ver poeticamente as coisas mais banais. Por isso, todo poema bem construído deve surpreender o leitor, seja pela originalidade do enfoque, seja pelo uso criativo da linguagem.

Um poema se faz com uma constelação de imagens. Sim, porque é de fato nas imagens que se alicerça a linguagem poética. A palavra ou locução que corporifica a imagem – em geral um substantivo concreto que se deixa visualizar na mente de quem lê – marca-se pela densidade e se intensifica pela repetição. A leitura de um texto poético pede uma atitude especial do leitor: atenta, alerta, disponível, isso porque cabe a ele fazer o preenchimento dos espaços do não dito, a tradução das metáforas e alegorias, o desvendamento daquilo que é apenas sugerido, a descoberta das alusões a outros textos e autores. Ora, quem concede esse papel de parceria no jogo poético, como faz Roseana Murray, parte do pressuposto de que seu leitor é inteligente.

O leitor de poesia precisa estar atento às peculiaridades da dicção poética para ser capaz de fruí-la em sua justa medida. Para tanto, ele deve ter o ouvido aguçado para apreciar o jogo das sonoridades que, como a música, evoca sentimentos e sensações, reforçando o que as palavras dizem. E ele precisa ter também a visão desenvolvida, ser capaz de “ver com a imaginação”, visualizar mentalmente em cores, formas e volumes aquilo que as imagens poéticas apenas sugerem.
Para perceber as imagens e reconhecer as intertextualizações, escondidas aqui e ali sob a capa de alusões, o leitor de poesia não pode ser um neófito. Ele precisa ter alguma experiência de leitura, ser capaz de ir além da superfície dos versos. Por isso, esses recursos estilísticos são menos frequentes nos poemas infantis, onde os jogos sonoros e as brincadeiras com as palavras, que as crianças tanto apreciam, são mais presentes. Além disso, o leitor precisa desarmar-se das peias do pensamento lógico e abrir-se à imaginação sem rédeas, como faz nos momentos de sonho ou de devaneio. Isto porque a poesia reside no domínio da emoção.

Poesia para ler na escola: temas e voltas
Em 2011, Hebe Coimbra, que em 2002 já havia organizado a coletânea Poesia essencial, selecionou os Poemas para ler na escola , uma antologia reunindo 109 poemas de Roseana Murray, editados no período que vai de 1984 a 2010. Não há informações sobre a origem ou o ano de produção de cada poema, não há ilustrações ou divisão por partes, tampouco se percebe com clareza algum tipo de estrutura ou intenção subjacente à ordenação dos textos, que parecem fluir de modo mais ou menos aleatório.

Nos mesmos moldes da antologia anterior, esta nova coletânea traz poemas curtos e densos, sem facilitações, mas também sem hermetismo. O projeto gráfico é sóbrio, apontando para um leitor maduro. A única indicação que remete a um público adolescente é o título, tomado à coleção Para ler na escola, da Editora Objetiva, de que faz parte. Essa coleção, lançada em 2011, congrega essencialmente autores da literatura para adultos, como Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, João Cabral de Melo Neto, Ronaldo Correia de Brito, Moacyr Scliar e outros. A partir dessa escolha, infere-se que os editores tiveram em mente como público-alvo também a escola noturna, as turmas de EJA, os muitos adultos que, por motivos vários, retomam seus estudos tardiamente.

A organizadora da antologia, Hebe Coimbra, antecede sua seleção de textos por uma “Apresentação”, em que se dirige diretamente ao jovem estudante, revelando-lhe, de modo sedutor, coloquial e didático, os segredos da leitura de poesia, fazendo-lhe um convite irrecusável para “afinar o olhar”:
Diante de uma obra que nos emociona, seja um poema, um jardim, uma música ou uma dança, é o conjunto, o todo que primeiro nos captura. Mas, uma vez capturados, tendemos a afinar nosso olhar sobre ela, a curti-la com mais vagar, e acabamos descobrindo o detalhe, as artes e artimanhas do autor, assim como seus temas e preocupações recorrentes, sua visão de mundo. Afinar o olhar… É exatamente isso que você vai fazer agora. (Coimbra, apud Murray, 2011, p.16)
Os “temas e preocupações recorrentes” de Roseana ficam bem visíveis ao leitor atento à medida que percorre a seleção dos Poemas para ler na escola. É pela reiteração de imagens e situações que a ênfase emerge e o mundo poético da autora toma forma. A leitura corrida de todos os poemas logo revela ao leitor a existência de um pequeno conjunto de temas em torno dos quais gravitam todos os textos. São temas e subtemas que às vezes se definem em sua singularidade, outras vezes tangenciam-se mutuamente, ou mesmo se aglutinam e confundem. Em suas múltiplas variações, poderíamos dizer que eles se reduzem a dois eixos principais: o ser da poesia e a busca da identidade.
O ser da poesia
Este eixo temático pode ser percebido, por um lado, na forma como a autora aborda temas e trabalha a linguagem; por outro, no teor metalinguístico de diversos poemas.

A essência lírica dos textos de Roseana Murray – o ser da sua poesia – manifesta-se por meio de alguns traços bem específicos do gênero, como, por exemplo, a fusão entre o eu-lírico e a realidade a seu redor. Em diversos poemas, a natureza é animada, compartilha sentimentos e sensações com a voz que fala ao leitor: são as mãos da poetisa, que ela diz que “se queimam no fogo das estrelas mortas” (p.34); a sua casa que, sob seus passos, “acorda […], estremece, oscila” (p.41); ou, ainda, as violetas à janela, que operam mágica metamorfose: “toco em suas folhas de veludo escuro, e por um momento minhas mãos se tornam pétalas” (p.81). “Corpo” mostra bem essa simbiose típica do lirismo:

Onde termina meu corpo
e começa o mundo?
Meu corpo se abre
como uma esquina,
as asas espalmadas, inexistentes,
e cada fato, árvore,
bicho ou gente,
aqui faz pouso […].

(Corpo, p.117)

Também é próprio do poético lançar um olhar novo sobre o trivial, transcendendo os limites estreitos da banalidade. Quando descreve as “buganvílias no telhado” como um “incêndio de flores” (p.104), a poetisa exerce o que chamamos de “olhar inaugural”, compartilhado por crianças e poetas. Vejamos alguns excertos de poemas que exemplificam essa visão surpreendente sobre o corriqueiro, mostrando, sob um prisma novo, respectivamente, uma plantação de girassóis em flor, roupas secando no varal, a lua cheia refletida na água, as nuvens vagando no céu e um barco atracado no cais:

Pequenos sóis iluminam a terra.
Quem sabe caíram do céu […]
corações ardentes
iluminando nossos corações.

(Um campo de girassóis, p.90)

As roupas dançam no varal,
pingam água limpa […]
e agora, como pássaros coloridos
aprisionados no vento,
esvoaçam enquanto o sol mergulha.

(No varal, p.75)

No meio do lago
a lua está viva
como pedra branca
de onde jorra música
e luz de nata
para os poetas
encherem seus potes.

(A lua, p.58)

No oceano do céu
as nuvens são barcos
levando os pensamentos.

(Nuvens, p.38)

O barco é leve sombra
sobre a pele do futuro,
no meio do caminho
entre a chegada e a partida.

(Fronteira, p.91)

Em diversos poemas, o objeto sobre o qual a voz lírica fala é a própria poesia. São os poemas metalinguísticos. “No papel em branco/ cabe o mundo” (p.109), diz a poetisa, e para povoá-lo, ela busca “a nascente do poema,/ seu começo de água tímida” (p.72) até encontrar “todas as palavras/ que não foram ditas,/ as que ficaram presas/ no fundo da garganta” (p.127). Nesses poemas que tematizam a expressão poética, a autora fala de seu labor com a linguagem, realizado com afinco e deliberação, mas fala também da criação compulsiva, dom ou sina que se cumpre.
Entre os poemas metalinguísticos selecionados para esta antologia, inclui-se a série intitulada “Teia” (p.65, 68, 95), cujo primeiro texto serve de epígrafe a esta análise. O título desses três poemas já é altamente simbólico por si só, pois remete ao trabalho das aranhas (e à sua ancestral mítica, a tecelã Aracne). Por compulsão, necessidade ou castigo, as aranhas incessantemente fabricam suas teias, feitas de delicadeza e visgo, fascínio e perigo. A aranha em seu infinito tecer e as teias com que enreda os passantes podem, numa leitura metafórica, representar o poeta diligente e seus poemas sedutores.

A busca da identidade
O segundo grande eixo temático diz respeito à busca da identidade pessoal, familiar ou humana, pela via da reflexão ou da memória. Diríamos que esse é um tema dominante, uma vez que corresponde a cerca de 20% dos poemas selecionados para esta antologia.

A busca da identidade pessoal é um tema que mobiliza principalmente os adolescentes. “Quem sou eu?” e “De onde eu vim?” são questões fulcrais na vida de todos nós e que vêm sendo trabalhadas no mito e nas artes desde todo o sempre. Édipo Rei, de Sófocles, talvez seja o mais antigo registro literário deste tema, que costuma ser retomado em filmes e novelas, nas tramas que envolvem a busca de filhos (ou pais) perdidos. O poema escolhido para abrir a antologia focaliza essa questão e atua como um anzol para fisgar o interesse dos jovens, eles mesmos muitas vezes confusos e inseguros ao lidarem com seus “avessos” e seus “quartos escuros”:

Quem sou eu
e meu avesso?
Que urdiduras
na sombra,
que tramas secretas
num quarto escuro
de mim? […]

(Avesso, p. 21)

Buscar a identidade implica olhar para trás e, pela memória, que a poetisa considera “ouro no fundo do pote” (p.137), voltar ao passado. Ela, então, se pergunta: “É de ar o tempo?/ É de vento?/ De que impalpável matéria?” (p.73). Ciente da passagem implacável desse Cronos que tudo devora, ela viaja para trás até as origens mais recuadas, para “escavar o tempo/ até que as cordas se rompam/ […] e a memória, serpente/ enterrada,/ possa deslizar” (p.108). Chega assim ao tempo das cavernas, um tempo remoto, mas que reconhece como seu, ao afirmar: “toda lembrança/ da humanidade é minha” (p.42).

O forte laço que une a experiência pessoal da poetisa à de seus ancestrais primitivos são os barcos em suas incertas viagens na travessia dos oceanos:

Penso nos primeiros homens […]
a longa viagem por todos os continentes
e quantos milênios já se passaram,
penso nos antigos navegantes […]
aonde chegamos?
(Partida, p.55)

Com muita insistência, na poética de Roseana Murray o tema da identidade soma-se ao da memória. Nesse caso, o conceito de identidade amplia-se, deixa de ser apenas a identidade pessoal, para converter-se na identidade de uma família, de um povo ou, mesmo, da humanidade. No poema que encerra o livro, a autora resume o percurso efetuado pela via da memória: “Para encontrar minhas longínquas/ raízes,/ […] tenho que cavar o mar” (Sentinela, p.139).

Nos poemas em que, “cavando o mar”, Roseana recupera a história de sua família, observa-se a recorrência de uma manifestação plástica, uma imagem entranhada na genealogia de autora. Como no “Bolero” de Ravel, nesses poemas há uma espécie de frase musical, que sempre retorna com pequenas variações: é o barco sobre as águas, uma imagem forte porque simbólica, de apelo universal.

Navegando nas águas dos rios ou do oceano, real ou metafórico, o barco – às vezes reduzido à precariedade de “uma jangada de fogo” (p.54) – está sempre presente na poesia desta autora, associado ao tempo e à memória. Em “Vigília”, ela declara que “há sempre um barco/ assombrando a vigília”, fustigado “pelas tempestades e sonhos”, um barco que “oscila/ enquanto ouvimos/ o tropel do tempo” (p.82). Isso merece algumas considerações.

Mesmo atracado no cais ou estacionado em terra, o barco traz implícita a viagem, travessia literal ou alegórica. Ele é “símbolo do corpo ou veículo da existência” (Cirlot, 1984, p.115). Em todas as culturas antigas o barco tem um lugar especial, muitas vezes associado aos rituais da morte e ao mundo das sombras, como entre os gregos, os vikings e os egípcios. Na tumba dos faraós, a presença de um barco era a garantia da jornada do morto rumo à eternidade, ao renascimento. Morte e vida em sobreposição, completando-se, como o objeto e sua sombra.

Com respaldo na teoria de Gaston Bachelard sobre a predominância de um dos quatro elementos na produção dos poetas, Sônia Menezes, em sua dissertação de mestrado, intitulada De água e de ar: a poesia de Roseana Murray, destaca a ênfase das imagens do ar e das águas na produção poética da autora. E é sobre as águas fluviais ou marinhas que se movem os numerosos barcos de seus poemas, numa relação simbiótica de mútua dependência.

Os dicionários registram que, em termos simbólicos, o barco, assim como a casa – imagem também recorrente em Roseana – são imagens femininas, espaços côncavos que protegem e abrigam. No caso do barco, porém, há uma paradoxal superposição de sentidos, pois ele tanto pode ser o útero que gesta a criança como a urna funerária que encerra o cadáver, e cumpre, portanto, uma viagem de chegada ou de partida. Bachelard explica, em A água e os sonhos, que a barca conduzindo ao renascimento, como no mito egípcio, é o berço reencontrado. Os opostos se reconciliam, e a última viagem passa a ser, então, a primeira viagem (Bachelard, 1989, p.75). No caso da poesia de Roseana Murray, acreditamos que a imagem do barco se reveste ainda de um matiz significativo especial. Vejamos.

Nas Américas, o povoamento se fez pela imigração. Que resta hoje dos povos autóctones? Uma parcela tão ínfima e marginalizada que dificilmente lembramos que são eles, os índios, os legítimos brasileiros. Nós todos, os outros, não passamos de estrangeiros em terra alheia. Estrangeiros que para cá vieram há anos, décadas ou mesmo séculos, não importa. Nossas raízes mais remotas estão em outro país, em outro continente.

Para a maioria das pessoas, essa é uma questão menor, esquecida no fundo da mente e rejeitada no plano da consciência. Mas para muitos, e não só para os recém-chegados, ou os provenientes de culturas exóticas, a sombra do exílio dói, é um peso carregado ao longo da vida e transmitido de geração a geração, inelutavelmente. Ciganos e judeus, em especial, pela força do preconceito que milenarmente os marcou, trazem essa carga genética de estranhamento nas veias.

Na poesia de Roseana percebe-se um insistente olhar para trás, buscando as remotas linhas de sua genealogia, sobretudo recuperando a linhagem sofrida das mulheres que a antecederam na família. No poema “Herança”, ela declara, já nos dois primeiros versos: “Antes de nascer/ herdei um barco”. É o navio que atravessou o Atlântico, trazendo seus avós e seu pai menino para o Brasil e que ela tem a dupla missão de levar “gentilmente/ até um porto de águas calmas” e também de tranquilizar o menino assustado, garantindo-lhe que irá “guardá-lo/ entre as dobras da pele,/ entre as dobras de uma memória […] para que em sua morte/ ele possa dormir em paz” (Herança, p.47-48).

Na tentativa de definir o grande paquiderme que é o barco “de nome incompreensível”, a poetisa diz que ele é aquilo “que carrega e a sua sombra”, sombra feita de medo e incerteza, mas também tingida de esperança:

Um barco são homens e mulheres
que fogem
desde séculos a fio,
os pés fincados no convés molhado,
a água salgada dos seus olhos
tece o mapa
da terra prometida.
(Paquiderme, p.124-125)

Na busca de suas origens, o eu-lírico recua no tempo, identificando-se com as muitas mulheres que ela mesma foi em séculos passados, “as feiticeiras, as atormentadas,/ as loucas em noites de lua,/ as que comiam terra” (Clareira, p.64), até encontrar, nessa “linhagem de mulheres/ andarilhas”, diante de um poço, “numa aldeia longínqua,/ a que um dia seria [sua] avó” (p.56). Seguindo adiante na linha do tempo, avança até ver sua mãe, que, “na beira do cais,/ esperava a hora/ de embarcar em seu destino”, para que a filha, tanto tempo depois, na sua “rede de pescar/ memórias, apanhasse/ essa hora” (Rede, p.130). Ela sumariza essa sua história que vem de longe, viajando pelo sangue das mulheres da família, dizendo: “meu alento/ fala de todas as mulheres/ que me habitam,/ das lobas ao redor do fogo/ num tempo antes do tempo” (Gestos, p.80). E mais revela:

Minhas raízes vieram
de uma aldeia perdida
[…].
Minhas raízes vieram de barco,
encharcadas de lágrimas
e às vezes se lembram
de uma terra que não conheci […].
(Raízes, p.83)

Que resta ao fim dessa viagem no barco da memória? Restam as lembranças do que foi perdido ou deixado para trás, “um casarão ausente”, suas “escadas/ e um som imaginário/ de passos na madeira” (Um desenho, p.123). Restam, guardados na mala do imigrante:

o reboco
das casas desaparecidas […]
uma aldeia inteira e seus violinos,
seus cofres abertos, seus mortos
[…]
o que já não existe mais,
a pele das fotografias desbotadas,
a corda que une os abismos.
(Pedaços quebrados, p.96-97)

Resta, ainda, como lembrança e penhor desse tempo, uma velha fotografia, que “o tempo pinta de amarelo”, como se fosse “uma espécie de outono”:

de amarelo os olhares,
os sorrisos, as roupas,
as mãos, os sapatos.
Não é um amarelo qualquer
[…]
É um amarelo-saudade.
(Fotografia amarelada, p.138)

Resta, ao fim de tudo, a casa, tornada mais leve sem o peso do sofrimento passado e que, barco liberto de seu lastro, pode enfim navegar, ou até mesmo voar. Nessa casa renovada e inundada pela luz da tarde, somente as boas lembranças são preservadas, “o relógio bate apenas/ as horas de alegria/ e em volta da mesa/ todos os que partiram,/ os que ficaram,/ entrelaçam as mãos” (Casa, p.110-111).

Para finalizar
Poemas para ler na escola é um livro juvenil? Sim, mas não só isso. Seus poemas satisfazem plenamente jovens e adultos, todos os que sabem apreciar a linguagem poética que, mais do que carrear um sentido, chama a atenção sobre si mesma, mostra-se em sua beleza de alusões e subentendidos, dando forma aos sentimentos indefinidos que o leitor não se sente capaz de ele mesmo expressar.

Na trajetória poética de Roseana Murray podemos ver uma semelhança com o caminho que vem sendo percorrido por Lygia Bojunga na ficção, que também iniciou sua produção com textos inequivocamente direcionados à criança, mas que foram pouco a pouco se tornando mais complexos, desafiando o leitor a mergulhos mais profundos pela via do simbólico, até chegarem às obras mais recentes, onde já não é mais possível definir seu público-alvo. Roseana Murray e Lygia Bojunga, dois expoentes da nossa literatura, têm o condão de tocar o coração de seus leitores de qualquer idade, falando com eles e por eles, numa linguagem que é, acima de tudo, artística.

“Ergui um monumento mais duradouro do que o bronze”, disse o poeta Horácio. Ultrapassar as barreiras do tempo e permanecer mesmo após a morte é privilégio do artista. Também Roseana anseia por essa permanência, que sem dúvida já está assegurada. Com o belo poema “Para lembrar” encerramos esta breve leitura de Poemas para ler na escola:

Quando eu morrer
me amarre em teu corpo
com as vigorosas cordas
da palavra,
quando eu for só palavra
me amarre em teus olhos
com as frágeis cordas
da memória,
quando eu for apenas
uma fragrância longínqua,
toque os s
inos
da minha poesia
para lembrar.
(Para lembrar, p.74)

Referências
BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Tradução de Vera da Costa e Silva et al. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
CIRLOT, Juan-Eduardo. Dicionário de símbolos. Tradução de Rubens Eduardo Ferreira Frias. São Paulo: Moraes, 1984.
MENEZES, Sônia Maria dos Santos. De água e de ar: a poesia de Roseana Murray. 2004. Dissertação (Mestrado) – UFG, Goiânia, 2004.
MURRAY, Roseana. Poesia essencial. Organização de Hebe Coimbra. Rio de Janeiro: Manati, 2002.
MURRAY, Roseana. Poemas para ler na escola. Organização de Hebe Coimbra. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
SILVA, Vera Maria T. Nos domínios da sensibilidade. In: Leitura literária & outras leituras: impasses e alternativas no trabalho do professor. Belo Horizonte: RHJ, 2009, p.95-126.

Todas as citações de poemas de Roseana Murray pertencem à primeira edição da antologia Poemas para ler na escola (Objetiva, 2011, organizada por Hebe Coimbra) e trazem apenas a indicação do poema e da página de onde foram retiradas.

Vera Maria Tietzmann Silva

Entrelaçar água e fogo
num encontro impossível:
poesia.
(Roseana Murray)

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